A RUIVA

A RUIVA
Começou por me dizer que se chamava Raul Cardoso e que tinha uma história… bem, uma história singular!
Curiosamente conheci o homem no restaurante A Baiana, na ilha de Porto Santo. Era alto e espadaúdo. O cabelo, cortado à escovinha, fazia com que as patilhas parecessem enormes, assemelhando-se a duas manchas negras na face. A pele demasiado branca denunciava a sua ascendência e os olhos rodeados de uma auréola castanha e escondidos atrás de uns óculos, fundo de garrafa, eram a imagem estampada de uma ingenuidade triste. O queixo quadrado e a meia barba, transmitiam uma sensação de firmeza e de caráter vincados. Os punhos da camisa saiam exageradamente pelas mangas do casaco, peça que destoava naquele ambiente e a gravata, meio de lado e presa com um alfinete de prata trabalhada numa técnica milenar, davam-lhe um ar desarrumado mas distinto. Instintivamente tive a sensação de que usava um perfume com odor a pinho.
Estávamos em finais de Setembro. Os sinais do Outono eram visíveis: Os dias curtos, o céu carregado de nuvens, o vento húmido que soprava do mar e o bramir das ondas contra o cais. Eu tinha acabado de me sentar, exausto, da caminhada que fizera a pé até à Calheta.
O regresso tinha sido feito sob o lusco-fusco do crepúsculo. Trata-se de uma hora mágica onde as coisas perdem a sua forma definida e ganham contornos difusos com uma dimensão e significado muito próprios. A estrada entre a Calheta e o Campo de Baixo é praticamente deserta, apenas ladeada por uma ou outra pequena construção. Sendo a iluminação quase inexistente, o ambiente adquire, assim, um ar místico propício a uma introspeção que, não raras vezes, nos conduz a devaneios apenas aceitáveis na companhia exclusiva do nosso pensamento, mas ridículos quando dissecados pela nossa própria razão. O meu pensamento divagava: às voltas com a eterna questão, não respondida de forma definitiva, sobre o verdadeiro sentido da vida. A visão do hotel Vila Baleira, perdão, da mega construção abandonada onde era suposto nascer um hotel, surge logo a seguir à curva, com um impacto diferente do sentido na viagem inversa, onde este é dissimulado pela montanha onde se encosta. Agora ele é-me apresentado em toda a sua magnitude. Admiro os seus contornos irregulares e herméticos, de betão escurecido e a grande vedação que o rodeia. No seu todo formam um conjunto majestoso! A luz daquele final de dia de Outono projeta a construção para uma outra dimensão: uma dimensão fantasmagórica e irreal, mas estranhamente acolhedora. A imaginação voa para uma época de castelos, cavaleiros, frades e mosteiros. À razão de cismar na coisa, sou levado por um ímpeto impio, mas puramente sentido e desejado e dou por mim a imaginar-me dentro de um mosteiro, a tratar da horta e a meditar horas a fio, numa vida plena de ociosidade física mas transcendental. Oiço a água cair em cascatas e os pássaros chilreando à minha volta, num ambiente de paz e harmonia, só possível no mundo idílico dos mosteiros. As luzes do bar do João do Cabeço despertam-me e sorrio abertamente. Sorrio do ridículo do meu pensamento, da fantasia de um sonho que não se coaduna com a minha forma de ser, nem representa a realidade da vida de um monge. Apresso o passo. Quero chegar à Vila antes que a escuridão me impeça de ver o caminho.
A minha curiosidade foi despertada ao jantar, enquanto eu enfrentava o desafio de retirar a espinha central do robalo sem o desfazer, juntando os legumes no lado direito e as batatas cozidas no lado esquerdo do prato, para me facilitar a tarefa e a imperial borbulhava num copo alto e esguio, depois de poisada, descuidadamente, pela empregada, que me dispensou um sorriso. Éramos os únicos comensais. Ele estava no canto da sala, virado para mim. Perguntei-lhe, depois de limpar a boca a um guardanapo de papel áspero, se ele era do Funchal.
– Não, mas vivo lá há muitos anos. -Disse, levantando os olhos para mim.
– Existem por lá muitas mulheres bonitas. – Disse eu.
O Homem emudeceu.
– Então. Não concorda? – Insisti.
O homem remeteu-se a um silêncio ruidoso. Uma sombra inundou a sua expressão. As chalaças que a empregada vinha trocando com ele ficaram sem resposta. Era visível que o assunto o incomodava. A vida daquele homem tinha sido marcada com o ferrete de uma mulher e a mágoa ainda morava naquele peito.
Para suavizar a coisa disse:
– Aquilo que dizem é que a Madeira, nomeadamente o Funchal, tem mulheres muito bonitas, pois a acrescer às locais estão as estrangeiras. Existem para todos os gostos, ruivas, loiras, altas ou baixas e é cada cinturinha!
O homem enfronhou-se ainda mais na sobremesa.
– Tenho visto mulheres bonitas em muitos lados mas o Funchal, tem uma densidade fora do normal. Eu tenho um amigo que foi trabalhar para o Funchal e casou-se lá com uma Finlandesa. Lá está: as estrangeiras. Era o diretor comercial do Casino Park Hotel, o Mendes, um indivíduo alto e ruivo, muito bem falante.
– O Dr. Mendes. Sei quem é. – Disse ele, ignorando o pudim por instantes e brindando-me com um olhar grave.
– Casou aí porque era onde trabalhava, mas não deixa nunca de realçar que no Funchal a perfeição, em termos da mulher, é possível de alcançar.
O homem levantou-se. A expressão calada e o olhar distante deixavam perceber que o tema o incomodava, ou melhor, que algo distante, mas relacionado com o tema o incomodava. De forma pausada, mas com solenidade, dirigiu-se à caixa, pagou o jantar e abandonou o restaurante.
Olhei à minha volta: estava só. A conta chegou. Levantei-me e deixei sobre a mesa o seu valor acrescido da retribuição de um sorriso. Quanto vale um sorriso? Corri o fecho do blusão, puxei a gola para cima e apressei o passo em direção ao cais. Vila Baleira estava deserta. Com a maré a subir as ondas tinham aumentado de volume arremessando-se conta os cais, como hordas de assaltantes à conquista de uma muralha. O passeio foi curto. A total ausência de pessoas contrastava com a memória de uma Lisboa plena de vida, essa constatação tornou-me nostálgico. O Hotel Praia Dourada fica mesmo no centro da Vila, com entrada pela rua Pedro Lomelino. Foi aí que fui pernoitar por recomendação de um amigo. A receção era simples, moderna e com bom gosto. Feitas as saudações o jovem de serviço fez o meu registo no hotel.
