AMOR POR CORRESPONDÊNCIA

AMOR POR CORRESPONDÊNCIA
O homem, debruçado sobre o corpo da jovem, chorava copiosamente. As lágrimas escorriam-lhe pela face, sem que este fizesse esforço algum para as reter, caindo em torrente sobre a mulher, como se quisessem animar novamente aquele corpo sem vida. Eram lágrimas de arrependimento, mas o mal estava feito! A causa de tudo situava-se algures no passado, mas num passado recente, apesar de tudo. Um passado de sofrimento, de mentira, de sedução mas também recheado de momentos felizes.
Manuel José tinha sofrido um grande desgosto, com a perca da sua mulher, do qual, aparentemente, não conseguia recuperar. Os amigos tentavam em vão animá-lo com os mais variados comentários.
– Vais ver que com o tempo tudo se torna mais relativo, a dor diminui e tu seguirás com a tua vida – diziam uns.
– Um grande desgosto cura-se sempre com um novo amor – diziam outros.
Apesar de ter consciência das boas intenções dos amigos, os seus comentários, ao invés de o ajudarem, causavam-lhe desconforto pois tinham sempre subjacente um sentimento de pena que ele detestava. A verdade é que a sua vida estava num limbo e o labirinto para sair dele parecia não ter uma saída.
Para tentar esquecer Manuel José tinha enfiado, literalmente, a cabeça no trabalho dedicando a este o mais tempo possível. Tinha decorrido um ano desde a morte de Vanessa e, apesar de mais conformado com o facto, ele não tinha conseguido encontrar rumo para a sua vida e lidar com os momentos em que não se encontrava ocupado continuava a ser um problema, pelo que as três semanas de férias que se aproximavam estavam a causar-lhe uma séria dor de cabeça.
Depois de um almoço frugal e rápido ele descia a Avenida da Liberdade absorto nos seus pensamentos e alheio à admiração das jovens que com ele se cruzavam. José Manuel era um jovem de trinta e dois anos de idade, com um metro e oitenta de altura, cabelos e olhos castanhos. Quando ele sorria parecia que iluminava o mundo e o facto de ter praticado natação, durante muitos anos, dava-lhe uma compleição física admirável, pelo que o impacto da sua presença, sobretudo no sexo oposto era sempre devastador. Num primeiro olhar o anúncio passou-lhe despercebido mas algo o fez voltar atrás e entrar na agência de viagens e, seguindo o mesmo impulso, comprou a viagem para o nordeste brasileiro. Iria passar três semanas num pequeno resort isolado o que aparentemente era uma contradição, mas ele pretendia estar ocupado a maior parte do tempo.
Surpreendentemente o tempo passou mais rápido do que o costume e quase sem dar por isso, Manuel José estava a desembarcar em Natal. Talvez pelo facto de se encontrar num sítio diferente ele estava bem disposto e pela primeira vez em muitos meses, conseguia apreciar a beleza de tudo o que o rodeava. Assim, foi com agrado e simpatia que retribuiu os sorrisos das jovens que consigo se cruzavam.
Talvez por ter vivido fechado sobre si próprio, durante tanto tempo, ele sentia que tinha despertado para a vida e a forma jovial como a jovem guia da agência de viagens o recebeu deixou-lhe uma impressão profunda. Quando esta o deixou no hotel já tinham combinado encontrar-se, no fim do dia, para um mergulho nas águas quentes daquele mar azul.
– Vais poder apreciar um pôr-do-sol sobre o mar, coisa rara no Brasil e apenas possível pelo facto de estarmos numa ilha – disse ela, quando a lancha que o tinha transportado fazia a manobra para se encostar ao pequeno pontão de madeira que servia de ancoradouro.
– Promessas! – disse Manuel José – Uma mulher linda como tu tem seguramente alguém à sua espera no final do dia. Se eu estivesse no lugar dele não queria partilhar-te com ninguém.
– Pois é isso mesmo que vai acontecer, não vais ter de me partilhar com ninguém. Serei toda tua, até porque não existe mais ninguém.
