O JURAMENTO

O JURAMENTO

Serra Nevada estava à vista. Eles eram todos entusiastas do Ski, por isso não puderam deixar de rejubilar, pelo menos até perceberem a míngua de neve. As três famílias efetuaram as reservas em momentos distintos, por isso não tinha sido possível ficarem no mesmo hotel. Alguns tiveram mesmo de ficar num apartamento, como era o caso da família Castelo Branco. O espaço tinha uma sala fantástica pelo que, depois do jantar, era aí que se reuniam para conversarem, fazer alguns jogos, ou verem um filme.
Sábado foi o primeiro dia de Ski. Apesar de estarem às oito horas nas lojas de aluguer de material, apenas uma hora depois da abertura das pistas é que fizeram a primeira descida. Foi aquilo que se chama uma descida  memorável. O estado das pistas era um convite ao acidente! Quando chegaram ao sopé da montanha, entre nódoas negras ou esfoladelas, estavam quase todos marcados. Isso incluía os mais novos que eram esquiadores exímios.
«Já todos viram o estado em que estão as pistas. Estão proibidos os percursos fora destas e cá dentro, muito cuidado!» Disse Rogério.
Rogério, apesar de estar acostumado a assumir riscos nos negócios, como gestor, era bem conservador quando se tratava de colocar em risco a integridade física. Os mais novos perceberam que o perigo era real e todos acataram a sugestão, que tinha sido feita num tom de comando. Apesar do risco que era esquiar com aquele tipo de neve e com pistas semeadas de placas de gelo, o primeiro dia decorreu sem acidentes para além de algumas quedas. O grupo era constituído por três casais e oito jovens. Ao todo eram catorze pessoas. O primeiro dia tinha sido passado na zona de Borreguiles e, no segundo, um dos jovens sugeriu que fossem para zona de Laguna, para terem acesso à Veleta, que era o ponto mais alto da estância. Dado o número de pistas que estavam fechadas, tiveram de subir ao topo da Panorâmica 2, para alcançar a zona de Laguna de las Yeguas. Foi uma descida com alguns percalços mas sem novidade de maior. Quando chegaram ao topo das cadeiras Laguna puderam apreciar a paisagem, vista do ponto mais alto da estância. A pista branca estava ladeada por pedregulhos de gelo, aos quais se seguiam ameaçadoras rochas negras. Lá ao longe, logo após uma sucessão de pequenos montes, aparecia o Mediterrâneo, no seu esplendor. Era uma vista de perder o fôlego, sobretudo quando na posse de uns binóculos. Rogério assumiu a dianteira, mas foi rapidamente ultrapassado pelos mais novos. Eles eram mais rápidos e mais inconscientes, ou talvez tivessem menos medo. O estado das pistas tinha posto Rogério em sentido. Desceram pela Olympica e pararam no topo da primeira descida mais íngreme. O grito de um dos esquiadores, que também estava ali parado, chamou de imediato a atenção deles. Alguém tinha perdido o controlo dos esquis e descia, em alta velocidade, em direção à berma da pista. O desastre era eminente. Se ele não se jogasse para o chão iria esmagar-se de encontro às rochas que a ladeavam. Os espetadores levaram as mãos à cabeça, antecipando o inevitável. No último instante ele rodopiou e caiu sobre a perna direita. O som da fratura foi audível, em simultâneo, com o grito lancinante.
O grupo seguiu o Rogério e foram juntar-se aos muitos que rodeavam o homem, que entretanto tinha deslizado, como um boneco inerte, até parar numa zona mais plana. O homem aparentava uma idade entre os cinquenta e os sessenta e estava desacordado. A mancha de sangue que começou a formar-se na neve fazia adivinhar o pior. A esposa do homem estava de cabeça completamente perdida e gritava de forma histérica. Um dos filhos, com mais sangue frio, tinha chamado o serviço de assistência às pistas, mas a chegada dos socorristas iria demorar porque, devido à quantidade de acidentes, as motos estavam todas em Pradolhano. Entretanto, o homem recuperou os sentidos e soltava gemidos horrendos. O filho, que era socorrista, colocou a descoberto uma fratura exposta mesmo acima da bota de esqui. O osso tinha rasgado o músculo e a carne e exibia-se, orgulhosamente, como a base de um estandarte. O filho não tinha conhecimentos para recolocar o osso, pelo não podia fazer nada a não ser um garrote, o que de per si era perigoso, pois retirar a circulação do sangue à perna, com o frio que estava, podia ser fatal para os dedos, tinha alertado Frederico.
