SEPARADOS

SEPARADOS


Carol deixou o telefone tocar. Já não era a primeira vez que ligava e ele ou não atendia ou demorava uma eternidade a fazê-lo. O telefone continuava a tocar. Não tardava muito ia ser atendida pelo gravador de chamadas. 
«Bom dia. Armazém dos Laboratórios Marvis, quem fala!» 
Ela ficou gelada. O seu coração caiu-lhe aos pés ao ouvir aquela voz, doce e melodiosa. Carol sabia muito bem quem ela era. Mentalmente visualizou o rosto belo da fotografia que Lucas lhe tinha mostrado, após muita insistência. Um arrepio percorreu-lhe o corpo.
«Bom dia. Eu gostaria de falar com o Lucas.» Balbuciou Carol.
«Quem devo anunciar?»
Através do auscultador ela ouviu distintamente o som dos passos de uma pessoa que se aproximava. Por isso aguardou alguns instantes na esperança de que fosse ele.
«É a esposa.» Disse Carol.
«Só um momento que eu vou ver se o Lucas está.»
Silêncio. O auscultador do aparelho foi poisado sobre uma superfície de madeira, produzindo um som caraterístico. Abafadas pela distância as vozes eram, apesar de tudo, audíveis.
«Quem é?» Disse a voz inconfundível de Lucas.
«Não tinhas que acabar aquilo que estavas a fazer?» Disse a voz feminina, num tom doce e suave.
«Vais dizer-me quem é ou não? Estou à espera de um telefonema da Carol.»
«Ainda há cinco minutos atrás me disseste que o que estavas a fazer era demasiado bom para ser interrompido. Agora já queres atender o telefone.»
Carol seguia atentamente o diálogo apenas podendo imaginar aquilo que se passava do outro lado e ela tinha uma imaginação fértil!
«Já percebi que é a Carol, por isso larga-me e deixa-me atender.» 
«Carol?» Interrogou Lucas.
«Sim. Sou eu.» Respondeu.
O som de passos afastando-se indicavam que a supervisora de Lucas se tinha ido embora.
«Oi amor. Está tudo bem com você?» Disse Lucas, com voz carinhosa, mas com um tremor que denunciava comprometimento.
Outro susto. O seu coração bateu mais acelerado.
«O que é que você estava fazendo que não podia ser interrompido para me atender?» Perguntou Carol, em tom ríspido.
«Você escutou a conversa dela? Não liga. Deixa pra lá» Disse Lucas recuperando a calma.
«Vai, me fala! Diz o que vocês estavam fazendo pra ela ter de largar você.» Perguntou Carol, num tom de voz alterado.
«Você entendeu tudo errado. Antes eu estava comendo e a supervisora queria que eu fosse despachar uma encomenda. Eu disse pra ela que estava gostoso demais para interromper.»
«E o que você estava comendo. Era a sua supervisora?» Disse Carol, completamente fora de si.
«Assim não dá pra falar. Você só está imaginado um montão de histórias e fazendo um drama.» Disse Lucas.
«Você tem razão. Assim não dá pra continuar. Você faça a sua vidinha que eu vou cuidar da minha.» Disse Carol, desligando o telefone.
O estampido e o grito aconteceram quase em simultâneo e no instante imediatamente anterior à chamada ser desligada. 
«Lucas!» Gritou Carol, ao mesmo tempo que perdia os sentidos.
Tudo tinha começado há alguns anos atrás.
Carol era uma mulher criada numa fazenda onde os seus pais desempenhavam as funções de capataz e de governanta, respetivamente. Lucas era um homem da cidade, habituado a lidar com todo o tipo de gente, desde tenra idade. Os anos que passara atrás do balcão do Buteco do pai tinham-lhe ensinado coisas preciosas. Tinham-se conhecido na escola, no primeiro dia de aulas, no ano em que ela se mudou para Americana.
Carol tinha origem espanhola e sangue cigano. O rosto tinha umas linhas perfeitas e era possuidora de uma nobreza que exigia obediência. Os seus olhos de amêndoa, castanhos e luminosos, encantavam e submetiam os homens, tal como a serpente faz com as suas presas. Os seus longos cabelos negros emolduravam o rosto formando um conjunto de uma beleza exótica. Mas no dia em que conheceu Lucas rendeu-se aos seus olhos azuis e cabelos loiros e deixou-se encantar pelos seus ombros largos e possantes, que se assemelhavam a um muro com um metro e oitenta e cinco de altura. Para ela foram mais que uma barreira intransponível, foram o seu esteio.