Manuel José tinha feito um voo noturno, mas como viajou em primeira classe, pôde dormir toda a noite e às onze horas tinha feito o registo no hotel e caminhava em direção à praia, de toalha ao ombro, em busca de uma sombra. A zona explorada da praia estava cheia, mas o seu estatuto VIP tinha-lhe garantido um lugar num dos chapéus da primeira linha, que estava reservado com o número do seu quarto. Os chapéus ao lado estavam ocupados por famílias e a sua chegada não passou despercebida a ninguém. Manuel José aproveitou a curiosidade e a admiração provocada nos seus vizinhos ocasionais para se relacionar com estes e o dia passou muito rapidamente entre mergulhos e jogos. Apesar de rodeado de jovens mulheres, que disputavam a sua atenção, ele não conseguiu esquecer a Neuza. .
Eram quatro e meia da tarde. Manuel José acabava de sair do mar e dirigiu-se para a sua toalha. Quando levantou a cabeça viu-a de imediato. Neuza caminhava em direção a ele, envergando um fato de banho vermelho, que realçava as formas bem delineadas do seu corpo, movimentando-se de forma harmoniosa. O seu corpo esbelto, conjugado com uma beleza extraordinária, fizeram dela o alvo das atenções. Neuza e Manuel José encontraram-se um pouco antes do local onde este tinha a toalha e ficaram uns instantes a olhar um para o outro após o que se beijaram de forma intensa, como dois jovens apaixonados.
Os dias sucederam-se de forma algo confusa dado que Neuza assumiu o controlo do programa levando-o a todo o lado. Manuel José fazia questão de pagar todas as despesas e ela não se incomodava com o facto, chegando, nalguns casos, a receber pelo serviço de guia. Manuel José sentia que cada dia que passava o aproximava mais daquela mulher. No início a sua companhia era algo que ele aceitava como um bálsamo para a sua dor, mas à medida que o tempo foi passando começou a desejá-la intensamente, querendo sempre mais. Assim, foi de forma mais ou menos natural que ao fim de uma semana a sua relação evoluiu e eles passaram a sua primeira noite juntos.
Manuel José não estava, intimamente, com uma mulher desde que a sua esposa tinha falecido. A sua apreensão inicial, por esse facto, rapidamente foi substituída por uma sensação de bem-estar e prazer incomensuráveis. Neuza era uma mulher vivida que encarava as várias formas de satisfazer uma necessidade sexual com uma naturalidade fora do comum. Numa só noite eles experimentaram tantas posições e ela levou-o a penetrá-la de tantas formas que parecia que estavam a fazer uma revisão experimental da Kama Sutra.
Depois da primeira noite de amor, Manuel José ficou completamente apanhado. Ele já só conseguia pensar nela e ao fim da segunda semana declarou a sua paixão.
– Eu estou completamente apaixonado por ti e já não consigo imaginar a minha vida sem ti a meu lado.
Ela sorriu e respondeu acariciando-lhe o rosto.
– Dizes isso apenas para garantires que eu estou contigo até ao fim das férias. Os homens são todos iguais. Daqui uma semana vais-te embora e eu nunca mais te vejo, o que é uma pena, porque a verdade é que eu gosto de ti.
– Mas eu não estou apenas apaixonado por ti. Eu amo-te. Eu nunca senti isto por ninguém e olha que eu amava a minha mulher, mas não com esta intensidade.
– É como eu te digo. Daqui a uma semana vais-te embora e nunca mais me vez. Nessa altura onde fica esse amor?
– Esse é o problema. Eu não quero viver sem ti. – Disse Manuel José, com uma voz pausada e uma firmeza quase assustadora.
Por alguns instantes ficaram os dois calados avaliando o impacto das palavras dele. .
– O que é que tu queres dizer com isso? – perguntou ela.
– Quero dizer que mesmo que possamos estar temporariamente distantes um do outro eu quero manter o nosso relacionamento, pois já não posso viver sem ti. – disse ele com sinceridade.
– Isso é uma história muito bonita, mas a nossa relação acaba no momento em que tu partires. – disse ela.
– Porque dizes uma coisa dessas? Eu amo-te! – protestou ele.
– É muito fácil tu dizeres isso a uma mulher simples como eu, que está completamente apaixonada por ti. A verdade é que tu vais embora, seguindo com a tua vida. Provavelmente tens em Portugal uma namorada ou mesmo uma mulher e queres que eu fique aqui à tua espera. Que raio de relação é essa? – Disse ela em tom desolado.
