VESTIDA DE VERMELHO



VESTIDA DE VERMELHO

Filomena tinha-se casado muito cedo. Aos vinte um ano já era mãe de uma criança, que entretanto se tornara numa bonita adolescente. O carrocel da vida tinha-a tratado menos bem, quer em termos pessoais, quer profissionais, mas isso não tinha abalado o seu otimismo. O ano em que completou os trinta foi um ano negro. A empresa entrou em falência e o seu casamento em colapso. Gerir as duas coisas, em simultâneo, mantendo a disponibilidade mental e física para dar à filha o apoio de que ela necessitava, não foi fácil. Foi tão complicado que quase arruinou a sua sanidade mental. Sobreviveu. Tornou-se uma mulher mais forte, mais segura de si e isso tornou-a bastante mais interessante para o sexo oposto.
Nos cinco anos que se seguiram ela dedicou-se, em exclusivo, à filha. As relações duradouras com os homens não lhe interessavam. Foi uma fase muito interessante da vida. Conheceu vários homens e envolveu-se com alguns deles, mas as relações foram superficiais e destinaram-se, exclusivamente, a satisfazer as suas necessidades. Ninguém teve um papel relevante na sua vida, construída à volta da filha e tendo os pais e o irmão como pilares. Entretanto, tinha tido a felicidade de encontrar um emprego, apesar da crise, logo após a insolvência da empresa.
Filomena tinha uma estatura mediana e era dotada de curvas interessantes, sem ser nenhum modelo.  Os cabelos castanho claros, longos e sedosos, faziam-na mais jovem do que realmente era. Os olhos eram o seu trunfo. Para além de muito expressivos, eram de um castanho sedoso que, dependendo da luminosidade e do humor, se transformavam num verde suave, conferindo um colorido especial ao rosto. As feições eram perfeitas. Mas aquilo que fazia a diferença era o sorriso. Era simplesmente maravilhoso!
No dia em que o conheceu o seu mundo mudou. Marcus tinha quarenta e cinco anos mas não aparentava mais de trinta e cinco. Era elegante, tinha um metro e setenta e cinco de altura, era pai de um casal de jovens, na casa dos vinte e viúvo. Tinha perdido a mulher fazia dois anos e finalmente começava a aprender a viver com o facto. Ele era o novo diretor financeiro da empresa. Ainda bem que ela estava na área comercial. Se ele fosse seu chefe ia ser um problema!
Filomena estava completamente apaixonada. Quando estava junto dele as pernas tremiam-lhe e não conseguia dizer nada de jeito. Ela que era divertida e desenvolta ficava atrapalhada e sem jeito. Por seu lado ele era brincalhão e divertido. Adorava contar anedotas e nem todas eram adequadas aos ouvidos sensíveis. Ela delirava com isso. Quanto mais brejeiro ele era mais ela gostava. Ela bebia as palavras dele e não se coibia de o demonstrar. O problema era que ele parecia ignorá-la. Perante o distanciamento dele, ela tornou-se mais discreta. O sentimento que nutria por ele mantinha-se intato, porventura até tinha sido fortalecido por uma ou outra conversa mais pessoal que tiveram e onde descobriu que ele só agora começava a estar pronto para abrir o coração a novos amores. Ela tinha-se descuidado nos últimos anos e isso refletia-se na sua figura. Certa manhã, depois de ver a sua imagem, toda nua, no espelho, decidiu que tinha de cuidar um pouco mais de si. Começou a ir ao ginásio e a cuidar da alimentação de forma metódica. Um ano depois o resultado era visível, mas nem assim ele parecia reparar nela. Normalmente vestia roupa escura. Quando ficou mais elegante manteve as cores da roupa, mas ousou substituir, ocasionalmente, as calças por um vestido ou uma saia. O efeito era muito interessante sobretudo quando combinado com um sapato de salto alto. Apesar de tudo isso Marcus não dava sinal de ter reparado nela como mulher, ou de sequer te visto a mudança que se havia operado.
Filomena sempre sonhara usar roupas mais arrojadas, em termos de cor, mas tinha-se refugiado nas cores escuras para disfarçar as formas mais arredondadas. A sua figura tinha mudado mas a força do hábito era uma barreira à mudança.
«Mãe deixa-te de desculpas. As calças ficam-te a matar!»
Ela comprou as calças mas não as usou logo. A filha percebeu o que se estava a passar e ao fim de uma semana tomou uma decisão. Durante o fim de semana foi mentalizando a mãe e esta acabou por se deixar convencer. Para evitar arrependimentos de última hora, no domingo à noite, foi ao quarto da mãe e preparou-lhe a roupa que ela devia vestir no dia seguinte. Filomena, quando viu o que a filha tinha feito, sorriu para si própria. Ia dormir sobre o assunto.
Quando acordou sentiu que tinha dormido uma eternidade. Estava fresca e bem disposta e sorriu para o espelho. «Hoje estou bonita!» pensou. Esse foi o espírito com que se arranjou. Quando entrou na empresa deu logo nas vistas. Os colegas, homens ou mulheres, elogiaram a escolha e alguns dos comentários foram mesmo mais além. Marcus não apareceu para tomar café na copa. Ficou com pena pois gostava de ver a sua reação. Ao meio da manhã ele ligou-lhe para saber se o almoço se confirmava. Ela já nem se lembrava que tinham combinado almoçar. Eles faziam isso esporadicamente mas eram sempre simples almoços de colegas de trabalho.
Marcus apanhou um choque quando a viu. Tudo nela estava perfeito. O cabelo bem cuidado caia-lhe pelos ombros como um manto de sela com reflexos dourados. A blusa preta, semitransparente, coberta com um casaco de malha preto, que se ajustava ao corpo, evidenciavam a elegância das formas. Mas o que lhe chamou verdadeiramente à atenção foram as calças vermelhas. Ele adorava o vermelho! A Filomena tinha ganho vida aos seus olhos. A indumentária era completada com um sapato de meio salto, conferindo-lhe um ar elegante. Marcus tinha ficado deslumbrado. Era como se de repente ele tivesse acabado de a conhecer. Sentiu umas borboletas na barriga e o coração bateu um pouco mais acelerado. «Meu Deus! Tudo isto só por causa de umas calças vermelhas?» Interrogou-se. Olhou retrospetivamente sobre o assunto. A verdade é que ele cada vez se sentia melhor na companhia dela. Quanto mais a conhecia mais gostava de a ter como amiga. Amiga? Sem que ele se desse conta ela começou a significar algo mais do que isso. Ele já tinha percebido que ela gostava dele e que nos últimos dois anos tinha ficado bem mais elegante. Mas a verdade é que não se resumia apenas uma questão de elegância. Era o charme da idade. Existem pessoas que envelhecem e pessoas que ficam mais maduras, ela pertencia às segundas.
O almoço foi diferente. Tão diferente que marcou o início de uma relação também ela diferente. Filomena nem queria acreditar no que estava a ouvir. Afinal ele também gostava dela! Trocaram o primeiro beijo. Foi um beijo apaixonado. Eles tremiam quando os lábios, quase fechados, se tocaram. Pouco a pouco eles entreabriram-se dando lugar a um contacto mais íntimo. Finalmente, entregaram-se sem reservas. Primeiro os lábios devoraram-se mutuamente, depois as línguas envolveram-se num diálogo de paixão selvagem, usando-se, explorando-se ou simplesmente entregando-se. O amor estava no ar!

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