A ESPIGA RAINHA


A ESPIGA RAINHA

O outono já marcava o ritmo. Os dias eram cada vez mais pequenos e as noites mais frias. O sol pendurava-se lateralmente no céu e apenas na hora do meio-dia obrigava os caminhantes a despir o casaco. Na agricultura, a história era outra: as mangas arregaçadas, aguentavam-se até ao fim do dia, graças ao esforço físico. Outubro ia na segunda semana e esta previa-se anormalmente quente para a época. Apesar dos dias quentes, os pássaros já procuravam abrigo para passar o inverno e as andorinhas fazia muito que haviam partido. Na quinta do José Poeiras era altura de tirar o milho dos lameiros. A notícia percorreu a vizinhança como um relâmpago: era a última desfolhada, portanto havia lugar a magusto e bailarico.
José Poeiras era um lavrador abastado, mas isso não lhe valia de muito. As terras eram pobres e em socalcos e não lhe permitiam obter grande rendimento. O que lhe valia era a reforma de capitão do exército. Tinha ficado com a perna esquerda em mau estado na guerra. Guardava boas recordações da Guiné, embora tivesse passado um mau bocado. Com a perna torta e a coxear ligeiramente, tinha conseguido uma reforma completa. Era isso que garantia o sustento da família. Os cinco filhos andavam todos a estudar, mas isso não os impedia de trabalhar no campo, diariamente. Nessa sexta feira eles tinham vindo almoçar a casa e durante a tarde nenhum tinha aulas. Era uma boa altura para proceder à apanha do milho. Enquanto a irmã, a mãe e o pai, acompanhados de três vizinhas a rogo, apanhavam as espigas, os quatro rapazes procediam ao transporte para a eira.
Dobrando o pescoço, quase em ângulo reto, ele carregava o peso do lençol cheio de espigas. Eram lençóis próprios para o trabalho do campo, feitos de linho cru e tecidos no tear manual da Dona Josefa. Eram bem mal empregues, pois valiam algum dinheiro, mas tinham sido feitos para isso, dizia, amiúde, a dona da casa. Ao longe, a voz de José Poeiras fazia-se ouvir, cantando melodias populares. O coro era sempre entoado em conjunto com as mulheres. A cantoria conferia à cena um ar nostálgico. Era uma pedrada na pasmaceira daquele dia de outono. Pedro era o terceiro mais velho, sendo o mais forte e mais alto de todos. Saía ao tio-avô que tinha um metro e noventa. Era também um excelente aluno e jogador de basquetebol. O mulherio ficava doido com ele. Até as mulheres mais velhas se pelavam por um beijo ou um abraço. Ele divertia-se com a coisa, embora por vezes isso o incomodasse. À medida que subia a encosta do caminho, em direção a casa, sentia as gotas de suor deslizar por todo o corpo. Era uma sensação estranha senti-las, corpo abaixo, até se alojarem no cós, deixando as calças com uma mancha escura.
«Olá Pedro.»
Apesar de não ver quem lhe dirigia a palavra, reconheceu de imediato a voz. Leonor era apaixonada por ele e Pedro deixava-a viver na ilusão.
«Já estás de regresso a casa?» Perguntou ele.
«Hoje vim mais cedo. Quero ser a primeira a chegar à tua desfolhada. Não te esqueças que quero ficar ao teu lado.»
«Quem chegar primeiro escolhe o lugar.» Disse Pedro, com ar divertido.
Ela acompanhou-o até à eira. Queria ver o rosto dele. Precisava de lhe ver o sorriso. Só isso chegava para a deixar afogueada. As feições quentes tornavam-se rosadas e ela só tinha vontade de o beijar. A meda de espigas já era considerável e ele subiu para cima dela e jogou o lençol no topo.  Já faltava pouco para terminar a apanha.
«A desfolhada talvez comece antes da sete.» Informou Pedro.
«Vou a correr mudar de roupa e jantar. Estou cá às seis e meia, antes que a lambisgóia da Lurdes se cole a ti.»
