O BARÃO


O BARÃO
Viajar é penoso. Desagrada-me o esforço físico associado ao ato. Outra coisa é viajar com a mente ou com a vista. A ironia da minha vida é que sou inspetor escolar! Não tenho poiso certo: um dia estou a norte do país, no outro a sul. Aprecio a sucessão de paisagens, sobretudo quando o horizonte se encurta, fechado pela sucessão de montanhas. A surpresa do que se encontra atrás de cada uma delas fica gravada. Tenho disso boas memórias e a esperança de novas e agradáveis memórias. Por vezes, as gentes e as fainas despertam-me a curiosidade, pela sua diferença e diversidade: A diversidade é espantosa num país tão pequeno! É um entusiamo que desaparece tão rapidamente como floresce. Não sou estudioso desses assuntos, mas a verdadeira razão é que rapidamente me desinteresso. Estou ocupado com as minhas viagens, mas seja por que razão for não gosto de viajar. Faço-o por obrigação. Uma obrigação que não consigo obviar porque implicaria uma mudança com impactos financeiros que não quero suportar.  
Vivo sozinho, as viagens são pagas e as ajudas de custo suprem as minhas necessidades. Tenho as minhas poupanças e no mês de férias poderia viajar para o estrangeiro. Recuso-me. Aproveito esse mês para usufruir do beatífico benefício de experimentar a sensação calmante da repetição: acordar na mesma cama, comer no mesmo lugar e ver as mesmas pessoas, todos os dias do mês. Viajar dez horas de avião para me ver com uma grinalda de flores a dançar numa praia Havaiana? Não. Preciso de encontrar a calma interior, de por os pensamentos em ordem. Para se pensar tem de se estar quieto! Os seres vivos, animais ou vegetais não foram feitos para se deslocar, apenas o fazem em caso de necessidade. Deixemo-nos de filosofia. Olho a paisagem estarrecido. A serra do Barroso tem um ar lambido. É obra da muita chuva que tem caído. Lá ao fundo, a aldeia parece um fantasma que se aproxima de mim, por entre o crepúsculo e o nevoeiro. 
Era inverno. Estávamos no fim de Novembro. Ia fazer uma sindicância à escola primária de G… Estava um frio de rachar! O dilúvio tinha revirado tudo. A flor da terra tinha ido na torrente e para trás ficaram as pedras e areia lavadas, por entre árvores desmanchadas, num estado caótico. Assaltou-me a visão de uma aldeia em ruínas! Cheguei de camioneta, tomada no ponto em que a linha férrea terminou. Apeei-me e fiquei parado a absorver o choque. O velho casario estava parcialmente em ruinas, destacando-se aqui e ali uma parede de cara lavada, usando chapéu de telha, com o tom vermelho vincado. A hospedaria ficava ao fundo da rua e a imagem exterior não augurava o conforto porque o meu corpo ansiava. Entrei e fui até à cozinha. O tom cinza terra, com que o fumo colorira as paredes, escurecia o espaço. Senti-me repelido. Fiquei de pé, desconfortável, sem me aproximar de fogueira que crepitava na lareira. A professora chegou esbaforida. Tinha tomado conhecimento da minha chegada. Ao ver a jovem loira e bonita, escondida sob um largo vestido florido, o meu espírito acalmou, mas a urgência em sair dali dominava-me. Era tudo tão surreal, que tornava possível a ideia de que a qualquer momento poderia aparecer um herói para me resgatar! Com argucia ela entendeu o meu problema e, enquanto me tranquilizava, mandou um criado avisar o Barão de que tinha chegado um senhor de Lisboa e precisava de um cavalo para subir a serra. 
– Não se incomode com as instalações. Vai ver que tudo sem resolve! 
Ficamos a um canto da cozinha. Não consegui sentar-me nem tomar o chá, entretanto servido. Ela deu uma explicação genérica sobre o Barão e começamos a falar sobre assuntos diversos. A sindicância veio ao de cima. Tudo se resumia ao seguinte: ela não se adaptava ao local. Quase tomei a resolução de não inquirir mais e sancionar a explicação. Não, a verdade era ligeiramente diferente. A capacidade de adaptação do ser humano é surpreendente. Ouvimos um carro parar à porta. Levantámo-nos. 
– Boa Noite! 
