A JORNALISTA | PARTE IV | CAPÍTULO 8

A JORNALISTA | PARTE IV | CAPÍTULO 8 – A revelação
Apesar do cansaço, o segurança perdeu completamente o sono. Existiam poucas coisas que o assustassem, mas a perspetiva de alguém ter acesso à sua casa, podendo fazer mal ao filho e a mulher, era uma delas. O bilhete dizia que estava proibido de falar com a polícia e qual era o preço a pagar pela desobediência. No entanto, ele hesitava. Lidava com pessoas capazes de tudo e o facto de não falar com a polícia não representava qualquer garantia de que estavam a salvo. Já era manhã quando foi para o quarto. Deitou-se ao lado da mulher e ficou de olhos abertos à espera que o despertador tocasse. Depois levantou-se e prosseguiu com a rotina diária.
«A que horas chegaste ontem? Como ficou o palacete?» Perguntou a mulher.
«Cheguei às três. Foi tudo muito estranho. Não existia fogo, mas apenas fumo. Parecia uma partida de mau gosto.»
A conversa mudou de rumo e depois de tomarem o pequeno-almoço cada um seguiu a sua vida.
Quando entrou no carro ele quebrou. Sentou-se frente ao volante e encostou-se para trás. Sentia sobre ele o peso do mundo. Tinha de arranjar uma forma de proteger a família daquela mulher. Agora não tinha dúvidas que tinha sido ela a causadora do espetáculo noturno. Apesar de ainda ser cedo, quando chegou ao escritório o Sr. Lins já lá estava.
«Preciso de ver as imagens das câmaras dos acessos ao edifício, de ontem à noite.»
«Vou pedir que lhas tragam Sr. Lins.» Respondeu o chefe da segurança.
«Não. Quero que as tragas tu e que as vejas comigo. Vamos fazer disto um ato oficial.» Disse Lins.
Reviram várias vezes as gravações das várias câmaras sem qualquer resultado. A pessoa que tinha entrado no edifício tinha conseguido evitá-las.
«Mesmo que tivessem saltado o muro nunca conseguiriam entrar no palacete sem ser vistos!» Dizia Lins, com ar perplexo.
«Existem sempre momentos em que se formam ângulos mortos, mas para os conhecer é preciso estar a olhar para os monitores das câmaras.» Disse o chefe da segurança
Apesar de ter feito aquele comentário e de o mesmo corresponder à verdade, ele tinha a certeza que a pessoa responsável pelo espetáculo tinha entrado pelo túnel. «Onde será a entrada do túnel?» Interrogou-se. O melhor era guardar o segredo consigo, não ganhava nada em revelá-lo ao chefe. Ao fim de uma hora Lins dispensou o segurança, que arrumou as gravações e foi para o seu posto. Pelo caminho ligou ao filho e à mulher. Estavam ambos bem.
Mónica Fonseca tomou conhecimento do incidente através do primeiro relatório da manhã. Estava no seu email desde madrugada. Olhou para o relógio. Era dia de alegações finais, mas estas não deviam começar antes das dez horas pelo que ainda tinha tempo para passar pelo palacete. O senhor Lins tinha saído e ela aproveitou para falar com o chefe da segurança. O homem estava uma pilha de nervos.
«O senhor está bem?» Perguntou Mónica.
«Estou cansado. Ontem foi uma noite muito difícil!»
«De acordo com o relatório tudo ficou resolvido rapidamente, portanto não perdeu mais que duas horas de sono.» Disse Mónica.
«Isso era se tivesse conseguido dormir a seguir.»
«Existe alguma coisa que lhe tira o sono?»
«A doutrora acha que um incêndio não é motivo suficiente?»
«Na verdade não foi bem um incendio. Foi antes uma brincadeira!».
«Isso ainda é pior!»
«Porquê? O senhor tem alguma suspeita de quem está por detrás da brincadeira?
«Não!»
A resposta foi dada de forma rápida, ríspida e com insegurança, como quem sacode um capote. Mónica ficou em alerta. O sexto sentido dizia-lhe que ele estava a mentir. Estava com o corpo encolhido, como se tivesse medo de alguém ou de alguma coisa.
«É claro que o autor do espetáculo não queria pegar fogo ao palacete. Sabe o que o pode ter lavado a fazer isto?
O chefe da segurança estava em ebulição. Aquela era a oportunidade para colocar sobre a mesa o jogo todo. A sua hesitação não passou despercebida à inspetora que aguardou pacientemente. «Este homem debate-se com um grande dilema. Como posso levá-lo a abrir-se comigo.» Pensou.
«Como está o seu filho?»
A pergunta sobressaltou-o.
«O quê?»
«O seu filho tinha desaparecido, mas foi encontrado são e salvo. Está tudo bem com ele?»
«Está sim senhor. Obrigado por perguntar.»
«Os filhos são sempre uma preocupação e os pais procuram protegê-los de tudo. Isso, por vezes pode ser uma carga muito pesada para suportar sozinho.» Disse Mónica.
O chefe da segurança ficou a olhar para ela sem perceber onde queria chegar. Talvez se recusasse a reconhecer que a percebia perfeitamente, pois isso representava quase uma confissão. Mas a verdade é que era de uma confissão que ele necessitava. Mudou de assunto.
«A inspetora acha mesmo que o que se passou ontem no palacete tinha um objetivo muto específico?»
Mónica viu naquela pergunta a sua porta de entrada. Não existia mal nenhum em partilhar com ele as suas suspeitas. Não estava a fazer nenhuma inconfidência!
«Sim. O objetivo era chamar à atenção sobre o palacete. Pode perfeitamente ter sido algo para mostrar as fragilidades da empresa e das suas instalações. O que é estranho é não existir nenhum registo de entrada no edifício. Pode ter sido algum colaborador da empresa?»
«Não. Ninguém acedeu ao palacete. E se o motivo tivesse sido outro?»
Agora sim. Ele acabava de lhe dar a abertura de que necessitava!
«Qual?» Perguntou simplesmente.
«Atrair os responsáveis a este local àquela hora.»
Mónica ficou uns instantes pensativa.
«Sim. Pode muito bem ter sido isso. O senhor Lins reportou-lhe algo de relevante?»
«Não. Mas pode não ter sido sobre o Sr. Lins!»
Ela ficou a olhar para ele com simpatia. Ele era a vítima.
«Conte-me o que lhe aconteceu.»
O tom de Mónica era suave mas imperativo. Implicava obediência. Ele não teve forças para resistir, apesar dos riscos que corria e narrou todos os factos desde que tinha encontrado a mulher na cave, deixando de fora apenas o facto de a conhecer.
«Conseguiria identificar a mulher?»
«Não. Ela tinha o rosto tapado com uma máscara e disfarçou a voz.»
«Tem a certeza de que era uma mulher?»
«Sim. A roupa justa permitia identificar um corpo feminino, sem margem para dúvida.»
«Como se entra para esse túnel e onde vai dar?»
«Não sei. Ela partiu por onde entrou e eu não consegui descobrir como abrir a entrada do túnel.»
Mónica guardou os documentos que o chefe de segurança lhe entregou e tomou nota da mensagem enviada por SMS. O bilhete deixado em casa era uma ameaça de morte ao filho e à mulher, caso ele divulgasse o encontro na cave do palacete. Era mais um mistério a adicionar ao caso. Entretanto, a família do segurança foi colocada sob proteção. A investigação que se seguiu não permitiu esclarecer o mistério do túnel e Mónica começou mesmo a duvidar da sua existência.

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