Manuel José, embora lhe custasse ouvir aquelas palavras, pois amava verdadeiramente Neuza, tinha de reconhecer que havia alguma razão nas mesmas, mas que outra coisa podia ele fazer. Ele não podia ficar no Brasil pois isso significaria abandonar tudo o que tinha em Portugal e era muito. A opção que restava era ela ir com ele para Portugal, mas como podia ele pedir-lhe isso a não ser assumindo uma relação definitiva? Isto partindo do princípio que ela iria com ele. E como podia ele assumir tal relação conhecendo-a apenas há duas semanas? Eram demasiadas as perguntas para as quais escasseavam as respostas.
Ao vê-lo tão pensativo ela disse:
– Não te preocupes. Desde o princípio que eu sabia que a nossa relação terminaria quando partisses, apenas não estava nos meus planos apaixonar-me por ti. Talvez até seja melhor terminarmos já, pois daqui a uma semana será seguramente mais dolorosa a separação
– Não! – disse ele, num grito.
Para Manuel José estava fora de questão deixar de ver Neuza isso era de tal forma doloroso que só de pensar tal coisa ficava doente.
– Eu levo-te comigo para Portugal. – disse ele.
– Estás doido! O que vou fazer para Portugal e como vou viver lá?
– Eu tenho muitos contactos e posso arranjar-te um emprego. – disse ele.
– Tudo isso é muito bonito mas, em Portugal, eu serei apenas uma estrangeira. Se ficar sem emprego como vou sobreviver? – disse ela.
Manuel José ficou calado durante alguns minutos depois tomou uma resolução.
– Quero que cases comigo. Isso vai dar-te o direito à cidadania Portuguesa. Assim, se perderes o emprego não és obrigada a regressar ao Brasil. Em todo o caso não precisas de te preocupar porque eu ganho o suficiente para vivermos bem.
Neuza segurou carinhosamente a sua face e deitando-se sobre ele beijou-o apaixonadamente. Depois começou a acariciar-lho o peito descendo lentamente até ao abdómen. O membro dele estava rijo e vermelho como uma cereja. Ela segurou-o,  acariciou-o e beijou-o, ora com delicadeza, ora com firmeza ou mesmo com violência. Ele movimentava-se de forma incessante, mal conseguindo manter o controlo. Neuza não parava de o acariciar, ora com movimentos circulares da mão, ora envolvendo-o com os lábios e fazendo-o desaparecer dentro de si. Depois de vinte minutos de um misto de prazer e suplício ele libertou a sua essência e ela saboreou-a com requinte. Em seguida, caminhou sobre ele como uma gata, ronronando, beijando-o e acariciando-o, até atingir os seus lábios. Ele segurou-lhe gentilmente a cabeça e trocaram beijos apaixonados.
– Não achas isto do casamento um pouco apressado? – perguntou ela, por entre beijos.
– Tu não queres casar comigo? – perguntou ele.
– Eu não tenho dúvidas nenhumas do meu amor por ti, mas não quero que digas que te forcei a algo que não querias. – disse ela.
– A minha vida sem ti não faz sentido. Se tu aceitas casar comigo então o assunto está encerrado.
– Sim. Eu aceito casar contigo. – respondeu ela.
Os dias que se seguiram foram vividos com uma paixão intensa, mas também sob algum stress, pois Neuza apenas vinha para Portugal depois de casada, o que só foi possível graças ao envolvimento da embaixada Portuguesa e ao tio de Manuel José, que trabalhava no SEF. Uma semana depois aterravam no aeroporto de Lisboa já casados.
Terminada a lua-de-mel,que foi passada a viajar por Portugal, dando oportunidade a Neuza de conhecer o país, Neuza começou a trabalhar por conta própria, depois de criar uma empresa pertencente aos dois. Passados seis meses a empresa era um sucesso, atingido resultados na ordem dos vinte e cinco mil euros por mês, com base numa faturação de cem mil. Manuel José manteve-se sempre afastado dos negócios, assinando todos os documentos que Neuza lhe colocava na frente.
Entretanto, Neuza e o tio de Alberto, que trabalhava no SEF, tornaram-se grandes amigos, sendo que ela recorria a este para resolver algumas situações cujos detalhes Manuel José desconhecia.
Fazia um ano que eram casados e desde algum tempo que Manuel José vinha sentindo que o relacionamento com Neuza estava diferente. Era cada vez maior o número de dias que ela passava a viajar dentro e fora do país e o número de dias em que ela chegava tarde a casa, num estado visivelmente cansado e indisponível para estar intimamente com o ele. Isso tinha-o tornado cauteloso!
