ANTECEDENTES

ANTECEDENTES

Era um dia como outro qualquer. O escritório estava praticamente vazio e os últimos resistentes preparavam-se para entrar de férias. Caberia aos regressados assegurar os serviços mínimos, nas semanas seguintes. Pedro estava desejoso do merecido repouso e congratulou-se com o facto de faltar apenas uma semana e meia. Aquela impressão horrorosa nasceu-lhe na boca do estômago e subiu por ele acima, turvando-lhe a vista e toldando-lhe a mente. Era como se estivesse em vias de perder os sentidos. Levantou-se de imediato e deu uns passos no escritório, para afastar a má disposição. Sentia-se cansado, o que era normal depois de um ano de trabalho e um fecho de contas atípico: Foi tudo feito à distância, tendo sido uma experiência enriquecedora, mas muito cansativa. «Estou mesmo a precisar de férias e ainda por cima devo estar meio constipado!» Pensou. Era normal, quando ficava um pouco engripado, sentir umas tonturas, sendo que quando fechava os olhos o mundo rodopiava até ao ponto de o deixar enjoado.

Sentou-se e respirou fundo. Tinha de controlar aquele mal-estar pois estava a meio da manhã e o dia prometia ser longo. Mal se sentou a indisposição voltou outra vez. O corpo saltou como uma mola e voltou a dar uns passos pelo escritório. Foi até à copa e pegou num copo de água. Era uma sensação horrível. Muito pior que as tonturas que costumava ter. Apesar disso, associou tudo à mesma coisa e sentou-se novamente. O resto do dia decorreu de forma normal, o que acabou por tranquiliza-lo.

Depois do jantar teve que trabalhar um pouco, mas não conseguiu fazer muita coisa. O cansaço acabou por levar a melhor e quase ia adormecendo em cima do computador. Depois e várias tentativas falhadas, para produzir alguma coisa, deitou a toalha ao chão e foi dormir. Levantou-se cedo e passou setenta e cinco minutos a fazer exercício. O corpo correspondeu sem problemas, apesar do cansaço da noite anterior. O banho foi seguido de um bom pequeno almoço e estava pronto para mais um dia de trabalho. Os cinco pisos de escada que separavam o estacionamento da rua custaram-lhe um pouco mais a subir. Estava mesmo a precisar de férias! Eram apenas oito e vinte e cinco e o escritório estava vazio. Era normal ser o primeiro a chegar, por isso nem pensou no assunto. Ligou o computador e preparou-se para mais um dia de trabalho.

A manhã passou a correr e quando deu por si eram horas de almoçar. Foi uma refeição curta e pouco satisfatória. A sopa parecia argamassa de tão espessa e o Bacalhau à Brás estava seco e em pequenos blocos. Paciência: tinha de comer! Ao fim de vinte e cinco minutos estava a sair do restaurante. Pegou no telemóvel, marcou o início da caminhada e saiu em passo rápido. Passou pela farmácia e comprou uns escovilhões, pois o seu stock tinha-se esgotado. Aproveitou a sombra do lado direito da rua, pois o calor apertava e fez o percurso habitual. O quarteirão do Instituto Superior Técnico estava quase vencido quando sentiu outra vez aquela indisposição. Encostou-se à parede para não cair desamparado, mas quando deu por si estava às cabeçadas ao chão. Lembrava-se perfeitamente de ter perdido as forças e da sua cabeça o puxar para baixo de forma inexorável. Isso significava que não tinha perdido os sentidos! O que não percebia era a razão por ter dado várias cabeçadas no passeio. Quando recuperou o controlo estava de joelhos no chão e com o sobrolho aberto. Antes de ter conseguido realizar completamente aquilo que lhe tinha acontecido, ouviu chamar do outro lado da rua. O condutor do único automóvel que ali passava parou e perguntou se ele precisava de ajuda. Pedro não sabia bem o que responder. Estava baralhado e ainda não tinha encontrado respostas para as suas próprias interrogações.

«Não obrigado.» Acabou por balbuciar.

O seu ar baralhado dizia o contrário. O homem aproximou-se de si e quando o viu todo sujo de sangue, foi buscar uma garrafa de água e despejou-a sobre as mãos de Pedro. Sentia-se fraco, mas capaz de andar, pelo menos até à próxima farmácia. Disse isso mesmo ao brasileiro que o tinha ajudado e ao outro homem, que entretanto tinha parado e perguntado se estava bem. Um jovem estudante que ia para o Técnico acompanhou-o durante uma parte do percurso e foi falando com ele. Seguiu sozinho e quando chegou ao fim do quarteirão apercebeu-se que não tinha os escovilhões consigo. Hesitou sobre a decisão a tomar, mas acabou por voltar para trás e recuperou-os. Sentia-se cansado, embora não percebesse bem porquê. A razão para aquilo tudo escapava-lhe, deixando-o intrigado. Caminhou apressado e apreensivo até à farmácia. Um dos farmacêuticos mediu-lhe a tensão: estava com treze – dez. Limparam-lhe o sangue E desinfetaram-lhe a ferida. Pedro agradeceu e seguiu para o escritório. Continuava baralhado sobre aquilo que lhe tinha acontecido, mas apesar de se sentir fraco estava tranquilo. Ligou para a esposa informando-a do que tinha acontecido e, tal como o farmacêutico, foram todos unânimes em considerar que a queda se devia ao calor.

Depois de ir à casa de banho lavar o rosto, sentou-se, recostou-se para trás e fechou os olhos. Quando fez isso sentiu um ligeiro mal-estar. Abriu os olhos e respirou fundo. «Esta maldita constipação!» Pensou. Foi buscar água e sentou-se novamente. Não estava muito bem disposto e sentia-se cansado. O único membro da sua equipa, que estava a trabalhar na altura, chegou pouco depois.

«Já estás de volta? Hoje o passeio foi curto.» Perguntou ela.

Ele acenou afirmativamente a cabeça sem abrir a boca.

«Estás um pouco pálido! O que se passa?»

«É tudo o que consegues ver?» Perguntou Pedro.

À medida que fazia a pergunta virou-se de perfil e ela viu o rosto dele ainda manchado de sangue, bem como o sobrolho que lacrimejava em tom vermelho.

«O que é que te aconteceu?»  Perguntou ela, com ar preocupado.

Depois de lhe limpar o rosto dos últimos vestígios de sangue, tentou estancar o sobrolho, o melhor que sabia. Por mais que tentasse o sobrolho não parava de sangrar. Para complicar as coisas Pedro não parava quieto. A verdade é que não conseguia ficar de cabeça inclinada para trás sem sentir aquela aflição. Ele estava em fase de negação. Não estava bem mas não o queria reconhecer. Ela quando viu que não conseguia estancar o sangue, foi até à farmácia, comprou um spray e aplicou-lho no sobrolho. Isso selou a ferida.

«Devias ir ao hospital!»

«Isto não é nada.» Ripostou ele.

«Eu levo-te lá e depois um dos teus filhos vem buscar o carro.»

«Não. Vamos primeiro ver se o spray faz estancar o sangue. Se assim for não vou a lado nenhum.»

Ela acabou por concordar com ele. A ferida parecia superficial, mas sendo no sobrolho sangrava sempre mais do que noutra parte do corpo. Às dezassete horas ele foi para casa, pois tinha programa para o fim de semana. Estava debilitado, mas quando se sentou atrás do volante sentiu-se com forças e tranquilo. Nessa altura a ferida estava selada e parecia ser apenas isso mesmo: uma ferida.

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