A figura alta do Barão, com uma capa preta sobre os ombros, ocupava a totalidade da porta de entrada. A imponência com que entrou na cozinha dava-lhe, simultaneamente, um ar de herói e de um cruel ditador, pronto a dar a ordem de execução. Avançou para mim com passos lentos mas decididos. Era um homem muito alto e forte, com os seus quarenta anos. A energia que o corpo emanava, aliada à dureza da expressão, eram de quem se preparava para me estrangular. A dois passos de mim soltou uma gargalhada sonora e a expressão tornou-se bonacheirona. Qual deles era o verdadeiro Barão? De forma animada perguntou quem eu era e donde vinha. Experimentei uma sensação de simpatia, tão estranha como a repulsa anterior. Olhei à minha volta e verifiquei que os restantes mantinham a distância. Seria medo ou respeito? A professora recomendava que me tornasse hóspede do Barão, mas a minha natureza recatada aconselhava-me o oposto. Sempre esta dualidade. Disse-me que eu era seu hóspede e calou os meus argumentos titubeantes de forma determinada. 
– Quem manda aqui sou eu! 
O tom era seco e o ar era duro, mas antes que a imagem se eternizasse na minha mente, o rosto tornou-se divertido e infantil. Perante o meu ar indeciso, sem pedir licença, nem esperar resposta, despediu-se da professora e, colocando-me o braço sobre os ombros, conduziu-me para o carro. A capa cobriu-nos como uma cortina que parecia separar-nos do mundo. Quando dei por mim estava sentado no lugar do morto a colocar o cinto. O Barão conduzia como se não precisasse de ver a estrada. O tom familiar que utilizava não se coadunava com o recente conhecimento e chocava com a minha personalidade reservada. 
– Fica como meu hóspede pelo menos uma semana. 
Disse-lhe que ficaria apenas dois dias. 
– Isso é o que se vai ver: quem manda aqui sou eu! 
Comecei a ficar algo preocupado. Olhei-o para ver o quão sério estava a falar. Sorria. Começou a contar histórias da sua vida académica em Coimbra. Histórias de intimidades e de brincadeiras. Pareceu-me tudo bizarro e chocante. Olhei para ele com a simpatia de quem admira uma criança. 
– Se quiser posso mandar vir umas mulheres de Coimbra ou de outro lado e divertimos-nos dia e noite. 
Disse que não podia. Tinha de fazer um relatório. 
– Qual relatório? 
Olhei para ele assombrado. O tom de superioridade era como uma chicotada no ego. 
– Deixe-se de coisas! Ninguém. Ouviu. Ninguém me desafia para o que gostaria de fazer e não posso. Desprezo escravos. É a pior humilhação que me podem fazer! 
A minha expressão deve tê-lo assustado porque emendou. 
– Desculpe os modos, gosto de brincar com coisas sérias. 
Chegamos ao solar. Sai do carro e enfrentei a majestade do edifício. 
Só me apercebi dos cães quando me cheiraram as calças, para, logo em seguida, se lançarem sobre o Barão que os acariciava chamando cada um pelo seu nome. A luz que apareceu no cimo da escadaria de pedra lançou-nos na penumbra. O criado, segurando o lampião, acima da cabeça, guiou-nos. A luz invadiu outros espaços. A fachada de janelas mergulhava no breu da noite e as imponentes colunas do alpendre manifestaram a sua presença, assemelhando-se a guardas silenciosos. Para além da penumbra o solar parecia tocar o infinito. 
Era uma sensação surreal. Eu pisar o chão de um destes solares antigos que sempre admirei de longe. A robustez e imponência das suas paredes sempre me transmitiram uma mensagem de segurança, paz e conforto. Como se me pudessem proteger das intempéries da vida! O contraste dessa tranquilidade com a vida agitada das cidades fazia-me desejar acobertar-me ali para o resto da vida, num momento edílico interminável. O silêncio invadia-me e acalmava o espírito. As obrigações e correrias, tão caraterísticas do dia-a-dia, ficavam todas à porta do solar. Era o verdadeiro eu que se escondia dentro de mim, a assumir o controlo. O eu traído por toda uma vida centrada no ter em vez do ser e do viver. 