Naquela noite foi diferente. Neuza telefonou a meio da tarde ao marido e propôs-lhe irem jantar a um restaurante e depois passar a noite fora de casa, sem identificar o local, para comemorar o aniversário de casamento. Na verdade tinha feito uma reserva no motel H2ON, em Frielas. Manuel José ficou surpreendido com o facto da esposa se lembrar da data, mas não se fez rogado. Felizmente que ele tinha comprado um presente com o objetivo de a surpreender, assim teria oportunidade de lho entregar pessoalmente.
O jantar decorreu em ambiente romântico e ela fez questão de demonstrar o quanto o amava, sendo aquela noite uma espécie de pedido de desculpas pelo afastamento dos últimos tempos. Depois do jantar eles foram para o motel e aquilo que se passou ficou gravado na mente de Manuel José para o resto da vida.
Quando chegaram Neuza atirou-se a Manuel José como quem tinha o diabo no corpo, ele que já tinha bebido uns copos e estava estranhamente excitado, não ficou para trás e em poucos segundos ficaram os dois nus. Quando ele estava naquele ponto em que implorava para a penetrar ela fê-lo parar e foi buscar o saco que tinha trazido consigo. Tirou lá de dentro uma lingeriede renda vermelha, umas botas pretas, que chegavam até meio de coxa e uma mascara. Depois de vestida a rigor vendou-o, pegou no cinto de couro dele e ordenou-lhe que se colocasse de quatro. No início limitou-se a acariciá-lo com o cinto, com uma mão, enquanto com a outra lhe apertava o membro, com uma intensidade variável e movimentos ascendentes e descendentes, muito lentos. Aquilo estava a deixá-lo completamente louco, pelo que quando sentiu a primeira chicotada não reagiu negativamente e a após o choque inicial começou a gemer de prazer. Ela movimentava as duas mãos com mestria e não tardou muito para que ele explodisse de prazer.
Depois de satisfeito e ao interiorizar que tinha sido alvo do sadismo dela, exigiu dar-lhe o mesmo tratamento. Neuza ao invés de se negar incentivou-o a isso com uma linguagem ordinária. Manuel José ficou completamente cego de prazer e não estranhou que ela tenha pegado nas algemas e se tenha prendido à barra metálica da cama. Começou a chicoteá-la e, a pedido dela, bateu-lhe com a parte da fivela! Inicialmente devagar, depois de forma descontrolada. Ele estava tão fora de si que, mesmo quando ela gritou para ele parar, continuou até cair para o lado de exaustão.
Quando acordou encontrava-se deitado na cama, coberto com um lençol e no quarto estavam dois polícias, o tio Alberto e Neuza, todos a olhar para ele. Ele acordou muito confuso e com uma dor de cabeça extraordinária. Quando abriu os olhos não queria acreditar naquilo que viu e muito menos no que ouviu.
– O senhor está preso e vai ser apresentado a um juiz, sendo acusado de agressão premeditada à sua esposa.
– Isso não é verdade! Diz-lhe por favor que tudo não passou de um jogo, tu também me bateste! – protestou ele.
Um dos polícias destapou as costas de Neuza, que estavam todas ensanguentadas e com marcas profundas, enquanto Manuel José não apresentava nem sequer marcas ligeiras. Ele estava tão aturdido que nem conseguia pensar. Sobretudo não conseguia perceber como fora possível perder o controlo daquela forma. Baixou o olhar envergonhado e chorou. Doía-lhe o corpo todo mas ainda lhe doía mais a alma. Ele não sabia o que lhe custava mais, se era saber que tinha sido capaz de fazer aquilo à mulher que amava ou o facto de ela, depois de ter provocado a situação, ter chamado a polícia e estar a acusá-lo de agressão. Era o fim! Era o fim da sua vida, mas era também o fim do seu relacionamento.
Manuel José ficou com a sua vida completamente destroçada. Dada a sua notoriedade, como empresário, os jornais falaram sobre o assunto, embora com alguma reserva, dado o prestígio dele e o facto de se tratar de uma situação passional. Mas para ele aquela sucessão de acontecimentos representava uma enorme humilhação e já tinha pensado várias vezes em por fim à vida. As razões eram muitas e fortes! Para além de ter perdido o amor da sua vida, tinha perdido a dignidade!
