O BAILARICO


O BAILARICO
A festa tinha começado na sexta feira, mas domingo era o dia mais forte. A tradição ditava que todos os anos, no último domingo de Agosto, se celebrassem as festividades em honra de Santa Maria. A procissão tinha terminado às quinze horas e o baile começou logo de seguida. Os jovens estavam ansiosos por rodopiar no recinto, exibindo os seus dotes e os mais velhos desejosos de os observar. O ponto alto seria à noite, com a atuação de uma banda conhecida, mas enquanto isso não acontecia, o povo divertia-se ao som do Piqué.
Tudo acontecia de acordo com um ritual próprio, sem necessidade de mestre-de-cerimónias. As pessoas iam chegando, jovens e velhos e procuravam um lugar em volta do recinto, que mais não era que o largo em frente à capela da aldeia. Os mais velhos ficavam encostados às paredes ou sentados onde podiam, fazendo um círculo imperfeito, com os mais novos à sua frente e já dentro do espaço onde se dançava. Os pares de namorados, casais, ou de raparigas amigas, mais desinibidos, começavam logo a dançar. Os restantes, na sua maioria rapazes ficavam na expetativa. Elas, à espera de ser convidadas para dançar e eles mirando uma oportunidade: ou se juntavam a um amigo e iam separar duas moças, que dançavam juntas, ou convidavam uma das moças que se tinha reservado. Era um jogo avanços e recuos, feitos de sinais e num diálogo surdo. Os pais que não dançavam e os avós, observavam e comentavam. Eles tinham um papel importante: seriam os relatores dos eventos da noite, o senhor padre chamava-lhes coscuvilheiros, mas o que sabia ele destas lides? Eles eram também, sobretudo as mães, a primeira barreira ou os catalisadores de uma relação.
Era dia de festa! Isso significava diversão para uns e bebedeira para outros, que não deixava de ser uma forma de diversão. Mas era sobretudo o momento para as gentes das aldeias se mostrarem. O largo estava à pinha, pois tinham-se juntado ali, todas as pessoas das aldeias da freguesia e mesmo de outros locais vizinhos. Vestiam a sua melhor farpela e exibiam ouro, joias e outros adornos numa mensagem clara: Eu posso! As jovens mais vistosas exibiam o corpo com roupas justas ou demasiados curtas para o cobrir completamente. Valia tudo para se brilhar! Como habitualmente existiam aqueles ou aquelas que devido à situação familiar ou à sua posição não precisavam de se esforçar para conseguir a atenção dos restantes. Era o caso de Acácio. Nascido numa família abastada tinha sido bafejado pela sorte. Não era um rapaz vistoso, pois tinha apenas um metro e setenta e três, mas era um aluno brilhante, dos poucos que frequentava a escola industrial, era catequista, responsável pelo grupo de teatro amador da aldeia e um dos jovens que lia as leituras de domingo. A maioria das jovens da aldeia sonhava ser namorada dele, mas, por mais estranho que isso lhes pudesse parecer, ele não estava interessado em nenhuma delas. Elas não sabiam, mas ele tinha namorada na cidade.
Quando Acácio chegou o recinto já estava cheio. Foi passando pelo meio das pessoas sem encontrar um grupo com quem lhe interessasse ficar.
«Boa tarde Acácio. Podes dar-me uma ajuda?»
O sargento era um homem corpulento. Associava à elevada estatura uns ombros largos e uma pança de dimensão respeitável. A pequena aldeia, do sopé do Alvão vivia na sua sombra. Mais por medo do que por respeito ninguém fazia frente ao sargento. Acácio tinha percebido isso em dois momentos distintos. A primeira vez, Acácio tinha tido o atrevimento de ir à aldeia do sargento ter com uma moça, que conheceu na escola indústria. Quando chegou à aldeia e pediu indicações sobre a residência da moça percebeu logo que estava em maus lençóis. A intenção do grupo que o rodeou não era clara, mas não parecia nada boa. Primeiro começaram os empurrões e a provocações. Acácio procurou manter-se calmo. Sabia que no momento em que levantasse um dedo cairiam sobre ele com uma alcateia de lobos esfaimados. Um empurrão mais violento quase o levou ao chão. Acácio virou-se com o corpo contraído e as pernas fletidas. Estava em posição de ataque. Fez-se silêncio. Um silêncio pesado e tenebroso. Era o silêncio que antecedia a batalha.
«Que raio se passa aqui?»
A voz parecia um trovão o soou com uma autoridade que funcionou como um balde de água gelada. Os jovens que o rodeavam afastaram-se, com o rabo entre as pernas, mas ficaram atrás do homem. Parecia um exército atrás do seu general. Os rostos deles refletiam um misto de medo e de expetativa. Apesar do homenzarrão que tinha na sua frente o olhar de Acácio caiu sobre a jovem que o acompanhava. O detalhe não passou despercebido ao homem que lhe lançou um olhar duro e levantou a mão preparando-se para o admoestar. Mas o homem que parecia ser o dono da aldeia, tinha um ponto fraco: a sua filha Júlia.
