SANTO ANTÓNIO

SANTO ANTÓNIO
A casa estava em ebulição. Eduardo, o filho mais velho, tentava, em vão, ajudar a mãe a organizar a excursão. Com apenas 8 anos ele era o homem da casa. O pai estava emigrado na França: tinha ido em busca de uma forma de proporcionar uma vida melhor à família. Eram tempos difíceis. Viver da agricultura, possuindo uma pequena propriedade no norte de Portugal era difícil, mas quando a família era constituída por sete bocas a coisa assumia proporções desmesuradas. Não chegava trabalhar de sol a sol, debaixo de chuva e ao frio, sacrificando o corpo e prejudicando a saúde. O rendimento simplesmente não era suficiente. Os cinco filhos tinham nascido de rajada. «Era a vontade de Deus!» dizia Teresa com um sorriso nos lábios. Teresa era das poucas mulheres, a única na sua aldeia, que tinha tirado a quarta classe. Fora uma concessão feita pelo pai à professora primária.
«As mulheres não precisam de estudar, mas sim de arranjar um bom marido!» Dissera o pai.
«Ela tem tempo de arranjar marido depois de concluir a quarta classe. É quase um crime impedir uma jovem inteligente como ela de estudar.» Retorquira a professora.
«Está bem. Ela faz a quarta classe mas o irmão será o único a continuar a estudar.» Sentenciou o pai.
Assim fora, o tio João fez o curso comercial e a mãe ficou-se pela quarta classe. Eram outros tempos!
«Mãe a Maria não quer vestir a saia cor-de-rosa!» Gritava Eduardo, lá do fundo.
A mãe levantou a cabeça. Não podia deixar os dois mais novos meio vestidos. Tinham respetivamente três e quatro anos e deixá-los meio vestidos e sozinhos, seria um convite à asneira.
«Eduardo trás a roupa da Maria e venham cá os dois!» Ordenou ela.
Finalmente estavam prontos. Era o dia de Santo António, o Santo padroeiro da cidade e a tradição mandava que todos fossem à festa. Era um dia muito especial: iriam ganhar a única prenda que receberiam no ano. Os cinco, à volta da mãe, assemelhavam-se a uma ninhada de pintainhos em busca de uma asa para se proteger. Falavam todos ao mesmo tempo, manifestando, de forma barulhenta, os seus desejos. A mãe deixou-os falar durante alguns minutos depois ergueu a mão e, sem necessidade de dizer nada, impôs o silêncio. Era hora de partir pois tinham pela frente uma caminhada de uma hora.
«Ti Teresa!»
O chamamento matou as palavras antes delas serem proferidas. Quem seria àquela hora da manhã. Eles viviam num local afastado da aldeia, a meio caminho entre esta e a cidade. Era raro alguém aparecer por ali, a não ser que tivesse um assunto a tratar com a família e eles não estavam à espera de ninguém.
Ao fundo das escadas de pedra, que conduziam ao primeiro piso, lugar onde se desenvolvia a parte habitacional, estavam dois rapazes da aldeia. Apesar de serem três anos mais velhos que o Eduardo frequentavam a quarta classe. Teresa estranhou a presença deles. Era dia de escola e era lá que eles se deviam encontrar. Algo de estranho deveria ter acontecido para eles se encontrarem ao fundo das escadas de sua casa. 
José “Mocho” e Valdemar “Charraté” ficaram a olhar, esbabaçados, para a família. Não era todos os dias que a gente da aldeia se aperaltava daquela forma. A família fazia um quadro bonito alinhada no grande patamar que encimava as escadas. As alcunhas não tinham sido conquistadas pelos rapazes: eram uma herança de família, mas, sem que existisse uma razão visível, assentavam-lhes bem.
«O Eduardo não está doente pois não?» Perguntou Valdemar, que era o mais afoito.
«Claro que não respondeu Teresa!» Admirada com a pergunta.
«O mestre Paulo diz que ele tem de vir para a escola. Hoje é dia do exame da terceira classe.»
Teresa olhou para Eduardo com olhar interrogador. Ele respondeu-lhe com um encolher de ombros e baixou a cabeça. O entusiasmo de ir para o Santo António era tão grande que ele se tinha esquecido que era o dia do exame e este já tinha começado fazia vinte minutos. Ele era o melhor aluno da classe por isso o professor tinha mandado os colegas chamá-lo: Eram outros tempos!