Carol tornou-se mulher com apenas quinze anos e o seu primeiro homem foi um jovem peão. O campeão do rodeo de Barretos fez-lhe uma serenata à luz do luar e ela foi o seu trofeu, entregando-se a ele de corpo e alma. A diferença de interesses e objetivos de vida depressa se fez notar, encarregando-se de colocar um fim à relação. Carol seguiu com a sua vida e o peão fez a sua guitarra chorar a partida dela, inundando o serão do cerrado com músicas de amor e saudade. Até conhecer Lucas, aos dezoito anos, foram vários os homens com quem partilhou o seu tempo e os seus sonhos, embrulhados em momentos de prazer, mas nenhum deles mostrou estar à altura destes. Ela era possuidora de uma inteligência que a par com a sua tenacidade, capacidade de trabalho e integridade, a predestinavam para voos mais altos do que a maioria dos jovens que a rodeavam. Lucas era a sua alma gémea. Por isso, quando o conheceu, não se limitou a entregar-se a ele mas declarou a sua rendição, sem reservas nem condições.
Lucas era um jovem que embora consciente do seu valor não o ostentava como uma medalha, o que fazia dele uma pessoa ainda mais especial. Americana era uma cidade com alguma dimensão, mas Lucas era um jovem bem popular, sobretudo no bairro onde vivia e na escola que frequentava. A sua compleição física e a sua fisionomia faziam dele um homem atraente e desejado pelas mulheres. Com tanta possibilidade de escolha ele não se fez rogado e teve a sua quota. Mas a experiência que mais o marcou foi a primeira noite que esteve com uma mulher. Quando o peão, que se esperava fosse campeão do rodeo, foi derrubado pelo touro, os “ajudas” estavam um pouco longe e ele não hesitou em saltar para dentro da cerca, afastando o touro e salvando-lhe a vida, apesar de, ainda assim, o peão ter ficado gravemente ferido. Foi no hospital que conheceu a esposa, uma mulher com uma beleza selvagem e cuja sede de conhecimento era apenas igualada pela fidelidade ao marido. Mas a vida é por vezes traiçoeira e depois de algumas noites em que o jovem Lucas, com apenas dezasseis anos, lhe mostrou a cidade e a vida noturna, ela mostrou-lhe os encantos de uma mulher, dando-lhe a provar os deleites da vida. Foi num leito de prazer que ela experimentou com ele tudo o que não tinha coragem de experimentar com o marido, um homem simples e educado com retos e restritos preceitos. Durante várias noites, depois de calcorrear as ruas da cidade e frequentar os seus antros, eles percorreram os corpos um do outro, explorando todos os recantos e orifícios, dando e sentindo um prazer que ambos desconheciam. Tinha sido mais do que uma descoberta. Tinha sido uma revelação!
Se o destino muitas vezes nos separa, noutras tantas é capaz de nos juntar e foi isso que aconteceu com eles. O pai de Carol veio trabalhar para Americana e ela começou a frequentar o liceu local. Era o primeiro dia de aulas e ela estava algo nervosa. Americana era uma cidade bem maior do que Barretos e ela passava a maior parte do tempo na fazenda, por isso a cidade impunha-lhe algum respeito. Carol não era mulher de ter medo, por isso, controlou a apreensão e avançou pelo portão, demonstrando uma segurança que estava longe de sentir. Os longos cabelos ondulavam suavemente à medida que ela avançava pelo pátio. O corpo escultural e os movimentos sensuais prenderam, de imediato, a atenção de toda a gente.
«Oi gatinha!»
«Tem garota nova no pedaço.»
«Que mulher linda!»
Este e outros piropos brindaram a sua entrada na escola. «Afinal são todos iguais. Em Americana ou em Barretos os homens não passam de homens!» Pensou. Mas nem todos eram iguais. Encostado ao muro que ladeava a escadas de acesso ao edifício central estava um rapaz rodeado de quatro amigos. Os seus olhares cruzaram-se mal ela passou o portão e ela olhou em frente, fingindo ignorá-lo. Pelo canto do olho pode perceber que ele não deixou de a olhar até ela passar por ele e em momento algum o seu olhar deixou de ser de admiração. Nenhum piropo, nenhuma graçola, nenhum comentário saiu da sua boca. Ele limitou-se a abri-la de admiração. «Aqui está um homem que vale a pena conhecer.» Pensou. Quando estava a entrar no edifício ainda conseguiu ouvir.