Esse outro eu tinha vontade de rebentar as grilhetas e partir em busca da aventura. Saborear o nascer do sol ou o canto dos pássaros, mas não tinha coragem de tomar a decisão. Não por receio das novas escolhas, mas por falta de coragem para abandonar as anteriores. O Barão caminhava à minha frente e falava sem cessar, de forma vaga, percebi que continuava a contar histórias da sua juventude, em Coimbra. Não o escutava, o meu pensamento ruminava. Ser ou não ser. Ser uma coisa desejando ser outra. 
Também o Barão me pareceu, depois te o conhecer melhor, escravo de uma dualidade devoradora. Dentro dele habitavam o juiz e o assassino. O chacal e a pomba. Ambos querendo libertar-se e ele consumindo-se na indecisão sobre a qual dos dois dava a voz. A imprevisibilidade do comportamento de tal natureza causava-me calafrios. No entanto, atraía-me, mantendo-me colado a si como um poderoso íman. Aconcheguei o sobretudo junto ao pescoço, para me proteger do frio. Pela cabeça passou-me uma dúvida: aquilo que sentia era frio ou medo? Passamos por uma pequena divisão. Pensei acomodar-me… 
– Não tire o sobretudo. Aqui faz frio! 
Dirigimos-nos para a sala de jantar. Era uma sala de proporções gigantescas no topo da qual estava uma enorme mesa. Sentamos-nos. Eu mantive o sobretudo e o Barão a capa. Um criado entrou silenciosamente e colocou um copo à frente de cada um de nós e uma garrafa de vinho no meio. Disse-lhe que não bebia fora das refeições e ele brindou-me com uma expressão de desprezo, mas conteve as palavras. O Barão sorvia o vinho ininterruptamente, elogiando os seus méritos e homenageando Baco. O vinho provocou nele uma catarse. Subitamente parecia possuído de uma qualquer energia e tinha-se elevado a um patamar onde parecia estar sozinho. Flava sem cessar. Quem o escutasse no exterior diria que se dirigia a um amigo, fazendo confidências, tal era a intimidade dos assuntos. Na verdade, falava para ele próprio. Arguia consigo mesmo, exorcizando os seus demónios. Já era tarde e fazia muito tempo que o estômago me havia manifestado o seu desconforto.  
– Não lhe faz mal beber assim sem comer? 
– Nunca como! 
– Pois eu já comia qualquer coisa. 
Olhou-me como que é apanhado de surpresa. 
– Idalina! 
A mulher de meia-idade entrou na sala. Tinha um ar simultaneamente austero e doce. Devia ter sido muito bonita. Era seguramente uma serva mas caminhava como se fosse a baronesa. 
– Este meu amigo quer cumprimentar-te… quero dizer, quer que lhe tragas algo para comer. 
A presença dela naquela casa aqueceu-me a alma. Uma mulher e uma refeição! A libido agitou-se e as papilas gustativas bateram palmas! 
– Porque não fica cá uma semana? Não se ia aborrecer. 
Disse que não podia. Era um escravo do dever. Não lhe entreguei o que me ia na alma. Era meu. O Barão continuava a falar. Embora ali, sentado a meu lado, era um homem à beira de um abismo, estendendo a mão a um amigo com um pedido de socorro. Era um garoto perdido numa floresta escura, esperado ser resgatado. Também eu precisava de ser resgatado, desta monotonia que me preenchia o dia. Olhou para mim indeciso, levantou-se e voltou a sentar-se. Parecia prestes a explodir. A confessar o inconfessável. 
– As mulheres! O que são as mulheres? Não sei… 
Tomando como motivo o aparecimento da criada, o Barão divagava. Não conhecia as mulheres. Conhecia determinado tipo de mulheres. Mulheres que ele vendia ao pai. Mulheres que trocava por dinheiro. Falava sempre do passado. O presente parecia vazio, de mulheres e de significado. Eu estava constrangido. Pedi-lhe para me falar de Coimbra. 
– Coimbra não é nada… Ela sim. Mas dela não sou digno falar… 
Encheu o copo de vinho e bebeu-o de um trago, depois mergulhou no passado em silêncio. Um passado onde a sua alma chorava. Chegou o jantar. O galo estufado saciou-me a fome e acalmou-me o espírito. Enquanto comia ele continuou. 
