A PRISÃO

A PRISÃO

O granizo pintou de branco a paisagem. Não durou mais de meia hora, mas a intensidade da saraivada foi tal, que o gelo se acumulou sobre o tereno molhado. O verde resplandecente foi substituído pelo branco baço. Estávamos em Fevereiro, por isso o sol, rapidamente, colocou a cabeça de fora. Era como uma jovem loira, afastando os cortinados para espreitar a rua. Brilhou intensamente. O branco ofuscou. Policarpo arrastou o corpo e veio sentar-se no pequeno jardim. O sol aquecia-lhe os membros entorpecidos pelo frio, que a idade aconchegava em vez de repelir. O andarilho ajudou-o a dar dez trôpegas passadas, até chegar ao seu poiso. Sentou-se. O chapéu de palha protegia-lhe a cabeça e ensombrava o rosto e o corpo rejuvenescia, aquecido pelo sol.
Os filhos partiram para longe, espalhados pelo país e pelo estrangeiro, com exceção do mais novo com quem vivia. Ligavam quase todos os dias e vinham quando podiam, mas não era como se vivessem ali ao lado, como nos tempos de antigamente. O governo tinha-se esquecido dos anos de dedicação e amor à pátria, passados na guerra do ultramar. A paga era a redução sistemática do valor da pensão de reforma. A propaganda dizia que o valor aumentava, mas os abates, ano após ano, eram superiores aos aumentos. A energia e a força da juventude também tinham ido embora. Tinha sido abandonado! No entanto, o que mais lhe custava era estar circunscrito à casa e ao quintal. A mente, febril não parava de viajar. Tinha saudades dos tempos difíceis da infância. De bom grado prescindiria do desafogo financeiro em troca da liberdade. Em vez de ir à escola tinha ido guardar cabras. O almoço era uma fatia de pão de milho, muitas vezes bolorento, molhada com leite de cabra. Uma canada de cada ubre, para o patrão não desconfiar. Já mais velho recordava-se do amarfanhar das roupas da Alzira, atrás da porta, a espreitar a chegada do marido. Um esvair-se tão rápido como delicioso e ela afogueada, gemendo baixinho. Aprendeu com ela os segredos do prazer. Vieram depois os bailaricos e os primeiros namoros. O desespero da paixão não correspondida e finalmente o amor. Célia foi o seu único e verdadeiro amor. Foi a companheira das venturas e desventuras da vida. Passou a seu lado sessenta e três anos, mas também ela partiu. Uma lágrima aflorou-lhe o canto do olho. Por mais tempo que passasse, a saudade era a única que não o abandonava.
A guerra. A guerra tinha-lhe ensinado muito sobre as pessoas. Tinha vistos medrosos avantajarem-se e valentes acobardar-se. Tinha conhecido outras culturas e outros povos, lutado por eles e ao lado deles, até que lhe disseram o contrário. Pátria e verdade eram conceitos absolutos, que os tempos relativizaram. A cabeça encheu-se de sons e ritmos africanos. Cantou até ficar rouco, mas o corpo recusou-se a participar. Ficou imóvel e mudo, como se apenas fosse sua função assistir. A primeira missa no musseque com toda a gente a cantar e dançar foi algo inesquecível, tão diferente das missas em latim que ouvira na sua infância, que eram quase um monólogo. No fim teve que entregar a arma aos homens que até aí tinha combatido. Os mesmos que as usaram para matar o compadre e deixar a comadre à beira da morte, depois de violada e marcada com dezenas de queimaduras de cigarro. A paz tinha sido bem pior que a guerra!
Regressou ao presente. Se ao menos pudesse sair dali, mas ele não andava, arrastava-se. Vivia rodeado de amor e a alegria de ter os netos à sua volta era uma felicidade sem fim, mas uma felicidade que lhe doía. Sentia-se encurralado e as cabriolas dos netos tornavam isso ainda mais evidente. O mesmo corpo que outrora fora templo, era agora prisão. A mente e o corpo, uma dualidade que a idade fizera divergir.

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