APENAS AMIGO

APENAS AMIGO

Sílvia apesar dos seus dezasseis anos tinha o corpo de uma mulher. Uma mulher linda, mas sobretudo uma mulher sensual! Tinha uns olhos amendoados que oscilavam entre o cinza e o verde, consoante a sua disposição ou a luminosidade do dia. Eles eram a sua verdadeira fortuna. Eram olhos sonhadores e de uma profundidade que faziam os rapazes perderem-se neles. O rosto era perfeito e quando sorria acentuava a maças do rosto de uma forma muito sexy. O conjunto era emoldurado por uns cabelos longos, de cor castanha, que caiam, cacheados, pelas costas. Era alta e tinha um corpo bem torneado, o que fazia dela o centro das atenções e do sexo oposto.

Desde os treze anos que tinha namorado e aos quinze tinha tido o seu primeiro momento de intimidade com o sexo oposto. Foi algo incrível, sobretudo porque estava verdadeiramente apaixonada pelo rapaz, que era três anos mais velho que ela. Foi com ele que aprendeu que o sexo podia ser algo extraordinário, mas foi com a mãe que perdeu o preconceito de que entregar-se a um homem era deixar que ele a usasse: o prazer era mútuo e a mulher devia gozá-lo sem culpa nem remorso.

Foi isso que ela fez com esse namorado e com os dois que se seguiram. Tinham sido experiências interessantes, mas não eram homens para continuar ao lado dela. A mãe tinha feito esse erro: casar com o primeiro namorado que teve e isso custou-lhe o casamento. Sílvia não se opunha a que isso pudesse acontecer, se encontrasse o seu príncipe perfeito, mas eles estavam muito longe de o serem. Foi assim, que se encontrou, mais uma vez sozinha.

Conheceu Tiago pelo Instagram. Era o resultado dos tempos. As redes sociais desempenhavam, cada vez mais, um papel de facilitador dos contactos, facto acentuado pelo confinamento, ditado pela pandemia. Sílvia gostava de homens musculados, isso levava-a a procurá-los nas redes sociais ou na internet. Quando viu as fotografias do Tiago tornou-se óbvio que tinha de conhecer o rapaz. Era uma moça desenrascada, tal como a mãe e não esteve com meias medidas. Procurou o rapaz no Instagram e pediu para o seguir. Ele era atleta federado, especialista nos duzentos metros barreira e, apesar de não estar a competir, a forma física era excelente e ela não se cansava de o admirar. Tiago respondeu no próprio dia, embora não com a rapidez que ela desejava.

Tornaram-se seguidores um do outro e a assiduidade dos contactos revelou outras facetas dele que fizeram aumentar a admiração dela. Ele já tinha vinte e um anos de idade e frequentava o curso de engenharia aeroespacial, no IST, o que atestava a sua dedicação e capacidades. Era um dos cursos com a média de entrada, mais elevada da faculdade. Sílvia era uma aluna mediana e até com algumas dificuldades. Isso não lhe deixava nenhum complexo, mas como desejava ser melhor, admirava muito as pessoas que o eram. Mais uma vez foi ela que tomou a iniciativa e convidou-o para um café e um passeio em Alcochete, terra onde vivia.

Tiago era um jovem tímido, que apesar da aparência física, nunca tinha tido muito sucesso com as mulheres.  Não era bonito nem feio. Tinha um rosto longo e um nariz aquilino, num conjunto que se assemelhava à quilha de um navio. Os olhos eram castanhos e pequenos, e o cabelo cortado à escovinha, evidenciava um crânio grande, mas perfeito. Era bastante alto e exibia um físico extraordinário: uns braços musculados, um peito torneado e os abdominais bem definidos. Isso tudo fazia dele um jovem cobiçado pelo sexo feminino. No entanto, a sua timidez era uma verdadeira barreira às relações com o sexo oposto.