Pedro soltou uma gargalhada. Lurdes era uma morena de cabelos pretos e corpo franzino. Andava sempre empertigada, exibindo um par de seios, que sobressaiam, mais pela magreza dela do que pelo tamanho. Era o oposta de Leonor que tinha formas cheias e arredondadas, toda cheia de curvas. Os cabelos loiros e os olhos azuis eram bonitos, sem ser deslumbrantes, mas quando ela sorria o caso tornava-se sério. A jovem partiu e Pedro enrolou o lençol e foi buscar o último carrego. Entretanto, a mãe já tinha regressado e estava a preparar o jantar. Eles queriam estar todos ao redor da meda por volta das dezoito e trinta. 
José Poeiras foi o primeiro a descer as escadas. A zona de habitação ficava no primeiro andar e em baixo eram o lagar, a adega, o arrumo de lenha e o armazém, onde eram guardados os cereais, as batatas e as ferramentas. Trazia na mão um gasómetro a carvão, que dava uma luz mais intensa que os lampiões a petróleo. Logo atrás desceu o Pedro com o outro gasómetro. Dona Josefa foi a última a descer e trouxe o lampião grande, que ia ficar na zona de ensacagem. As espigas seriam guardadas em sacos para depois serem debulhadas pela malhadeira, nome porque era conhecida a debulhadora, que passaria por lá no fim da desfolhada. Os homens ajeitaram os cestos em cima da meda, arredondada, para que todas as pessoas pudessem jogar as espigas lá para dentro, à medida que as fossem descamisando.
Leonor e as quatro irmãs chegaram cedo, precedidas dos pais, que tinham vindo mais devagar. Leonor sentou-se no lado direito de Pedro, mas não conseguiu convencer nenhuma das irmãs a sentar-se do outro lado. Cada uma cuidava dos seus interesses. Lurdes chegou pouco depois e foi sentar-se do outro lado do Pedro. Nessa noite a competição seria direta e ao vivo. Ambas disputavam a atenção dele, mas tiveram poucas oportunidades para o fazer. De forma mais ou menos premeditada os mais velhos preencheram uma parte da roda e os mais novos ficaram na restante. Às sete horas, depois daquilo que parecia uma procissão de velas, pois as pessoas iam chegando de candeias acesas, nas mãos, já estavam sentadas, cinquenta e sete pessoas, à volta da meda. A partir dessa altura Pedro e os irmãos ficaram de serviço aos cestos, o que significava que estavam muito pouco tempo sentados. Pedro ficou feliz com a tarefa que, apesar de ser trabalhosa, lhe permitia fugir ao conflito entre as duas moças.
A desfolhada era uma festa. A noite estava fria, mas bonita. A lua, lá no alto, conferia um tom prateado à noite e, longe do alcance das luzes, a intensidade do luar era bem visível. Alguns dos membros do coro da igreja particionavam na função e, desafiados pelo dono da casa, começaram as cantorias. Os homens da concertina ainda não tinham mostrado o talento, pois era preciso descamisar o milho. Apesar disso, reinava a alegria e a boa disposição. A partir de determinada altura começaram a aparecer as espigas rainha e os brindados ganharam direito a uma volta à roda, dando e recebendo beijos e abraços. Leonor bem rezava para lhe sair uma, mas as rainhas não queriam nada com ela. Para seu desespero ouviu um grito a seu lado.
«Espiga rainha!» Gritou Lurdes.
Leonor praguejou de raiva. «Não bastava o azar de não me sair a espiga, ainda tinha de sair uma à lambisgóia!» Pensou. Lurdes deu a volta à roda e foi beijar o Pedro, que estava na zona da ensacagem. Quando este se inclinou para lhe dar dois beijos no rosto, ela agarrou-o e beijou-o na boca. Foi um beijo demorado e acompanhado de gritos de incentivo. Leonor não viu e quando lhe contaram ficou com vontade de estrangular a vizinha. Definitivamente não era a sua noite de sorte. Devia tê-lo beijado à tarde, quando estavam os dois sozinhos. O problema é que ela não conseguia ser como a Lurdes: uma oferecida. Ela queria que Pedro a desejasse e enquanto isso a outra ia bebendo pelo cálice que ela tanto desejava: os lábios do Pedro. A mãe de Leonor chamou a filha, com o pretexto de lhe pedir para ir buscar um remédio qualquer e enfiou-lhe uma espiga nas mãos.