«Tenho que conhecer esta mulher, nem que seja a última coisa que faço na minha vida.»
«Tu queres conhecê-la? O homem que diz que a única mulher bonita é uma mulher loira?» Disse um dos companheiros.
Carol olhou para trás e os seus olhares fizeram faísca ao cruzarem-se mais uma vez. Consciente do efeito que produzia, ela brindou-o com um sorriso.
Lucas ficou ofuscado. O sorriso dela apanhou-o de surpresa e teve o mesmo efeito que o sol a bater-lhe em cheio na face. Ele piscou os olhos e levou a mão ao peito onde o seu coração batia de forma tresloucada.
Não foi necessário qualquer pretexto para começarem a falar um com o outro pois era isso que ambos queriam e Carol não era com as outras mulheres, cheias de jogos e mistérios. Quando queria uma coisa manifestava-o abertamente.
«Olá. O meu nome é Carol.»
Apesar de estar habituado a ser abordado pelas mulheres, o à vontade dela deixou-o inibido e não correspondeu à deixa dela, obrigando-a a perguntar:
«E tu como te chamas?»
«Eu sou o Lucas.»
«Como o cantor?» Perguntou ela.
«Sim.» Respondeu ele.
«Ouvi dizer que você apenas se apaixonava por loiras e eu a pensar que era a mulher da sua vida.» Disse ela, em tom jocoso.
Lucas ficou um pouco sem graça e mentalmente injuriou o seu amigo. Mas rapidamente recuperou o sangue frio.
«Ainda não és a mulher da minha vida, mas se depender de mim vais ser.»
Ela limitou-se a sorrir. Aquele sorriso que o desarmava completamente. Era como se ele fosse um monte de gelo e o sorriso dela o sol de verão. Ele derretia-se em silêncio. Ao fim de uma semana eram oficialmente namorados. Eles formavam um par de tal forma perfeito que, na escola como na rua, a presença dos dois foi aceite como normal, embora gerasse sempre um sentimento de admiração. Apesar disso nem tudo eram rosas. Lucas era homem e parece que os homens só amadurecem aos trinta anos, ou será aos quarenta? Carol tinha que ser adulta pelos dois.
Lucas tinha vontade de estar intimamente com Carol, mas, imbuído do preconceito de que ela era uma inocente simplória do interior, não tinha tido a coragem de a convidar a ir até casa dele ou a outro local com privacidade. Ela deixava que fosse ele a tomar a iniciativa observando-o. Naquele dia estavam os dois sentados na explanada com os olhares expressando o desejo que lhes ia na alma e no corpo. «Quando será que ele vai ganhar coragem?» Pensou Carol.
«Está um dia lindo. Com a luz ideal para fotografar.» Disse ele. 
«Não te conhecia o gosto pela fotografia. Queres mostrar-me as tuas fotografias?» Perguntou ela.
«Não tenho muitas fotografias, mas tenho pensado em tirar um curso.» Disse ele.
Definitivamente ele não chegava lá. A deixa era mais do que óbvia mas o convite não apareceu. «Vou ter de ser eu a resolver isto.» Pensou ela.
«Se gostas de fotografia vamos até minha casa. O meu pai é um especialista e tem uma coleção que te vai deixar maravilhado.» Disse ela.
«Os teus pais vão lá estar?» perguntou ele.
«Eles só chegam à noite, mas eu tenho o meu próprio espaço, com acesso independente.» Disse ela.
Ele olhou para ela estupefacto. «Será possível que esteja equivocado?» Pensou. Durante o caminho a conversa passou por um conjunto de insinuações, catapultadas por um ou outro beijo e por um jogo de guerra dos dedos, que os deixou num estado de grande excitação. Quando chegaram ao quarto o álbum de fotografias foi completamente ignorado. Ele ainda ia começar a dizer algo mas ela calou-com um beijo e um desejo febril tomou conta deles. Eram ambos conhecedores da arte de amar, apesar de jovens, pelo que assumiram, à vez, o controlo da situação e o resultado final foi um conjunto de êxtases sucessivos, que os deixou completamente exaustos, mas satisfeitos. Ele tinha-se equivocado. Carol dominava a arte de dar e receber prazer. A partir desse dia a relação deles ficou mais séria e apesar das diferenças provocadas pela infantilidade dele, eles tornaram-se um só.
