CARTA DE AMOR – Amor atrevido



AMOR ATREVIDO

O choque foi inevitável. Alguém chamou pelo meu nome e eu não hesitei. Convencido de que era o único Pedro do mundo, virei-me de repente. Involuntariamente, joguei-te contra a parede. Fiquei de todas as cores e de nada valeu a presença de espírito com que corri em teu auxílio, para reduzir o meu embaraço. Tu olhaste para mim com um misto de supressa e desagrado, mas quando percebeste a razão do meu inusitado rodopio sorriste. A expressão de gozo era tão óbvia que que corei não só na face, mas no corpo todo. Balbuciei uma desculpa e tu afastaste-me com um aceno. A tua beleza apenas contribuiu para aumentar a minha atrapalhação. Fiquei a ver-te afastar embevecido. Tinha caído na tua rede!
A noite apenas tinha começado e, apesar de não saíres do meu pensamento, procurei divertir-me. A pista da discoteca estava apinhada de gente e qualquer movimento mais largo resultava em pequenos choques. Senti o ombro enfiar-se nas minhas costas, com surpresa e alguma dor. Virei-me e corei de novo. O teu sorriso maroto denunciava o autor do encontrão. Tinha sido propositado. Fitámo-nos e, sem necessidade de palavras, começamos a dançar um para o outro. Era como se fossemos as únicas duas pessoas no mundo. Os nossos olhares, as nossas mãos e, sobretudo a expressão corporal, falavam por nós. A atração era fatal e o contacto desejado e consentido. No entanto, sempre que tentava segurar-te, tu rodopiavas e afastavas-te, apenas para te aproximares novamente, de forma insinuante e provocadora. Era o jogo do rato e do gato. Eu pensava ser um jogador profissional, mas junto de ti senti-me um mero aprendiz.
Em voltas e contravoltas nós tocámo-nos, acariciámo-nos, sempre com uma leveza tal que fazia de cada contato uma descarga elétrica de grande potência. Quando seguraste na minha mão eu fiz-te rodopiar de encontro a mim. O contato dos teus seios com meu peito atingiu-me como um raio. O meu braço segurou a tua cintura e o beijo foi inevitável. Tu não precisavas que te prendesse. A entrega foi total. Senti os teus quadris fundirem-se com os meus e trocarem mensagens de um desejo animal. Nada mais existia, ninguém mais interessava. O mundo tinha parado. Apenas os nossos corpos, esfregando-se um no outro e as nossas mãos, acariciando o corpo do parceiro, pareciam mexer-se. Fuzilamo-nos com o olhar, pleno de desejo. Um desejo mudo e ensurdecedor. Peguei na tua mão e tu seguiste-me para um dos recantos da discoteca. Fomos para trás das cortinas, cortesia da nova decoração, e entregamo-nos um ao outro, sem reservas nem pudor. Dois corpos desconhecidos que se fundem por detrás de uma cortina: Foi um momento estranho, mas mágico. Eu não conseguia parar de te beijar e acariciar. Queria fundir-me contigo, para a eternidade, mas o futuro tinha ideia distinta. Quando o fogo começou tu tinhas ido satisfazer outras necessidades e eu entrei em pânico. Movimentei-me contra a maré, que corria para a porta, numa tentativa desesperada de te encontrar. Quando os bombeiros entraram era a única pessoa que estava no espaço e gritava o teu nome, com os olhos cheios de lágrimas e o peito de dor. O fumo queimava-me os olhos e sufocava-me a garganta, mas a tua ausência dilacerava-me por dentro. Era essa a verdadeira razão das minhas lágrimas. Perdemo-nos um do outro e a única coisa que sabia de ti era o nome: Ana.
Procurei-te em vão por todas as discotecas e bares da cidade. Durante seis meses procurei-te sem descanso. Afastei todas as mulheres da minha vida e dediquei-me a ti. Tu eras a minha causa. Tu eras a minha vida. Eu sem ti não conseguia viver. Finalmente, rendi-me. Não tinha deixado de te amar, sim porque eu sentia que te amava acima de tudo e de todos, mas deixei de ter esperança em encontrar-te. Decidi frequentar uma zona diferente da cidade. Aquela era a tua zona e eu não queria la estar sem ti. O toque no ombro acordou-me da minha letargia.
«Tu és o Pedro, não é verdade»
Levantei a cabeça e olhei para a jovem que falava comigo. O rosto dela era vagamente familiar, mas não saberia dizer quem era. Acenei afirmativamente e ignorei a jovem.
«Apesar de estar afastada de ti a Ana não conseguiu esquecer-te»
Dei um salto na cadeira e segurei a jovem pelos ombros com tanta força que a magoei. Quando percebi isso, pela expressão dela, relaxei.
Falamos sobre a noite fatídica. A tua amiga diz que ficaste ferida e que não queres ver ninguém. Eu preciso de ter ver. A tua amiga prometeu-me que te entregaria esta carta, mas isso para mim não é suficiente. Eu preciso de ti na minha vida! Eu quero estar contigo e, seja qual for o ferimento com que ficaste, eu quero estar ao teu lado, para te ajudar a recuperar. Deixa que o meu amor ajude a sarar as tuas feridas. Deixa que os meus olhos te mostrem a sinceridade dos meus sentimentos. Deixa-me amar-te.

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