Inevitavelmente, as mulheres com quem se cruzava pediam-lhe para o seguir no Instagram, por isso, todos os dias passava por lá e revia os convites, embora não fosse um grande fã de redes sociais. O pedido de Sílvia era atípico. Ele pura e simplesmente não a conhecia, mas quando viu as fotografias ficou eufórico. «Meus Deus! Que mulherão!» Pensou. Aceitou de imediato e depois esqueceu o assunto. Ele tinha pouco jeito para relações! O que se seguiu foi ainda mais extraordinário. Sílvia começou a enviar-lhe mensagens querendo saber tudo sobre ele e sem dar por isso tinha-lhe contado uma boa pate da sua vida. Ao fim de um mês ela conhecia-o melhor que as suas amigas e ele também sabia umas quantas coisas dela. Apesar disso, o convite dela surgiu como uma surpresa. As mulheres costumavam insinuar-se de forma a levá-lo a convidá-las para sair, mas raramente tomavam a iniciativa. Isso aumentou ainda mais a sua curiosidade. Sílvia atraía-o, mas também o intimidava.

O primeiro encontro foi num sábado. Era outubro, mas estava um dia muito agradável para se passear. O sol brilhava, sobre um céu azul límpido, tornado a aragem suave, que se fazia sentir, bastante agradável. Encontraram-se no café, junto ao rio e passearam a tarde toda, um ao lado do outro, sem se atrever a abraçarem-se ou darem as mãos. Ela estava morrendo por um beijo e ele cheio de medo de lho dar. Tiago tinha feito muitos planos, mas todos eles contavam com a iniciativa dela. Sílvia, por sua vez, achava que já lhe tinha dado todos os sinais e até tinha tomado iniciativas fora do comum. Agora era a vez dele. Falaram muito, brincaram um com o outro e até se tocaram ocasionalmente, umas vezes intencionalmente, outras não, mas não foram além disso.  Sílvia tinha desejado muito mais do que a tarde lhe deu, no entanto, adorou os momentos que passou com ele. Tiago cada vez estava mais encantado com Sílvia, mas o medo de ser rejeitado ao declarar-se, crescia na mesma proporção que o encantamento, inibindo qualquer iniciativa.

A partir do primeiro encontro, não exista um só dia em que não falassem um com o outro. Eram autênticos namorados, mas Sílvia teimava que enquanto ele não lhe pedisse namoro eram e seriam apenas amigos. Eram uns amigos diferentes, porque no segundo encontro eles trocaram uns beijos verdadeiramente apaixonados. Tiago sentou-se num dos bancos do passeio, à beira rio e ela foi até à margem, virando-lhe as costas.

«Senta-te aqui ao meu lado.» Pediu ele.

Sílvia aproximou-se de mansinho, colocou-se de joelhos no banco, tendo as pernas dele estre as suas e encostou-se a ele. O beijo surgiu de forma natural. Primeiro foi um roçar singelo dos lábios, um selo, colocado com muita suavidade. Depois os lábios entreabriram-se e eles deixaram que as línguas se abraçassem numa dança selvagem. Enrolaram-se e desenrolaram-se, num vaivém intenso, que lhes causava arrepios. As mãos tornaram-se irrequietas e acariciaram o corpo do parceiro, dando e recebendo prazer. Para o Tiago as palavras tornaram-se desnecessárias: eles eram namorados. Para Sílvia, apesar de ser óbvio que gostavam um do outro, seriam apenas amigos enquanto ele não declarasse o seu amor e a pedisse em namoro.

Sílvia seguia calada, no lado do pendura. A mãe tinha vindo buscá-la e percebeu logo que ela não estava completamente satisfeita. Mais uma vez tinha sido ela a tomar a iniciativa e nem depois disso ele disse nada ou a tomou nos braços para a beijar e acariciar. Ela gostava dele. Sentia que gostava dele cada vez mais, mas também gostava que ele tivesse um pouco mais de iniciativa.

O facto de ele não assumir a relação, formalizando-a, deixava-a desconfortável. Não conseguia evitar de pensar que ele não queria assumir a relação, por achar que ela não estava ao nível dele. Ele era um homem dotado física e intelectualmente e ela era apenas uma moça bonita. Isso fez vir ao cimo o complexo de inferioridade e Sílvia começou, em resultado disso, a tornar-se mandona. Criticava-o por ele não saber cuidar da roupa, fazer a comida ou arrumar a casa. Ele tinha sido educado por uma mãe doméstica, que tratava de tudo isso, ainda mais sendo filho único. Era, portanto, o resultado da educação recebida. Tiago em vez de se aborrecer com esse tratamento, aceitou o desafio que ele tinha implícito e começou a prestar atenção a essas coisas. Quando deu por ele estava a fazer o jantar aos pais, com a Sílvia a orientá-lo, por telefone. Fez bifes com cogumelos e molho ao madeira e arroz branco. Os pais dele elogiaram logo a rapariga.