«É uma rainha. Não podes deixar que percebam que já está parcialmente desfolhada.» Disse-lhe a mãe ao ouvido.
Dona Josefa viu tudo, mas também ela tinha as suas preferências e como tal não disse nada. Leonor apanhou Pedro com um cesto nas mãos, numa zona mais escura e perdeu o pudor: beijou-o na boca também. Pedro, tal como tinha acontecido anteriormente, foi apanhado de surpresa, mas não se fez rogado. Largou o cesto e abraçou a moça. Ela colou-lhe o corpo e ele percebeu como ela tremia. Em contrapartida ela tomou conhecimento da excitação dele. Leonor quase não se aguentava de pé. Pedro olhou-a preocupado e ela escondeu o olhar. Não lhe podia confessar aquilo que sentia. Era tão forte, tão intenso e tão profundo que quase teve um orgasmo. Ainda bem que ele não tinha percebido nada. Foi a vez da Lurdes não ter gostado nada. «A fofinha para além do beijo teve direito a um abraço.» Pensou. Estava a ficar em desvantagem. Pelo menos era assim que se sentia. O sorriso de satisfação da vizinha deixou-a em desatino. Não podendo fazer mais nada descarregou no lábio que não tardou nada sangrava. Leonor estava eufórica. Na cabeça dela ele já lhe pertencia. Só podia ser esse o significado da manifestação de prazer dele.
A malhadeira chegou ainda a desfolhada não tinha terminado, mas a espera foi curta. A malhada foi feita num dos lados da eira, deixando espaço livre para a festa. Entretanto Dona Josefa pediu a Leonor e às irmãs para a ajudarem a montar a mesa. Havia vinho com fartura, seis bolas de carne partidas em pequenos quadrados, broa e presunto. Mas a iguaria da noite eram as castanhas. Os magustos eram normalmente de castanhas assadas na fogueira ou cozidas, mas em qualquer dos casos o desperdício era elevado. Parte das castanhas assadas ficava queimada ou meia crua, enquanto a castanha cozida ficava, em parte, agarrada à casca. Dona Josefa assava as castanhas no forno de cozer o pão, que era a lenha. As castanhas ficavam todas bem assadas e a casca separava-se com uma ligeira pressão, feita com apenas dois dedos. Aquilo era o manjar dos deuses! Depois da comezaina começou o bailarico. Os homens das concertinas, aconchegados com o manjar e entusiasmados com uns copos, deram ao dedo e à garganta. Lurdes foi a primeira a puxar pelo Pedro para dançar. Ele rodopiou com ela pela pista, mas nunca a deixou chegar-se muito a si.
Leonor não queria acreditar naquilo que via. Estava verde de ciúme. Despeitada, foi refugiar-se junto da mãe. Sentia-se envergonhada. Não tinha razão para isso, mas no seu íntimo ele tinha-se entregue a ela naquele beijo. O facto de ir dançar com outra era como uma traição! A mãe afastou-se da luz e deixou que a filha chorasse na penumbra, encostada no seu ombro. Ela precisava de libertar a emoção para poder dar o passo seguinte.
«Então filha. O que se passou?»
«Mãe, ele entregou-se a mim. Como pode estar agora a dançar com a lambisgóia?»
«Quando?» Perguntou a mãe, com ar apreensivo.
«Quando dei a volta com a espiga rainha!»
A mãe sorriu, benevolente e passou-lhe a mão pela cabeça.
«Meu pobre anjo. Ainda tens muito que aprender. Os homens não ficam presos por te corresponder a um beijo. Tens que o levar a comprometer-se contigo e mesmo assim…»
«Eu senti como ele gostou e vibrou com o meu beijo. Isso não é amor?»
«Desejo é seguramente, mas amor é outra coisa.» Respondeu a mãe, com um olhar triste e ausente.
