A JORNALISTA | PARTE VIII | CAPÍTULO 1

Bits

Mónica acompanhou-o até ao carro. Parecia divertida com qualquer coisa. Perestrelo conteve a curiosidade e esperou que fosse ela a falar.

«O meu chefe não quer ter de falar novamente contigo. Disse-me que se fosse eu lidar contigo, estarias muito bem entregue.»

«Ora aí está uma das poucas coisas em que eu e o teu chefe estamos de acordo.» Respondeu Perestrelo, soltando uma gargalhada.

«Conseguiste avançar alguma informação relevante para o caso?»

«Para já apenas descobri que a informação existente no computador pertencia à Karen. Mas aquele não era o computador de trabalho dela.»

«Quer dizer que alguém copiou a informação para aquele computador utilizando-o como cópia de segurança. Quem?»

«Pode ter sido a própria Karen para se proteger. Para mim é o que faz mais sentido. Mas isso quer dizer que o assassino pode ter na sua posse o computador de trabalho dela, podendo estar tranquilo uma vez que pensa que possui as únicas provas que ela possa ter coligido com a sua investigação.»

«Isso é uma vantagem para nós.» Respondeu Mónica,

«É a única que temos e é bem frágil!»

«Vemo-nos ao jantar.» Disse ela à laia de despedida.

Perestrelo estava literalmente debaixo de água. O telefone tocava de forma insistente. Fosse quem fosse, iria ter de esperar, ele não estava na disposição de apressar o banho. O número não lhe era estranho, embora não estivesse gravado na sua agenda. Vestiu-se. Verificaria isso em seguida. Quando ligou de volta atendeu-lhe a telefonista do palacete da Lapa.

«A D. Maria Eduarda quer falar consigo.»

Perestrelo ficou a arder de curiosidade. Não conseguia imaginar o que ela pudesse querer, por isso aguardou com impaciência que a chamada fosse transferida.

«Bom dia Sr. Perestrelo.»

«Bom dia. Em que posso ajudá-la D. Maria Eduarda?»

«Lembra-se de me ter falado na possibilidade da existência de túneis no palacete?»

«Perfeitamente, mas eu estava a fantasiar. Não me diga que me levou a sério.»

«Para falar a verdade achei que tinha sido ridículo. No entanto, ontem de manhã estava com uns colaboradores na cozinha do palacete a ver as condições para a execução de um evento e todos ouvimos claramente passos a aproximar-se de nós.»

Ela fez uma pausa dramática. E Perestrelo aproveitou a deixa.

«Seguramente que eram passos de alguém que se dirigia para a cozinha.»

«Concordo consigo. Mas o estranho é que não apareceu ninguém, para além de que os passos vinham da parede. Pensei que o senhor pudesse ajudar a explicar o mistério.»

«Lamento, mas eu estava mesmo a fantasiar. Tal como a própria Maria Eduarda disse, estou seguro que a explicação é bem mais prosaica do que a existência de um túnel, que toda a gente desconhece.»

Não havia mais nada a dizer. Perestrelo partilhou com Mónica o teor da conversa e concluíram que eles acabariam por descobrir o túnel. No entanto, isso para eles era irrelevante, pois já tinham na sua posse o segredo que o túnel escondia.

Perestrelo decidiu que era altura de dedicar algum tempo a explorar a informação que tinha retirado do computador. Demorou algumas horas a rever os ficheiros que ali estavam. Ao fim da tarde estava desanimado. Tinha revisto todos os ficheiros com alguma dimensão, sem encontrar qualquer pista. Foi jantar com Mónica e acabaram a noite em sua casa. Ele partilhou com ela as descobertas, na esperança que a judiciária tivesse tido mais sorte. Infelizmente isso não tinha acontecido. O computador era um beco sem saída. Nessa noite a única investigação que progrediu alguns passos foi o conhecimento mútuo dos corpos deles. Amaram-se com a intensidade que era costume.

No dia seguinte, depois de Mónica partir ele voltou ao trabalho. Passou o dia à volta dos ficheiros mais pequenos e nada. Depois de falar com Gleber este disse-lhe como devia fazer para ver o histórico das pesquisas feitas pela jornalista. Felizmente ele tinha descoberto a senha do “Last Pass” e isso permitia-lhe aceder a todos os sites que cuja senha estava aí gravada, nomeadamente o email. Isso tinha sido a única coisa que não tinha partilhado com a judiciária. A jornalista tinha pesquisado vários centros de retiro espirituais e também hotéis que funcionam como retiros com os mais variados objetivos e recorrendo às mais diversas técnicas. «Será que Karen costumava frequentar esse tipo de hotel?» Interrogou-se. Não sabia muito da vida de Karen, mas não tinha nenhuma indicação nesse sentido. «Espera!» Gritou batendo com a palma da mão na testa. De súbito lembrou-se que a Anne é que costumava frequentar este tipo de local. Karen podia estar a investigar a amiga. A ser assim isso voltava a colocar Anne na lista dos suspeitos do seu assassinato. «Tenho que descobrir algo mais concreto!» Pensou.

Karen tinha uma conta na Dropbox e, utilizando a senha da Last pass acedeu à cloud. A conta era o duplicado de tudo o que tinha no computador. Isso queria dizer que aquela cópia tinha sido feita imediatamente antes da morte da jornalista, ou seja, ela sentiu essa necessidade o que poderia significar que sabia que corria perigo. Se esse raciocínio estava correto era estranho que ela não tivesse deixado nenhuma pista sobre o seu assassínio. Ligou ao Gleber. Ele escutou atentamente o que Perestrelo lhe disse e a certa altura interrompeu-o.

«O dropbox pode não estar a sincronizar todos os ficheiros. Verifica se o Dopbox da cloud não tem mais ficheiros que o acessível offline.»

Quando correu o teste Perestrelo identificou um ficheiro cujo nome era: SwaSwara. Se a memória não lhe falhava esse era o nome de um dos Hotéis, na India, que se dedicava, a organizar retiros. Era uma pista que valia a pena explorar. Ligou para o hotel e fez a reserva. Partiria daí a dois dias.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s