A TEMPESTADE

A TEMPESTADE
O dia amanheceu lindo. O sol brilhava sob um céu azul resplandecente. Adivinhava-se um dia de inverno frio, mas luminoso. Com a aproximação do fim da manhã apareceram as primeiras nuvens. O dia tinha-se transformado de forma radical. A meio da tarde o céu tinha escurecido de tal forma que o dia se confundiu com a noite. A aragem, que antes alisava o mar, deu lugar a um vento forte que  o encapelou. Quando a noite finalmente caiu, o breu cobriu totalmente a região. O mar e a montanha fundiram-se num só. Eram uma enorme massa negra. O uivo do vento, que nascia no mar, ecoava pela montanha de uma forma sinistra. O vento crescia, multiplicava-se, rodeava cada pico, envolvendo-o de uma forma que parecia querer arrancá-lo do chão. Começou a chover. As gotas grossas caiam furiosamente no chão: como pedradas. A violência do vento arremessava as gotas da chuva conta os troncos dos pinheiros, descascando-os. Os ramos desfaziam-se em destroços e voavam pelo ar. Os pinheiros vergavam e partiam, sob a força do vento e os que tinham raízes mais fracas eram arrancados violentamente. O primeiro trovão soou como um aviso. Surgiu como um ronco soltado pela garganta de um monstro, invetivando os elementos da natureza à revolta. A resposta não tardou em ser ouvida. Um coro de trovões ecoou pelos céus. Os relâmpagos acordados pelo troar, rasgaram o céu enchendo-o de faixas luminosas e fulgurantes. A luz dos trovões propagava-se através das nuvens de forma tenebrosa, emprestando à noite uma beleza fantasmagórica. A escuridão  mais profunda era intercalada por uma luminosidade intensa, a intervalos curtos e irregulares. Esta oscilação rápida, entre o breu e uma luminosidade intensa, tornava impossível distinguir o que quer que fosse. Durante toda a noite o vento a chuva e os trovões disputaram a primazia em ser aquele que produzia mais estragos. O mar revoltou-se contra os barcos e navegantes e expulsou-os do seu seio. Quando a alvorada despontou o sol rasgou as nuvens e afugentou-as do céu. Os trovões cessaram e o vento abandonou a cena. O mar, como que obedecendo a uma ordem divina, transformou-se num lago. O dia estava tão calmo que se tornava difícil acreditar na tempestade que se tinha abatido sobre o local.
Quando o primeiro helicóptero sobrevoou a zona, os homens da proteção civil não conseguiram esconder as lágrimas de emoção. O nível de destruição era de tal forma profundo que, mesmo aqueles homens habitados a enfrentar as maiores catástrofes naturais, não conseguiam acreditar no que viam. As montanha, normalmente coberta do verde dos pinheiros, parecia que tina sido torturada durante a noite e que alguém lhe havia espetado milhares de estacas. Era esse o aspecto dos pinheiros, quebrados a meio e despidos qualquer ramo. A orla marítima tinha sido completamente devastada e a fronteira entre o mar e terra tinha desaparecido. As barreiras, naturais ou artificiais, ou tinham sido destruídas ou estavam cobertas pelos destroços das embarcações, que o mar tinha empurrado para terra. A pequena localidade piscatória e turística, tinha desaparecido do mapa. As construções, quase todas elas de madeira, tinham voados pelos ares e os destroços formavam pequenos montículos, que sobressaiam como marcos na planura, criada pela ação arrasadora da tempestade. A localidade estava completamente deserta. Quando iniciaram a descida para o local conseguiram vislumbrar alguns cachorros, com um ar perdido e abandonado. Não buscavam os seus donos, apenas caminhavam por entre os destroços como autómatos. Milagre! Do meio dos destroços surgiu uma mulher com um ar sujo e desgrenhado. Estava completamente nua, sem aparentar qualquer consciência do facto. O corpo escultural estava sujo de lama, cinza e fumo. Os cabelos estavam tão sujos que não se conseguia distinguir a sua cor. Indiferente à aproximação dos helicópteros, ela olhou em volta e, sem qualquer aviso, começou a retirar furiosamente os destroços de um determinado montículo, que rodeava uma chaminé de pedra. Aparentemente aquilo deveria ter sido a sua casa. Um pouco afastado do mar, numa pequena elevação, elevava-se um edifício intacto. Parecia um fantasma no meio de toda aquela destruição. Quando se aproximaram perceberam que se tratava da pequena igreja da localidade. Era uma construção em pedra,  com ar maciço. De facto as paredes da igreja eram de duplo perpianho, com enchimento interior de vinte centímetros, o que perfazia a largura de um metro. Os tetos eram em abóboda de pedra, revestidos no exterior com telha. A construção era de tal forma sólida que tinha conseguido manter-se intacta. Isso naturalmente se ignorasse-mos o fato da torre do sino e da cruz terem desaparecido.
Os helicópteros poisaram e começou a operação de resgate. Com a exceção da mulher que tinham avistado, a aldeia parecia deserta. Os cães de resgate foram avançando sem assinalar a existência pessoas soterradas mas com vida e convergiram todos para a igreja. Os destroços que se haviam acumulado junto da porta não permitiam o acesso à mesma. Os latidos dos cães despertaram os que se haviam refugiado no interior, que assinalaram a sua presença de forma ruidosa. Quando o acesso à porta ficou livre esta abriu-se e apareceu o padre da localidade, com ar de quem tinha despertado de um sonho. Atrás dele surgiu uma multidão de zombies que olhavam à sua volta com ar incrédulo. O testemunho dos sobreviventes era algo assustador. Aquilo que eles descreveram assemelhava-se ao inferno de Dante. Feita a contagem concluiu-se que todos os habitantes da localidade tinham sobrevivido, com a exceção de uma família, que se recusou a entrar na igreja. Dessa apenas tinha sobrevivido a mulher que tinham encontrado nos destroços. Ela tinha sido impedida de se refugiar na igreja pelos restantes elementos da família. A sobrevivência das pessoas que se refugiaram tinha uma explicação lógica, mas a da mulher era totalmente inexplicável. A aldeia classificou-a como um milagre e o padre da localidade, sancionou-a como tal. Foi assim que nasceu a história do milagre do Porto dos Pinheiros. De nada valeram as declarações da mulher. A casa era a única da localidade, com uma lareira de pedra e ela usou-a como abrigo. Isso salvou-lhe a vida.

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