Leonor secou as lágrimas. Não ia dar-se por vencida, Se tinha de o retirar das garras da lambisgóia, para o conquistar, era isso que ira fazer, nem que tivesse de a arrastar para fora da eira pelos cabelos. Os homens da concertina tinham mudado de ritmo. A música era lenta e convidava a uma dança mais intimista. Lurdes estava pendurada no pescoço de Pedro e olhava-o de forma coquete. Depois, puxou-o para si e pressionou o corpo contra o dele. De forma suave e calculada, roçou os seios nele, evidenciado o seu estado de excitação, depois encostou a testa ao peito dele e cobriu-o de beijos. Pedro tinha alinhado no jogo mas aquilo já era demais. De forma suave, mas firme, afastou-a dele e arranjou uma desculpa para interromper a dança. Lurdes ficou furiosa. A rejeição era evidente e pública. Para piorar a situação, quando se virou, deu de caras com o olhar irónico de Leonor, que estava esfuziante. O confronto era eminente e quase inevitável. Os irmãos de Pedro e as irmãs da Leonor interpuseram-se e disfarçaram a coisa, evitando o confronto. Lurdes saiu disparada da eira e ao passar por Leonor lançou-lhe um olhar mortífero.
«Gorda!» Disse, como quem lança uma granada.
«Lambisgoia!» Foi o que recebeu em troca.
O caminho estava livre, mas ainda tinha de vencer o último obstáculo: conquistar o coração do seu amado. Pedro não tinha presenciado a cena do confronto e encolheu os ombros quando os irmãos lhe contaram. Lurdes era uma moça complicada. Tinha sido melhor assim. Foi ter com Leonor e convidou-a para dançar. Ela estava nas nuvens, mas ele procurou manter a distância, assumindo um tom brincalhão. Não tinha a certeza de querer um compromisso e Leonor estava demasiado envolvida para ele brincar com os sentimentos dela. Ela aproximou-se do ouvido e segredou-lhe.
«Não precisas ter medo de mim que eu não mordo.»
«Umas mordidas, com carinho, até são bem-vindas!» Respondeu ele.
Não era bem esse o tipo de resposta que ela estava à espera. Voltou ao ataque.
«Tu gostas de estar comigo?»
«Se não gostasse não tinha vindo ter contigo.»
Outra resposta defensiva e não comprometedora. «Tenho de me dar sem exigir nada em troca, senão só vou levar sapatada!» Pensou.
«Queres ir ver o luar?»
«Sim.» Respondeu ele, de forma espontânea.
Ela tinha acertado. Ele adorava apreciar o luar. A luz fria e prateada, que envolvia as coisas, criava sombras, que estimulavam a sua imaginação. À luz do luar todas as fantasias eram possíveis e quase tudo era permitido. Caminharam, lado a lado, até ficarem bastante afastados da eira. Já não existiam vestígios de luz e o som das concertinas chegava até eles bastante abafado.
«Queres dançar?»
Sem responder, ele tomou-a nos braços e rodopiaram sobre o saibro do caminho. Ela era uma boa dançarina, por isso parecia muito mais leve quando dançava, mas o amor dava-lhe asas e ela parecia uma pluma, flutuando de acordo com as instruções mudas dos braços dele. Deram voltas e contravoltas até ela começar a ficar tonta, porque ele a fazia girar muito à sua volta. Em determinado momento, ela perdeu o equilíbrio e ele segurou-a puxando-a para si. Foi um momento mágico. O silêncio da noite, o luar, iluminando-lhes o rosto e a música ao longe, transportaram-nos para um local só deles. Pedro imaginou-se nas ameias de um castelo, resgatando uma princesa e ela imaginou-se apenas nos braços do amor da sua vida. Foi um beijo intenso. Saboreados os lábios, estes franquearam um mundo de sabores, excitação e prazer. As línguas tocaram-se, como adversários que se cumprimentam, para depois se envolver numa batalha sangrenta, tal era a fúria com que se enrolavam uma na outra. Finalmente, acariciaram-se em movimentos suaves, como quem dança uma valsa. Quando o beijo terminou, eles ficaram, sem palavras, a olhar-se. Depois retomaram o beijo com sofreguidão, enquanto as mãos ganhavam vida própria, explorando o corpo do parceiro.
«Leonor!»
O grito da mãe, chamando para regressarem a casa, quebrou a magia do momento. Despediram-se, com um beijo suave nos lábios. O coração dela transbordava de felicidade. Ele, quebrada a magia do momento, não tinha a certeza daquilo que sentia. Era hora de descansar. Para que preocupar-se. Logo se veria o que traria o dia de amanhã!

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