VIRGEM

VIRGEM

Antonio disfarçava a sua timidez junto das mulheres com o seu ar brincalhão, sendo até bastante popular. Apesar disso, aos vinte e três anos de idade, nunca tinha tido estado intimamente com uma mulher. Isso não era muito comum, considerando que pertencia a uma geração que tinha nascido no início da década de sessenta. Quando tudo aconteceu frequentava o quinto ano do curso de Engenharia Mecânica do Instituto Superior Técnico e decorria o ano de 1986.
Ao longo da vida, tinha suscitado várias paixões e tinha-se apaixonado várias vezes, mas sempre envolvendo as pessoas erradas. António era um perfecionista ou não fosse ele um virgem, de signo e não só. Devido a um problema que tinha tido na adolescência, tinha ficado dois anos sem estudar, o que fazia dele, normalmente, um dos alunos mais velhos da turma. Os que não o conheciam e associavam a sua idade a uma falta de capacidade ou dedicação ficavam surpreendidos: ele era, por regra, o melhor e o mais dedicado dos alunos. Era um jovem oriundo do interior norte do país, que apenas tinha saído do seu distrito para ir à inspeção militar ao Porto, ou para umas excursões a Fátima, o que fazia dele um provinciano, mesmo ao fim de quase cinco anos a viver em Lisboa. Era simpático, divertido (um inveterado contador de anedotas), alto e bem parecido. Era claramente um jovem que sobressaía entre os demais e alvo da atenção das mulheres. Era, portanto, incompreensível e pouco verossímil que nunca tivesse estado com uma mulher. Aliás, a sua fama atestava o contrário.
No seu íntimo ele sofria com a situação. Tinha uma fama que não correspondia à verdade, apesar de estar sempre rodeado de mulheres e dos namoricos de curta duração. Mas, mais do que a fama não justificada, o que o frustrava era o facto de não ter conseguido estar intimamente com uma mulher. Satisfazia-se muitas vezes a pensar nelas e tinha, ocasionalmente, sido satisfeito por algumas, manual ou oralmente, mas sempre de forma bastante insipida: nunca tinha envolvido amor!
Este era o estado de espírito quando conheceu a Fátima. Nesse momento tudo mudou. O mundo das relações, com o sexo oposto, tal como ele o conhecia, ficou virado do avesso. Ele amava aquela mulher! Mas acima de tudo, bastava pensar nela para ficar excitado e quando ela lhe tocava, num beijo ou numa carícia, milhares de sensações explodiam dentro do seu corpo. Ela era um pouco fria, mas os poucos carilhos que lhe dispensava eram o seu mundo. Um mundo de amor e de prazer que o traziam completamente nas nuvens. Ele não via mais ninguém, nem queria saber de mais nada. Vivia com afinco a sua primeira grande paixão. O seu primeiro grande amor. Ele já tinha gostado de outras mulheres, mas o sentimento que o invadia quando pensava nela ou quando a via era algo completamente novo: simultaneamente maravilhoso e doloroso. Sim, quando ela dava atenção a alguém isso doía-lhe. «Então isto é que são os ciúmes?» Pensava.
Estavam em pleno inverno e ela quis ir ao cinema ver um filme de terror: O Poltergeist. Não era o seu género de filme, mas não lhe podia dizer que não. Viram o filme no centro comercial de Alvalade, na sessão da meia noite. Uma noite invernosa. Quando saíram a chuva tinha parado mas o vento gelado teimava em despir-lhes os Melka. Ela vivia nas vivendas do bairro de Alvalade, por trás da Igreja, por isso foram a pé. Ele queria muito estar com ela, mas, percebendo essa ansiedade, ela fazia o seu jogo, adiando o momento. Quando chegaram à porta de casa ele pensou que ia entrar, mas ela disse que não podiam porque os pais estavam lá. «Estranho, ela tinha dito que não!» Pensou.
Ele beijou-a e ela agarrou-o com voracidade. Beijaram-se como se não houvesse amanhã. Os olhos dela prometiam o paraíso e as mãos ajudavam, acariciando-lhe as partes íntimas. Ele imitou-a. Os seios dela eram macios e deliciosos. Estavam intumescidos e o com os mamilos rijos e espetados. Depois de os acariciar beijou-os. Ela oferecia-lhe o corpo sem reservas. Ele acariciou-lhe as partes íntimas e ela gemeu entregando-se a um delírio que o deixou completamente louco. Ele usou os dedos com mestria, tal como tinha visto nos filmes. Ela deixou-se levar até que o corpo começou a tremer e os gemidos aumentaram de intensidade. Subitamente, apertou-lhe, violentamente, a mão com as coxas, estremeceu e depois parou e afastou-o.
«Os meus pais vão acordar. Tenho de entrar!» Disse ela.