– O seu quarto é o número doze, cavalheiro.
– Obrigado. Ainda é muito cedo. Existe algum local onde se possa beber um copo?
O único bar que estava aberto era o pequeno. O empregado seguiu à frente. Um hotel pequeno, no Porto Santo, fora da época balnear, assemelha-se a uma casa abandonada. O silêncio era sepulcral. Sem vontade de ficar ao balcão dirigi-me, de copo na mão, para a minúscula sala do bar, que se escondia na primeira esquina. Raul Cardoso estava espojado no sofá. Havia-se libertado do casaco e da gravata e descalçado os sapatos, mostrando as meias coçadas na extremidade do dedo grande e um colarinho já gasto pelo uso. Naturalmente não contava com companhia.
– O senhor desculpe. Pelos vistos não sou único hóspede. – Disse ele.
– Fique à vontade. – Disse, ao mesmo tempo que tirava o blusão e me jogava no sofá.
A pedido dele o empregado deixou a garrafa de whisky e um balde de gelo na mesa. Estava tudo na conta. Os motivos que o levaram a contar-me a sua história não são aqui relatados. O whisky, o facto de estarmos a sós ou a coincidência de ambos conhecermos o Mendes… Sim, o Mendes, definitivamente, ele esteve presente! Vi aquele homem chorar baba e ranho, barafustar e ter fúrias. Por entre tudo isso surgiu a confidência. Larga, profunda, vivida num passado longínquo, mas presente como uma memória viva e corrosiva. Para o caro leitor talvez não passe de uma história trivial. Eu estava nostálgico, sensível e animado pelo álcool, enfim, a história pareceu-me terrível. Narro-a, no entanto, apenas como uma história de amor. Entre nós uma garrafa de whisky e dois copos meios vazios. Uma barreira que mais do que separar nos unia.
– O trabalho de filigrana desse alfinete é fantástico. – Disse eu.
– Tão fantástico quanto a sua história. De contornos sórdidos, imprevisíveis, mas fantástica… – Disse ele, ridicularizando-se.
Uma pausa. Silêncio. Um silêncio como o que antecede uma tempestade.
Perguntei-lhe se era de uma família com sobrenome Cardoso que eu conhecia. Apenas para descobrir que era primo deles. Isso gerou logo uma grande empatia pois eu tinha a maior admiração por uma das famílias mais antigas de Lisboa. Com tradições no negócio livreiro e com uma fama impoluta. Conhecidos por honrar os seus compromissos fosse qual fosse a circunstância. Raul Cardoso contou-me que na década de oitenta o seu tio Frederico tinha várias livrarias espalhadas pelo país. Ele tralhava como informático por cima da livraria do Chiado, em Lisboa, mesmo ao cimo da rua Garrett. Era a maior das livrarias dos Cardoso. Raul Cardoso tinha sido um dos melhores alunos de engenharia informática do Técnico. A natureza tímida ou a dívida familiar, ou ambas, fizeram com que se tivesse acomodado. Trabalhava simplesmente para o tio. Simplesmente era uma força de expressão, porque ele tinham implementado um sistema de gestão de stocks, das livrarias, em tempo real, que tinha sido uma revolução em termos tecnológicos, com um grande impacto em termos de redução de custos. Tinha nascido em Vila Real, filho de uma irmã do tio Frederico que acabara quase na miséria. Coisas da vida. O tio pagou-lhe os estudos e ele retribuía-lhe dedicando os dias ao trabalho. As poucas horas livres eram dedicadas aos livros, aos jogos e à música. Era portanto um homem culto mas que alimentava o seu imaginário de fantasia. Vivia em casa do tio Frederico, onde dispunha de um quarto e uma saleta com uma entrada independente, na rua Óscar Monteiro Torres, junto ao Campo Pequeno. Tratava-se de um bairro envelhecido e tranquilo, agitado apenas pelo frenesim provocado por uma ou outra tourada, ou algum espetáculo musical. O tio nunca havia casado e era austero, exigente e excessivamente formal.
O seu único vício era a roupa. Gostava de se vestir a preceito o que realçava a sua figura. Para além dos jogos no computador, a leitura ou ouvir musica, sobretudo musica, clássica ou pop (oh! o prazer da dor de um drama cantado era inigualável!) também lhe davam muita satisfação os piqueniques domingueiros que o tio promovia, em família, no pinhal da Azóia, em Sesimbra, ou na mata de Sintra. Locais recatados e bucólicos onde se ouvia o chilrear dos pássaros e a sua memória podia voar para Vila Real e reviver momentos da infância, quando o pai era vivo e a mãe ainda possuía a quinta. Pateticamente nostálgico, romântico, mas desconhecedor do amor e completamente ingénuo. Era assim o Raul Cardoso, aos 25 anos de idade.
Era sábado, era princípio de verão e era dia de tourada. A praça do campo pequeno fervilhava e o som da animação entrava pela Óscar Monteiro Torres e invadia os apartamentos. Raul Cardoso, de auscultadores nos ouvidos e livro na mão, veio à janela. Ele conhecia bem o motivo da festa, mas não resistiu a uma olhadela. Era o seu momento social. No fim de semana anterior tinha ganho novos vizinhos, não que isso lhe interessasse muito, pois vivia fechado no seu mundo, mas aquela visão abriu-lhe uma nova perspetiva. Eis que assomava à janela do quarto andar, do prédio em frente, uma mulher com um vestido preto de manga curta com folhos e um decote generoso, debruçando-se para sacudir um tapete. A cor branca dos braços nus e dos seios, que também davam ares de se assomar, impuseram um segundo olhar. Raul Cardoso pensou e afirmou para si mesmo que aquela morena, que aparentava mais de quarenta anos, deveria ter sido uma mulher muito interessante e dominadora, quando era jovem. A fina linha da cintura, que se adivinhava, os seios volumosos que recheavam o corpete, embelezados com o lenço, que disfarçava o decote, os lábios carnudos e o rosto de expressão austera, emoldurado pelos caracóis pretos, do cabelo já sem brilho, revelavam um ser temperamental e capaz de paixões arrebatadoras. Raul Cardoso voltou para o seu livro. Ao fim de algumas páginas levantou-se e começou a andar às voltas no quarto. Não conseguia concentrar-se. Estava tomado de uma ansiedade que o desconcertava pois nunca experimentara tal sensação. Depois do jantar, não sendo capaz de se concentrar na leitura, nem sentindo o habitual interesse pelo Tetris, colocou os auscultadores nos ouvidos, recostou-se na cadeira e, colocando os pés no peitoril da janela, entretanto aberta, fechou os olhos e sonhou. Sonhou ao som de “you were always in my mind” cantada, num dueto, por Willie Nelson e Elvis Presly. Viveu com tal intensidade a letra da música que as lágrimas o sufocaram. «Estranha sensação!» Pensou. Antes de dormir tinha chegado à conclusão que tinha que dar um novo sentido à sua vida. O resto do fim de semana foi um suplício. O quarto parecia-lhe demasiado pequeno. Sufocava-o. Oprimia-o. O mundo lá fora tinha deixado de ser a preto e branco. A natureza tinha cores vivas. Os pássaros chilreavam alegremente e não com nostalgia. E nas madressilvas as borboletas, em bandos multicoloridos, abanavam as asas suavemente, como leques refrescando uma dama. «Tenho de sair daqui!» Disse, falando consigo.