Nenhum deles mostrara nunca grande propensão, nem para os estudos, nem por uma carreira ancorada numa formação académica. No entanto, a ambição que os caracterizava a ambos impediu-os de optarem por um trabalho por conta de outrem. Assim, quando começaram a fazer planos para uma vida a dois, a solução óbvia passou por desenvolverem um negócio próprio. O resultado foi que a inauguração do seu café aconteceu antes da festa do casamento. Ela comandava a cozinha e o abastecimento e ele tratava de aviar os clientes. Para os auxiliar tinham duas mulheres na cozinha e dois homens a dar apoio às mesas e ao balcão. Mas tudo isso aconteceu apenas três anos depois de se terem conhecido.
O primeiro ano passou tão rápido que eles nem perceberam, tal era a felicidade de ambos. Ela estava grávida e a criança deveria nascer dentro de quatro meses, apesar disso continuava a trabalhar dezasseis horas por dia. Lucas via o cansaço no rosto dela mas não conseguia convencê-la a baixar o ritmo. A dor atingiu-a com uma bala, rápida e lancinante. Carol caiu desamparada no chão. Os gritos vindos da cozinha deixaram os empregados e clientes em polvorosa. Lucas encontrava-se no armazém, onde tinha ido buscar um carrinho com bebidas e levantou a cabeça ao ver o mais jovem dos seus empregados entrar esbaforido.
«Senhor Lucas! Senhor Lucas!»
«Onde é o fogo homem?» Perguntou.
«A Dona Carol caiu…» 
Lucas já não ouviu o resto e saiu a toda a brida, em direção à cozinha do café que distava uns bons trezentos metros. Na ambulância, a caminho do hospital, ele agarrava a mão dela e, entre lágrimas, balbuciava algumas palavras.
«Por favor… Não me abandona… eu não consigo viver sem você.»
A espera foi longa e o diagnóstico demolidor. Carol tinha sofrido um aborto involuntário. Mas o pior ainda estava para vir. Carol, quando regressou a casa, não parecia a mesma pessoa. O sofrimento tomou conta dela e a jovialidade natural, que a caraterizava, tinha desaparecido. Foram tempos muitos difíceis! Tanto ela como o país estavam em depressão, uma do foro psicológico, outra do foro económico. Lucas lutava todos os dias para ajudar Carol e para vencer a crise. Apesar dos esforços, os clientes desapareceram e o negócio também. Quando Carol despertou, da letargia que tinha tomado conta dela, viu que a tarefa que tinha pela frente era hercúlea. Algumas semanas após o seu regresso ela percebeu que o negócio não tinha futuro, tal como o país.
Tinha decorrido um ano e meio desde o casamento e o ano e meio que se seguiu foi de uma luta inglória em que, para além da companhia um do outro, a única coisa boa da vida foi o nascimento da filha. Depois de ponderarem todas as hipóteses decidiram vender o negócio e tentar a sorte em Portugal. Lucas tinha um primo que trabalhava em Portugal e prometeu arranjar-lhe um lugar de fiel de armazém, numa empresa farmacêutica. Carol não tinha vontade de emigrar. Ainda antes dessa decisão ter sido tomada já ela explorava outra oportunidade de negócio. Tonou-se massagista e esteticista. Depois de receber a formação adequada começou a fazer domicílios e com isso conseguia o dinheiro para o básico. Foi assim que Lucas foi para Portugal e Carol ficou no Brasil, com a filha.
A ida de Lucas para Portugal gerava nela sentimentos contraditórios. Ela amava-o e a distância causava-lhe sofrimento, mas também abria entre eles um fosso. «Entre nós existe um fosso do tamanho de um oceano. Será que alguma vez o vou atravessar?» Pensou Carol. Entretanto, ela foi-se especializando naquilo que fazia, graças à experiência e aos diversos cursos que frequentou, de tal forma que conseguia ter um rendimento razoável, mas insuficiente para sustentar a família alargada. Agora que o pai tinha falecido, a mãe e as três irmãs viviam quase à custa dela. Inicialmente, Lucas falava em criar condições para ela ir para Portugal, pois a nova atividade dela seria aí bem rentável. Mas à medida que o tempo foi passando e ela foi arranjando desculpas, a insistência dele foi diminuindo e a vontade dela se juntar a ele também. Os telefonemas frequentes eram o único combustível que alimentava a chama do amor e ela dava por si muitas a interrogar-se se ainda o amava. «Não sejas tonta ele é o homem da tua vida. Tu não só o amas como o desejas.» Pensava de forma invariável. 
