AMOR INTOCÁVEL

AMOR INTOCÁVEL


André,

Hesitei muito antes de colocar no papel estas palavras. Esta confissão dá vida a um sentimento que vivia escondido no cofre do inconsciente e isso obriga-me a lidar com ele. É verdade, confessar, ainda que seja a uma folha de papel, é trazer do mundo dos sonhos para o real, algo que vivia apenas no nosso imaginário. Mas a verdade é que este sentimento é tão arrebatador que não consigo calá-lo por mais tempo. Consome-me este fogo sem chama, mais voraz do que se lavrasse em floresta seca. Todos os dias tento submergi-lo num oceano de deveres e obrigações, mas ele arranja forma de se manter vivo. Sobrevive a tudo e a todos e contra todas as probabilidades.

A tua imagem não me sai do pensamento e a vontade de estar contigo consome as minhas forças. O som da tua voz deixa o meu coração em sobressalto, ainda que seja do outro lado da linha. Quando oiço os teus passos, ao fundo do corredor, todo eu me exalto, leda, na antecipação de te ver. O baque do coração, quando os olhos poisam em ti, é mais forte que o caturrar de um navio em plena tempestade. Quedo-me pregada na cadeira com receio de não controlar o abraço que o meu corpo exige. O dever… sempre o dever! Sei que és intocável. És intocável por muitas razões, tantas que que a barreira formada por estas é intransponível. Vejo-as com a minha razão, mas ignoro-as com o coração.

O drama e o dilema em que vivo é tão grande, que, não conseguindo viver sem ti, criei um mundo só nosso. Um mundo onde apenas existimos nós os dois. E nesse mundo imaginário vivo contigo momentos de singular felicidade. É o sonho dentro de um sonho. No meu sonho eu passeio contigo de mãos dadas, mostrando ao mundo o nosso amor, sem pejo, nem temor. Deitada a teu lado, sinto o calor do teu corpo que, quando se sobrepõe ao meu, me proporciona momentos de prazer indescritíveis. Vivemos noites de festa, com os nossos amigos e momentos íntimos de romantismo medieval, deitados numa cama de rede, debaixo de um alpendre e vendo as estrelas. Por cada estrela cadente um desejo de viver eternamente essa felicidade. Passeio pelo mundo, tendo o teu ombro como apoio para a minha cabeça e o teu baço para me segurar quando vacilo. Sou uma mulher feliz, até que a realidade cruel me desperta. Tu pertences a outra. Apesar disso, vislumbro, no pouco que dizes, um sentimento escondido. Uma reciprocidade que o meu coração bebe com sofreguidão. Será possível? Será amor o que vejo brilhar nos teus olhos, quando com voz máscula me dás os bons dias? Talvez, mas a realidade dos factos esmaga-me.

Dedico-me ao trabalho. Gasto todas as minhas energias tentando contrariar este sentimento dizendo para mim própria: «Este amor é intocável.» No entanto ele é bem real. Habita dentro de mim com uma intensidade e uma violência que me esventra, deixando a nu as fragilidades do meu ser. Não, este amor não é intocável! Este amor é tão real que o sinto circular nas minhas veias, dando- me vida ao mesmo tempo que me consome. Este é um amor profundo e verdadeiro que se sente só e triste por não ser correspondido. Tu, sim, és intocável!

 

Tua para sempre

Margarida

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