– Nunca tomei a vida a sério. Isso é lá coisa que se tome a serio?… As mulheres são animais e eu fui um predador, agora sou apenas uma besta! Sim não tenho ilusões sobre mim. Já tive… Emília foi uma exceção… era apenas uma criança. Jovem demais para entrar no jogo entre o meu pai e eu. Matou-se… 
 Eu estava saciado. A impaciência que antes me impedia de lhe prestar atenção deu lugar a uma tranquila absorção do sentido das suas palavras. A uma real perceção do seu estado de espírito. Ele não tinha salvação, porque a salvação dele estava no passado ou talvez em alguém do passado. Um passado que o assombrava. Levantou-se e levou a sua solidão para a penumbra da sala. Regressou com uma expressão completamente diferente. Tocou a campainha. 
– Vai ouvir a Tuna… 
Entrou a criada. 
– Vai buscar o violino! 
– Senhor Barão, o violino está partido. 
O Barão virou-se prestes a explodir. A tensão inchava-lhe o corpo. A criada enfrentou-o com o olhar. Esvaziou-se com um balão furado. 
– Vai arranjar outro. 
A criada manteve-se firme, seca e arrogante. 
– Aonde? Perguntou. 
Ele gritou-lhe: 
– Manda chamar a Tuna! 
A criada saiu com o meu prato vazio e regressou com uma travessa de carne de porco e ovos mexidos. Ele continuava a beber, mas da comida desconhecia-lhe o sabor. Não estava embriagado mas à força de tanto álcool parecia uma caldeira a vapor no máximo da sua pressão. O Barão não parava de trazer garrafas de Porto e vinhos estrangeiros.  
O odor dos vinhos, exalado ao abrir das garrafas, fundia-se com um discurso meio incoerente sobre mulheres. Ultrapassadas as primeiras resistências eu converti-me e já participava de forma activa, na conversa e na degustação, opinando e discordado, num dialogo caraterístico de dois velhos amigos.  
No fim da discussão, tinha o corpo arqueado e as mãos enclavinhadas. O Barão estava pronto para a luta. Com os seus demónios a batalha já durava há muito! Endireitou o corpo e a expressão transformou-se.  
– Vamos beber por uma mulher. 
Levantei-me fazendo jus ao momento solene. Ele foi buscar uma garrafa de champanhe do armário. 
– Taças! 
Vieram pela mão da criada, solícita e silenciosa, com o seu ar sempre solene.  
– A que mulher? Perguntei, enrolando a língua! 
– À única! 
Bebemos. O Barão ficou estático absorto pelos pensamentos. Parecia que tinha ingerido um calmante. Depois, num gesto solene, atirou o copo para o chão, fitando-me. Imitei-o. Tinha aprendido que ali se partia tudo! Na falta de qualquer ilustração coloquei A única no seu pedestal, endeusada mas, por enquanto, nua de atributos. O riso do Barão interrompeu-me a visão. Era um riso carregado de ironia e dor. Como por magia, tinha perante mim um Barão que desconhecia. Simpatizei com ele! 
– Venha cá. 
A voz calma e triste calou fundo em mim. Enfiou o braço no meu e conduziu-me por um passeio melancólico, através dos corredores escuros do palacete. A penumbra transportou-nos para épocas em que a magia regia a vida dos homens. O passeio terminou onde tinha começado e o Barão pediu para Jantar. Idalina compareceu para atender o seu pedido. Agarrou-a pela cintura e deu-lhe um beijo no pescoço. 
– Roubei-a na Quinta das Palmas… 
Enquanto ela se afastava ele narrou a história. Não era verdade, mas refletia a verdade do elo que os unia, ainda que as circunstâncias os separassem. Fez-se silêncio. A ceia do Barão entrou. O relógio da torre marcou as duas horas. O som projetou-se no salão como o braço gélido da noite, como um eco de outros tempos… 
– Nunca deixes de ser meu amigo. Eu sou um pobre homem! 
A mão tremendo no meu ombro, a forma familiar do trato e a tristeza da voz selaram o momento. Sorriu. Um sorriso amargo. 
– Sou um poeta… 
O Barão tomou-me pelo braço e levou-me para um dos extremos da sala em silêncio. No ar ainda retiniam os sons do relógio, misturando-se com as palavras dele. Uma combinação poderosa que tornava o momento mágico. O primeiro som apanhou-nos de surpresa. Virámos-nos para a porta donde provinha e, de costas encostadas à parede, aguardamos. O som manifestava-se em crescendo, ecoando, como uma trovoada, pelos corredores do palácio. Um arrepio percorreu-me a espinha, não de medo mas de antecipação pelo que aí vinha. O som ensurdecedor era produzido por dezenas de tamancos. Olhamos-nos. Eu com curiosidade, ele com ironia. 
