O PAQUETE PRÍNCIPE PERFEITO

O PAQUETE PRÍNCIPE PERFEITO
Vila Marim ia ficando para trás e à medida que isso acontecia sentia a pressão no peito aumentar. Era uma espécie de angústia que lhe estrangulava a garganta e lhe dificultava a respiração. Pensou na mulher de quem tanto gostava, mas isso apenas piorou as coisas. Fixou o olhar no exterior buscando auxílio na paisagem. À ponte dos patos, uma ponte romana, seguiu-se à ponte do Cabril, um pequeno rio afluente do Corgo. Na reta de Parada de Cunhos, olhou para a direita e conseguiu ver, ao longe, a casa. Uma lágrima inundou-lhe os olhos e encostou a testa à janela da carrinha para esconder o momento em que esta se lançou se lançou, numa correria desenfreada, rosto abaixo. Não tardou nada e começaram a ser sacudidos pelas curvas do Marão.  Pararam no Porto e em Coimbra e ao fim do dia entraram em Lisboa. A cidade parecia ter vida própria. A quantidade de luzes que existia era surpreendente e as ruas estavam cheias de pessoas apressadas. Era como se toda a gente corresse, para chegar a algum lado. Percorreram várias ruas da cidade até entrarem numa cujo piso era tão irregular que os passageiros se aperceberam da mudança. Passaram por baixo de um arco, como se mergulhassem dentro de um edifício e pararam. Quando saíram para o exterior, Fernando percebeu que estava no pátio interior de um edifício, que tinha três pisos. O cheiro a sopa de repolho inundava o espaço, como se estivessem dentro de uma cozinha: tinham chegado à Pensão do Emigrante, na rua da Junqueira.
Os homens que iam na carrinha de nove lugares, que tinham sido preenchidos ao longo do percurso, foram instalados numa camarata onde estavam muitos outros. A partida teria lugar daí a dois dias, pelo que no dia seguinte estavam livres para dar uma volta pela cidade. Fernando dormiu mal. Não estava acostumado a dormir fora de casa e sobretudo tinha saudades da família. Acordou cedo o que era uma vantagem, pois a casa de banho era coletiva. Sentiu a falta da sopa ao pequeno-almoço, mas não recusou o café com leite e o pão de trigo com queijo, manteiga e marmelada. Eram iguarias que raramente se sentavam consigo à mesa.
Durante o dia foi dar um passeio. Sempre tivera curiosidade em conhecer o mosteiro dos Jerónimos e não perdeu a oportunidade. Era uma pessoa curiosa e conversadora, pelo que aproveitava todas as situações para conhecer outras pessoas e para aprender coisas novas. Foi assim que ficou a saber que a fonte luminosa era um espetáculo digno de ser visto à noite. A visita ao mosteiro foi interessante, do ponto de vista arquitetónico, mas não acrescentou nada ao seu conhecimento histórico. Convenceu Jaime, o vizinho que tinha ido com ele, a sair à noite e lá foram a caminho da fonte luminosa. A construção encontrava-se na praça do império e tinha sido edificada por altura da Exposição do Mundo Português, em 1940. Tratava-se de um tanque quadrado para recolha de água, no centro do qual se erguia uma taça circular. O exterior da taça era revestido com todos os brasões do império, intercalados por bicas de água, que jorravam continuamente para o tanque.  No interior, existiam vários jatos de água, organizados em dois círculos, à volta de um jato central. O jato central subia até vinte e cinco metros de altura e o primeiro círculo convergia para o centro, subindo quase ao mesmo nível, em jatos livres e pulverizados, enquanto os jatos periféricos se elevavam a pouco mais de um metro de altura. As luzes que incidiam sobre os jatos de água, projetavam um arco-íris na noite escura, o que tornava o espetáculo magnífico. Tinha sido uma experiência inesquecível.
Depois de entregues as malas de porão, subiram, ordeiramente, para o barco. A maioria eram homens, mas existiam mulheres, que viajavam ao encontro dos maridos, bem como famílias inteiras. Partilhou o camarote com quatro homens, sendo que um deles era o Jaime e todos eles eram guardas. A partida não teve grandes novidades, mas a saída da barra do Tejo e o consequente acertar de agulhas, trouxe alguma instabilidade ao navio. Foram várias as gargantas a gritar pelo Gregório! O mar esteve calmo até ao Funchal, onde pararam, não tendo sido autorizados a ir a terra. A ilha surgiu lá ao fundo como um pequeno montículo verde e agigantou-se à medida que se foram aproximando. A vista da paisagem onde a cidade estava implantada era de tirar o fôlego! A noite aproximava-se a passos largos, fazendo surgir, na encosta, pequenos pontos de luz. O casario distribuía-se, por esta, de forma aleatória. Mais concentrado junto ao cais e disperso à medida que a vista se afastava deste. Quando a noite se instalou, a encosta parecia um presépio iluminado! Efetuada a troca de alguns passageiros e o reabastecimento, partiram. A viagem decorreu sem grandes novidades e eles passaram o tempo entre jogos, conversas e filmes. A passagem pelo equador foi um acontecimento com honras de celebração a bordo, mas Fernando não lhe deu grande importância. Por essa altura ele já tinha conquistado o seu grupo de fãs. Era vê-lo sentado no convéns, rodeado de um enorme grupo de homens, que escutavam as lições de história e geografia.
«Qual é o cognome de D. Pedro V?» Gritou alguém.