Frederico Castelo Branco identificou-se como médico ortopedista. Era um especialista da perna e entendeu que devia ajudar. Os filhos do sinistrado suplicaram pela sua intervenção e ele ajoelhou-se junto deste. Rogério estendeu-lhe duas mantas térmicas sem dizer uma palavra, mas dirigindo-lhe um olhar de censura. Era um homem previdente e trazia sempre consigo mantas térmicas, pensos rápidos e algumas ligaduras.
«Você sabe o que está a fazer? Veja lá se ainda vai piorar as coisas!» Gritou a mulher histérica.
Ao ouvir isto, Rogério pegou no braço do Frederico, levantou-o e puxou-o para trás.
«Tu não vais ajudar este tipo de gente. Eles são bem capazes de te acusar de ter piorado a situação. Mais vale deixar o homem morrer.»
Tinham sido umas palavras cruéis. Mas a consciência de Rogério levava-o a zelar, em primeiro lugar, pelo amigo. O filho, socorrista, empurrou Rogério com violência e com raiva. Isso gerou alguma confusão, pois os três filhos do Rogério intervieram. Os bastões no ar, os gritos e as ameaças, criaram um ambiente de batalha campal. Foi Frederico quem interveio, acalmando os ânimos.
«Vocês querem deixar o meu pai morrer sem fazer nada? Isso é assassinato!» Disse o filho socorrista.
A afirmação tinha sido genérica, mas o olhar enraivecido indicava claramente a quem se dirigia. Rogério sentiu o impacto da acusação, mas manteve-se firme na sua convicção.
«Nós não temos obrigação nenhuma de socorrer o seu pai. Assassinato foi a forma irresponsável como ele desceu a pista!» Retorquiu Rogério.
Criou-se uma situação de impasse e constrangedora, com quase todos os presentes a olhar para Rogério com hostilidade. Frederico puxou-o pelo braço e disse-lhe.
«Eu percebo que tu estejas preocupado comigo e talvez tenhas razão, mas eu não posso ficar sem fazer nada.»
Rogério ponderou a situação por alguns instantes. Ele, embora parecesse ter um coração frio, também estava preocupado. Apesar disso, não podia deixar que o amigo se colocasse em maus lençóis, por ser um homem de princípios e com uma ética irrepreensível. Ele estava acostumado a tomar decisões de elevado risco e a assumir as consequências, mas o seu sucesso devia-se também à sua capacidade de criar consensos. Pediu ao filho mais novo que lhe desse o caderno, que trazia na mochila e uma caneta e escreveu uma declaração que desresponsabilizava o amigo, apresentando-a aos familiares.
«O meu amigo ajuda o vosso pai se assinarem isto.»
Eles assinaram a declaração a contragosto. Rogério conferiu as assinaturas pelos documentos de identificação e registou os números dos mesmos, no papel. Depois disso, Frederico colocou o osso no lugar com uma mestria admirável. Em seguida fechou a ferida com pensos rápidos e ligou a perna, usando os bocados de bastão como tala. Era irónico que tivesse sido o Rogério a fornecer os materiais para a operação, estando em desacordo com o procedimento. O fluxo de sangue tinha praticamente parado, o que era um pouco estranho, mas também já não havia tempo para mais nada, os socorristas tinham chegado. Elogiaram o trabalho de recolocação do osso, pediram a identificação de Frederico e partiram. Rogério estava desconfortável com a situação e perguntou aos presentes, que não pertenciam ao grupo dele, se estavam dispostos a testemunhar sobre o que se tinha passado. Depois de recolherem os dados de cinco testemunhas partiram. O resto do dia decorreu sem incidentes, mas o grupo ficou marcado pelo acidente e, embora ninguém tivesse comentado o assunto, percebia-se que não tinham gostado que Rogério tivesse tentado impedir Frederico de socorrer o homem. Nenhum deles tinha a experiência em avaliar o risco de situações complicadas. Rogério tinha e, se esse era o preço que tinha a pagar por defender o amigo, então que fosse.
Depois do jantar tinham-se juntado todos no apartamento dos Castelo Branco e envolveram-se num jogo qualquer para adivinhar palavras escritas em pequenos pedaços de papel. O som da campainha da porta interrompeu-os de forma brusca. Um dos filhos de Frederico foi abrir a porta e regressou acompanhado da polícia. A esposa do sinistrado tinha apresentado uma queixa contra ele. Ficaram todos perplexos e sem entender a razão de tal queixa.
