A JORNALISTA | PARTE VII | CAPÍTULO 4

A JORNALISTA | PARTE VII | CAPÍTULO 4 – Viagem a Portugal

O Boss estava possesso com os últimos acontecimentos. Agora percebia a razão por que a mala que a Maria Eduarda tinha trazido estava vazia. Tinham sido enganados por aquele detetive. Tinha de perceber se ele apenas tinha tido sorte ou se lhe devia prestar mais atenção. Depois de pensar algumas horas sobre o assunto concluiu que só havia uma coisa a fazer. Passou em revista a lista dos seus operacionais e encontrou a pessoa certa para levar a cabo a tarefa que tinha em mente. Os dados estavam lançados.

Perestrelo tinha aproveitado o dia para descansar pelo que não tinha vontade de dormir. Dedicou algumas horas à leitura e a ver uns filmes até ser interrompido.

«Desculpe, dá-me licença que passe.»

Ele viajava na cochia e a senhora, já com alguma idade, ia junto à janela. Ela tinha dormido durante as primeiras horas, aproveitando o facto de não viajar ninguém no lugar do meio. Perestrelo sorriu e levantou-se. Quando ela regressou o ritual repetiu-se.

«Desculpe o incómodo. Viajar junto à janela é bom mas tem este inconveniente…» Disse a senhora

«Não incomoda nada.» Respondeu Perestrelo.

Perestrelo achou a senhora encantadora e começaram a conversar. Na verdade não tinha nada mais interessante para fazer. A partir daí a senhora não se calou. Era uma viúva com alguma capacidade financeira. Tinha perdido um filho para as drogas. Uma overdose tirou-lhe a vida. Isso tinha sido a gota de água. Tinha vindo para Portugal com a filha e apenas regressara ao Brasil para assinar os documentos de venda dos últimos bens.

«Creio que nunca mais vou voltar ao Brasil!» Disse emocionada.

Perestrelo respeitou a dor dela em silêncio. Aquela senhora fez-lhe lembrar a mãe, que já tinha perdido fazia muitos anos: sentiu-se seguro. Falaram sobre a razão da vinda dele ao Brasil e sem mencionar nomes ou situações específicas ele abriu-se com a velhota.

«Os documentos ficaram bem entregues, embora tenha ficado com a sensação de que o comandante estava à espera de algo mais.»

«Como podia ele esperar algo mais se não conhecia os documentos? Esse tipo de sensação muitas vezes resulta do facto de estarmos a esconder algo.» Disse a velhota.

 «Percebo o que quer dizer, mas não era o caso. Entregamos tudo o que nos veio parar às mãos, até porque eram documentos que só interessavam às autoridades brasileiras.»

A conversa era tão interessante que quando se aperceberam estavam a aterrar em Lisboa. Perestrelo quis despedir-se da senhora mas perdeu-a algures, entre a saída do avião e o tapete das malas.

Entretanto, O Boss aguardava notícias do seu operacional. O próximo passo seria determinado, em grande parte, pelo conteúdo destas. Era certo que teria de viajar para Lisboa, a questão era se deveria viajar sozinho ou se deveria colocar uma equipa em campo. A velhota, mal saiu do avião enfiou-se numa casa de banho e transformou-se numa jovem. Pegou no telemóvel e fez a ligação.

«Boss, o detetive caiu na esparrela. Eles não sabem mais nada nem têm mais documentos. Se existem, estão noutro lado.»

Boss desligou a chamada e ficou pensativo. O detetive Perestrelo era um beco sem saída. «Nesse caso os documentos só podem estar num sítio.» Pensou. Iria tratar do assunto pessoalmente.

Maria Eduarda olhou o visor do telefone. Tinha desejado ardentemente que ele ligasse, mas deixou o telefone tocar várias vezes antes de atender.

«Olá Marcus!»

«Como estás, Maria Eduarda?»

O coração dela batia descompassado, mas procurou manter o tom de voz tranquilo. Apesar do esforço Marcus conseguiu perceber a ansiedade na voz dela. Falaram durante alguns minutos, depois despediram-se. Ele chegaria a Lisboa no dia seguinte.

Mónica tinha vindo jantar com ele e depois de ela sair, Perestrelo ia livrar-se da mala que tinha roubado à Maria Eduarda, mas antes deu-lhe uma última vista de olhos. A mala tinha ficado aberta no escritório e o interior estava coberto com uma camada fina de pó. «É incrível a quantidade de pó que se acumula em tão pouco tempo.» Pensou. Passou um toalhete no interior apenas para avaliar o pó que se tinha ali depositado. A base era estranhamente irregular. Era como se tivesse um objeto entre o forro e o couro exterior. Investigou as extremidades do forro com cuidado e percebeu que este tinha sido cortado num dos lados e colado em seguida. Levantou o forro com mil cuidados e os documentos ficaram à vista. Leu-os com avidez. O seu conteúdo era chocante. Leu-os novamente para ter a certeza de que tinha entendido corretamente. Pensou partilhá-los com Mónica, mas se o fizesse ia obrigá-la a tomar uma posição formal no assunto. Decidiu guardar a informação só para ele. «Será mesmo possível que o comandante da secção de grandes crimes e “O Boss” sejam a mesma pessoa?» Interrogou-se. Era isso que os papéis diziam.

Perestrelo sentou-se na cadeira e recostou-se. Mónica não ia gostar nada de saber que ele tinha escondido a descoberta, mas fazia-o para bem dela. A verdade é que começava a ter na sua posse um conjunto de provas ou pistas em relação às quais tinha de fazer alguma coisa. Por agora deixaria os documentos fechados na gaveta. Era altura de dedicar novamente algum tempo às pistas trazidas dos EUA. Faria isso depois de uma noite de sono retemperante.

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