Um indivíduo alto, embuçado num capote negro, surgiu pela porta. A sua presença tinha algo de sinistro. O bigode farfalhudo, enrolado nas pontas, o pano preto sobre o olho esquerdo e a cicatriz no sobrolho direito, completavam um rosto escanzelado. Atrás dele foram entrando, lentamente, balançando o corpo, num andar definido pelos tamancos soltos, um grupo heterogéneo de homens: Gordos, magros, altos, baixos, novos e velhos. A cabeça coberta e as capas ou mantas negras que os envolviam, conferiam-lhes uma imagem de uno, que de outra forma seria não identificável. «Donde saíram estes homens todos a esta hora da madrugada?». «O que fazem aqui?» Olho para aquele desfile estupefacto e com uma incompreensão insanável. A magia anterior desvaneceu-se. As vestimentas negras, os gorros ou capuzes, embora distantes, agridem-me. Assemelham-se a um bando de ouriços, escondidos atrás da sua carapaça, espreitando o perigo, mas prosseguindo, sem fugir dele, apontando os espinhos ao inimigo. Instintivamente, colei-me à parede. 
O desfile de vénias parece uma torrente inesgotável. O ar sonolento e até contrariado daqueles rostos, confere alguma hostilidade ao grupo. «Coitados, foram arrancados da cama!» Fecho os olhos. Quando os abro novamente, a sala está cheia de homens, ordenados em várias filas. À sua frente o primeiro indivíduo que entrou na sala. Isto não é um sonho. Eles são reais! 
Silencio. 
O silêncio tornou a minha embriaguez indisfarçável. Era o álcool e não as ações de terceiros que justificavam o meu estado. 
– A Tuna! – Gritou o Barão. 
De olhos esbugalhados perscrutava o grupo. Os acontecimentos sucederam-se num vórtice. O senhor Alçada foi-me apresentado como mestre da Tuna e depois da troca de vénias o Barão ordenou: 
– O Verde Gaio! 
Um aceno do mestre fez surgir de debaixo das capas os mais variados instrumentos: violinos, flautas, violões, guitarras, ferrinhos, tambores, harmónios, gaitas-de-beiços e berimbaus. O inesperado acontecimento fez-me soltar uma gargalhada. O barrão fuzilou-me com o olhar. 
A Tuna surpreendeu-me. Os instrumentos arrancaram no seu tempo e numa harmonia quase perfeita. As vozes que se foram juntando, à medida que os instrumentos se iam calando, conferiram ao momento uma musicalidade alegre e vibrante. Obedecendo a um gesto do Barão fez-se silêncio. O que se seguiu não necessitou de qualquer ordem. Tudo se encadeava numa sucessão de acontecimentos, seguramente repetidos muitas vezes. O pão e o vinho foram partilhados num estilo “última ceia”. Estava em transe. Não sei o que disse, mas elogiei. 
– O Tum-Tum! 
A ordem do Barão produziu um silêncio que resultou numa explosão de som. A música, comandada pelo som forte e intenso dos tambores, aumentou as vibrações da sala. O barão saltou para a frente numa dança frenética que acompanhava o ritmo da música, em crescendo. De garrafão na mão ungia-se com o néctar de Baco, ingerindo uma pequena porção deste. A dança frenética deu lugar a passos acrobáticos. O chão escorregadio levou o Barão ao chão. Levantou-se como que impulsionado pelo ritmo da música e agigantou-se na minha direção. Estou rendido. Rio e choro ao mesmo tempo. Aceito como normal a insanidade que invadiu a sala. Um Barão reluzente, como se usasse armadura, lambuzado pelo vinho, debruça-se sobre mim e levanta-me, segurando-me pelos braços. Apesar do seu aspeto medonho não tenho receio. A música atinge a vibração máxima. Num grito diz-me ao ouvido: 
– Estou purificado! 
– Pois estás! 
– Vem!… Vou ao castelo da Bela-Adormecida… 
Com o braço enfiado no meu desaparecemos no escuro do corredor. 
