A JORNALISTA | PARTE IV | CAPÍTULO 3


4.3 – O Assalto
Scott estava desnorteado. Tinha perdido tudo: as armas e os homens. Tinha recebido a notícia do despiste do camião, ainda os homens estavam debaixo de fogo, mas depois perdeu o contacto com eles. A polícia mantinha a operação em segredo, por isso não sabia se alguém tinha sobrevivido. O pior era que não sabia que informações os homens tinham dado à polícia. Tinha de ser cauteloso e não frequentar nenhum dos locais habituais. Refugiou-se no apartamento da Alta de Lisboa. Já lá tinha estado várias vezes, sempre com a identidade que iria utilizar, por isso o seu regresso não levantaria suspeitas. Precisava de pôr as ideias em ordem!
A polícia judiciária tinha desencadeado uma verdadeira caça ao homem. Mónica Fonseca tinha dado aos colegas todas as informações sobre o americano e eles tinham passado a pente fino e zona entre Sines e Lisboa. Nada. Era possível que o americano já tivesse abandonado o país. Apesar disso, mantinham-se no terreno vários agentes e a PSP tinha sido informada dos dados do homem. Ele tinha-se tornado no criminoso mais procurado em Portugal.
Scott estava deitado de costas no sofá da sala a ouvir as notícias ao mesmo tempo que monitorizava várias frequências da polícia para tentar perceber qual era a situação. Tinha pelo menos uma vantagem: a identidade que assumira, iria permitir-lhe mover-se com alguma tranquilidade. Apesar disso, não fazia sentido correr riscos desnecessários, por isso saía o menos possível de casa. Precisava de um plano. A perca das armas tinha sido um golpe muito rude. Não se tratava apenas de uma questão financeira, embora essa fosse pertinente. Estava em causa a sua competência para estar no negócio. Mesmo que ele conseguisse pagar as armas, que a polícia tinha apreendido e evitar uma penalização drástica e definitiva, nunca mais ninguém do ramo confiaria nele. O negócio era muito lucrativo e ele necessitava desse lucro para levar a cabo o projeto de domínio da LTCBK. A única forma de se manter no negócio era, portanto, para além de suportar os custos do desastre, obter uma vantagem sobre o decisor final. Felizmente, ele tinha descoberto, de forma fortuita, que existia algo muito importante, para a misteriosa personagem, que era muito provável que estivesse na posse do Chef Walker ou da sua advogada e respetivo investigador, embora, o mais provável era eles não fazerem ideia de que a possuiam. Falhada a tentativa de obter isso através de um contacto direto restava a hipótese de entrar, de forma discreta, no escritório de cada um deles. Isso apenas poderia ser feito a coberto da noite e sem contar com o apoio dos seus homens, pois os que não estavam mortos estavam presos. Tinha na sua agenda meia dúzia de contactos que, noutras circunstâncias, poderia utilizar, mas, dada a frágil situação em que se encontrava, preferia não recorrer a eles. Faria o serviço sozinho.
Para minimizar a probabilidade de ser apanhado, a operação teria de decorrer entre a meia noite e as cinco da manhã e deveria visitar os dois locais na mesma noite. Usando um disfarce e uma terceira identidade, preparou-se para a operação. O aspeto de sem abrigo garantia que as pessoas se mantinham afastadas, até as autoridades. Apanhou a linha amarela e saiu no Saldanha. Faria o resto do percurso a pé. Os escritórios não ficavam muito longe um do outro o que lhe permitiu fazer várias rondas à vizinhança dos dois, no espaço de uma hora. Começou pelo escritório do detetive particular.
Ultrapassou o obstáculo da porta da rua com facilidade, depois de ter gaseado o hall e colocado o segurança a dormir. Quando entrou endireitou-o na cadeira de forma a não se perceber, do lado de fora, que dormia. Ele já tinha em tempos preparado um plano para assaltar os dois escritórios e sabia que nenhum deles tinha alarme. O que ele desconhecia era se existia algum outro dispositivo de segurança, no interior, que fosse ativado pela presença humana. Entrou com todo o cuidado e depois de estar lá dentro ficou alguns instantes quieto, aguardando que algo acontecesse. Estava tenso, imóvel na penumbra, como um felino pronto a desaparecer ao menor sinal de perigo. Nem um som. Podia avançar. Revirou os papéis sem qualquer cuidado e rebentou as gavetas vasculhando o seu interior. Nada. Entretanto o sistema de identificação da palavras-chave, que tinha inserido no computador, deu sinal. Tinha ganho acesso ao disco rígido. Copiou o disco sem se preocupar em ler o que lá estava. O cofre deu-lhe mais trabalho. Depois de várias tentativas lá conseguiu entrar. Foi um trabalho inglório. Ali não existia nada que lhe interessasse. Ao fim de duas horas e meia deu o trabalho por concluído e partiu.