«Olá Acácio.» Disse a jovem, avançando para ele e dando-lhe dois beijos na face.
O homem conteve a sua ira e ficou boquiaberto a olhar para os dois. Foi assim que ele conheceu o sargento Agostinho. O grupo de jovens afastou-se contrariado. O estranho passou a ser intocável. Em muitas das aldeias do norte esse era um privilégio que apenas se conseguia ao fim de algum tempo de convívio e com alguns custos. Tinha sido tudo muito rápido. Júlia, a filha do sargento, era uma das amigas que ele já tinha ajudado várias vezes.
A segunda vez que o encontrou foi quando a equipa de futebol da aldeia de Acácio foi jogar contra a aldeia do sargento. Os ânimos exaltaram-se e Acácio começou a ver as coisas mal paradas, sobretudo quando começaram a ganhar. Júlia, que estava a assistir ao jogo foi chamar o pai. Mais uma vez ele mostrou o poder que tinha sobre as gentes da aldeia.
Embora, neste caso, estivesse fora da aldeia, o sargento não perdia a arrogância. Acácio achava-lhe piada, sobretudo porque desta vez o homem estava no seu terreno. A verdade é que estava em dívida para com ele; o homem tinha-o livrado de uma alhada, por duas vezes.
«Como está sargento Agostinho.»
«Está tudo bem. Conheces aquele rapazote que anda a rondar a minha filha?»
O sargento não se referia a Júlia, mas à irmã mais velha. Júlia era bem menos vistosa que a irmã, mas bem mais inteligente e sensata. A irmã gostava de provocar os rapazes, consciente do poder que o corpo perfeito e o rosto bonito lhe conferiam, sobre eles. Por vezes isso dava mau resultado!
«Conheço.» Disse Acácio, de forma cautelosa.
O sargento não estava muito feliz com o facto do jovem estar a insistir em dançar com a filha apesar das recusas dela. Fazia tudo parte do jogo da conquista, mas ele achava aquilo uma falta de respeito, embora sem qualquer razão, porque o jovem, apesar de atrevido, não tinha faltado ao respeito à filha. Entretanto, o sargento começou a fazer ameaças em voz alta, procurando a concordância do jovem Acácio que, apesar de não dizer nada, se manteve por ali. O sargento gesticulava de forma visível procurando cativar a audiência. A verdade é que à volta dele se tinha juntado um grupo de jovens entre os quais estavam dois irmãos e um primo de Acácio. O primo, um jovem corpulento e um pouco mais velho, tinha uma bengala na mão e sorria de forma estranha, cada vez que o sargento ameaçava o pretendente da filha.
O sargento estava tranquilo pois percebeu que Acácio conhecia bem os jovens que o rodeavam, no entanto, começou a estranhar que o resto das pessoas se mantivesse um pouco afastadas. Isso fez com que se acalmasse um pouco. A verdade é que não estava na sua aldeia, por isso tinha que ter cuidado. O pai de Acácio, que também andava por ali, percebeu a agitação decidiu ir ver o que se passava para os filhos se terem juntado à volta do sargento. Ele conhecia bem o homem e a sua fama. O sargento também sabia bem quem era o pai de Acácio e a importância que ele tinha na aldeia, por isso foi com alívio que o viu aproximar-se.
«Então o que se passa sargento Agostinho?» Disse o Sr. Alberto, quando se aproximou.
«Está tudo bem, tirando aquele fedelho que está a importunar a minha filha.»
Nessa altura já o jovem estava a dançar com Teresa, apertando-a bem contra si, enquanto ela fingia que isso lhe desagradava.
«Por acaso o senhor Alberto não sabe quem ele é. Eu tenho estado aqui a conter-me para não lhe dar um par de estalos e estes jovens são minhas testemunhas.»
O senhor Alberto olhou para ele de forma dura e frontal.
«O fedelho em causa é um dos meus filhos.»
«O que? Pois não imaginava. Olhe que ele esteve quase a sentir o peso da minha mão e estes jovens estavam todos do meu lado. Não é verdade Acácio?»
«O que o sargento Agostinho não sabe é que o Acácio também é meu filho e aqueles dois ali também.»
O sargento Agostinho virou-se e deu de frente com o jovem da bengala e ficou a olhar para ele.
«Esse é meu sobrinho.»
Naquele momento ele tomou consciência que tinha estado o tempo todo rodeado pelos irmãos e primos do jovem que tanto criticara. Ainda bem que não tinha avançado para ele, pois teria sido abatido, sem dó, mal desse um passo. Ele já vira o jovem da bengala usá-la umas quantas vezes. Era letal!
«Ninguém pode levar a mal por querer defender a minha filha.» Disse o sargento de forma contida, mas querendo sair for cima.
«Se alguém tentar fazer mal à sua filha acho bem que a defenda. Se a sua filha não pode dançar com os outros jovens que fique em casa. Quanto a si aconselho-lhe mais prudência pois quando se está em terra alheia nunca se sabe bem donde elas podem cair!»
O sargento, consciente do risco que corria, afastou-se dali fazendo sinal à filha que o seguiu contrariada.

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