Sílvia sentia uma satisfação especial em dar instruções ao Tiago, sentindo-se bem no papel dominante. No entanto, dentro dela começava a vislumbrar-se alguma insatisfação. Lá no fundo ela queria mesmo era ser mandada, sem que isso fosse notório, mas para fazer isso era preciso um homem que tivesse essa capacidade. Ela queria alguém que a tratasse bem e lhe fizesse as vontades, sem ser submisso. Não queria que Tiago se distanciasse ao ponto de a ignorar, mas queria que ele assumisse e comandasse a relação, respeitando o espaço dela. Era difícil encontrar o homem certo!

Tiago gostava cada vez mais de Sílvia, mas ela intimidava-o. Ao pé dela ele sentia-se diminuído, quase insignificante, embora tivesse consciência que não o era. Viva num dilema: ele queria tomar as rédeas da elação, mas não sabia como e o medo de a perder fazia com que se acobardasse. Pelas conversas tinha percebido que ela era uma mulher experiente e o mais provável é que já não fosse virgem. Isso era um grande problema para ele. Não pelo facto de ela o não ser, mas sim porque ele ainda o era. Queria muito estar com ela, intimamente, mas o medo de que a sua inexperiência viesse ao de cima fazia-o retrair. Isso colocava-os num impasse.

Sílvia tomou mais uma vez a iniciativa e convidou-o para jantar lá em casa. Já era a segunda vez que isso acontecia. Ele ficou encantado com a confiança e com o facto da família dela o aceitar e acolher tão bem. No entanto, também isso o intimidava. Tudo era informal e irreverente na casa dela, enquanto na dele se fazia muita cerimónia. Perante o à vontade da mãe dela, o padrasto era mais contido, ele sentia-se intimidado e acabava por se remeter ao silêncio. Nessa noite as coisas assumiram uma proporção ainda mais desajustada. A mãe e o padrasto de Sílvia beberam uns copos a mais e a seguir ao jantar estavam já bem animados. Quando foram para o sofá, sem que nada o fizesse prever, eles colocaram um vídeo do Herman José e desataram a cantar e dançar o Serafim Saudade. O rapaz não sabia onde se havia de meter. Ele não conseguia imaginar os pais dele a fazer aquela figura, pelo que se encolheu no sofá. Olhava para os dois estupefacto e sem se atrever a dizer algo com medo de os ofender, mas o desconforto estava estampado no seu rosto. Não contentes com isso, viram vários episódios da Porta do Fundos, daqueles bem irreverentes.

«Eu convido o meu amigo para jantar e vocês fazem essas figuras! O que é que ele vai ficar a pensar de vocês?» Disse Sílvia, ao ver a expressão dele.

Nessa noite, quando se separaram, o estado de espírito de ambos era confuso. Sílvia sentia que talvez a mãe tivesse ido longe demais, mas a falta de humor e de capacidade de integração do Tiago também a incomodava. Ela gostava de homens com outra desenvoltura e ele, apesar de cinco anos mais velho, tinha-se comportado como um miúdo. No entanto, gostava dele. Se ao menos ele tivesse a iniciativa de a pedir em namoro e a tomar nos braços, amando-a, ela esqueceria tudo o resto.

Tiago saiu dali incomodado. Estava irritado com ele próprio. Como fora possível não ter a capacidade de se associar à brincadeira? Ainda que não fosse parte ativa da mesma, pelo menos deveria ter-se divertido de forma genuína. Ele e os amigos já tinham feito figuras piores e acharam bem divertido. Tinha que resolver a situação. Não podia deixar que o Sílvia e a família o intimidassem daquela forma. Eles não o pretendiam e ele não o desejava.