O fim de tarde estava muito agradável. A brisa fresca que se fazia sentir convenceu-o a vestir o blusão. Ao dobrar a esquina da rua quase embateu nas duas raparigas que vinham a correr, soltando risadas alegres. Raul Cardoso ficou parado em frente da mais baixa, para evitar o choque, mas não foi ela que lhe prendeu o olhar. A amiga, uma ruiva escultural, de olhos verdes, com um vestido branco de pintas azuis, mangas curtas de folhos e uma saia rodada, que realçava a delgada cintura, passou rapidamente por ele, desviando o olhar para o chão. Fez dele catavento. Desviou-se para deixar a mais baixa passar. A curiosidade venceu-o. Virou-se para trás e viu-as entrar no número dez. Era aí que vivia a senhora dos caracóis pretos. Não conseguiu afastar-se do local e atravessou para o outro lado da rua. Qual não foi o seu espanto quando viu a ruiva assomar à janela do quarto andar, dar uma olhadela rápida à rua e desaparecer por detrás da cortina. «É a filha» Pensou. A mais velha vestia de preto, mas a ruiva no seu vestido de linho branco com pintas azuis, devia ter menos de 20 anos. Era jovem, alegre e viçosa.
Raul Cardoso era um jovem alto, ombros largos, magro, quase esquelético, e pálido, como resultado da sua reclusão. Tinha cabelos negros e olhos azuis e caminhava ligeiramente curvado. Era fruto de muitas horas passadas sentado em frente ao computador. O primeiro vislumbre dela tinha sido marcante, mas a sua imagem, emoldurada pelas aduelas de madeira da janela, ficou-lhe gravada na mente, como uma pintura: A pintura de um anjo. Naturalmente que a ruiva também tinha reparado em Raul Cardoso e sobretudo no interesse que este demonstrou nela. Naturalmente, também, fingiu não ter reparado. Ele sentiu-se ignorado.
Quando jovem sentia-se completamente sem graça junto das mulheres, evitando, por isso, a companhia destas. Apesar disso, aquela ruiva não lhe saída da cabeça. Raul Cardoso passou a ir para casa mais cedo na esperança de encontrar a ruiva ou pelo menos de ter um vislumbre seu. Todos os dias, ao fim do dia, ele ia à janela para a ver. De forma quase invariável lá estava ela: de blusa branca ou floral, mas sempre evidenciando as suas formas, com os cotovelos apoiados no peitoril gozava os prazeres do entardecer. Nos dias mais quentes via-a usar um leque para se refrescar. O leque de madrepérola, em desuso à época, deveria ser uma peça de família pois aparentava antiguidade. Os motivos da decoração assemelhavam-se aos de uma matrioska, o que levantava algumas questões sobre as origens da ruiva, que encantava os seus dias e preenchia os seus sonhos. Ocasionalmente cruzavam um olhar, mas ela desviava rapidamente o seu, olhando para o outro lado da rua. Quando se refugiava atrás da cortina era notório que a levantava, subtilmente, para espreitar. Jogar às escondidas estava a deixá-lo louco. Raul Cardoso não me explicitou, com detalhe, os seus sentimentos – disse de forma simples – que ao fim de uma semana estava completamente apaixonado por ela.
O trabalho perdera uma boa parte do interesse e os livros exigiam uma concentração que ele não tinha, por isso, refugiava-se na música. Deu consigo várias vezes a assomar à janela, no local de trabalho, como se a ruiva pudesse aparecer, de repente, ao fundo da rua Garrett. Subitamente, o seu coração deu um pulo. Vindas de uma rua lateral, mãe e filha vinham, de braço dado, a descer a rua e encaminharam-se para a livraria.
Raul Cardoso passou a mão pelos cabelos para os ajeitar, endireitou o nó da gravata e desceu à livraria. Enquanto descia as escadas interrogava-se se ela saberia que a livraria era do tio e que ele trabalhava no primeiro andar. Nessa altura ele disse-me.
– Para mim era muito importante saber se ela estava ali intencionalmente, sabendo quem eu era. 
O empregado ao vê-lo ali pediu-lhe para ficar uns instantes ao balcão, enquanto ele ia colocar lá dentro uns livros para devolução à editora.
Sem demonstrar qualquer surpresa em vê-lo ali, ela dirigiu-se ao balcão. Levantou o rosto e sorriu-lhe, envolvendo-o com um olhar que parecia acariciá-lo. Ele sentiu-se nas nuvens.
– Bom dia. Este livro foi-me recomendado, mas não tenho a certeza que deva oferecê-lo a uma jovem de dezoito anos. O que acha?» – Disse ela mostrando o Amante de Lady Chatterley.
Raul Cardoso corou, olhou para baixo e tentou lembrar-se de algo para dizer a propósito do livro que tão bem conhecia.
– Pois… para oferecer a uma jovem de dezoito anos. – Repetiu ele.
Tinha sido um comentário estúpido. Um comentário sem sentido. Ocupado entre tentar parar o tremor das pernas e encontrar algo inteligente para dizer, ficou hesitante. O empregado, que entretanto regressara, assumiu o comando e Raul Cardoso retirou-se contrafeito. Tinha deixado de existir uma razão para continuar ali. Enquanto se afastava ainda a ouviu dizer.
– O seu colega não gostou da ideia. Não vou levar o livro. Onde estão as enciclopédias e os atlas?
Nesse momento, ele olhou para trás e ela também. O olhar que cruzaram foi de uma cumplicidade inexplicável.
