A JORNALISTA | PARTE V | CAPÍTULO 2

A JORNALISTA | PARTE V | CAPÍTULO 2 – Reflexão

Anabela estava à espera dele no exterior e Walker respirou fundo, saboreando a liberdade. A privação desta faz com que se lhe atribua o verdadeiro valor. Era uma coisa que para ele tinha deixado de ser um dado adquirido. Cada segundo tinha que ser vivido intensamente, pois a qualquer momento se podia ser privado dela. Depois de passarem pelo escritório da advogada e terem acertado as contas, ela deixou-o no hotel. Levantou os seus pertences que tinham sido guardados no depósito do hotel e alugou um quarto. Tomou um longo duche e saiu para a rua. Queria gozar o seu primeiro dia de liberdade ao ar livre, mas também queria testar uma teoria. O hotel era perto do Saldanha pelo que desceu até à avenida da Liberdade e daí até ao Rossio. Decidiu ir ver o Rio. Tinha saudades da água, ele que tantas horas tinha passado dentro dela. Assim que arrumasse os assuntos que lhe ocupavam a mente, desde o dia do julgamento, iria apanhar umas ondas. Depois de almoçar passou pelo Cais do Sodré e subiu até ao Chiado. Daí foi até ao Rato, aproveitando para dar um salto à Basílica da Estrela. Começava a sentir os efeitos da caminhada mas não desistiu. Subiu em direção às Amoreiras e passou por detrás do quarteirão do antigo hospital militar, passando em frente ao Estabelecimento Prisional de Lisboa e seguindo pelo topo do parque Eduardo VII, em direção ao El Corte Inglês. Em seguida tomou a Duque D’Ávila e passado meia hora estava no hotel. Tinha sido uma longa caminhada e estava completamente estafado. Deitou-se sobre a cama e adormeceu. Quando acordou tomou banho e desceu para jantar. Ainda teve coragem para sair à rua e iniciar o passeio digestivo, mas o cansaço rapidamente o demoveu e regressou ao hotel. Dormiu mal a noite. Aparentemente o corpo tinha-se habituado à cama da cadeia que era estreita e desconfortável.
Depois do pequeno-almoço foi até uma explanada e sentou-se a apreciar o bulício das ruas. Lisboa estava pejada de turistas. Isso era notório pela diversidade dos idiomas que escutava, ao ouvir os passantes falar. Retirou a carta da algibeira e leu-a outra vez. «Em que circunstâncias terá Anne, escrito esta carta?» Interrogou-se. Pegou no telemóvel descartável, que tinha comprado no dia anterior e completou a ligação. A chamada tinha péssimas condições e ele não conseguiu associar a voz à pessoa que estava do outro lado. Anne estava cheia de pressa e combinou encontrar-se com ele daí a três dias no quarto do hotel dele, às onze horas. A possibilidade de ver Anne outra vez deixou-o num grande estado de ansiedade!
Ele sabia que tinha sido incriminado, apenas não sabia bem por quem. Pouco antes de ter sido preso tinha recebido um telefona de Jonathan. Tinha feito limpezas lá em casa e encontrou um baú velho, onde descobriu muitas fotografias e alguns vídeos, da época em que Walker era instrutor de surf. Jonathan tinha desaparecido mal o escândalo estalou. Ele era um hippie que vivia na praia e de esquemas, embora fosse completamente inofensivo. Walker gostava dele e costumava financiar o seu vício: a fotografia. Nessa altura, Walker não deu grande importância ao amigo, mas depois de ter estado preso e sobretudo ter recebido aquela carta, estava muito interessado em ter toda a documentação a que pudesse deitar a mão, relacionada com essa época. Ligou ao amigo e passados dois dias recebeu, pelo correio, uma Pen Drive com terabytes de informação. Quando inseriu a Pen Driveno computador percebeu que estava codificada. Apesar de não ter recebido nenhum código, sorriu para consigo. Lembrou-se da história do amigo sobre as passwords. Pensou um bocadinho e inseriu um conjunto de 12 dígitos. Acertou.