Sucederam-se dias terríveis durante os quais Manuel José nem imaginava como conseguiu sobreviver. A sua melhor amiga, que era advogada, recomendou-lhe um colega de outro escritório que tinha sido excecional e graças a ele Manuel José estava em liberdade, à espera de julgamento. Isso tinha sido conseguido à custa de uma análise à urina e ao sangue que permitiu provar que ele, quando praticou os atos de que era acusado, estava sobre o efeito de drogas, que fazem perder o controlo durante um determinado período de tempo e depois provocam o apagamento total. Foi exatamente isso que lhe aconteceu e dado que ele não era consumidor habitual o juiz entendeu não existir risco associado à permanência em liberdade. O advogado de Neuza ainda argumentou que a ingestão das drogas fora premeditada e com o objetivo de, aproveitando-se do facto de se encontrarem num ambiente de motel, ser capaz de a violentar do jeito que acabara por acontecer.
– Talvez ele precisasse de ganhar coragem. – declarou Neuza, com uma candura fingida, quando foi ouvida – Eu nunca pensei que o Manel fosse capaz de me magoar!
Entretanto, o processo de investigação continuava o seu curso e as coisas não estavam nada favoráveis para Manuel José que se via perante uma dupla acusação de violência premeditada e ingestão de substâncias proibidas. Para agravar as coisas o tio Alberto, numa declaração entre lágrimas e auto recriminações, revelou que o sobrinho tinha alguma tendência para a violência.
– Ele é um rapaz muito temperamental e por isso já se envolveu em várias brigas na noite de Lisboa.
O que era inacreditável era que de todas as vezes em que esteve envolvido em brigas foi porque não conseguiu evitar que o primo, filho do tio Alberto, provocasse as brigas e apenas entrou nelas para o defender.
Os interrogatórios de Manuel José foram rápidos e simples. Ficou estabelecido que ele não sabia como tinha perdido o controlo e que tinha agredido a esposa sobre o efeito de estupefacientes. No entanto, algumas das perguntas que lhe tinham feito eram verdadeiramente estranhas.
– Foi o seu tio Alberto que lhe apresentou a sua mulher? – perguntou o inspetor.
– Não, que ideia! O meu tio não fazia ideia quem ela era e apenas a conheceu quando eu lha apresentei, já depois de casado, embora nos tenha ajudado a obter os documentos para eu me casar no Brasil.
– Então ele ajudou-o a obter os documentos para se casar! E de certeza que não conhecia a sua mulher? – perguntou o inspetor de forma introspetiva.
– Já lhe disse que sim. E também já lhe disse que ele não a conhecia. – respondeu com impaciência.
– Pois bem. Sim senhora… E qual era a relação deles? – voltou o inspetor.
– Que raio de pergunta é essa? Ela é minha mulher e ele é meu tio. – respondeu  Manuel José.
– Referia-me à relação profissional. – especificou o inspetor.
– Nenhuma.
– Mas ele ajudava-a nos negócios não é verdade?
– Na verdade não sei nada dos negócios da minha mulher, mas acho que o tio Alberto a aconselhava. – respondeu ele.
– Como não sabe nada dos negócios se assinou quase todos os documentos que suportam a maioria das decisões? – perguntou o inspetor.
– Então a minha mulher pedia-me para assinar os documentos e eu nem os lia.
– Interessante. Sim senhora. Muito interessante. – disse o inspetor, falando mais consigo próprio que com o Manuel José.
– O senhor sendo um pessoa experiente e conhecedora, como de facto é, quer convencer-me que assinava tudo sem ler ou questionar? – interpelou o inspetor.
– Já lhe disse que sim. – respondeu Manuel José.
– Pois bem. O senhor está metido numa grande alhada! – concluiu o inspetor.
Ana Paula era a melhor amiga de Manuel José e, como advogada de renome, que atuava na área criminal, demonstrou desde o início algum interesse pelo caso do amigo, conversando muito com este e com o seu advogado. Foi ela que apontou algumas incoerências em todo o processo, nomeadamente o facto de a acusação pressupor que Manuel José sabia que iam passar a noite no motel, o que não correspondia à verdade, ou o facto de a judiciária pensar que tinha sido o tio a apresentar Neuza a Manuel José. Foi também ela que contratou uns colegas no Brasil e, através destes, começou a investigar a vida de Neuza, num processo que demonstrou ser demasiado lento e que apenas recentemente se traduziu no recebimento de um telefonema, indicando que brevemente teriam informações muito concretas. Aparentemente Neuza não era quem dizia ser e, para além de uma identidade diferente, teria um passado pouco recomendável. Mas provas concretas e irrefutáveis ainda não existiam.