Passou o resto do dia exasperado. Tinha perdido a primeira grande oportunidade de estabelecer contacto com a mulher que já imaginava como sua namorada. Nem o bife com puré de batata, o seu prato preferido, conseguiu afastar aquela cisma. O tio falava sozinho sobre os empregados e os eventos do dia. Ele não percebeu bem a história mas tinha desaparecido um atlas de coleção. Peça muito valiosa, quer pelo seu valor venal, quer pelo estimativo.
– É o resultado de ter o empregado dentro e fora, com pessoas na livraria. São quinhentos mil escudos à minha conta! – Disse o tio Frederico.
O pensamento de Raul Cardoso estava noutro lado. Mentalmente tentava encontrar uma forma de recuperar a oportunidade perdida nessa manhã. Essa noite sonhou com ela de uma forma diferente. Ela estava nos braços dele e ele cobria-a de beijos e carícias. Acordou antes que algo mais pudesse acontecer, mas o seu desejo era bem visível. Acontece que, no dia seguinte, saiu do metro e, quando atravessava a praça, viu um amigo a cumprimentar a mãe da ruiva. Parou. Confuso com a presença dos dois naquele local, sentiu uma pontada no peito quando imaginou que ele podia também conhecer a filha. Rapidamente se apercebeu que o destino, por qualquer sortilégio, lhe apresentava a solução para conhecer a ruiva. O amigo ficou, de beiço caído, a ver a mãe afastar-se e não se apercebeu da sua aproximação. Incapaz de se conter perguntou-lhe de chofre:
– Quem é a mulher que acabaste de cumprimentar?
– É a Petry. Bela mulher!
– Que raio de nome é esse?
– É o sobrenome do marido que era Húngaro.
– E a outra?
– Quem?
– A filha.
– A filha?
– Sim. A ruiva é filha não é?
– Sim a filha. A ruiva é a filha sim.
– Conhece-las bem?
– Sim. Quer dizer… costumo encontrá-las nos saraus, na casa dos Otto, uma família Húngara que vive num terceiro andar enorme, na Avenida João XXI, junto ao Areeiro.
Raul Cardoso não tinha muitos amigos e os que tinha eram mais conhecidos do que amigos. Júlio Pedrosa era um deles. Costuma gabar-se das suas conquistas, normalmente mulheres mais velhas, às quais ele nunca prestara muita atenção. Ocasionalmente tinham partilhado o gosto comum pela música e pelos jogos de computador, tendo inclusive feito algumas competições, que ele ganhava invariavelmente. Decidiu abrir-lhe o coração. Ao perceber que a paixão do Raul Cardoso era a filha Júlio prontificou-se logo ali para o ajudar.
No sábado seguinte teria lugar um sarau na casa dos Otto, onde se declamaria poesia e ouviria guitarra e piano. Coisas simples com artistas amadores ou profissionais patrocinados pela Associação Portugal-Hungria para a Cooperação. Ficou combinado que o amigo o levaria consigo.
Expor assim os sentimentos. Pedir favores. Viver em antecipação o dia de amanhã. A vida tornou-se um vórtice. Ele estava uma pessoa diferente! Raul Cardoso implorou e o amigo acedeu: Não era difícil. No sábado seguinte, envergando um fato antracite, uma camisa branca ajustada ao colarinho por uma gravata de cornucópias e uns sapatos Armando Silva, reluzentes, ele apresentava os cumprimentos à Dona Helena Otto. A sala, apesar de enorme, estava cheia. O ruído das conversas era como o zumbido de uma colmeia em plena atividade. Os homens vestiam a rigor e as mulheres seguiam-lhes o tom: saias e vestidos longos e adornos vistosos, imitações na sua maioria. Artistas e políticos, à procura da ribalta ou em decadência, espalhavam-se pela sala, à mistura com uns quantos civis. Aqui e ali, em grupos de cinco ou seis, os mais velhos narravam as suas histórias, como se os efémeros momentos de glória fossem eternos, enquanto uns quantos jovens se pavoneavam de grupo em grupo. Essa era a glória que almejavam. Raul Cardoso não era um homem social. Aquilo apanhou-o de surpresa. Concentrou a sua atenção na anfitriã. O vestido preto e longo escondia a sua magreza e o permanente de caracóis dava-lhe um ar disforme à cabeça. No braço, tilintavam várias pulseiras, numa combinação bizarra com o medalhão, que pendia de um colar curto e que parecia querer estrangulá-la. Muito a custo conseguiu vislumbrar as Petry. A filha, a ruiva, tinha ganho alguns centímetros. A saia longa, preta, a camisa branca e a jaqueta, conferiam-lhe um ar muito elegante. Mas eram a mala e os sapatos de salto alto, que davam um toque distinto à toilete. Rodeada de três jovens, que pareciam venerá-la, a aura dela brilhava. Lembrava um fresco de Rembrandt. A mãe, vestida invariavelmente de preto, conversava de forma animada com um senhor alto, forte e loiro, que falava com as mãos. O casaco caía-lhe pelos ombros e a gravata amarela, demasiado comprida e larga, parecia curvá-lo com o seu peso. Os cabelos compridos davam-lhe um ar singular, sobretudo devido ao facto de ser calvo, na parte superior da cabeça. Era cavaleiro da ordem de Malta.
As conversas emudeceram. O som dos passos e o frou-frou dos vestidos e fatos tornou-se audível. A audiência procurava o melhor lugar. A violinista acabava de entrar: Uma jovem húngara, com créditos já evidenciados, era a principal convidada da noite. O primeiro ato da noite estava prestes a começar. No final seria inaugurado o bufete. Raul Cardoso aproveitou o ensejo para se colocar ao lado da menina Petry. Antes do silêncio ser absoluto ele ainda teve tempo de lhe perguntar de forma carinhosa:
– Encontrou aquilo que procurava na livraria?
– Sim. Levei algo mais erudito e menos mundano. – Disse ela, com voz sumida, mas um olhar ternurento.
Ele sentiu que as suas almas se uniam para a eternidade.