Apenas mais tarde ficaram a saber o que se tinha passado. O número de sinistrados graves era muito elevado e como a situação do homem tinha sido controlada, tinha ficado algum tempo à espera para ser visto pelo médico. O posto apenas tinha médicos de clínica geral, pelo que o homem foi transferido para Granada. Quando os médicos de Granada lhe tiraram as meias repararam que o pé estava gangrenado e que corria o risco de o perder. A ferida estava bem ligada o que tornava a situação inexplicável. Apenas quando lhe retiraram as calças perceberam que ele tinha um garrote por cima do joelho, que impedia o sangue de circular para a perna. Começaram de imediato a recuperação da perna, mas acabaram por ter de lhe amputar os dedos. Apenas não tinha perdido a perna porque o garrote não estava muito apertado. A mulher, quando soube do facto, tratou de encontrar um responsável, acusando toda a gente que interveio, no resgate. Os socorristas não tinham feito qualquer intervenção no sinistrado, pelo que a acusação caiu sobre o Frederico. A situação era ridícula! Frederico não tinha colocado qualquer garrote no sinistrado e até tinha dito, expressamente, que não se devia adotar esse procedimento.
Rogério falava um pouco melhor o castelhano e explicou às autoridades o que se tinha passado, mostrando, inclusive, o documento assinado pelos familiares e indicando que tinha várias testemunhas para além de todos os membros do grupo. As autoridades foram intransigentes e brutas. Parecia a reedição de Aljubarrota. Os portugueses eram responsáveis pela amputação dos dedos do pé de um pai de família Espanhol e tinham de pagar por isso. Apesar dos protestos, Frederico teve de passar a noite nos calabouços da polícia, em Granada, para ser apresentado ao juiz na manhã seguinte. Os membros do grupo estavam todos revoltados e mentalmente perceberam o comportamento do Rogério, dando-lhe razão. A mulher e os filhos estavam inconsoláveis e receavam pela carreira de Frederico. Ele próprio estava taciturno e desanimado. Uma acusação daquelas podia ser o fim da carreira médica. Foram horas de desespero, insónia e frustração.
«Vamos manter-nos calmos. Amanhã de manhã eu trato deste assunto.» Disse Rogério.
Fez umas chamadas e conseguiu que um advogado, de uma firma espanhola, que trabalhava para a empresa dele em Portugal, estivesse à porta da esquadra, às oito da manhã do dia seguinte. As cinco testemunhas que tinha arrolado, também lá estavam, uma vez que as autoridades tinham desvalorizado os testemunhos dos membros do grupo e não tinham reconhecido qualquer valor ao papel assinado pela família. Acontece que uma das testemunhas era juiz, na comarca de Granada. Foi ele que conseguiu a libertação de Frederico e obrigou as autoridades a apresentarem-lhe um pedido de desculpas formal. Ele não só testemunhou que Frederico não tinha colocado nenhum garrote, como tinha sido o filho do sinistrado a colocá-lo, às escondidas e contra a recomendação do ortopedista. Acrescentou ainda, que se não fosse a intervenção de Frederico era provável que os danos na perna fossem irreparáveis, podendo estar em causa a própria vida do sinistrado. Frederico foi recebido pelo grupo com aplausos e abraços.
«Obrigado Rogério. Tinhas razão, mas mesmo depois do que se passou, voltaria a fazer o mesmo.» Disse ao mesmo tempo que se abraçavam.
«Eu sei. Por isso é que tu és quem és. Um Homem com letra grande! Mas eu também não estou arrependido de ter sido o mau da fita.»
«Tu não foste mau. Tu agiste com sabedoria e pragmatismo e eu fico feliz que tenha sido assim.»
Às dez da manhã estavam todos de volta às pistas e nos dias que se seguiram ao acidente, os incidentes a que este tinha dado lugar, foram motivo de muitas conversas. Era incrível, como aquela família tinha sido capaz de acusar Frederico de um ato que eles próprios tinham praticado, quando aquilo que ele fez tinha salvado, pelo menos perna do sinistrado. O Juramento de Hipócrates obrigava os médicos a prestar assistência, mas como a ética dos pacientes e familiares não o equivalia, era melhor respeitar o mesmo, apenas dentro dos hospitais.

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