A noite recebeu-nos com um manto de breu gélido que nos isolou do mundo. Algures, nas minhas costas, o ruído dos tamancos desvanecia-se num movimento de separação irremediável. No meio da escuridão o Barão guiava os meus passos. 
– Espere aqui por mim. 
Sem qualquer aviso largou-me o braço e voltou para trás. As palavras dele fizeram-me todo o sentido, talvez por estar toldado pela embriagues. Fiquei sozinho no meio da escuridão. Passados alguns instantes isso pareceu-me absurdo. À minha volta adivinhava sombras que não conseguia identificar. Tinha sido abandonado! Perdido na noite, cercado de negritude, senti crescer dentro de mim uma revolta que não consegui conter. Naquela hora o inspetor escolar, calmo e ponderado, transformou-se ou desejou fazê-lo. Caminhei no sentido oposto. Não aguardaria de forma passiva e obediente pelo Barão. Eu encontraria o meu próprio caminho. Os olhos mais acostumados ao escuro da noite permitiam-me distinguir a irregularidade do solo que pisava agora. Enterrava os pés na terra molhada num esforço que me esgotou. O canto que me encorajou até aí secou no meu peito e a raiva substituiu-o.  
Vislumbrei um dos caminhos da quinta e saí do atoleiro. Sobressaltei-me com o ruído de passos. 
– V. Exa quer que lhe vá dizer onde é o seu quarto? 
Reconheci a voz da criada do Barão. Ela resgatava-me! Olhei para ela e estremeci. Sonhei, desejei, antecipei…  
Num impulso, segurei-a pelo braço. O contacto provocou-me um frémito que fez o sangue ferver nas veias. Dividida entre indicar-me o caminho e evitar o contacto carnal, ela libertou-se. A rejeição ateou o fogo em mim. Com as mãos dela entre as minhas fiz juras de amor. Um amor nascido do estado em que me encontrava. Com os corpos curvados, executávamos a vénia do minuete, unidos por diferentes razões: ela querendo levantar-me e eu apenas querendo-a. 
– Está louco!… O Barão matava-me! 
Libertou-se e dirigiu-se para o palacete. Segui-a, balbuciando argumentos que não recordo e que ela ignorou. A separação física arrefeceu-me a alma e senti o frio da noite nas entranhas. Tínhamos entrado no palacete e paramos frente a uma porta. 
– É aqui.  
Ela entregou-me a vela e fechou a porta atrás de mim. A porta fechou-se também sobre ela: a sua imagem desvaneceu-se. Deitei-me sobre a cama e adormeci profundamente. 
Sonhava com o Barão a dançar no meio de uma grande confusão. Os berros e as pancadas insistentes acabaram por me acordar. Soergui-me sobressaltado. Ainda meio ensonado, senti os olhos arderem: estava rodeado de fumo. Sentia-me como uma chouriça no fumeiro, invadido de fumo por dentro e por fora. Olhei à volta e constatei que o quarto estava em chamas. O pânico tomou conta de mim. Do lado de fora o Barão e a criada esgrimiam argumentos 
– Deixe o homem descansar! Ele está a dormir. 
Joguei-me contra a porta, sem perceber porque esta não abria, ao mesmo tempo que gritava.  
– Fogo. O quarto está a arder! 
O fumo calou-me a voz prostrou-me. De joelhos no chão estava rendido! 
A porta caiu com estrondo e o Barão veio atrás, aos tropeções e numa grande agitação. Idalina apagou o fogo, ateado pela vela, que eu tinha deixado acesa e arejou o quarto. Tudo feito com uma calma impressionante. Ele pegou-me pelo braço e levou-me para o corredor. Sem cerimónia, fui arrastado até ao salão. O abraço surgiu de forma inesperada selando o reencontro. 
– Deves-me a vida! 
– Devo-te a vida… 
Celebramos. O champanhe jorrou novamente e os brindes sucederam-se. Brindamos a tudo, unidos pelo momento de perigo que nos aproximou. Expusemos a nossa alma em confissões raras. Perante o risco da vida o risco da partilha tornou-se insignificante. Talvez depois venha o arrependimento mas o importante é o momento. Com os olhos marejados brindamos num agradecimento mudo e mútuo. 
– Vamos. 