A primeira vez que aquela mulher atendeu o telefone foi um choque. Carol sabia perfeitamente que em Portugal existiam muitas mulheres e que o marido era um homem muito interessante. Mas imaginar que uma mulher partilhava com ele o espaço fechado do armazém era algo que lhe custava a aceitar. «Como diz a minha avó, a oportunidade faz o ladrão.» Pensava ela, sempre que discorria mentalmente sobre este assunto. Lucas explicou que no armazém trabalhavam três pessoas. Ele, outro homem, o Joaquim, e Tereza, que era a supervisora e que normalmente era quem atendia o telefone. Mesmo assim, Carol não se dava por satisfeita. A partir desse dia Tereza começou a ser motivo de discórdia entre os dois.
O facto de aquela mulher trabalhar ao lado dele causava-lhe grande perturbação, de tal forma que Carol começou a pensar de forma mais séria em ir para Portugal. Nessa altura, Lucas levantou um conjunto de obstáculos logísticos, como o facto de ele partilhar um apartamento ou não terem dinheiro para alugar um apenas para eles. Enfim, aspetos importantes para o planeamento de uma mudança, mas irrelevantes num plano mais abrangente. Num dos telefonemas a avó, que estava por perto, mandou um beijo ao Lucas.
«Põe a avó no telefone que eu quero dar uma alô pra ela.» Disse Lucas.
«Alô meu filho. Você está bem?»
«Que saudades Avó!»
«Se cuida meu filho. Escuta, sua mulher está se acostumando a ficar sozinha e você sabe como é. Quem não dá assistência abre a porta à concorrência.» Disse a avó, naquele tom que ele conhecia tão bem.
«Avó você está me deixando preocupado.»
«Ficar preocupado não resolve nada. O que você precisa é levar sua mulher para junto de você.»
Com tudo isso Carol andava um pouco nervosa e agitada. O marido estava longe e parecia não se incomodar com isso. A filha perguntava insistentemente pelo pai, querendo saber o porquê de ele não estar junto dela. O resto da família reivindicava cada vez mais e ela refugiava-se no trabalho, que era a forma de resolver, pelo menos um dos problemas. O dinheiro.
Foi nesse estado de espírito que agarrou no telefone no dia fatídico. A irmã mais nova, que estava por perto, ouviu o grito vindo do corredor, onde estava o telefone fixo e foi até lá.
«Acudam! A Carol desmaiou. Acudam!»
Ela foi transportada para o sofá e não demorou muito tempo para que toda a família estivesse à sua volta. 
«O Lucas! Eu ouvi um tiro. O Lucas, meus Deus!» Gritou Carol, quando deu de si.
A família não estava a entender nada e ela ao invés de explicar o que se passava correu para o telefone. «Que tonta eu sou. Como eu o amo. Meus Deus fazei com que ele esteja bem.» Pensava ela, enquanto corria. Ela teve que fazer várias tentativas até conseguir uma ligação. Finalmente, foi atendida pelo colega de Lucas que lhe disse que tinham sido assaltados e o Lucas tinha sido baleado. Estava hospitalizado com ferimentos muito graves, correndo, inclusive, perigo de vida. Carol ficou transtornada e por momentos não teve mais nenhuma reação para além de deixar as lágrimas correr pela face.
«O que se passa com o Lucas?» Perguntou a avó, que foi a única a manter a calma, enquanto o resto da família desatava aos gritos e em prantos.
Carol olhou à sua volta, secou as lágrimas e com a voz estranhamente calma, relatou tudo. A sua decisão estava tomada. Ele ia para Portugal. «Como pude eu chegar a pensar em deixar o homem que eu amo mais que a minha própria vida!» Pensou. Em dois dias comprou as passagens, obteve os vistos, vendeu tudo o que tinha a vender e aterrava no aeroporto de Lisboa, onde o primo do Lucas estava à sua espera.