Entretanto, quis o destino que Neuza e Manuel José se cruzassem à saída da polícia judiciária, na presença de vários jornalistas. Ela humilhou-o e enxovalhou-o de tal forma que ele comentou em voz baixa, mas o suficientemente alto para ser escutado por um jornalista do correio da manhã.
– Se eu pudesse apertava-lhe o pescoço!
Esse comentário foi capa de jornal e amplamente comentado pela imprensa.
O dia seguinte foi marcado por dois factos, aparentemente não relacionados entre si, que tiveram impacto direto na pessoa de Manuel José. Ana Paula recebeu a indicação de que o investigador contratado pelos advogados, no Brasil, tinha desaparecido da circulação com todos os documentos que tinha recolhido e Neuza apareceu morta.
Manuel José foi imediatamente preso porque a descrição do homem que foi visto, debruçado sobre o corpo de Neuza, após a sua morte, coincidia com a sua e as ameaças recentemente preferidas tornavam-no no suspeito principal. Tomando em consideração o seu passado de cidadão exemplar, o juiz, depois de o ouvir colocou-o com termo de identidade e residência.
Manuel José era uma sombra daquilo que fora no passado e parecia ter envelhecido vinte anos! Andava com passos lentos e curvado sobre si próprio. O seu olhar tinha perdido todo o brilho e a garra de outrora fora substituída pela auto comiseração. O mundo condenava-o pelo seu comportamento, mas o que realmente o abalava era o juízo que fazia de si próprio. Ao contrário do que era expectável, quando foi acusado de matar Neuza, Manuel José reagiu com energia e protestou a sua inocência, sem que isso valesse de muito. O que é facto é que isso o fez despertar da letargia em que tinha vivido.
– Enquanto era acusado de maltratar a Neuza eu não reagi porque sabia que era merecedor de castigo pelo que fiz. Mas ser acusado de um crime que não cometi, isso nunca! – disse em tom de desafio.
Ana Paula estava abismada com a reação do amigo. Ao invés de baixar os braços, perante uma acusação tão séria como a de assassinato, ele reagiu e começou a procurar formas de provar a sua inocência.
O seu novo estado de espírito despertou-o para coisas que até aí lhe haviam passado despercebidas, tais como a quantidade de correspondência que tinha no escritório por abrir. Quando a agressão à sua mulher se tornou pública ele recebeu muitas cartas e outros documentos desagradáveis pelo que acabou por não abrir muitos destes, deixando-os jogados num caixote que tinha no escritório, para colocar revistas.
Decidiu fazer a limpeza de forma criteriosa e, depois de já ter um saco de lixo de cinquenta litros cheio de papel, encontrou um envelope, de formato médio, que continha um CD e um DVD. Quando viu o seu conteúdo ligou de imediato a Ana Paula pois este era explosivo. No dia seguinte, logo de manhã cedo, eles estavam no escritório do seu advogado, a analisar os documentos recebidos. Manuel José não imaginava quem lhe tinha enviado aquela informação mas tratava-se de uma ajuda providencial.
Neuza e o tio Alberto pertenciam a uma organização criminosa que organizava casamentos falsos em Portugal e tráfego de mulheres por toda a Europa. O verdadeiro nome dela era Tatiana e ela era procurada no Brasil por ter morto o irmão do marido. Sim, Tatiana era uma mulher casada, que tinha fugido do marido, que jurara matá-la como retaliação pela morte do seu irmão gémeo. Portanto o casamento de Manuel José era um casamento falso! Fora o tio Alberto que lhe indicara Manuel José como um alvo fácil de conquistar, chamando-lhe o seu “passaporte para a liberdade”. Para além disso, ela e o tio Alberto eram amantes que se divertiam em grandes orgias, onde o álcool e as drogas eram consumidas em quantidades elevadas. Quando ela se cansou de Manuel José foi o tio que sugeriu que ela o drogasse e o levasse a ser violento com ela, pois ele sabia que o sobrinho não se perdoaria e iria estar tão ocupado a condenar-se a si próprio que não iria perceber nada do que se estava a passar à sua volta. Entretanto, ela aproveitaria o processo de divórcio para lhe extorquir metade do que ele tinha, o que faria dela uma mulher rica. A única coisa que os documentos escritos, o vídeo e o áudio não esclareciam era quem tinha morto Tatiana e por isso ele continuava a ser o principal suspeito.
