O PAI NATAL NÃO ESTÁ

O PAI NATAL NÃO ESTÁ
Luís tinha tudo para ser um jovem feliz. Estava no segundo ano do curso de gestão da Universidade Católica de Lisboa, vivia no seio de uma família abastada, num moradia na Lapa, possuía o seu próprio carro e um visual invejável. A realidade era bem diferente. Preenchia-o um vazio que durante as noites de insónia se enchia de pensamentos ruins. Tinha um olhar triste e infeliz. O ar ausente desse olhar triste era interpretado como snobismo e gerava incompreensão e afastamento.  Isso ainda o tornava mais infeliz! Luís tinha necessidade de amor, de carinho e de compreensão, coisas que não conseguia encontrar no meio onde vivia. Os afetos, no seu circulo familiar e de amizades, eram medidos em euros. Os pais mantinham um casamento de fachada. O pai exibia uma mulher jovem e bonita, que não o amava e ela exibia tudo o que podia comprar com o dinheiro dele. A irmã era a exceção. Tinha apenas menos dois anos e era uma miúda fantástica. Os dois irmãos eram muito unidos, apoiando-se, um ao outro, incondicionalmente. Era por essa porta que o amor entrava naquela casa.
Quando o ano letivo terminou, ao contrário da maioria dos amigos que rumou ao Algarve, Luís ficou por Lisboa. Ele e a irmã iam todos os dias até à Costa de Caparica, à Praia de S. João. Alguns dos colegas da faculdade dele e amigos da irmã juntavam-se ao grupo e ficavam pela praia o dia todo. O almoço era quase sempre num dos restaurantes da praia, frequentado por malta jovem. Até os empregados eram jovens estudantes, o que tornava o ambiente muito agradável. Ao fim de algum tempo já conheciam toda a gente, inclusive os empregados. O melhor deles todos era a Sílvia. Simples, eficiente, simpática e muito bonita. Os rapazes do grupo disputavam a sua atenção e ela divertia-se com isso, mantendo-os à distância, sem os hostilizar. Luís era um caso à parte. Ele não se abria, não demonstrava facilmente o que lhe ia na alma. No entanto, para um bom observador, ele era completamente transparente. Os seus olhos falavam. Diziam tudo o que ele tanto se esforçava por esconder.
Tinham ido almoçar às três da tarde e ficaram no restaurante até depois das quatro. Luís ficou para trás à espera da conta. Recebeu o troco e devolveu a caixa à Sílvia, deixando uma gratificação.
«Luís, não te esqueceste de tirar o troco da caixa?» Perguntou Sílvia, ao ver os vinte e três euros e cinquenta e três cêntimos.
«Não. Tu mereces isso e muito mais.»
Sílvia ficou parada a olhar para ele. Avaliava as suas intenções para perceber se devia ou não aceitar. Algo no olhar dele lhe disse que sim. Voltou para dentro e continuou o seu trabalho. Ela tinha que manter aquele emprego. Em Setembro viria definitivamente para Lisboa. Tinha-se candidatado à Faculdade de Medicina e com a média dela a entrada estava garantida. Tinha que ter algumas poupanças para os extras, pois os pais pouco podiam ajudar. A ideia era conseguir uma vaga numa residência universitária e obter uma bolsa dos Serviços Sociais. A tia, que vivia em Almada, tinha-a convidado para passar o verão e conhecer Lisboa. Ela tinha optado por trabalhar. Já tinha reparado no Luís. Era um rapaz muito carente e afastava os outros para esconder esse facto. Se alguém conseguisse quebrar essa barreira, descobriria um grande homem. Quando terminou o turno ele ainda estava sentado à mesa a ler um livro.
«Então não vais dar um mergulho?» Perguntou Sílvia.
«Estava à tua espera.»
Ela franziu o sobrolho e olhou para ele «Está a gozar comigo.» Pensou. Ele percebeu a hesitação dela e sorriu. Foi assim que começou a relação deles. No fim do mês de Julho já estavam completamente apaixonados.
Quando obteve a confirmação da sua entrada na universidade teve uma grande surpresa. A irmã de Luís ia ser sua colega. O primeiro período passou a correr. O tempo era limitado e tinha que ser repartido entre os estudos e o namoro. A verdade é que restou pouco tempo para o namoro. A relação deles como que esmoreceu e o Luís voltou a fechar-se na sua concha. Luís precisava de perder o medo de amar, mas para isso tinha de abrir o coração e aprender a entregar-se sem reservas. Ela tinha de o ajudar. Sim, ela ia ajudá-lo! Finalmente chegaram as férias de Natal. Sílvia falava da época natalícia com um entusiasmo que Luís tinha dificuldade em compreender.
