A ALMOFADA


A ALMOFADA
Lourenço tinha acabado de se levantar. Depois de lavar a cara foi preparar o pequeno almoço. Levantou uma das cortinas chinesas da sala e espreitou lá para fora. O dia tinha acordado cinzento e ainda eram visíveis os vestígios da chuva que tinha caído, de forma abundante, durante a noite. A rua estava deserta. A cidade ainda dormia com raras exceções. O homem grisalho, vestia casco cinzento, por cima de uma camisa branca e usava sapatos castanhos e calças de tecido claras. O andar aprumado com que saiu do edifício dava-lhe um ar distinto. Atravessou o passeio e quando colocou o primeiro pé na rua tombou para o lado. Lourenço olhou à volta. Não havia ninguém na rua. Como o homem não se levantou correu para o telefone e discou o número de emergência. Quando desligou vestiu-se à pressa e correu para a rua. O homem continuava no chão. Os seus conhecimentos de primeiros socorros permitiram prestar-lhe alguma assistência. Quando a ambulância chegou ele seguiu com eles. Uma hora depois ele pôde  ver o homem dos cabelos grisalhos.
– O senhor salvou a vida ao homem. – Disse-lhe o médico, enquanto o acompanhava à porta do quarto. – É natural que ele lhe esteja grato.
Nessa altura já tinham chamado a família que não tardaria em chegar. Lourenço ficou com o senhor Roberto, um brasileiro simpático de setenta e cinco anos de idade, aproximadamente duas horas. O equipamento da UTI começou a apitar, fazendo um barulho incomodativo. O senhor Roberto teve novo ataque. Lourenço deixou o velhote ao cuidado dos médicos e voltou para casa. A coisa parecia séria! «Bolas esqueci-me de perguntar qual era o andar do Sr. Roberto. Ainda bem que o hospital ficou com o meu contacto.»
Alguns meses antes…
Lourenço tinha acabado o curso e fazia dois anos que trabalhava como consultor da PwC. Os pais tinham-se reformado e haviam regressado a Faro, terra de onde eram naturais. Sendo filho único tinha ficado com o apartamento de três assoalhadas só para si. Vivia sozinho e era descomprometido, apesar de ter várias “amigas” que disputavam o titulo de namorada. Lourenço encarava isso de forma divertida. Elas sabiam que não era esse o interesse dele, mas não perdiam a esperança. Ele tirava proveito da amizade colorida e mantinha uma relação intima com três delas. Todas as manhãs quando se sentava à mesa, para tomar o pequeno almoço, por volta das sete e quarenta e cinco, levantava uma das cortinas para deixar a luz entrar. Do outro lado da rua, no sexto andar, do prédio em frente, o ritual repetia-se. Um mulher colocava uma almofada naquilo que ele deduzia serem as janelas dos quartos. Ao fundo, por detrás da janela aberta, aparecia o corpo de uma mulher, que aparentava ser jovem, visível apenas da cintura para cima e apenas com os seios cobertos. Aquela visão deixava-o intrigado. Estimulava a sua imaginação. «Porque colocava ela as almofadas na janela? O que vestiria ela da cintura para baixo? Será que apenas usava calcinhas e soutien, ou nem sequer usava calcinhas?»Este tipo de conjeturas e interrogações acabavam por o deixar excitado de tal forma que, ocasionalmente, tinha que se satisfazer a si próprio. A curiosidade atingiu tal ponto que ele começou a elaborar, mentalmente, esquemas para conhecer a mulher que o tentava do outro lado da rua. Muitas vezes sonhava com ela e até lhe tinha atribuído um nome: The Window Lady. Apesar disso, este fetiche era um segredo só seu.