Duas semanas depois a mãe e o padrasto foram passar a noite de sexta feita num motel e ela convidou o Tiago para jantar lá em casa. Era o teste final. Ou ele se declarava e a relação evoluía para o nível seguinte ou ele ficava, definitivamente, rotulado como amigo. Tiago estava nervosíssimo. A mensagem era clara. Sílvia queria estar com ele a sós. Ele também desejava isso mais do que tudo, mas o medo tolhia-o

Sílvia estava esplendorosa. Tinha-se maquilhado de forma a tornar o rosto um pouco menos arredondado e a dar ênfase aos olhos. Tinha vestido umas calças pretas bem justas e um top branco, que deixavam à vista o abdómem liso e convidativo e onde ponteava um piercing. Tiago procurou esconder a excitação, quando o que ela queria era que ele lhe mostrasse o quanto o excitava. Cumprimentaram-se com um beijo no rosto e as conversas foram banais até o jantar ter terminado. Tiago, como não ia voltar a conduzir, uma vez que ela lhe tinha oferecido o sofá,  bebeu um pouco pelo que estava mais solto e desinibido. Sentaram-se no sofá e ele segurou-lhe a mão, acariciando-a. Ela olhou-o com ternura e disse.

«Não tens nada para me dizer?»

Tiago parecia que ia explodir. Ia mesmo dizer aquilo. Virou-se para ela, acariciou-lhe o rosto e disse com voz rouca.

«Eu quero-te!»

«Eu não me entrego a um rapaz que não seja meu namorado.» Disse ela num jeito coquete.

Tiago ficou baralhado. Para ele, eles eram namorados desde o primeiro beijo. A verdade é que nunca a tinha pedido em namoro, mas julgava que o beijo tinha esse significado. Talvez fosse melhor resolver isso.

«Queres namorar comigo?»

«Sim.»

Uma pergunta simples de resposta monossilábica foi o bastante para se  entregarem ao primeiro beijo da noite. Rebolaram pelo sofá beijando-se e acariciando-se até que o desejo se tornou incontrolável. Sílvia estava completamente molhada e o corpo parecia febril, tl era o desejo que a consumia. Desejava ardentemente que ele a penetrasse uma e outra vez. Tinha sonhado tantas vezes com aquele momento que mal podia esperar pela sua concretização. Levantou-se segurou-lhe a mão e disse.

«Vamos para o meu quarto.»

«Espera!»

Sílvia estancou baralhada. Então ele não queria estar com ela? Agora entendia a razão da sua falta de jeito e nervosismo. Se assim era o melhor era terminarem mesmo antes de começar.

Tiago entregou-se nos braços dela sem reservas, rendendo-se aos beijos e carícias. Apesar disso, a sua inexperiência fazia com que não soubesse muito bem a posição em que devia estar e aquilo que devia fazer com as mãos. Ele tinha lido algumas coisas e tinha ouvido muitas vezes os amigos a falarem da primeira vez em que tiveram relações sexuais, por isso fez um esforço para se conter e não ejacular apesar de isso ter implicado um esforço Hercúleo. O corpo tremia de prazer a cada beijo e cada toque e a ejacular tornava-se urgente. Essa era a máxima do prazer masculino, mas ele sabia que tinha de esperar por ela. Esperou, aguentou, sentiu prazer e sofreu. A verdade é que lhe doíam os testículos de tão cheios que estavam. Sílvia arrancou-lhe arrepios de prazer, acompanhados de gemidos e algumas excreções. A enorme mancha nas calças falava por si só. Quando viu a expressão do rosto dela temeu o pior. Tinha que falar rapidamente para evitar que ela ficasse com a ideia errada.

«Eu tenho uma coisa para te dizer.»

Sílvia não disse nada, mas sentou-se no sofá e manteve a mão dele entre as suas.

«Eu nunca estive com nenhuma mulher!»

Meu Deus ele é virgem! Então é isso? Olhou para ele com uma ternura imensa e limitou-se a sorrir com simplicidade.

«Eu amo-te, mas não quero estragar tudo com a minha inexperiência.» Disse ele, baixando a cabeça.

«Diz que me amas outra vez.» Pediu ela.

«Eu amo-te muito!»

Sílvia beijou-o. Foi um beijo suave carregado de amor.

«Não te preocupe com nada meu amor. Eu vou guiar-te e tenho a certeza que tudo vai correr bem. De acordo?» Disse ela, acariciando-lhe o rosto.

«Sim.» Disse ele.

Na manhã seguinte quando acordaram fizeram amor novamente e Tiago, agora mais confiante, foi um amante inexcedível. Eram jovens e insaciáveis, pelo que satisfizeram o desejo várias vezes. Foi aí que Tiago começou a perceber o que diziam aqueles que tinham feito amor ou mesmo apenas sexo: Era tão bom e tão gostoso que se tornava viciante.

Afinal já não eram apenas amigos!

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