Os dois rapazes tinham instruções para chegar à escola o mais rápido possível. Tinham vindo a correr e fariam o percurso inverso da mesma forma. Eduardo era bem mais novo e teria dificuldade em acompanhar o ritmo. O mestre Paulo tinha pensado em tudo. Eles traziam uma vara de carvalho, com metro e meio de comprimento. Cada um deles segurou numa extremidade da vara e colocaram Eduardo ao meio. Iam literalmente arrastá-lo até à escola. Nunca antes fizera o percurso tão rapidamente!
Eduardo iria começar a prova com uma hora de atraso mas o mestre sabia que ele seria capaz de a fazer no tempo disponível. O mestre Paulo, no seu íntimo ficou satisfeito por ver Eduardo chegar, mas não demonstrou qualquer sinal dessa satisfação.
«Não sabes que a escola está primeiro que a diversão?» Perguntou em tom austero.
«Desculpe mestre Paulo.» Balbuciou Eduardo, meio embaraçado.
«Vais ter de fazer a prova no tempo que resta!» Disse ele depois de lhe entregar o enunciado e a folha dupla de 25 linhas impecavelmente dobrada, destinada à realização da prova.
Eduardo gostava da escola, mas estava triste. Antes de começar a prova deixou que a sua imaginação voasse para longe. Sentiu o bulício da festa e imaginou os irmãos correndo de um lado para o outro e a mãe com dificuldade em mantê-los todos juntos. Ele tinha dito à mãe aquilo que queria: uma bola. Mas uma coisa era fazer o pedido à distância outra era estar lá. Sentir a bola nas suas mãos. Testá-la uma e outra vez, prestar atenção à cor e à textura. Deixar que os seus cinco sentidos avaliassem o objeto, antes de tomar a decisão. Não havia margem para erro: era a sua única prenda! Enfim, um sem número de coisas que era impossível fazer à distância. O mestre bateu com a cana na mesa dele. Era uma chamada à realidade. Tinha de começar a resolver o exame. Uma lágrima aflorou-lhe o canto do olho. Limpou-a, assuou-se e começou a ler a prova. Não demorou muito a estar totalmente concentrado na prova. Apesar de ter começado depois dos outros, foi dos primeiros a terminar. O professor mal recebeu a prova deu-lhe uma vistas de olhos, com o semblante preocupado. Ele estava à espera que Eduardo terminasse depois da hora e não dez minutos antes. No fim da leitura o seu rosto era, todo ele, um grande sorriso: era uma prova para vinte valores!
No intervalo do almoço sentou-se sozinho no recreio, José Mocho e o Valdemar Charraté vieram ter com ele. Embora não tivessem qualquer responsabilidade no assunto, sentiam-se culpados por o ter impedido de ir ao Santo António. Eduardo sossegou-lhes a consciência.
«Está tudo bem. Vou à festa para o ano que vem.»
 Mas o seu semblante desmentia as palavras. A essa hora já os irmãos estavam a almoçar. Tirou a merenda do saco e ofereceu parte aos dois. Era demasiada comida para ele. Trazia metade de um rolão, recheado com umas fatias de salpicão. Aquilo era um manjar! Os rapazes, que, como a maioria dos outros, apenas traziam uma fatia de pão de milho sem mais nada, não se fizeram rogados.
Às três e meia da tarde o mestre Paulo deu por terminada as aulas. Os rapazes saíram fazendo uma grande algazarra. Do outro lado do recreio as raparigas responderam com a jovialidade feminina. Rapazes e raparigas tinham aulas em salas separadas e com professores do mesmo género dos alunos: Eram outros tempos!
Eduardo regressou a casa sozinho. Costumava fazê-lo na companhia de dois irmãos, que andavam na primeira e na segunda classe, respetivamente. O trajeto pareceu-lhe mais longo e sentiu que demorou uma eternidade a chegar a casa. Os irmãos mais novos estavam a brincar em casa enquanto os outros estavam no campo com a mãe. Trocou de roupa, comeu o almoço, apenas morno, apesar de estar sobre as brasas, para se manter quente e foi ter com a mãe. Quando ela lhe disse que não tinha comprado prenda para ele, ficou em choque. Pensou de imediato que era um castigo por não se ter lembrado que tinha exame, mas a mãe esclareceu.
«No domingo vamos outra vez ao Santo António e nessa altura podes escolher a tua prenda.»
Eduardo lançou-se ao pescoço da Mãe. Não só iria receber uma prenda como teria a oportunidade de a escolher. A felicidade transbordava-lhe pelos olhos sob a forma de lagrimas. Era preciso tão pouco para fazer aquela criança feliz… Eram outros tempos!

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