Era sábado e Lourenço levantou-se por volta das dez horas. As almofadas já estavam nas janelas. «Pouca sorte hoje já não vejo a minha lady.» Pensou. Uma sombra masculina aproximou-se da janela e retirou as almofadas. Lourenço levantou-se da cadeira e aproximou-se da vidraça. O seu coração batia acelerado. Existia um homem naquela casa! Esperou, expectante, enquanto o homem assomava à janela. De repente soltou uma gargalhada. Tratava-se de um homem de idade muito avançada. A jovem que costumava colocar as almofada na janela não podia ser mais do que sua filha. Podia tomar o seu pequeno almoço descansado. O episódio deixou-o excitado. Decidiu voltar para o quarto para se satisfazer. Tereza dormia nua e meio destapada. Os seios pequenos estavam estranhamente entumecidos. Lourenço observou-lhe o rosto e percebeu que ela sorria. Ela estava a sonhar e não era seguramente com as torradas do pequeno almoço. Tentando não a acordar ele destapou-a, abriu-lhe as pernas e, usando os lábios e a língua, tornou o sonho dela realidade. O corpo dela estremeceu e arqueou-se pedindo mais. Lourenço satisfez-lhe o desejo. Quando o prazer se tornou demasiado intenso ela acordou e soergueu-se. De forma carinhosa segurou-lhe a cabeça e beijou-o, provando o sabor da sua própria seiva. Ele penetrou-a suave e lentamente, embora ela o procurasse, querendo-o todo dentro dela. Depois de a penetrar este manteve-se uns minutos estático, forçando-a a ficar na mesma posição. Os músculos vaginais massajavam-lhe o órgão sexual de forma intermitente. Ele estava tão excitado que teve de apelar a toda a sua capacidade de controlo para não derramar dentro dela todo o sémen acumulado. Durante vários minutos ele entrou e saiu dentro dela, alternadamente, de forma rápida e lenta. Nova paragem e os músculos vaginais começaram novamente a trabalhar. Já não aguentavam mais. Os corpos movimentaram-se de forma descontrolada, subindo e descendo, até que, num urro, atingiram um clímax simultâneo. Pedro rodou para o lado, extenuado e Teresa deitou-se sobre ele, encaixando o seu pequeno corpo no dele. Adormeceram e Lourenço sonhou com a mulher das almofadas.
Os dias de semana decorriam de forma rotineira. Lourenço trabalhava até às nove da noite depois ia para casa. Logo a seguir ao jantar, por volta das vinte e duas horas, uma das amigas ia até lá a casa e ficava por lá até à meia noite. Eram duas horas bem passadas e recheadas de sexo, filmes ou leituras. À sexta e ao sábado havia programa noturno que se prolongava até às quatro ou cinco da manhã e, invariavelmente, uma das suas amigas especiais dormia lá em casa. Naquele sábado ele tinha dormido sozinho. A sua Window Lady não lhe saia da cabeça.
Depois de passar uma boa parte da manhã no hospital estava cansado. Tinha tomado um pequeno almoço no bar, mas não era a mesma coisa. Foi até à janela. As almoçadas não estavam lá. As janelas estavam fechadas. «Que estranho!» Pensou. No domingo as almofadas também não apareceram na janela e o mesmo aconteceu durante toda a semana seguinte. Era novamente sábado. Lourenço estava a preparar-se para ir às compras quando a campainha tocou. Era a porteira do prédio em frente. Trazia um bilhete do Sr. Roberto que solicitava a sua presença. Quando viu o endereço o seu coração disparou.
– Meu Deus! É o andar da minha Window Lady! – Exclamou.
– Como diz? – Perguntou a porteira?
– Nada. – Disse ele, recuperando o controlo. – Diga ao Sr. Roberto que vou vê-lo dentro de meia hora.
Lourenço foi arranjar-se. Vestiu umas calças de ganga novas, calçou os mocassim da Timberland e vestiu uma polo Lacoste. Encharcou-se de perfume e partiu com o coração aos pulos. A porteira abriu-lhe a porta da rua e levou-a até ao sexto andar.
– Eu sou a Luísa. Parece que nos conhecemos um ao outro bastante bem. – Disse a jovem.
Lourenço ficou estarrecido. «Será que ela já percebeu que costumo admirá-la do outro lado da rua?» Pensou. Tinha na sua frente uma mulher que deveria ter à volta de trinta anos, talvez trinta e dois, morena, com um metro e setenta e cinco de altura e um corpo escultural. Não se podia dizer que fosse uma mulher bonita mas tinha um rosto interessante e um sorriso lindo.
– Desculpe. Não entendi. – disse ele.
– Pelo que sei já ouvi tudo sobre si e você também já ouviu muita coisa sobre mim. O Roberto fala pelos cotovelos. – Disse Luísa. – Venha, ele está à sua espera na sala.
Roberto levantou-se para o cumprimentar. Estava com muito bom aspecto. Lourenço sentiu-se de imediato completamente à vontade junto deles e ficaram os três a conversar durante algum tempo. Quando Luísa foi fazer o almoço, para o qual ele foi convidado, ficaram os dois sozinhos.
– A Luísa é que cuida de mim. É simultaneamente filha e empregada. Não é mais do que isso porque já estou velho. – Disse o Sr. Roberto.
