A JORNALISTA |PARTE IV | CAPÍTULO 5

A JORNALISTA |PARTE IV | CAPÍTULO 5 – A reconstituição

A reconstituição teria, naturalmente, lugar no palacete da Lapa. Isso era uma situação extraordinária. O tribunal por algum tempo funcionaria na sala do palacete. Era aí que iria decorrer o interrogatório da governanta. Ela era a testemunha crucial de todo o processo e a acusação iria usá-la até à exaustão.
Mónica Fonseca também ia estar presente para simular o ato de prisão e o interrogatório que teve lugar no local do crime. Para uma representação totalmente fiel tinham sido também convocados os polícias que efetuaram a prisão. Aquilo não lhe parecia uma grande ideia. Sem saber como o explicar tinha um pressentimento de que algo estava errado. Deu conhecimento dos seus receios ao chefe e a cadeia hierárquica funcionou. O palacete seria a casa mais bem guardada de Lisboa, durante todo o julgamento.
Walker não estava nada feliz por voltar ao local e sobretudo por ser obrigado a reviver a cena que ainda hoje lhe causava pesadelos. Não conseguia perceber muito bem qual tinha sido a ideia da sua advogada e quando ela lha comunicou a reação não se fez esperar.
«Não percebo o que pretende alcançar, mas espero que seja algo muito importante, pois regressar ao local para mim é muito doloroso.»
«Compreendo. No entanto, a chave da sua absolvição está nesta reconstituição. Procure ser cem por cento fiel àquilo que se passou.»
Walker não disse mais nada. Limitou-se a acenar com a cabeça. Ele queria ver-se livre da prisão. Se a forma de se livrar de um pesadelo era reviver outro, então que fosse!
A única pessoa que estava bem-humorada era a Advogada do arguido. Quem a visse diria que o julgamento lhe tinha sido favorável. A verdade é que apesar de ter alcançado algumas atenuantes ela não tinha conseguido rebater os argumentos da acusação em tudo o que se referia a provas.
Quando estava tudo a postos o juiz presidente deu indicção para a reconstituição começar. Eles estavam logo atrás do réu, seguindo-o, à medida que este refazia todos os passos, logo após a sua entrada no palacete. No chão, em frente ao sofá, tinha sido colocado um boneco onde era suposto ele espetar as facas. Aí foi onde começaram os problemas. Ele encaminhou-se para a sala e tentou reanimar o boneco, desmaiando em seguida. Quando acordava as facas não estava lá.
Aqui gerou-se uma grande discordância sobre a reconstituição. A acusação queria obrigá-lo a levar as facas e a espetá-las no boneco e ele recusava-se. Sempre apoiado pela sua advogada.
«Vejamos. A acusação, embora não tenha provas de que o Chef Walker levou as facas com ele, quer obrigá-lo a fazer isso? A defesa rejeita uma reconstituição de factos sobre os quais não existem testemunhas, diferente dos apresentados pelo réu.»
«Mas isso é mostrar apenas a versão do réu!»
«É exatamente isso meritíssimo. A verdade, é que apenas existe a versão do réu. O resto foi fabricado pela acusação para preencher os espaços em branco. O que quero demonstrar a este tribunal é que sem esse “preenchimento de factos” feito pela acusação este crime é impossível. O réu acorda ao lado da vítima e as facas estão no estojo na cozinha.»
«O réu pode perfeitamente tê-las levado consigo e ter vindo buscá-las depois.» Argumentou o procurador.
«Efetivamente pode ter acontecido, mas isso não é mais do que mera especulação. A verdade, é que também pode ter acontecido como o réu diz e alguém ter espetado as facas na vítima, depois de drogar o réu.»
O tribunal acabou por decidir que seriam reconstituídas as duas versões. Mónica não se opôs. Ela já tinha provado aquilo que pretendia. Depois de reconstituídas as duas versões voltou-se à cena principal, por ser a que tinha sido testemunhada. A governanta entrou em cena. Quando a governanta entra na sala tem atrás dela os juízes e os jurados, o procurador ao lado esquerdo e advogada de defesa do lado direito. O suspense é total e ela contribui para o realismo da cena com um gritinho histérico. Ao invés de a deixarem sair para ir a correr chamar os polícias, é feita uma pausa na reconstituição para dar lugar à inquirição da testemunha. A acusação quis explorar esse momento ao máximo.