Enfiou o braço no meu e arrastou-me sem esperar uma resposta. Entramos e saímos de vários espaços, até sairmos para a rua. O choque do ar frio provoca-me um arrepio. A noite parece povoada de fantasmas: uma noite hostil. A determinação do Barão indicava que conhecia o destino, mas os nossos passos pareciam erráticos. Caminhamos por debaixo das árvores, curvando-nos perante os ramos mais baixos e sentindo as ervas lamber-nos as canelas, sempre à volta da casa. 
– É aqui. 
Depois de ter colhido algumas violetas, acompanhado dos cães que o idolatravam, abandonou-as. 
– As violetas são piegas! 
Ele procurava agora uma rosa. Eu também colhia rosas, a esmo, sem motivo para tal. Enquanto isso disserto sobre o amor, num delírio errático. «O amor é uma tragédia sem nexo.» Exponho-me. Evidencio o risível… «Se é que o amor tem nexo!». O Barão continuava a sua busca. Os olhos vivos e a expressão concentrada estão focados em algo: ele sabe o que é mas não onde se encontra.  
Erguendo o botão de pétalas brancas na sua plenitude e pronto a desabrochar, gritou: 
– É como ela! 
Apesar da escuridão, o brilho dos olhos e a luz que lhe invadiu o rosto é visível. Dir-se-ia que ficou vinte anos mais novo, ou que um enorme peso saiu de cima dele. Comtempla a rosa como uma visão celestial! Baixou o rosto num movimento semelhante ao murchar de uma flor. Depois sem dizer nada começou a andar. Segui-o. Sem que nada o indicasse estancou e virou-se para mim. 
– Já quis fugir com ela… Agora já não quero. 
Fez uma pausa e depois disse com a melancolia no olhar e a tristeza frisando-lhe a voz. Mas num estado de êxtase: 
– Têm medo de mim… 
A expressão de uma tristeza infinita marcou-lhe o rosto e o capote puxou-lhe os ombros para baixo. Confidenciei que as mulheres deveriam ter medo de nós. «Uma mulher de quem um homem não tenha medo não presta para nada.» Disse, fazendo uma pausa. «És um simples!» 
Continuamos. 
Caminhávamos lado a lado e em silêncio. Voltei a sentir um arrepio. A escuridão oprimia-me deixando-me desconfortável. De súbito o Barão volta para trás e solta um berro terrível! 
– Quem vem Lá! 
Os cães fugiram assustados e eu estremeci.  
Fui ter com ele. Não se via vivalma. Olhei-o interrogadoramente e ele fez-me um sinal. 
– Sht! 
Fiquei especado a olhar para ele. Com a ferocidade de quem ataca um inimigo, sacou da pistola e deu seis tiros na direção onde tinha identificado o ruído. Aquilo despertou-me. Fiquei em estado de alerta. Continuamos a caminhar. Por sugestão ou não, eu agora ouvia uns estalidos vindos do meio das árvores. «Eram os criados.» Tinha dito o Barão, mas eu pressenti outra coisa. Instintivamente apalpei a pistola que levava no bolso. 
As palavras brotavam da boca do Barão como se algo o impelisse a falar sobre o assunto. Tinha perdido o controlo sobre a loquacidade e o passo rápido com que se movia era de um autómato. 
– Odeias alguém? – Em tom complacente: – Não amas nem odeias. Julgas que isso é viver? 
Continuou 
– Gostaria de ser como tu: guardar ou até esquecer… mas não consigo. Vivo tudo outra vez… o ódio… – gargalhou com sarcasmo. – O meu pai odiava-os: ao pai dela não a ela. O ódio matou-me … Sim, isto não sou eu! E ela pura, num vestido longo, cor-de-rosa, os cabelos num novelo sobre a nuca, a sair do salão… Foi a última dança! 
O Barão declamava o poema da sua desventura. Numa construção errática, entrecortada pelo álcool: enaltecia e enxovalhava. O tom dramático aumenta o meu desconforto. Olho à minha volta mas não vislumbro ameaça que suporte o sentimento funesto que me invade. Chegamos junto a um grande portão, pendurado em altos muros. O Barão olhou-o em êxtase. 
– O amor salva-nos mas em seu nome podemos perder-nos. Eu perdi-me, fiz-me outro, para ela não ser tão infeliz. Perdi-me por amor… Isto são bravatas de um cordeiro manso. Se tu pudesses conhecer o leão de outrora… Um dia conto-te tudo… hoje não, que estou bêbado. 