Raul Cardoso não conseguiu transmitir-me todos os detalhes referentes àquela noite pois não tirou os olhos da Ruiva, mas nem isso o impediu de apreciar a música. Foi um miniconcerto magnífico! O homem avançou para o cento da sala com ar compenetrado. Era um velho amigo dos anfitriões. Originário de uma família rica e aristocrata, tinha esbanjado tudo no jogo e em tentativas de fazer vingar a sua poesia. Aqui dispunha da audiência que as editoras lhe haviam negado. O poema era uma imitação do lirismo camoniano: Um soneto de amor, explicou o autor. No fim todos aplaudiram e ele sorriu abertamente, exibindo um dente podre. A noite continuou erudita. Foram vários os intervenientes que declamaram ou cantaram, sempre com o consentimento da anfitriã. A determinada altura um político, alto, seco, e com ar de ave de rapina, que tentava reencontrar o caminho para o sucesso, declamou um poema de Fernando Pessoa. As mulheres aplaudiram com entusiasmo. Ao lado de Raul Cardoso, um aspirante a artista disse:
– Farsantes! Onde já se viu: os políticos armados em artistas. Apoiem a cultura em vez dos vossos bolsos!
Ela estava em primeiro plano. Ela era mesmo o único plano. Os olhares dardejavam mensagens breves, interrompidas quando ela baixava a cabeça. Aquele foi demorado. Tocaram-se com o olhar, tendo entre eles uma barreira invisível que, simultaneamente, os aproximava e separava.
No fim de semana seguinte ele encontrou as Petry no clube dos Olivais. A mãe, lado a lado com a filha, exibindo a sua qualidade de sócia, tinha-o convidado: espero que o vizinho não tenha compromissos prévios. É apenas um pequeno convívio.
Era sábado a seguir ao jantar. Estava lá o político que declamou Fernando Pessoa, o poeta lírico, o cavaleiro de Malta: que era um empresário viúvo, o aristocrata falido, as duas manas Herédia e a D. Gertrudes, uma senhora que tinha secretariado a Assembleia Constituinte, durante o sequestro, em 1975, e que não se cansava nunca de narrar os eventos: As trinta e seis horas de terror com os deputados fechados dentro do edifício; os discursos inflamados dos políticos de vários quadrantes; as câmaras de televisão ávidas de notícias; os manifestantes lá fora, ferozes nas suas palavras de ordem; a saída em fila indiana e sem proteção policial, por entre os insultos da populaça. Enfim, traumas que a conduziram à reforma antecipada.
Quando D. Gertrudes terminou de contar a história começou-se a jogar. Curiosamente Raul Cardoso lembrava-se apenas de parte dos acontecimentos da noite. Não sabia bem a que tinha jogado, mas recordava-se perfeitamente de que tinha ficado ao lado de Laura, era esse o nome da filha da Petry. A visão das suas mãos brancas, com dedos longos, ornamentados por unhas pintadas à francesa e com movimentos de bailarina, retiveram o seu olhar. O vestido rodado, com folhos, embora desenquadrado, conferia-lhe um ar aristocrata. Estranhamente, retinha ainda na memória um episódio que o fez ficar a detestar a classe política. Laura estava sentada de lado na cadeira, toda voltada para ele. A mão direita repousava no regaço e a esquerda suportava-lhe a cabeça, apoiando o cotovelo sobre a mesa. O jogo tinha terminado e havia que trocar as fichas com que cada um tinha ficado. Os que não tinham jogado faziam círculo, em pé. Em frente dele, ladeado pelo cavaleiro de malta e pelo aristocrata falido, estava o político declamador de poesia. Os óculos graduados e o bigodinho à Errol Flynn, davam-lhe um ar ainda mais sinistro. Raul Cardoso não retirava os olhos de Laura ao mesmo tempo que fazia rodar, sobre a mesa, como um peão, a ficha vermelha de valor facial de vinte contos. Laura olhava para o movimento fascinada. Enquanto aguardavam Raul Cardoso trocava umas palavras com Laura que lhe sorria. Ela sorria sempre. Aquele sorriso simples mas o mais puro e angélico que ele tinha visto. De repente a ficha resvalou, saiu borda fora e foi cair para os lados de Laura, desaparecendo sem fazer qualquer ruído. O político ajustou os óculos e baixou-se de imediato em busca da ficha, deixando aparecer as calças descosturadas; o cavaleiro de Malta tentou colocar-se de cócoras mas a proeminência abdominal não lho permitiu; a mãe pediu que todos se afastassem para poder procurar melhor; Laura levantou-se e, com uma delicadeza suprema, sacudiu o vestido. A ficha não apareceu.
– Ora essa. O chão é de madeira mas eu não ouvi a ficha cair.
– Nem eu. – Disseram várias vozes.
Curvados, acocorados ou jogados no chão, toda a gente procurava a ficha, mas o mais entusiasta era o político.
– O chão não tem buracos! – Dizia a mãe Petry.
– Parece bruxaria. Desaparecer assim… – Disse o político.
Enquanto isso, Raul Cardoso desvalorizava o desaparecimento.
– Ora essa. Não se preocupem. A ficha aparece amanhã. Por favor não se incomodem.
No entanto, ninguém lhe tirava da cabeça que o político tinha feito à ficha o mesmo que faziam aos impostos, na versão do jovem artista. Tinha-a embolsado! A revolta que isso lhe causava foi rapidamente ignorada e o seu pensamento voou para Laura, enquanto descia as escadas e se encaminhava para casa. Já no seu quarto reviveu com prazer os momentos passados na companhia dela. Ele estava nas nuvens.
Tendo decorrido algum tempo, assume-se que os encontros entre os dois se tornaram mais frequentes e o desfecho previsível. Embora Raul Cardoso não tenha sido fértil em detalhes, o motivo foi um beijo. O primeiro beijo. Os beijos e as juras de amor que possam ter trocado ficam no segredo do silêncio. A história desses encontros resume-se na afirmação do próprio Raul Cardoso.
– Para encurtar razões resolvi-me casar com ela.
Era uma decisão definitiva. Uma entrega sem reservas. A rendição a um amor cujo fundamento foi um simples beijo. Raul, um homem casto e ingénuo, provou o sabor dos lábios da sua Vénus e rendeu-se. Aquela entrega, ao mesmo tempo que o enchia de remorsos, era tão deliciosamente boa que o levava a ignorar alguns dos princípios em que fora educado. Era saborear o fruto proibido. Era o sabor a pecado! «O que diria o meu tio se imaginasse o que me vai na alma?» Interrogou-se. O tio, um homem solteiro, com exceção dos negócios, tinha parado no tempo. Vivia agarrado a um conjunto de princípios morais que aplicava com rigidez. A sua elevada estatura, o bigode farto e bem tratado, os óculos, que usava na ponta do nariz e a sua voz forte e áspera, eram a personificação de uma figura austera e inflexível. A bengala, que trazia sempre consigo, em vez de simbolizar fraqueza era a arma que completava a sua armadura.