No escritório da advogada as coisas não correram tão bem. Logo depois de ter entrado, utilizando basicamente o mesmo método, ouviu um ruído no exterior que não conseguiu identificar pois estava ocupado a arrombar as gavetas. Espreitou para o corredor e percebeu que o elevador estava a funcionar. Ficou num dilema: não podia ser apanhado ali, mas também não podia ir embora, pois não tinha conseguido obter o que desejava. Fazendo o menor ruído possível, fechou a porta do escritório, e foi esconder-se dentro do armário técnico que existia ao fundo do corredor. Ele precisava de saber se a pessoa que estava no elevador vinha para o escritório da Anabela ou não. Felizmente o prédio não tinha segurança senão o visitante já teria percebido que este tinha sido colocado a dormir. Fechado dento do armário viveu momentos de tensão extremos. Normalmente tinha o apoio dos seus homens, mas neste caso estava sozinho. O suor começou a escorrer-lhe pela face, abundantemente e as pernas tiveram alguma dificuldade em sustê-lo. Ele apenas era um homem valente quando se escudava atrás do seu exército privado. O elevador parou e ouviu-se distintamente o som da porta a abrir. Pela luminosidade que invadiu o corredor percebeu que tinha parado no andar onde estava. As vozes de dois homens chegaram até ele. As pernas tremeram de forma mais intensa e teve de se segurar. Fez um esforço mental para se conter. Os passos estavam cada vez mais próximos…
«O Closing correu bem não é verdade?» Perguntou um.
«Sim. Estou cansado. Vou deixar tudo no escritório e amanhã arquivo o processo.» Disse o outro.
«Também eu.» Voltou o primeiro.
Foi aberta uma porta e o som difuso de papéis e pastas a serem mexidos chegou até ele. Finalmente ouviu-se a porta ser fechada. Faltava pouco para ele poder relaxar.
«Já viste que o armário técnico está ligeiramente aberto?» Perguntou um.
«Isso não tem importância. Está assim muitas vezes.» Respondeu o outro.
«Vou lá ver.» Voltou o primeiro.
Os passos estavam perigosamente próximos. Scott pegou na pistola e preparou-se para o pior. O homem provavelmente ia abrir a porta e ele ia ter de matar os dois. Ainda bem que tinha colocado o silenciador antes porque ali não tinha espaço suficiente para o fazer. O homem estava mesmo em frente ao armário e Scott apertou a coronha da pistola com força. Mentalmente fez um pedido: «Não abras a porta.» No último instante o homem limitou-se a fechar a porta do armário e esta deu o clique natural, indicado que o íman segurava a porta. Por agora ela estava fechada. Scott estava quase a desabar. Mal os homens entraram no elevador e o piso ficou na escuridão ele saiu para o corredor. As pernas tremiam tanto que tinha dificuldade em andar. Quando chegou ao escritório sentou-se na secretária e serviu-se de uma garrafa de água. O som do dispositivo a aceder ao computador despertou-o da abstração a que se tinha votado. «Que estúpido, então esqueci-me da porcaria do dispositivo no computado!» Pensou. Depois de recuperar a calma gravou a informação do disco do computador e dedicou-se ao cofre. Existia sempre um cofre! O cofre não tinha nenhuma das informações que ele desejava, no entanto, as fotografias eram elucidativas sobres os gostos sexuais da advogada. Ela era uma marota!
Scott abandonou o edifício rapidamente e foi apanhar novamente o metro. As portas abriam às seis da manhã e a essa hora ele já lá estava de trouxa às costas.
Quando chegou a casa foi descansar umas horas pois tinha muito trabalho pela frente. Demorou dois dias a analisar o conteúdo dos discos apenas para concluir que, apesar do manancial de informação que estava nos mesmos, não constava o que queria. Isso significava que a informação apenas podia estar na posse do Chef Walker.

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