Os cães juntaram-se ao diálogo: os de dentro ladravam furiosamente e os de fora respondiam. Ele queria que eu os segurasse. Impossível: eles eram quatro. Amarrou os cães com um arame que desencantou no meio da escuridão. 
– Ficas aqui! – Disse ele. 
Mostrou-me a rosa ainda intacta. Nessa altura já estava lúcido o suficiente para aquilo me parecer uma idiotice. Dirigi-lhe uma gargalhada. O Barão ficou irritado e empurrou-me. Apanhado desprevenido, caí como uma pedra. Ainda meio confuso com a situação, senti o farejar canino e o consolo áspero das suas línguas, que me lambiam o rosto: era o ósculo da consolação. Levantei-me e procurei o Barão. Tinha desaparecido. Do outro lado do muro vozes humanas juntaram-se ao coro dos cachorros. Sem conseguir identificar a razão, isso deixou-me apreensivo. Saí desaustinado em busca do Barão. Queria confrontá-lo. De expressão determinada e sem olhar a esforços, lancei-me no seu encalço, como quem persegue uma fera. Depois de muitos tropeções nos regos da lavrada e de ser fustigado pelos ramos pendentes das imensas árvores, senti que estava perdido. Mas do Barão nem rasto. Senti o manto da noite apertar-me num abraço trucidante. Porque razão estava ali? 
Depois de muitas voltas, cansado e com o suor a escorrer em barda, encontrei-me de novo no caminho. Sento-me. No silêncio da noite o som longínquo do ladrar dos cães e dos tiros soa de forma lobregue. Estremeço. Sinto algum conforto ao segurar a pistola e poiso-a a meu lado. O esforço esgotou-me mas fez-me aclarar as ideias, talvez porque o efeito do álcool se desvanecia à medida que a madrugada se anunciava. Fumo um cigarro. A memória de quando me perdi na quinta da minha avó a jogar às escondidas, quando tinha treze anos, assalta-me.  
Onde estaria o Barão? Senti que o tinha desiludido. Ele precisava da minha ajuda e eu abandonei-o. Levanto-me e começo a andar estrada fora. A imagem do Barão de rosa na mão não me sai da cabeça. Tem a nobreza de um cavaleiro de lança em riste que se prepara para uma batalha. Os seus desígnios são no entanto ainda confusos para mim. 
Sozinho, sob um manto de estrelas que se desvanecem, canto num tom que reflete um sentimento que oscila entre o medo e o épico. 
Algures, o Barão, de rosa apertada entre os dentes, ostentando a nobreza de um cavaleiro do Santo Graal, escala o muro da torre para resgatar a sua bela adormecida… 
Começo a ficar cansado. Sinto que me afasto cada vez mais do solar do Barão e da aldeia. Decido voltar para trás. A noite começa a dar lugar à madrugada e o meu corpo recusa-se a andar mais. As pernas arrastam-se movidas mais pela vontade do que pela força. Numa curva da estrada deparo-me com um moleiro, com o burro carregado de sacos. O rosto do moleiro, contorcido pela expressão de incredulidade, é banhado de súbito por um sorriso irónico. Nada do que lhe digo parece fazer sentido. No fim chegamos a acordo e compro—lhe o burro. Montado no jumento dirijo-me para o solar. 
Já o sol ia uma vara de alto quando cheguei ao solar. O rosto do criado que me recebeu era simultaneamente de espanto e de alívio. 
– Ah! Vossa Exa?… Ainda bem. Deus meu! 
O solar parece-me completamente diferente. As paredes de perpianhos simétricos e limpos, dão-lhe uma nobreza que a noite escondia com o seu manto de breu. O sol reflete-se nestes transmitindo uma sensação de calor reconfortante. A meu pedido o criado conduz-me até ao Barão. O seu ar fechado e sério contrasta com a alegria do sol penetrando pelas janelas. 
O Barão estava ferido: tinha um tiro no ombro e uma fratura no crânio.  
Parti. Para trás ficava uma sequência de imagens: o Barão estendido na cama do quarto, dentro do palacete iluminado pelo sol, que as montanhas iam escondendo da minha vista. 
Recebi notícias dele. Esperava a minha visita. Sim Barão voltarei um dia para sob um manto de estrelas irmos depositar botões de rosas na janela da sua bela adormecida.

O Barão, de Branquinho da Fonseca, rescrito por Manuel Mota 

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