A polícia judiciária, na posse da informação fornecida pelo advogado de Manuel José, iniciou uma nova investigação centrada no tio Alberto e a acusação do crime de agressão agravada caiu por terra. Manuel José continuava sob suspeita de assassinato tendo a sua vida por um fio, mas a forma como ele encarava isso era agora totalmente diferente. Uma das coisas que decidiu fazer foi convocar todos os colaboradores da empresa e explicar detalhadamente a situação, propondo-lhes o seguinte:
– Se alguém não quiser continuar a trabalhar aqui eu percebo e estou disponível para pagar uma indemnização equivalente a cinco anos de salários.
Apesar da oferta ser tentadora nem aqueles que estavam perto da reforma o abandonaram e toda a empresa se uniu à sua volta, de uma forma admirável. A adversidade como as doenças quando não nos matam tornam -nos mais fortes. Foi assim que aconteceu com Manuel José.
Quinze dias depois de ter sido ilibado Manuel José foi novamente levado pela polícia judiciária para interrogatório.
– Queremos saber o que foi fazer a casa do seu tio ontem à noite. – perguntou o inspetor de chofre.
– Fui a pedido da minha tia, mas foi um erro porque acabamos a discutir e eu vim-me embora. Por mais que goste da irmã do meu pai não consigo ter pena do tio Alberto. – respondeu ele.
– Tem tão pouca pena dele que o matou. – disse o inspetor, olhando-o nos olhos.
– O que? Matou o que? – perguntou Manuel José, completamente confuso.
– Não é matou o que. É matou quem. – disse o inspetor – Matou o seu tio.
– Eu? Vocês devem estar loucos. – respondeu Manuel José.
– Onde esteve ontem à noite depois de sair de casa do seu tio? – perguntou o inspetor.
– Fui dar uma volta para esfriar a cabeça. Ver o meu tio foi mais difícil do que estava à espera. – respondeu.
– Tão difícil que decidiu vingar-se matando-o. – disse o inspetor.
– Já disse que não matei ninguém. – respondeu ele – por volta das onze horas fui ter ao escritório da Ana Paula e contei-lhe o que se tinha passado.
O interrogatório foi infrutífero e Manuel José não conseguiu apresentar um álibi, pelo que, desta vez, não ficou em liberdade. Nesse mesmo dia o advogado de Manuel José solicitou que fosse feita uma busca a casa do tio Alberto, que teve lugar no dia seguinte. A busca permitiu encontrar provas que demonstraram que quem tinha morto Tatiana foi o primeiro e verdadeiro marido.
No entanto, o carrossel da vida continuava a atropela-lo! Agora que se via livre da acusação de assassinar Tatiana estava preso sob a acusação de matar o tio. Apesar da sua capacidade de resistência mental, ele começava a dar sinais de fraquejar. Era o segundo dia que ele passava na prisão pelo que a notícia não podia ser mais bem-vinda. Buscas mais cuidadas permitiram encontrar uma câmara escondida na casa do tio. O filme da noite do assalto era esclarecedor. O assaltante que matou o tio Alberto era do sexo feminino. No dia seguinte, ao fim da manhã, Manuel José foi libertado. Finalmente tinha sido ilibado de todas as acusações, embora apenas ele soubesse as culpas que tinha de carregar.
Nessa noite, depois de um belo jantar e de algumas horas de sexo fogoso, Manuel José estava deitado de costas, na cama, sentindo o peso do corpo de Ana Paula sobre o seu.
– A sensação que tenho é que fui um peão, jogado ao sabor de interesses que desconheço, para me empurrar  para um determinado fim, local ou mesmo pessoa.
– Foi o destino que te fez dar umas cabeçadas até vires parar aos meus baços. – disse ela, em tom brincalhão.
– A sugestão da busca a casa do tio Alberto foi uma ideia brilhante. Até parece que sabias o que os polícias lá iam encontrar – comentou Manuel José.
– Isto teve um desfecho melhor do que esperávamos não foi querido. – disse Ana Paula acariciando-o.
Ele sorriu de satisfação sem tecer qualquer comentário.
– A sorte protege os audazes! – afirmou ela, comum ar enigmático.

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