– A sua filha é uma mulher muito bonita. – Disse Lourenço.
Roberto soltou uma gargalhada.
– Vocês são jovens podem aproveitar a companhia um do outro. Eu devo-te a vida. Como poderia recusar-te a companhia de Luísa?
Lourenço ficou um pouco confuso. A Luísa já era suficientemente crescida para escolher as suas companhias e não seria seguramente o pai, com setenta e cinco anos de idade, que as iria escolher. «Coisas de velhos!» Pensou. Nessa altura Luísa dava entrada na sala e, tendo ouvido as últimas palavras de Roberto, piscou-lhe o olho. Ele sorriu. Estava tudo bem. Durante todo o almoço Lourenço não conseguiu tirar os olhos de Luísa, enquanto esta fingia ignorar a admiração e o Roberto olhava para os dois divertido. Foi um almoço estranho. Lourenço comeu muito pouco. A necessidade que ele gostava de satisfazer não estava no estômago, situava-se um pouco mais abaixo. A seguir ao almoço Roberto foi descansar um pouco. Luísa levantou-se e disse que ia dar o seu passeio habitual. Lourenço fez questão de a acompanhar.
– Preciso de ir a casa para calçar uns ténis. – Disse ele.
– Eu vou contigo. – Disse Luísa.
Quando chegaram a casa de Lourenço, Luísa seguiu-o até ao quarto e, sem que nenhum dos dois o tivesse planeado, caíram nos braços um do outro. Desfizeram-se da roupa e fizeram sexo na cama ainda desfeita. Foi um momento mágico. Lourenço tinha sonhado milhares de vezes com aquele momento mas a realidade conseguiu superar as expectativas. Foi como se eles se conhecessem desde sempre. Os corpos enroscaram-se um no outro, num bailado perfeito, sem necessidade que um conduzisse o outro. Cada um deles parecia adivinhar o que o outro queria e, solícito, satisfazia-o. Experimentaram posições e fizeram coisas que Lourenço só tinha visto em certo tipo de filmes. Ao fim de duas horas adormeceram nos braços um do outro. Lourenço foi o primeiro a acordar. Ela estava deitada de lado, de costas para ele. Suavemente, acariciou-lhe o rosto e beijou-lhe o ombro. Ela abriu os olhos, espreguiçou-se e puxou-o para si beijando-o. Foi um beijo húmido, intenso e cheio de paixão. Foram tomar banho e amaram-se outra vez. Debaixo da água do chuveiro exploraram o corpo um do outro sem reservas nem pudor. Ela segredou-lhe desejos inconfessáveis aos ouvidos e ele foi solicito a satisfazê-los. Vestiram-se e foram até à sala. Pela primeira vez Lourenço falou a alguém sobre as almofadas e a sua Window Lady. Ela olhava para ele embevecida. Depois contou-lhe o susto que apanhou quando viu aparecer um homem na janela dela.
– Ainda bem que ele é o teu pai. Por momentos receei que fosses uma mulher casada.
– Como! Tu não sabes? Não percebeste o que o Roberto te disse?
– O que queres dizer?
– O Roberto percebeu a atração que temos um pelo outro. Ele é meu marido, mas já não consegue satisfazer as minhas necessidades. Não te preocupes ele sabe o que se está a passar e o facto de eu ser casada não diminui o amor que sinto por ti. Percebi isso quando me entreguei a ti.
– O que estás a dizer? Não! Isso não é possível! Tu és uma mulher casada!?
Lourenço estava transfigurado. Levantou-se e passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos de forma nervosa. Ela aproximou-se dele tentando acalmá-lo e ele afastou-a. Ela tentou abraçá-lo e ele segurou-a, de forma firme, pelos braços e olhou-a de forma dura.
– Estás a magoar-me. – Disse ela, tentando soltar-se.
Lourenço abriu a boca para dizer algo, mas não emitiu qualquer som. Largou-a de forma brusca e virou-lhe as costas.
– Sai daqui. Vai-te embora! – Disse de forma seca e autoritária.
Luísa olhou para ele espantada e com dor no olhar. Instintivamente levantou o braço para o alcançar, mas desistiu. Ela percebeu que o perdera. Ele não lhe perdoava o facto de ser casada. Deu meia volta e partiu. Lourenço olhou para a rua e baixou a cortina. A janela era redonda formando um semicírculo. Ele abriu uma das cortinas laterais. Preferia não mais ver aquelas almofadas.

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