A resposta não se fez esperar.
«O Esperançoso ou o Muito Amado.»
«Qual é a superfície do Egito?»
«Um milhão e um mil, quatrocentos e cinquenta metros quadrados.»
Chegaram a Luanda no oitavo dia, após a partida de Lisboa. Apesar do calor, que tinha vindo a aumentar gradualmente, à medida que se aproximavam do Equador e que se manteve a partir daí, nada os tinha preparado para o ar quente que os bafejou quando desembarcaram. O calor parecia colar-se ao corpo, deixando-o pegajoso. Era o primeiro contacto de Fernando uma realidade, com a qual iria viver nos anos que se seguiriam e que lhe causava algum desconforto: temperaturas elevadas, com humidade elevada.
Foi recebido por uma delegação da polícia e encaminhado para um dos três autocarros que estavam estacionados junto ao cais. Quando os autocarros ficaram cheios partiram à desfilada. O autocarro passou por várias artérias do burgo, até chegar ao destino. Luanda transpirava vida. Era uma cidade em crescimento, organizada e limpa. O seu sentido de orientação dizia-lhe que se tinham afastado do mar, quando pararam dentro de um estrutura militar. Estavam na sétima esquadra da polícia, de Luanda. Foi-lhes distribuído o fardamento e atribuída a arma e as munições. Recebeu a M64, com várias granadas defensivas e ofensivas, um saco de munições, uma cartucheira, cantil e punhal, mais conhecido por “faca do mato”. Depois foi-lhes indicada a camarata onde ficariam instalados. De todo o equipamento que recebeu o instrumento mais peculiar que lhe foi entregue foi a faca do mato. Era simultaneamente uma faca e uma serra, com utilidades múltiplas. Era um brinquedo que lhe dava prazer usar. Com a chegada da noite chegou também a saudade. Deitado sobre a cama e antes que a luz fosse apagada, escreveu uma longa carta à mulher. Tinha saudades dela! Foi a primeira de muitas, uma por cada mês.
Passaram o mês seguinte em exercícios militares, aprendendo a utilizar a arma de fogo, a saltar de veículos em andamento e em exercícios físicos vários, nomeadamente a luta corpo a corpo, com ou sem usar a faca do mato, ou a baioneta, acoplada, lateralmente, à G3. Eles iam ser incorporados na Guarda Rural, pelo que tinham de estar preparados para a guerra. Fernando distinguiu-se de imediato por duas razões: uma pontaria formidável e uma habilidade extraordinária na luta corpo a corpo, com a baioneta ou com a faca do mato, com especial relevo para o seu arremesso. Para quem tinha aprendido a manusear uma Mauser-Vergueiro, e tinha tido como arma do pelotão a MG34, conhecida em Portugal por Metralhadora Borsig m/944, no serviço militar obrigatório, o uso da G3 pareceu-lhe muito mais fácil. Era mais leve e tinha a possibilidade de se tornar automática, produzindo, em segundos, uma rajada de 20 tiros. Por esses dias o único desafio que lhe deu alguma luta foi desmontar e montar, rapidamente, a arma. A montagem da cabeça da culatra implicava uma subtileza que era necessário aprender. Era, no entanto, um aspeto crítico pois se a culatra não ficasse bem montada inutilizava a arma. Tinha pouco jeito com as mãos e por isso não foi dos primeiros a atinar com a coisa. Ao final do dia bebiam, jogavam ou conversavam. Fernando não bebia, pelo que quando não estava a conversar, jogava à sueca. Era um jogo de concentração e de memória, pelo que rapidamente se tornou um especialista.
«Como é que tu consegues ter sempre a carta certa para cortar o naipe do teu adversário?» Perguntou Jaime.
«Tens que saber se já saíram todos os trunfos ou não e caso ainda exista algum de fora, quem os tem.»
«Sim. Isso também eu sei, mas tu consegues ter a carta certa do outros naipes.»
«É verdade. Eu sei de memória todas as cartas que já saíram e todas as que ainda faltam sair.»
Fernando e Jaime foram desafiados para jogar contra a equipa campeã da esquadra. Apesar dos erros de Jaime, estavam a ganhar uma partida a zero. A segunda partida estava muito disputada e quem ganhasse o jogo seguinte fechava-a. O parceiro do subchefe percebeu que tinha de usar um trunfo para travar Fernando, embora tivesse uma carta do naipe em causa. O jogo decorreu normalmente e Fernando percebeu, a três jogadas do fim, que tinha perdido. Ele contava os pontos que fazia, mas também contava os do adversário. Quando a última jogada estava sobre a mesa ele levantou a mão.
«Renúncia!?»
Os adversários tentaram negar, mas Fernando sabia exatamente em que jogada ela tinha sido feita e demonstrou-o virando as cartas sobre a mesa. Jogadores e assistentes ficaram impressionados com a sua memória e logo ali conquistou alguns admiradores, suscitando também muitas invejas.
O subchefe, apesar de vencido, deu-lhe os parabéns e tomou-o sob a sua proteção. Constituíram uma equipa que se tornou invencível. O seu nome era Casimiro e foi ele que o ensinou a jogar às Damas. Fernando nunca tinha feito jogos de tabuleiro, mas ao fim de um mês já era um jogador bastante bom, não o suficiente para ganhar ao subchefe, mas dava-lhe grande luta. Apesar de esperada, a notícia caiu como uma bomba: dentro de uma semana partiam para o mato.

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