«Como está o Lucas?» Perguntou, ainda antes de cumprimentar o primo.
«Calma Carol. A situação é grave mas está sob controlo. Ele já está fora de perigo. Você precisa ficar calma para o poder ajudar.» Respondeu o primo.
O primo levou-a até casa onde o Lucas vivia e ela largou as bagagens e queria ir diretamente para o hospital.
«Carol, a esta hora você não pode entrar no hospital. A visita tem hora marcada. Amanhã nós vamos ao hospital.»
No dia seguinte o primo chegou um pouco depois da hora marcada e ela já estava impaciente, mas ficou muito pior quando chegou ao hospital e viu a Tereza à cabeceira do Lucas. Tereza era apenas uma visita, mas aquilo era demais para ela.
«Saia por favor! Eu quero ficar a sós com o meu marido.» Disse Carol, de forma ríspida e sem sequer cumprimentar ninguém.
Tereza saiu sem fazer qualquer comentário mas o seu rosto exibia um sorriso de vitória. Agora que a mulher dele a tinha visto ali, ela não tencionava voltar ao hospital. «Aquela lambisgoia não perde por esperar. Mal ela sabe a surpresa que a espera.» Pensou Tereza, enquanto transpunha a porta do quarto.
«Amor você está bem?» Perguntou Carol, beijando-o nos lábios enquanto lhe segurava a face entre as mãos.
«Amor! Você sabe como fica linda quando se zanga? Mas ainda fica mais bonita quando sorri.» Disse Lucas.
Carol não conseguiu resistir ao charme dele. Era a sua sina. Mesmo quando queria ficar zangada, ele fazia um dos seus comentários, em tom brincalhão e ela rendia-se. Ao fim de algum tempo o primo chegou com a Lívia, que por essa altura tinha dois anos e não conhecia o pai, pois a última vez que o tinha visto tinha apenas seis meses de idade.
«Liv vem dar um beijo ao papai.» Disse Carol.
A filha foi ao encontro da mãe e lançou os braços à volta do pescoço dela, ignorando o pai. Para ela ele era um estranho. O rosto era-lhe familiar, porque a mãe não se cansava de lhe dizer que aquele era o seu pai, mas para ela isso era tudo muito complicado. Todos os outros meninos tinham o pai junto deles, apenas o dela estava a longe. Ela sempre quisera ter o pai a seu lado, mas agora que isso acontecia ela não conseguia ultrapassar a barreira criada por um afastamento tão prolongado. Nos dias seguintes o primo apresentou Carol a algumas amigas e uma semana depois ela já estava a trabalhar como massagista e esteticista, num salão de cabeleireiro, na zona de Telheiras.
Ao fim de 15 dias Lucas veio para casa e ao fim de dois meses de fisioterapia ele regressou ao trabalho. Entretanto ele tinha conquistado Lívia, que não largava o colo do Pai. Era como se quisesse receber, por atacado, todos os mimos e carinhos que não tinha recebido durante quase dois anos. Nos primeiros dias pareceu-lhe tudo muito estranho. Voltar ao local onde tinha sido baleado, trazia-lhe recordações que preferia esquecer. Em contrapartida, Tereza estava ainda mais simpática e disponível. O facto dele agora ter a mulher junto de si parecia ter despertado, na supervisora, uma urgência e uma vontade em conseguir dele o que ele não lhe podia dar, se quisesse cumprir com os votos da sua união. Antes, tudo não tinha passado de um jogo, agora, ela tinha colocado as cartas todas na mesa.
«Eu quero que tu sejas meu. Mais tarde ou mais cedo tu vais ter de tomar uma decisão, que, se for a errada, pode custar-te o teu emprego.» Disse ela, alguns dias depois dele ter regressado ao trabalho.
Lucas ficou em Pânico.  A mulher dele nunca poderia saber daquilo, pois ela não iria entender. Ele estava condenado a ser propriedade da supervisora. Tereza era uma mulher muito interessante e ele sentiu-se lisonjeado pelo facto de ela querer ficar com ele, até que percebeu que ela apenas o queria usar para sua satisfação sexual. Ela queria que ele fosse apenas mais um objeto sexual como era o Joaquim. Aquela mulher era uma predadora e das perigosas! A única vez que ele e o Joaquim falaram sobre o assunto, ele contou-lhe os jogos sexuais a que ela o submetia, onde o sadismo e a submissão era uma constante. Ela sabia usar um chicote ou umas algemas com a mesma mestria com que dava uma ordem ou se entregava ao parceiro, exigindo ser castigada e submetida a atos sexuais violentos.Mesmo correndo o risco de perder o emprego ele recusou submeter-se à vontade de Tereza. Ela fez-lhe saber que tudo na vida tem um preço.