A sua figura enchia por completo a porta. O olhar inquisitivo que lançou à sua volta parecia adivinhar uma desgraça. Normalmente a reunião no clube literário era seguida de um jantar e ele apenas regressava a casa por volta das nove da noite. Raul e Laura não tinham parado no primeiro beijo. Sempre que a oportunidade se apresentava exploravam o corpo um do outro sem pudor. Raul vivia num mundo novo e o sorriso tímido com que Laura dizia que sim a tudo era sinónimo de que também ela estava na sua primeira viagem. Era um sorriso fresco e angelical, mas perigosamente sedutor. Naquele fim de tarde tinham a casa só para eles. Depois de alguns minutos na sala foram para o quarto. De passagem, tinham dado um espreitadela ao quarto do tio. A enorme cama de casal, coberta com uma colcha vermelha, despertava nele um fascínio que não conseguia explicar.
– Uma cama um pouco maior dava um jeitão. – Disse Raul.
– O que eu gostava mesmo era de fazer amor na cama do teu tio. – Disse ela.
Não precisaram de mais palavras. Abriram a porta e, entre gargalhadas de perversa excitação, entraram no santuário do tio. Era assim que ele designava o seu quarto. Concentrados apenas um no outro e preocupados em dar e sentir prazer, nem sequer ouviram o tio subir as escadas de madeira. Os seus corpos fundiam-se um no outro. Eles eram dois seres alados que voavam entrelaçados para o ocaso. O clímax esperava-os de braços abertos! O tio Frederico abriu a porta e deu um grito. Acabava de ver uma das imagens do inferno de Dante. Raul, deitado de costas, agarrava a barra da cama com as mãos e arqueava o corpo, numa ponte perfeita. Laura, sentada sobre ele, dobrava o corpo para trás, mostrando os seios pendurados, mas eretos e um rosto distorcido pelo prazer. O grito, seguido do estrondo da porta ao ser fechada, foi um anti clímax. Eles vestiram-se à pressa e, enquanto Laura se esgueirava sorrateiramente, Raul foi ter como tio à sala.
– Tio…
– Vais fazer as malas e vais-te embora.
– Tio deixe-me explicar…
– Vais deixar a minha casa e também não te quero a trabalhar para mim.
– Tio, eu posso explicar.
– Não! Recebes o mês por inteiro, mas tens de partir. Aquilo que fizeste só por si já é mau, mas no meu quarto…
O tio Frederico interrompeu-se recusando-se a verbalizar a cena e passou as mãos pelo cabelo. Era um gesto nervoso. Família e honra! A família era sagrada, mas aquilo que o sobrinho tinha feito era demais para ele!
– Mas…
– Deixa-me. Vai arrumar as tuas coisas e parte.
– Eu amo a Laura. Tio!
– O amor! A mim nunca me serviu de muito. Para ti, pelo caminho que levas, vai ser a tua perdição!
Estava tudo dito. O amor por Laura era sagrado para Raul.
Ao início da noite já Raul estava instalado numa pensão nas avenidas novas. Deitado, de costas na cama, refletia sobre o que se tinha passado «Foi pouca sorte o tio ter-nos encontrado.» Pensou. Tinha sido maravilhoso estar com Laura. Era incrível como ela sendo tão tímida e inexperiente conseguia guiá-lo. Devia ser intuição feminina! Ele estava tranquilo. Tinha um bom curriculum e não tardaria estava a trabalhar. O amor dava-lhe força para enfrentar tudo.
Encontrar emprego revelou-se mais difícil do que Raul esperava. A ausência de amigos e contactos, devido ao seu feitio, não ajudou em nada. Estávamos em 1983. A devastação do tecido empresarial que se seguiu à revolução dos cravos fazia-se sentir em pleno. Nem a intervenção do FMI melhorou a situação. As poupanças, que nem sequer eram muitas, começaram a desaparecer e ele não via jeitos de conseguir emprego. Laura parecia alheia à situação dele, contribuindo de forma ativa para a delapidação do parco pecúlio de Raul. Estava só e desamparado. Os encontros diários acabavam invariavelmente na cama e eram regados com vinho ou cerveja que funcionavam como desinibidor. Por vezes terminavam em discussão sem nenhum motivo especial a não ser o facto de estarem toldados pelo álcool. Nesses momentos evitavam-se, fixando o olhar vazio no teto. Quando ela partia ele olhava para os despojos. A cama desfeita e vazia e as garrafas de bebida espalhadas pelo chão, eram uma visão degradante. «Tenho que arranjar emprego!» Dizia para consigo.
Raul contou-me que nessas alturas encostava a testa à vidraça da janela e fixava um olhar expectante na rua. Nada, apenas silêncio. A rua deserta ou a linha de comboio, sem tráfego, apenas acentuavam a sensação de solidão. Saía para a rua e buscava, na noite, o conforto que as portas que se fechavam, lhe recusavam, durante o dia.
A situação começava a ser insustentável. Raul tinha penhorado todos os bens de valor e a conta da pensão estava em aberto.
– Se assumisse-mos um compromisso mais formal a minha mãe não se oporia aos nossos encontros.
– Não posso. Amo-te muito. Demais mesmo. Mas para formalizar um compromisso preciso de estabilidade.
Os encontros foram interrompidos.
Desesperado. Prestes a explodir. Saiu para a rua e caminhou a esmo. Cosido com as sombras, o olhar no infinito, parecia um autómato.
– Pst! Hei!
Só se apercebeu que falavam com ele quando o amigo o tocou no ombro.
– Ainda bem que te encontro. Regressei há dois dias da terra e soube da tua situação. Tenho uma proposta para ti. Interessa-te? – Disse o amigo.
Raul confessou-me que nem sequer hesitou. Não quis saber nada sobre a proposta. A sua avidez por um trabalho era tal que a resposta foi imediata.
– Sim. Estou interessado.
Contactou Laura e pediu-lhe um encontro. «Tinha notícias importantes para lhe contar». Ao telefone Laura pareceu pouco entusiasmada com o encontro mas quando os dois ficaram a sós não resistiram e antes mesmo de Raul partilhar as novidades amaram-se. Foi um momento intenso, puro e singelo, em que eles descobriram que o que os unia era bem mais forte do que aparentava ser.
– Vou para Angola. – Disse de forma abrupta. – O ordenado é muito bom e o prémio por conclusão do projeto ainda é melhor. Quando voltar posso ter o meu próprio negócio.
