O PORQUÊ

O PORQUÊ

Emília praguejou mais uma vez. Como era seu costume soltou uns palavrões, daqueles que faziam arrepiar os cabelos do marido. Desta vez ele não tinha ouvido, pois estava na fila do supermercado.
«Aquele gajo tinha de ir para o supermercado à hora do pequeno-almoço. Estou morta de fome!» Disse falando consigo própria.
Parecia que o mundo estava todo contra ela. O marido tinha-se levantado cedo para comprar pão, mas como estavam em quarentena, teve de aguardar a sua vez para entrar no supermercado. Tinha tomado todos os cuidados para não a acordar, mas quando chegou a casa ela já estava na cozinha. O queijo fresco e o fiambre, cortado bem fininho, vieram mesmo a calhar. «Eu a dizer mal e ele parece que adivinhou aquilo que me apetecia.» Pensou. Fazia quatro semanas que estavam em teletrabalho. Ele era engenheiro com um MBA, concluído no INSEAD e um pós graduação em mercados financeiros, em Harvard, a adicionar a vários cursos não área financeira, com especial incidência na área bancária. Fazia dois anos que era administrador de um dos cinco maiores bancos da praça de Lisboa. Ela era advogada, mas tinha apostado mais na família e com isso, apesar das evidentes competências, apenas tinha ascendido a partner depois dos cinquenta. Felizmente tinham excelentes condições em casa. Ele ficou com a biblioteca e ela com o escritório. Os filhos fechavam-se cada um no seu quarto. Estavam os três na faculdade, o que significava que estavam em casa sem fazer nada, porque decorriam as férias da páscoa. A coabitação não era fácil, mas não trouxe nada de novo à relação deles, que sempre fora estável. Já estavam acostumados às explosões de Emília, apenas tiveram desse se habituar ao aumento da frequência destas. Tinham acabado de almoçar e os filhos levantaram-se da mesa, ficando apenas os dois, à volta de uma chávena de café e um cálice de Porto.
«A D. Teresa está encantada com a tua eficiência a fazer as compras. Diz que trazes tudo certinho.»
«Limito-me a comprar o que ela põe na lista. Como ela descreve os produtos ao detalhe, fica relativamente fácil.»
«Queres dizer com isso que eu não sei pedir aquilo que quero.» Disse ela meio séria.
«Não estava sequer a pensar na tua lista. Mas é verdade que se descrevesses os produtos como ela qualquer, dos teus filhos podia aviar a tua lista, sem se enganar.»
Quando terminaram de arrumar a cozinha, Pedro foi para a biblioteca ler um livro, enquanto Emília foi para a varanda do escritório. Estava fresco, mas ela não fumava dentro de casa. A vizinha também veio para a varanda. Vivia sozinha, desde que a filha tinha falecido. Já era viúva e os outros dois filhos estavam no estrangeiro. Sempre se tinham dado bem, mas a viuvez aproximou-os ainda mais e, desde que estavam de quarentena, era Pedro que lhe fazia todos os recados. Ela era uma pessoa de risco, quer pela idade, quer pelas várias patologias de que sofria. As conversas com ela eram uma lição: associava à sabedoria de uma anciã, de oitenta e cinco anos, uma grande sagacidade, acumulando isso com a frescura mental de uma quarentona. Emília era todos os dias surpreendida com a forma como a anciã via a vida e, sobretudo, como ela parecia adivinhar o que lhe ia na alma. Terminou várias vezes a conversa, de forma abrupta, tal era o incómodo de sentir o seu íntimo violado. Depois caía em si e ria-se. D. Teresa era apenas uma velhota que tinha passado por muito. Fizera os estudos em França, durante o exílio e regressara a Portugal, depois do 25 de Abril. Foi uma das primeiras professoras catedráticas, da Faculdade de Letras de Lisboa.
«A Emília anda muito stressada.» Disse a anciã, na voz calma que a caraterizava e com um sorriso doce.
«Eu sinto-me bem, mas parece que está tudo contra mim!»
A anciã não disse nada, mas com o olhar perscrutou-lhe a alma. Instintivamente, Emília aconchegou echarpe ao pescoço, protegendo-se daquele olhar penetrante. Sorriu da sua idiotice.
«Quem é que está contra si?»
«Todos!»
«Isso não será um pouco exagerado?»
«Talvez… mas é o marido, são os filhos, é o emprego. Enfim. Até a máquina do café.»
A anciã sorriu de forma simpática.
«A máquina do café?»
«Sim hoje de manhã ficou sem água e depois não queria funcionar. Claro que o Pedro a pôs a funcionar e ainda me disse que, para evitar o problema, tinha de a desligar antes de acabar a água, como se eu não soubesse trabalhar com a máquina!»
«Então o que ele disse está errado?»
«Não.»
«Então?»
«A máquina com ele funcionou. Porque é que não funcionou comigo?»
«Porquê?» Repetiu a anciã.
Emília olhou para D. Teresa como se ela tivesse disso uma estupidez.
«Sim porquê?» Repetiu Emília, esperando uma resposta.
A anciã olhou para ela com o seu ar bondoso e disse.
«A questão está no porquê.»