«Nunca percebi essa cena do Natal. O que é que a oferta de prendas, ainda que sejam bonitas e valiosas, tem a ver com afeto?» Perguntou Luís.
«O Natal tem tudo a ver com o ato de ofertar, mas não nesse sentido.» Disse Sílvia.
«Tretas!»
«Queres aceitar o desafio de passar o Natal com a minha família?»
Luís não respondeu. Parecia-lhe um bocado estranho passar o Natal com pessoas que ele não conhecia, mas a verdade é que fazia tanto sentido como passá-lo com pessoas que ele conhecia mas que eram autênticos estranhos: a sua família. Quando falou com a irmã ela achou a ideia muito interessante.
«Eu não me importava nada de embarcar contigo nessa aventura. Gosto muito da Sílvia e por aquilo que sei a família dela deve ser bem simpática e acolhedora.
Sílvia quando soube da conversa estendeu-lhe de imediato o convite. Ficou acordado que os dois irmãos iriam passar o Natal com ela. Iriam dormir três noites lá em casa. Sílvia tinha cinco irmãos, isso significava que seriam nove sentados à mesa.
Os dois irmãos fizeram a viagem algo apreensivos. Como seria que a família de Sílvia os receberia? Eram uma família do campo com outros costumes e de outro nível social. O pai cultivava o pedaço de terra que tinha herdado e, como tinha um trator e outras alfaias agrícolas, prestava serviços aos lavradores da zona. A mãe trabalhava na Câmara Municipal de Bragança. Viviam, com os filhos, quando estes não estavam ausentes, numa pequena quinta, nos arredores da cidade. O casarão de pedra tinha sido construído em mil novecentos e sessenta, pelo avô materno e herdado pela mãe de Sílvia, que era filha única. Como ele ambicionava ter muitos filhos a casa era enorme. A mulher faleceu ao dar à luz a única filha e ele dedicou-se em exclusivo a esta, nunca tendo dado uso aos cinco quartos da casa. Sílvia era a única rapariga por isso tinha o privilégio de ter um quarto só para si. Os irmãos dormiam aos pares, ocupando três quartos, com exceção do mais velho que dormia sozinho e o restante era ocupado pelos pais. Em casa a azáfama era grande e todos participavam nas tarefas. Os três rapazes mais novos, com idades entre os quinze e os dezassete, cuidavam da limpeza da casa: arrumação dos quartos, casa de banho e sala. Os três mais velhos, com idades entre os vinte e os vinte e quatro, cuidavam da lenha e dos animais, pelo que trabalhavam fora de casa, onde as condições eram difíceis, pois há dois dias que não parava de nevar. O pai tinha ido fazer um serviço de transporte que tinha surgido à última hora e só viria para o almoço. Sílvia, que era a filha do meio, estava com a mãe na cozinha, às voltas com o almoço e com as iguarias do Natal. Aquilo foi um choque, sobretudo para Luís. Filipa, a irmã, estava acostumada e enfiar-se na cozinha, com as empregadas e não teve dificuldade em juntar-se à amiga. Luís ficou meio perdido.
Conceição, a matriarca a quem o marido, de nome José, chamava, carinhosamente, Ção, chamou os filhos e Sílvia fez as apresentações.
«Já todos ouviram falar do Luís e da Filipa que vão passar o natal connosco. Vamos fazer isto tipo equipa de futebol. Vocês ficam aqui ao meu lado e os meus irmãos apresentam-se um a um.»
Seguiu-se uma grande algazarra. Luís foi abraçado pelos irmãos da Sílvia que, de forma bem-humorada, disputaram a atenção de Filipa. Parecia que se conheciam há muitos anos.
Manuel, o irmão mais velho de Sílvia, ao ver Luís meio abandonado, sem saber o que fazer, disse:
«Queres ficar por aí ou preferes conhecer a quinta?»