Ela ficou parada a olhar para ele. O seu rosto era inexpressivo. Depois sorriu. Um sorriso nervoso que ele não soube interpretar.
– Tu sabes o quanto eu te amo não sabes? Esperas por mim?
– Sim, eu espero. Podes ir. – Disse ela de forma lacónica.
Laura estava sentada na borda da cama e ele tinha-se ajoelhado a seus pés e segurava-lhe as mãos. O tempo parou e o espaço tornou-se irreal. Entre eles uma barreira invisível. A barreira de um oceano que os iria separar. Dois anos era muito tempo!
Raul partiu. O coração apertado fazia-o sentir pequenino. Sentado no avião, as costas do assento pareciam-lhe enormes, embora os joelhos batessem no assento da frente. Enjoou. Vomitou tudo menos a dor da separação. Angola, meio em guerra, era um mundo de oportunidades, riscos e perigos. Trabalhou arduamente. Experimentou a dureza do calor húmido nas longas noites sem dormir e vibrou com os odores das cores africanas. Teve paludismo, lidou com a corrupção e com a extorsão. Criou relações, amizades talvez, dívidas de favores seguramente, mas venceu. Após um ano a trabalhar por conta de outrem, criou a sua própria empresa de serviços informáticos, que vendeu antes de regressar. Voltou três anos depois.
Raul Cardoso era um homem diferente. Era um homem confiante, otimista, com um futuro risonho. Os contactos e o dinheiro que trouxe de África permitiram-lhe constituir uma empresa, equipá-la e contratar pessoas. A carteira de clientes era boa e o negócio tinha excelentes perspetivas de crescimento. Laura recebeu-o de braços abertos e a mãe dela deu-lhes a bênção embevecida e com entusiasmo. O casamento ficou marcado para daí a dezoito meses.
– Porquê tanto tempo. – Questionei Raul?
Ele explicou-me que precisava de dedicar tempo ao lançamento do negócio e não queria que isso atrapalhasse a preparação do casamento à qual queria dedicar especial atenção. A família e a honra eram valores que ele prezava, agora ainda mais.
Havia decorrido um ano e o negócio estava completamente estabilizado. Era tempo de se dedicar aos preparativos do casamento. Por esses dias apresentou-se-lhe no escritório o seu principal contacto em Angola. Alguém a quem ele devia, em parte, o seu sucesso e que agora lhe cobrava um favor. «Pois sim senhor. Favor com favor se paga.» Raul tonou-se fiador do angolano, num processo que envolvia um financiamento bancário de valor avultado. 
Faltava pouco mais de um mês para o casamento. Estava tudo tratado. Raul era a imagem personificada da prosperidade e da felicidade. Quando recebeu a citação Raul empalideceu. O documento caiu-lhe das mãos e ele cobriu a cara. Incapaz de se suster, sentou-se. Chorou. Derramou toda a fúria, a raiva e a frustração até que a fonte das lágrimas secou. Tomou uma resolução. O angolano tinha fugido do país com o valor do empréstimo. As circunstâncias da sua fuga não eram claras mas envolviam saias. O financiamento tinha que ser reembolsado, de imediato, na sua totalidade.
– Pago. Pago tudo até ao último cêntimo.
Vendeu a empresa, pelo preço que lhe deram e ficou novamente sem nada. Raul Cardoso voltou a ser pobre.
A energia, a força, a vontade que até aí o moviam, tinham desaparecido de um dia para o outro. O sucesso profissional, a felicidade ao lado de Laura, tinham-se evaporado, como que por magia. A sua vida tinha sido completamente destruída! O coração apertado, dentro de um peito que o estrangulava com a dor, fazia-o sentir pequenino, quase insignificante. Deitado sobre a cama, com o olhar fixo no tecto sentia-se completamente perdido. «Tenho que dar a notícia à Laura. Mas como?» O espaçoso apartamento, que tinha arrendado entretanto, parecia-lhe demasiado pequeno. Sentia-se sufocar. Saiu para a rua. A noite tinha lançado o seu manto negro sobre a cidade e ele vagueou ao acaso pelas ruas. Sem que isso fosse uma decisão consciente, os passos conduziram-no à porta da casa de Laura. Tomou uma decisão. Tinha de lhe contar. Ela tinha de saber que o futuro já não era risonho. Pior do que isso, que já não existia futuro. Levantou a mão para tocar na campainha. O ruído de uma janela a ser aberta interrompeu-lhe o gesto. Era ela. Coseu-se com a parede, escondendo-se na sombra. As lágrimas corriam-lhe pela face sem que ele fizesse algum esforço para as reter. Chorava pela sua desgraça, pela sua falta de coragem, chorava porque não sabia mais o que fazer. Do outro lado da rua acendeu-se uma luz, ao mesmo tempo que a janela de Laura se fechava. Raul Cardoso, levantou a cabeça e vislumbrou a sombra do tio por detrás da vidraça. Limpou as lágrimas com a manga do blusão e aproximou-se da janela. Vieram-lhe à memória os tempos em que a sua vida era simples. Lembrou-se do seu quarto, das refeições monótonas, mas saborosamente acolhedoras, com o tio, do seu trabalho, por cima da livraria do Chiado, enfim das coisas boas de um passado que agora lhe parecia muito longínquo. Tinha saudade do tio.
Acordou em sobressalto com o toque do telefone. Era do hospital.
– O seu tio teve um ataque cardíaco e está em coma. – Disse a voz do outro lado do telefone.
Ao entrar no quarto a visão do tio, entubado e respirando com a ajuda de uma máquina, comoveu-o de tal forma que ficou imobilizado. O tio não devia perceber nada do que se passava à sua volta, mas a Raul pareceu-lhe o momento adequado para falar.
– Desculpe tio. Aquilo que fiz foi uma falta de respeito de uma leviandade sem limites.
O tio pareceu pestanejar. Devia estar a ver coisas. Segurou a mão do tio de forma carinhosa e não saiu da sua beira, tendo dormido sentado na cadeira apenas por alguns minutos. Foi o suficiente para ser acordado pela entrada repentina do médico e enfermeira. Era madrugada. O tio tinha acordado. Apesar dos seus protestos foi obrigado a deixar o tio repousar e aconselhado a ir para casa. Voltou ao fim do dia e encontrou o tio surpreendentemente bem disposto. Tinha saído dos cuidados intensivos, embora estivesse sob vigilância. A forma animada como ele falava com a enfermeira deu-lhe coragem.
– Preciso de lhe contar o que se passou nos últimos quatro anos.