Ele encostou-se a ela mostrando-lhe o quão excitado estava, mas ela ignorou-o. Quando ela entrou ele partiu. Vivia na residência
Alfredo Bensaúde e ia a pé para casa. Foram os dez minutos mais longos da sua vida! Agora que apenas o escuro da noite o acompanhava, vieram-lhe à memória as cenas do filme. O vento uivava de forma sinistra. Tudo à sua volta eram  sombras suspeitas e ruídos estranhos. O som dos plásticos, com os quais o vento brincava caprichosamente, os gatos em lutas territoriais para obter domínio sobre as fêmeas ou o simples aumento da intensidade do uivo do vento, numa esquina. Foram várias as vezes em que deu saltos e gritos de susto. Apesar disso, a rua estava completamente deserta. Ele caminhava apressado, com os cabelos da nuca eriçados, tentando evitar que o medo o tolhesse. Apenas quando fechou a porta do quarto atrás de si conseguiu relaxar. Foi nessa altura que sentiu o quanto lhe doíam as pendurezas. Estavam tão cheias que tinham dilatado. Imaginou os dois nus numa cama, entregando-se um ao outro e o problema ficou resolvido em segundos.
Finalmente aconteceu. Foram dançar, coisa que ela não gostava muito, por isso António cansou todas as mulheres do grupo. Fátima tinha gostado de o ver dançar com as amigas, em movimentos sensuais, ao ritmo de músicas latinas ou africanas.
«Hoje temos a casa só para nós.» Disse Fátima, com um ar sedutor.
António estava em ponto de rebuçado. Ficaram nus. Ela era linda! Para ele ela era a mulher mais linda do mundo. Era a sua primeira vez e ele estava um pouco nervoso, embora procurasse escondê-lo. O contacto dos corpos deixou-o num estado de excitação que quase encerrou o assunto. Ele conseguiu controlar-se. Depois de várias tentativas, disfarçadas como jogo destinado a excitá-la, ele encontrou o caminho. A sensação da penetração foi algo indescritível. O membro foi abraçado por um manto de seda quente que palpitava em seu redor. «Meu Deus. Eu não aguento mais!» Pensou. Ainda tentou sair de dentro dela para se controlar, mas era tarde demais. Explodiu de prazer! Depositou, em abundância, em solo não fértil, a semente da vida. O problema era que ela ainda estava a meio caminho do clímax. Ele ainda tentou utilizar as últimas forças para a satisfazer, mas já não foi suficiente. Foi um falhanço total. António estava inconsolável.
«Realmente depois de tanto entusiasmo confesso que foste uma desilusão!» Disse Fátima.
Aquelas palavras foram uma sentença de morte. António era um homem orgulhoso e as palavras dela secaram-lhe o coração. Ele olhou para ela com uma expressão desolada. A humilhação estava estampada no rosto de uma forma indisfarçável. Permaneceu mudo.
 «Como é óbvio isto foi a tua primeira vez, mas isso não serve de desculpa. Se não resolves o problema de ejaculação precoce nunca satisfarás uma mulher.»
A relação terminou ali, mas as suas marcas ficaram. António tinha ficado traumatizado. «Será que tenho mesmo um problema de ejaculação precoce?» Interrogou-se vezes sem conta. A resposta viria no verão seguinte. No início do verão ele conheceu uma mulher, com trinta e cinco anos, que estava divorciada e à procura de aventura. Ele abriu-se com ela e ela prometeu ajudá-lo. No final do verão ele percebeu que o que tinha era falta de experiência, uma experiência entretanto adquirida, graças à “amiga”. Ela fez dele um homem.
A sua autoconfiança multiplicou, exponencialmente, o sucesso com as mulheres. A sua vida sexual tornou-se intensa, variada e fisicamente exigente. Ele chegava a estar com três mulheres diferentes, numa mesma noite. Durante vários anos esse tipo de vida alimentou-lhe o ego e secou-lhe o físico. Depois cansou-se. Queria encontrar o amor mas o que lhe batia à porta era sexo. Durante algum tempo procurou-o ativamente, em cada cara conhecida, ou nos novos conhecimentos, mas foi em vão. Parecia que quanto mais o procurava mais longe estava dele. Acabou por perceber que isso tinha de acontecer de forma mais natural. Foi assim que deixou de se preocupar com o assunto.
O amor atingiu-o como um raio sobre a forma de partilha de um coquetel. Numa festa, de fim de ano, depois de alguns copos, ele começou a dançar com a prima de um amigo, que ele não conhecia, e com quem já tinha embirrado uma ou duas vezes, nessa noite. Alguém colocou na mão dela uma bebida com uma palhinha, pela qual ambos beberam. Foi como um feitiço: ficaram agarrados para a vida.

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