«A escolha é tua. Fazes aquilo que eu quero e manténs o emprego e a relação com a lambisgoia com quem vives, ou, em alternativa, perdes tudo.» Disse Tereza, colocando-se em bicos de pés, de forma a encostar os seios ao rosto dele.
Quando ela fazia isso crescia uns quantos centímetros o que tendo em conta que tinha um metro e setenta e cinco de altura e usava saltos altos, fazia dela uma mulher mais alta que ele. Lucas passou a andar sob uma pressão tremenda o que alterou completamente o seu comportamento. Carol que já andava com a pulga atrás da orelha começou a ficar cada vez mais desconfiada. «Tenho que perceber o que se passa entre o Lucas a  supervisora. Desde que voltou a trabalhar que ele anda muito estranho.» Pensou. Se bem o pensou melhor o fez e decidiu aparecer de vez em quando no local de trabalho de Lucas, à hora de almoço, dado que quando o ia buscar e levar nem sequer entrava no edifício.
Tereza tinha ficado furiosa com a recusa de Lucas e estava a delinear um plano para conseguir com que ele fosse despedido, mas primeiro tinha de conseguir com que a mulher o abandonasse. O facto da mulher de Lucas começar a aparecer no armazém, com alguma assiduidade, proporcionou-lhe a ocasião ideal. Por um lado, porque se ela se dava a esse trabalho era porque desconfiava dele e não há terreno mais fértil que o coração de uma mulher desconfiada para se lançar a semente do ciúme. Por outro, porque assim podia montar uma encenação que convenceria até o mais cético.
Por esses dias, Carol ficou adoentada e pediu a um dos colegas de trabalho que fosse buscar o Lucas o que aconteceu durante quatro dias consecutivos.
«Amor, amanhã, apesar de eu já estar bem, o Augusto vai buscar-te outra vez. Espero que o fato de ele ser gay não te incomode.»
«O que é importante é que fiques boa.»
Passou mais uma semana e o Lucas já não precisava que o fossem buscar. A meio da semana Carol decidiu ir almoçar com ele sem o avisar. Quando chegou à receção do armazém Teresa pediu-lhe para se sentar e foi chamar o Lucas.
«Lucas a tua mulher está à tua espera na recepção, mas antes de ires ter com ela tens de tratar desta encomenda.» Disse, entregando-lhe uns papéis.
Quando regressou à receção informou Carol de que Lucas iria demorar entre quinze a vinte minutos, a terminar uma encomenda e que só depois disso podia ir almoçar. Pegou no telefone e fez uma chamada em surdina. O telefone tocou e ela atendeu. Pelo teor da conversa Tereza estava a falar com uma amiga e a conversa era sobre sexo. Mas sempre que queria mencionar algum nome ela baixava a voz. Carol começou a ficar incomodada e foi até ao café, do outro lado da rua, onde costumava almoçar com o marido. A Susana, uma das empregadas, estava no exterior ao telefone e comentava, em voz alta, as aventuras sexuais da pessoa que estava do outro lado do telefone. Sem saber bem porquê Carol apurou o ouvido.
«Afinal com qual dos dois é que tu andas?». Perguntou a Susana.
Carol não podia adivinhar a resposta mas a nova pergunta deu algumas pistas.
«O que? Andas com os dois? Mas tu não tens interesse em nenhum deles pois não?»
«Claro que não. Olha e o brasileiro, esteve à altura das expectativas? Nunca pensei que depois de ele ter cá a mulher o conseguisses conquistar.»
«Não me digas. Ele está disposto a fazer tudo o que quiseres desde que a mulher não saiba. Pobre coitada.»
«Como é que ele se chama mesmo? Lucas é isso. Olha Tereza, tenho clientes à espera. Beijos.»
Aquilo era demais para ela. Levantou-se e desapareceu dentro do carro. Quando Lucas chegou ao café ficou a saber que a mulher, após alguns minutos de espera, se tinha ido embora. Quando chegou a casa, ao fim do dia, percebeu que algo estava errado pois sobre o sofá estavam uns lençóis e uma almofada.