– Cala-te. – Disse o tio de forma seca. – Julgas que eu não sei o que tens andado a fazer?
– Quer dizer que o tio…
– Sei muito bem que continuas o mesmo ingénuo. Na verdade é muito pior. Para além de ingénuo também és estúpido. – Disse o tio mantendo o tom ríspido.
– Mas tio…
– Ingénuo e estúpido, mas honrado. Devias-lhes muitos favores era? A isso chama-se estupidez! O que o teu amigo te fez foi uma canalhice! Pagaste claro! Isso é honra! E agora? Na miséria outra vez! Estúpido!
– Assim que o tio melhorar vou ter de voltar a Angola.
– Cala-te. Estúpido!
Ficaram os dois em silêncio. O tio encostou a cabeça ao travesseiro e a sua expressão suavizou-se. Isso encheu-o de esperanças. O coração bateu descompassado. Por instantes sonhou com a reconciliação.
– Estou velho e doente para conduzir o negócio sozinho. Quero que sejas meu sócio e que comeces a participar na gestão da empresa.
E foi assim. Raul foi viver com o tio, que entretanto patrocinou o casamento, cuja data se manteve. Laura como de costume reagiu de forma pouco emotiva aos acontecimentos dramáticos que ele lhe narrou. Raul estava radiante. A boa fortuna voltava a sorrir-lhe. Para comemorar a sua felicidade marcou uma viagem de lua-de-mel às Seychelles e o entusiasmo de Laura, quando soube, fê-lo subir ao céu.
Raul estava eufórico! Vivia cada segundo da sua vida para satisfazer os desejos da sua amada e isso, só por si, fazia-o feliz. Era sexta feira e ele tinha decidido passar a tarde com Laura. Ela veio ter com ele à livraria e depois de uma volta ao largo do Camões, desceram até ao Rossio, sempre de mão dada. De cabeça erguida e peito cheio, ele marcava o passo. Laura deixava-se levar. O cheiro acre do fumo dos assadores misturava-se no ar com o odor adocicado das castanhas assadas. Era o cheiro a Outono. Assim que dobraram a esquina da rua do Carmo, o som do saxofone, de um cantor de rua, inundou-lhes os sentidos, com melodiosas notas de jaz. Chegados ao Rossio Laura teve um daqueles momentos de entusiasmo que o levavam aos píncaros.
– Vamos à Torres ver uns anéis!
Raul anuiu e mentalmente ofereceu-lhe logo um anel. O olhar de Laura humedeceu-se de prazer e a expressão do jovem, por detrás do balcão, levou-o a virar-se para Laura ainda a tempo de a ver desviar o rosto, fixando o olhar nas valiosas peças que estavam na montra. O jovem ourives espalhou sobre o balcão uma grande variedade de anéis e outras peças, entre as quais se destacava um alfinete de gravata trabalhado em filigrana. Laura experimentava-os todos com evidente prazer e exibia-os para Raul ao mesmo tempo que mostrava a mão ao ourives embevecida.
– Podes levar o anel que quiseres. Nada é bom demais para o amor da minha vida.
O ourives olhava para ele com uma expressão estranha. Era inveja seguramente!
– Enquanto escolhes o anel vou ao banco. Volto num instante. – Disse Raul.
Raul entrou apressado. Piscou o olhar para se certificar de que estava a ver bem. Laura estava no topo do balcão, debruçada sobre este, projetando as ancas para trás. O ourives acariciava-lhe as nádegas numa lentidão consentida. Quando o viu ele tirou a mão, sorriu para Raul e assumiu uma posição expectante, aguardando a decisão do cliente. Laura estava corada até à raiz dos cabelos e manteve o olhar fixo nas joias. O choque deixou Raul num estado autista. Era como se ele fosse um espetador daquela cena. Ele via o filme da própria vida! Agindo de forma autómata elegeu um dos três anéis que colocavam Laura indecisa. Pediu para embrulhar o anel dentro da respetiva caixa e pagou. Pegou no braço de Laura e virou-se em direção à porta.
– Desculpe… – Disse o ourives.
– A conta está fechada e paga, certo? – Disse Raul de forma abrupta.
– Falta pagar a outra peça…
Raul olhou alternadamente para Laura e para o ourives. Pela sua mente passaram dezenas de pensamentos sem nexo e outra vez aquela imagem…
– Qual peça? O anel está embrulhado e pago!
– A senhora sabe… – Disse o ourives dirigindo a Laura um olhar irónico.
Aquilo era demais! Raul estava completamente perdido. Virou-se para Laura e agarrou-lhe os pulsos com força. Laura que olhava para o ourives, assustou-se.
– Estás a magoar-me! – Disse a medo.
– Queres explicar-me o que se passa? – Disse ele com a voz ligeiramente alterada e sacudindo-lhe os pulsos.
A mala de Laura caiu no chão e abriu-se. O alfinete de gravata saltou lá de dentro como se quisesse marcar presença naquela cena. Laura ficou pálida e sem qualquer reação. Raul sentiu que o chão lhe fugia debaixo dos pés. Deixou cair os braços incapaz de reagir. Decorridos breves instantes virou-se, tirou a carteira do bolso e pagou.
– Pois claro, o alfinete. Que disparate!
Saíram do ourives e dirigiram-se para a rua do Carmo. Ele conduzia-a pelo braço, mantendo-a a seu lado. O silêncio parecia formar uma bolha que os envolvia. O céu coberto de Cirros anunciava trovoada e o ar parecia cheio de eletricidade. O pregão dos cauteleiros anunciava a sorte grande, o fumo dos assadores das castanhas humedecia-lhe os olhos e as gargalhadas dos jovens, que por ele passavam, agrediam-lhe os ouvidos. Ao cimo da rua do Carmo ela soltou-se a parou.
– Vamos acabar com esta farsa. Eu gosto do ourives e como deves imaginar tudo começou faz muito tempo. – Disse, num tom atrevido, que ele nunca lhe ouvira.
Raul agarrou-lhe no braço, puxou-a para si como se lhe fosse bater. Ela encolheu-se.
– És uma ladra e uma vagabunda. Desaparece da minha vista. – Disse de forma surpreendentemente dura.
Largou-a, virou-se e desceu a rua Nova do Almada, em direção à praça do Município. No dia seguinte partiu para o Funchal e nunca mais voltou a Lisboa. Até hoje.
– Até hoje – Dizia Raúl, sentado na minha frente, no bar do Praia Dourada.
Nota: Este texto é uma rescrição do conto de Eça de Queiroz “Singularidades de uma rapariga loira”

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