Luís vestiu roupa adequada para o exterior, que o Manuel lhe emprestou e foi para a rua. Nas duas horas seguintes fez coisas que nunca tinha imaginado que poderia fazer. Ajudou a dar água aos animais a renovar as cortes, a apanhar erva nas zonas onde a neve não a tinha coberto, entre outras coisas. Apesar do seu total desconhecimento, fê-lo com um empenho e dedicação que Manuel estava assombrado. A maioria dos jovens da cidade ter-se-ia refugiado em casa! Regressaram à hora do almoço e, depois de se lavarem, juntaram-se aos restantes. O aperto de mão do pai de Sílvia era forte e o sorriso era franco. Depois de tantas especulações, mentalmente desenhadas, ele não queria acreditar que tinha sido tão simples conhecer o pai dela. «Se fosse em minha casa estava tudo tenso, com os meus pais a fazer dezenas de perguntas.» Pensou Luís. Olhou para a irmã que lhe piscou o olho. Também ela estava feliz, sentada ao lado de Sílvia. Foi uma refeição bem diferente das que estava habituado a comer. A ração de carne misturada no arroz de feijão era bem pequena, mas o conjunto estava delicioso e a sopa de legumes era, seguramente, a mais saborosa que tinha provado em toda a sua vida. Luís, apesar cansado e de ter os braços doloridos, sentia-se bem. Sentia-se leve!
Durante a tarde a família ultimou os preparativos para a ceia e os dois irmãos, já perfeitamente integrados, participaram em tudo até nas brincadeiras. Pelo meio foram alvo de algumas partidas das quais acabaram por rir, juntamente com todos os outros.
Depois da ceia houve jogos e brincadeiras. Lá fora o termómetro registava temperaturas negativas e a casa não tinha aquecimento, mas ninguém parecia ter frio.
«Temos que decidir onde vocês vão dormir.» Disse a matriarca.
«Se todos estiverem de acordo o Luís dorme comigo e a Sílvia com a Filipa. Claro que o Luís pode optar por dormir sozinho, no sofá da sala.» Disse Manuel.
«As camas são de pessoa e meia e dormimos dois em cada cama.» Informou Filipa.
Os dois irmãos não colocaram qualquer objeção e o assunto ficou encerrado.
Um pouco antes das onze horas eles saíram para ir à missa do galo. Para o Luís e a irmã isso era mais uma estreia. A igreja da aldeia estava cheia e eles foram o centro das atenções, como sempre acontece nas pequenas comunidades. Os irmãos de Sílvia aproveitaram para gozar apelidando-os de “estrelas da noite”. A tirada de Filipa acabou por colocar um fim à brincadeira:
«Somos as estrelas de Natal.»
Quando regressaram a casa sentaram-se à volta da lareira e os pais de Sílvia foram buscar as prendas. Eram prendas simples que tinham a ver com as necessidades de cada um, que eram inventariadas antes do natal e posteriormente adquiridas pela matriarca. Só existia uma prenda para cada um e eram todas entregues pelo pai, sendo que ele recebia a dele das mãos da esposa. Os dois irmãos receberam um par de luvas cada um que iriam ser muito úteis. Luís estava completamente rendido. O amor com que as prendas eram dadas e recebidas estava tão presente que ele se emocionou. Na verdade o amor estava presente em todos os atos daquela família, desde que ele ali tinha chegado. No entanto nada nem ninguém o tinha preparado para a grande surpresa da noite. Pais e filhos tinham de confessar, uns aos outros, atos ou omissões em que um tinha prejudicado o outro. Os atos de per si eram pouco relevantes, mas o arrependimento com que o mesmo era confessado e a sinceridade com que era perdoado, emocionava todos os presentes. Embora a isso não fosse obrigada, Filipa fez também a sua confissão em relação a Sílvia e ao irmão e Luís retribuiu-lhe. Durante uma hora eles riram e choraram tantas vezes quantas as confissões e as reconciliações. No fim estavam de alma lavada. Luís estava tão emocionado que não conseguiu levantar-se da mesa. As pernas tremiam-lhe e as lágrimas brotavam-lhe em torrente, sem que as conseguisse parar. Chorou sem se aperceber que os outros respeitavam o seu choro, em silêncio e com os olhos húmidos. Chorou o peso que carregava, chorou os medos e chorou todas as coisas ruins que o atormentavam. O choro foi a sua cura. O choro libertou-o! Ficou com o coração leve e sem mácula. Era como se alguém o tivesse lavado por dentro. Quando parou de chorar levantou-se e olhou em volta.
«O Pai Natal não desceu pela chaminé. Mas o amor trabalhou e brincou connosco. O amor sentou-se connosco à mesa. O amor riu e chorou connosco. O amor  esteve sempre presente. Agora sim, aprendi o significado do Natal!»
Naquela noite Luís, pela primeira vez em muitos anos, dormiu profundamente, sem ser atormentado por insónias. Dormiu o sono dos anjos. Era a magia do Natal!

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