A JORNALISTA | PARTE VI | CAPÍTULO 5

A JORNALISTA | PARTE VI | CAPÍTULO 5 – Em código

Mónica esperou em vão notícias de Perestrelo. Ele não disse nada quando chegou, nem durante todo o dia seguinte. O dia tinha sido intenso e um pouco antes da meia-noite ela adormeceu no sofá, enquanto a televisão debitava um documentário sobre a história da aviação. Acordou em sobressalto com o sinal sonoro das mensagens: Perestrelo estava no aeroporto e embarcaria daí a 5 horas. Olhou para o relógio: era quase meia-noite. O voo saia às cinco da manhã, pelo que devia aterrar em Lisboa, por volta das doze horas. «Ele bem podia ter-se dignado a telefonar!» Pensou. A mensagem deixou-a de mau humor, nada que uma noite de sono não resolvesse.
A viagem decorreu sem percalços e Perestrelo aproveitou para dormir o tempo todo. O calmante que ingeriu quando embarcou foi uma ajuda providencial. Queria evitar tomar um táxi no aeroporto, por isso chamaria um Uber. O trólei rodava quase sem esforço e ele aproveitou para pegar no telemóvel e abrir a aplicação. Chegou à zona de espera e, sem levantar a cabeça, dirigiu-se para o lado direito, em direção as chegadas. Estava tão absorvido que não reparou na mulher que lhe acenava e o chamava, em simultâneo. Parou por alguns instantes para definir a localização exata do ponto de recolha e ela quase chocou com ele.
«Anda, tenho o carro mal estacionado.»
Ele demorou alguns instantes a refazer-se da surpresa.
«Bom dia. Isso não é problema para uma agente de autoridade.» Disse ele com ar brincalhão.
Tinha descansado bastante e a viagem tinha sido proveitosa, por isso estava com bom humor.
«Desculpa. Bom dia. Não gosto de ficar a dever favores!»
Ele assentiu com a cabeça. Mónica Fonseca era assim, reta até nos mais pequenos detalhes. Pelo caminho colocou-a a par da situação. A boa disposição dele era contagiante e fizeram o caminho entre gargalhadas, brincando com a cara dos meliantes, assim que abriram a mala. A mala chegou no dia seguinte entregue pelos serviços de encomendas expresso. Mónica não esperou por ele, mas teve uma surpresa quando tentou abri-la. O envelope que lhe foi entregue não continha nenhuma chave e sem esta, a mala era virtualmente impossível de abrir. Teria de esperar por Perestrelo. Foi ter com ele ao escritório.
«Não recebeste um envelope com a chave?»
«Está aqui tudo o que recebi.» Disse Mónica.
Mónica tinha depositado em cima da secretária um recipiente “Euro”, cinzento, em formato de mala pessoal, com sistema de fecho Auer Packing. Era uma fechadura de alta segurança. Tinham de descobrir a chave. Abrir a mala de outra forma apresentava um risco para o seu conteúdo, que desconheciam.
«Tu sabes o que está dentro da mala?»
«Não. A mala estava fechada quando Steve ma entregou.»
«Tens consciência de que podemos estar a envolver-nos em algo ilícito. A mala pode ter drogas, armas ou outra coisa pior.» Disse Mónica.
Perestrelo ponderou a questão durante alguns segundos.
«Tens razão. Talvez seja melhor afastar-te e deixares que seja eu a descobrir o que está lá dentro.»
«É demasiado tarde para isso. Tu envolveste-me no momento em que enviaste a mala para mim.»
Mónica tinha razão, mas agora não havia nada a fazer a não ser descobrir o mais rápido possível o conteúdo. Retirou para fora do invólucro de plástico todos os papéis que acompanhavam a mala. Tratava-se de um documento standard, com o endereço do remetente e do destinatário.
«O que é isto no campo das observações?» Perguntou Mónica.
Perestrelo não tinha reparado no texto escrito em letras pequenas que dizia:
Key: right side pocket
«Não faço a mínima ideia.»
Ligaram para a empresa que realizou o serviço de transporte e a informação não ajudou na resolução do enigma. A observação tinha sido colocada a pedido do cliente. Infelizmente Perestrelo não conseguiu contactá-lo. O americano tinha abandonado o emprego e não tinha outra forma de o contactar.
«Acho que vamos ter de ser nós a resolver o mistério.» Disse Mónica.
«Caso exista algum mistério.»
«Como?» Interpelou Mónica.
«Esta observação pode não ter qualquer significado.» Disse Perestrelo, vestindo o blusão.
Mónica ficou a olhar para ele, embasbacada. Perestrelo olhou automaticamente para ele próprio. «Estou sujo ou roto?» Interrogou-se.
«O que foi agora?»
«Tu levaste esse blusão para os Estados Unidos, certo?»
«Sim.»
Mónica aproximou-se dele e, sem dizer nada, correu o fecho do bolso do braço direito do blusão. A chave apareceu entre os dedos dela como por magia.
«Tens que me ensinar esses truques de magia!» Disse ele, soltando uma gargalhada.
Agora o texto que estava nas observações fazia todo o sentido. Era como o ovo de Colombo! Pegaram na chave e abriram a mala com mil cuidados. Apesar da dimensão, esta apenas continha um envelope de tamanho A3, devidamente fechado. Perestrelo deitou-lhe a mão e preparou-se para o rasgar, dado estar demasiado colado. Mónica impediu-o e abriu-o cuidadosamente, recorrendo ao vapor da máquina do café. Perestrelo olhava-a interrogadoramente mas ela ignorou-o durante toda a operação.
«Aqui tens. Agora podes ver o que está lá dentro.»
Perestrelo retirou lá de dentro uma folha de papel e leu, para si, o extenso texto. Mónica colocou-se nas suas costas e leu o papel por cima do ombro dele. Sentaram-se os dois com ar desanimado. Tinham mais uma charada para deslindar. Ela foi-se embora e Perestrelo guardou o documento. Estava cansado para e meio constipado. Voltaria ao assunto no dia seguinte.

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