Emília teve vontade de explodir e de mandar a velha pentear macacos. Resistiu, por respeito. Ela podia ser sua mãe! Inventou uma desculpa e retirou-se. Quanto mais pensava na pergunta da anciã mais curiosa ficava. Talvez a observação não fosse assim tão estúpida. O mais provável era ela não estar a tentar responder à pergunta, mas a querer dizer-lhe alguma coisa. A anciã tinha uma forma muito peculiar de lhe dizer coisas, por vezes bem profundas e sobretudo profundamente certas. Vestiu rapidamente o pijama e tapou-se com os lençóis. Já lá ia o tempo em que se passeava em frente ao espelho. Pedro chegou pouco depois e fizeram amor. Refilou quando ele tentou destapá-la.
«Estou sem roupa e vou ter frio. Deixa estar o lençol.»
«Eu gosto tanto de ver o teu corpo. É lindo!…»
«Isso são tontices!»
No domingo, depois do pequeno-almoço, Pedro foi fazer exercício. Entre a musculação e o tapete, demorava duas horas. Ela foi até à varanda. Ainda era cedo para a vizinha vir apanhar ar, mas, secretamente, ela desejava que tal acontecesse. Sentia um entusiasmo e um formigueiro na barriga, como se fosse encontrar-se com um apaixonado, a quem ainda não se tinha declarado. Riu-se, mas até o riso era nervoso. A anciã apareceu pouco depois e jogaram alguma conversa fora, até que Emília perguntou de forma abrupta.
«O que é que a D. Teresa queria dizer com aquilo do porquê?»
A anciã olhou para ela durante alguns instantes. Depois acenou com a cabeça. A Emília parecia-lhe preparada para dar o primeiro passo. A curiosidade era sincera. Estava pronta para conhecer o porquê.
«Todas as coisas têm um porquê. Isso faz com que coloquemos, de forma legítima, essa questão.»
Emília recostou-se na cadeira. Estava a menos de dois metros da vizinha, cada uma na sua varanda. Ao fundo, mas não muito distante, o rio Tejo fazia-lhes chegar o cheiro caraterístico da maré vazia. Depois de fazer uma pausa D. Teresa explicou.
«O problema não está em colocar a questão, mas sim na forma como se procura obter a resposta. Essa está, na maior parte das vezes, dentro de nós.»
«Como?» Perguntou Emília, dobrando-se para a frente e redobrando a atenção.
«Quando te irritas porque o teu marido faz um comentário, tens que tentar afastar-te mentalmente da situação e ver se o problema está efetivamente no que ele disse e na forma como o disse ou apenas na forma como tu o ouviste.»
«Mas o que que isso tem a ver com o porquê? O tal porquê das coisas?»
«No exemplo que te dei, como em muitos outros, se o problema está na forma como tu vês, ouves ou sentes as coisas, então a resposta ao porquê está dentro de ti. Nesse caso, não vale a pena culpares todo o mundo ou revoltares-te contra ele, como se ele te perseguisse. Tens que buscar dentro de ti a razão por que isso acontece. Essa busca é apenas tua. Ninguém a pode fazer por ti.»
«Como encontro em mim a resposta?»
«Cada pessoa acaba por ter um método diferente, mas o processo é muito semelhante: é um processo de auto questionamento. Deves isolar-te durante uma ou duas horas, as vezes que forem necessárias e perguntar a ti própria o que é que te está verdadeiramente a incomodar. O que provoca o desconforto que te leva a agir da forma que fazes e a reagir de forma desproporcionada a atos ou comentários simples e bem-intencionados.»
A anciã fez uma pausa e Deixou que Emília interiorizasse o verdadeiro significado das palavras.
«Algumas pessoas descobrem que, na base de tudo está o desconforto que sentem com o seu corpo. Outras, identificam um receio gerado por um sintoma, que pensam estar associado a uma doença, que nunca tiveram coragem de verificar se era verdadeira. Outras, ainda, vivem com uma sentença suspensa sobre a cabeça, porque pensam que podem ser despedidas a qualquer momento. Outras estão com problemas financeiros, que não querem confessar ou assumir. Na maior parte das vezes é um facto bem singelo, embora isso não signifique que tenha resolução fácil.»
«Pensando bem sobre o assunto, não tão fácil assim chegar ao verdadeiro porquê.»
«Bom, se fosse fácil evitavam-se muitas confusões e problemas, mas não é. Cuidado, que muitas vezes convencemo-nos de o porquê está num determinado facto, quando este não passa de uma das muitas consequências, do verdadeiro porquê. Isso pode trazer ainda mais problemas. É importante, quando pensarmos que já identificamos o porquê, perguntar, o que provoca esse porquê. Enquanto os porquês tiverem como origem reações e não ações, então não são o porquê original.»
Ficaram as duas caladas durante algum tempo. Estavam tão absorvidas pelos seus pensamentos que só se aperceberam da presença de Pedro quando este colocou as mãos nos ombros de Emília, que deu um salto, soltando um pequeno grito. Depois caíram os três na gargalhada.


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