«A senhora tem a certeza que viu o réu levantar a faca ensanguentada e espetá-la na vítima?»
«Tenho. Ele levantou a faca bem alto e era visível o sangue pingar da faca.»
«Tem a certeza que viu o réu empunhar a faca ensanguentada?»
«Sim.»
«Conte-nos o que fez em seguida.»
«Gritei e corri imediatamente para o exterior. Fui chamar a polícia.»
«Pode indicar o homem que empunhava a faca?»
A governanta apontou o dedo ao Chef Walker, fitando-o com um olhar de desculpa. Até a ela lhe custava a acreditar que ele tivesse sido capaz de matar a jornalista. Em seguida a defesa entrou em ação.
«Pode repetir ao tribunal a cena que descreveu anteriormente?»
A governanta descreveu novamente a cena, dando pormenores sobre as pingas de sangue.
«Pode dizer-nos quantas pingas de sangue viu cair da faca?»
«Não consigo ter a certeza do número, mas recordo-me de três.»
«Portanto tem a certeza que a faca estava coberta em sangue?»
A governanta olhou para a advogada como se não percebesse a pergunta. «Claro que a faca tinha sangue. Esta advogada não está boa da cabeça.» Pensou. A advogada repetiu a pergunta. Perante a impaciência do tribunal.
«Sim tenho a certeza.»
«Diga-nos em que momento viu o Réu espetar a faca, por favor.»
A governanta ficou baralhada por alguns instantes. A advogada não a pressionou. Aguardou pacientemente que ela respondesse.
«Não vi.»
«Não viu porquê?»
«Não vi porque ele apenas a levantou. Quando eu gritei ele olhou para mim e deixou cair a faca.»
«Portanto, a senhora apenas o viu levantar uma faca cheia de sangue e em momento algum viu o réu sequer fazer o gesto de espetar a faca. Foi assim?»
«Sim. Foi assim.» Confirmou a governanta.
Nessa altura a advogada dirigiu-se ao tribunal e pediu para chamar a depor o técnico forense que já havia testemunhado anteriormente. Apesar de isso ter gerado algum burburinho foi autorizado, tanto mais que ele também tinha sido convocado para a reconstituição por ter feito parte da equipa que analisou o local do crime. Anabela estava bem ciente do facto. Assim, como estava ciente de que ele não estaria presente durante o interrogatório da governanta.
«Pode dizer ao tribunal como foram feitos os golpes com as facas?»
«Cada uma das facas foi introduzida num só golpe.»
«Quer dizer que nenhuma das facas foi introduzida mais do uma vez?»
«Sim as marcas não deixam dúvidas. As facas depois de retiradas não voltaram a ser introduzidas.»
«Quem isso dizer que as facas antes de ser espetadas no corpo da vítima não tinham sangue?»
«Assim é. As marcas dizem que cada faca só foi introduzida uma vez no corpo da vítima, portanto, não podia ter o seu sangue antes de serem espetadas. Por outro lado, se as facas tivessem sangue antes de ser espetadas, como não podia pertencer à vítima, teríamos encontrado os seus vestígios.»
«Então se o réu empunhasse uma faca com sangue isso significaria que a estava a retirar do corpo da vítima e não a esfaqueá-la?»
«É isso que dizem as provas.»
O tribunal ficou em silêncio. Anabela deixou os juízes e os jurados interiorizar bem o significado daqueles dois testemunhos. Quando se preparava para libertar a testemunha ouviu-se uma pancada seca. O cordão policial garantia que ninguém tinha entrado no edifício. Mónica Fonseca assumiu o comando das operações e ordenou uma busca ao edifício. Ninguém conseguia explicar o que tinha sucedido. O barulho parecia ter vindo de dentro da parede o que era completamente absurdo. Depois de acalmados os ânimos a reconstituição prosseguiu sem qualquer nota relevante. O juiz presidente encerrou a cessão e as alegações finais ficaram marcadas para daí a dois dias. No dia seguinte era feriado.

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