Passou a tarde e a noite a rever as fotografias e os vídeos. Muitos deles foram descartados, mal começou a vê-los. Já passava da meia-noite quando identificou os cinco vídeos e as trinta e sete fotografias que deveriam ser relevantes. Visionou-as dezenas de vezes mas não conseguiu identificar nada de definitivamente comprometedor. Um dos vídeos era quase todo sobre um casal de mulheres que se beijavam com entusiasmo. O microfone direcional permitiu ouvir o convite da mais velha à mais nova: no dia seguinte partiriam para a Indonésia. O rosto da mais velha parecia-lhe familiar, mas os enormes óculos e o chapéu não lhe permitiam uma associação de um nome ao mesmo. Selecionou alguns dos vídeos e colocou-os num envelope. Desceu à receção e deixou o envelope com uma das rececionistas para ser enviado por correio. Quando subiu enviou um email para uma caixa de correio que faria um reenvio programado, dentro de dois dias, caso ele não cancelasse a instrução. Já o dia clareava quando foi dormir. Precisava de descansar pois no dia seguinte teria a visita de Anne.
Walker estava nervoso e ansioso. Ver Anne depois de todo aquele tempo, deixava-o, simultaneamente, feliz e desconfortável. Ela era responsável pelo seu envolvimento na morte da jornalista, talvez até fosse ela a criminosa e o tivesse usado como bode expiatório. Era verdade que a amava mas teriam de ser muitas e detalhadas as explicações, para que ele pudesse voltar a confiar nela. Mas a dúvida que o assaltava nesse momento era se ela viria ou não ao seu encontro. Entretido, com estas e outras reflexões não ouviu o som da batida suave, na porta, feita com os nós dos dedos. O segundo toque foi feito com mais força e ao ouvi-lo retesaram-se-lhe os músculos. Dirigiu-se para a porta com todo o cuidado e entreabriu-a. A mulher olhou furtivamente para os dois lados, empurrou a porta e entrou, sem dizer nada. Walker deu alguns passos à retaguarda. Ela aproveitou o facto para trancar a porta pelo lado de dentro. Apenas quando ela tirou os óculos e o lenço que trazia na cabeça ele a reconheceu. Abriu a boca como que para dizer algo, mas limitou-se a ficar de boca aberta com uma expressão de espanto. A presença dela era inesperada e imprevisível. Walker experimentou uma sensação de dejá vue que não soube explicar.
«Sabes porque estou aqui, não sabes?» Perguntou ela.
«Não.» Respondeu ele de forma sincera.
«Inicialmente apenas queria perceber aquilo que tu sabias. Entretanto, fiquei a saber que o teu amigo Jonathan te enviou umas coisas interessantes.»
«Como soubeste?» Perguntou ele interrompendo-a.
«Não foi fácil obter essa informação, mas o teu amigo ficou muito mais aliviado depois de revelar tudo.»
Walker não disse nada. Mentalmente agradeceu a si próprio o facto de ter apagado o rasto do envio do email no seu computador. Apenas um especialista em informática seria capaz de perceber o facto. Entregaria tudo àquela mulher. A luminosidade que entrava pela janela incomodava-a e ela tirou uns óculos da bolsa e colocou-os. Nesse momento ele percebeu que ela era a mulher que estava com a mais nova no filme., «Então é isso. Ela não queria que o marido conhecesse os seus gostos sexuais!»
«Não precisa de se preocupar que o segredo dos seus gostos sexuais ficará bem guardado comigo.»
Ela soltou uma gargalhada sonora e jocosa.
«Pobre Walker. Tu ainda não percebeste o que se passa…»
Quando se calou o espaço foi preenchido por um silêncio constrangedor. Ele não sabia bem o que havia de esperar dela, mas antes que tivesse oportunidade de dizer algo ela retirou a pistola da bolsa e disse.
«Mostra lá tudo o que o teu amigo te enviou.»
Walker sentou-se em frente ao computador e, acenando com a Pen Drive, inseriu-a no computador. Ela desferiu-lhe uma coronhada violenta no rosto e ficou a vê-lo sangrar com os olhos em lágrimas devido à dor. Era uma visão que lhe dava prazer!
«Isso foi um aviso para evitar que mintas. Fizeste alguma cópia ou enviaste essa informação a alguém?»
Ele respondeu sem pressas e sem evidências ansiedade, mantendo as mãos a segurar o rosto.
«Não.»
Ela pegou-lhe no queixo e ele olhou-a com uma expressão de medo no rosto. Ela sorriu. Aquela expressão de medo era a garantia suficiente de que ele não estava a mentir. Deu meia volta e disparou à queima-roupa. O silenciador abafou o som do disparo e a bala entrou na nuca, matando-o, instantaneamente. Apagou todos os ficheiros do computador, guardou a Pen Drive na mala e discou o número da room service. Garantiram-lhe que a bebida e a sandwich de presunto seria entregue em cinco minutos. Em seguida abandonou o quarto.

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