«Ficas a dormir no sofá até eu decidir o que vou fazer. Mas se quiseres podes ir ter com a tua amante. De certeza que ela não se importa de partilhar uma cama contigo.»
«Amor não digas disparates. Entre mim a minha supervisora não existe nada.»
«Não te canses. Eu já sei de tudo por isso não vale a pena negares. Se fosses verdadeiramente homem assumias o que andas a fazer e ficavas definitivamente com ela.»
Lucas sabia que quando Carol estava assim não havia nada a fazer. O melhor era esperar que ela se acalmasse para esclarecer as coisas. Por isso dormiu no sofá. Nos dias que se seguiram ele tentou, vezes sem conta, convencê-la de que era tudo fruto da imaginação dela, mas nada a demoveu. Ao fim de duas semanas a situação tornou-se insuportável e, num determinado dia, Carol, antes de sair de casa, disse a Lucas que ele devia procurar um lugar para ficar. Ele ainda tentou protestar a sua inocência mas nada feito.
«Eu cansei de dar oportunidades pra você. Eu te respeitei, mesmo quando você estava longe e você me paga dessa forma?»
«Mas eu não fiz nada!» Protestou ele.
«Você não fez nada do que deveria ter feito. Você entregou-se a essa mulher e escolheu exatamente o momento em que eu estou aqui, ao seu lado. O que você fez é mau, mas o momento que você escolheu torna tudo ainda pior. Por favor vai embora. Deixa eu viver a minha vida.»
Carol saiu de casa rapidamente para ele não perceber que estava a chorar. «Eu tenho que fazer isto. Mas dói tanto. Meus Deus, por favor me ajuda!» Pensou. Durante a hora do almoço Carol comentou com o Augusto a situação e aquilo que ele lhe contou tirou um peso de toneladas das costas dela. Augusto tinha escutado a conversa entre a Tereza e a Susana a combinarem a encenação com todos os detalhes. Lucas estava inocente. Nesse dia ela foi para casa mais cedo e quando o Lucas chegou ela estava sentada no sofá à espera dele. 
«Desculpa não ter acreditado em você.» Disse ela, antes que ele tivesse oportunidade de abrir a boca.
Lucas ficou parado à entrada de casa, boquiaberto, sem saber o que havia de dizer. O primo, que vinha atrás dele, ao ouvir Carol, deu meia volta e foi-se embora. Afinal Lucas não ia mudar-se para casa dele. Carol explicou-lhe como ficou a saber de tudo. Fizeram as pazes e nessa noite amaram-se como se fosse a primeira e a última vez.
O carrocel do destino dá muitas voltas e por vezes entrega-nos de bandeja ao nosso adversário, mas ocasionalmente entrega-nos o nosso adversário numa bandeja. Carol estava a fazer uma massagem a um senhor, na casa dos cinquenta e ficou a saber que ele era o diretor dos recursos humanos da empresa onde o Lucas trabalhava. Ela aproveitou para lhe narrar a experiência porque ela e o marido tinham passado, acrescentando que a supervisora continuava a fazer a vida negra ao marido. O diretor, que já tinha ouvido alguns comentários sobre a supervisora, aceitou atuar desde que eles arranjassem provas. Para isso definiram um plano para levar a supervisora a confessar tudo. Lucas seria o isco. Tereza pensou que finalmente tinha ganho e quando Lucas lhe pediu para ela lhe contar tudo o que tinha feito, para o levar a tomar aquela decisão, ela não resistiu a descrever, em detalhe, tudo o que tinha planeado. Como bónus acrescentou ainda tudo o que esperava dele. A penalização por desobediência continuava a ser a mesma. Perdia o emprego e a mulher. Nessa altura o diretor entrou na sala, acompanhado de mais duas pessoas e quem perdeu tudo foi a Tereza.
Lucas e Carol estavam finalmente livres para viver o futuro. Nessa noite, ao jantar, ela fez um brinde.
«Aos quatro membros da nossa família.»
«Quatro?» Exclamou Lucas.
«Sim.» Respondeu Carol de forma sedutora.
Lucas levantou-se e envolveu-a com o manto do seu abraço, selando o momento com um beijo apaixonado.

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