Cartas e depoimentos na pandemia – carta 7

Lisboa, 19/11/2020 (Portugal)

Olá Hope,

Espero que esta carta te encontre bem, junto dos que te amam. Eu estou bem, junto dos meus e hoje estou mais feliz por estar a escrever esta carta.

O teu perfil atraiu de imediato a minha atenção, por não ter um rosto associado. No entanto, isso apenas me motivou a ler o que tinhas escrito, o que me prendeu de verdade, foi a intensidade que resulta da leitura das breves linhas que escreveste. Fiquei comovido com tal intensidade numa jovem de vinte e dois anos. Depois de tudo isso aqui estou eu, um jovem um pouco mais velho do que tu, entusiasmado a escrever esta carta, na expetativa de saber mais sobre ti.

Gosto da leitura que fazes do jogo de palavras (significados), entre o português e o inglês, que o teu nome permite e imagino as brincadeiras e piadas a que deves estar sujeita, devido a essa associação. Gosto da noção de amor e esperança associados a um nome ou a uma pessoa.  No meu caso vou muito mais longe, mesmo sem ter um nome com essa associação. Amor e esperança, para mim, são dois sentimentos fundamentais para estruturar a vida de qualquer pessoa. Sem amor, dado e recebido, a nossa vida torna-se estéril. O amor é o fertilizante da vida! Por outro lado, sem esperança não existe amanhã. Os dois sentimentos caminham de mãos dadas: a esperança é o que nos faz querer caminhar, enquanto o amor nos dás forças para tal.

Aos vinte e dois anos de idade estava a terminar o meu curso e sabia exatamente aquilo que queria fazer. No entanto, conheci pessoas que descobriram isso apenas aos trinta e não foi por isso que deixaram de ter sucesso e sobretudo de ser aquilo que é efetivamente importante: ser feliz. Embora digas que és muito nova para decidir o queres fazer da vida, parece-me que sabes bem demais o que fazer com ela, pois de outra forma não a viverias com a intensidade com que o fazes. Tenho a sensação de que, não só sabes o que fazer com a vida, como já experimentaste a tua dose de coisas menos boas. Por vezes a vida é ingrata e bafeja-nos com o infortúnio ao invés da boa sorte!

Quando tinha a tua idade, embora fizesse coisas bem mais monótonas, também experimentei essa intensidade. Queria agarrar o mundo com os braços e sobretudo queria Ter. Queria ter sucesso, queria viajar, queria ter uma casa, queria ter reconhecimento… Enfim queria muita coisa e não deixava que elas ficassem apenas nos meus sonhos. Trabalhava arduamente para que isso acontecesse e algumas delas até acabaram por acontecer. Mais tarde descobri que isso não era o mais importante e que perdi algum tempo atrás de coisas que efetivamente não precisava, mas sobretudo deixei de viver a vida, de experimentar a sensação de viver os momentos de felicidade, com a mesma intensidade com que buscava atingir alguns dos objetivos que tinha traçado para mim. Felizmente apercebi-me disso rapidamente!

Vejo naquilo que escreves a mesma vontade e ansiedade de realizar coisas e acho isso verdadeiramente admirável, mas penso que não te deves esquecer de ti. Tu és a pessoa mais importante da tua vida e deves estar consciente disso em cada decisão que tomas e em cada momento que vives. Não falo em ser egoísta ou egocentrista, falo em gostarmos de nós próprios, em nos amarmos e cuidarmos de nós. É essa atitude que nos vai permitir continuar a viver a vida com a intensidade com que a vives e realizando as coisas que realizas, durante muitos anos. Trata-se de um equilíbrio entre o Realizar (ter) e o Ser. Utilizando a mesma imagem que utilizas, de vez em quando é preciso desligar a ficha ou mesmo fazer o “reset”. Mas, ao fazer esta reflecção, o que me preocupa não é tanto esta necessidade de repor as energias, mas mais o centrar da vivência em torno de si mesmo, a que esta intensidade conduz, correndo o risco de se tornar uma ilha. Temos que ter tempo para Nós. Tempo para ser feliz, tempo para viver coisas mais simples e mundanas, que, não constituindo grandes realizações, fazem de nós humanos, nos ligam aos outros e que acabam por nos trazer, em termos de realização pessoal, algo impossível de obter de outra forma. Numa frase simples: precisamos de tempo para amar e ser amado!

Se achares que fui demasiado longe, tomando a liberdade de te sugerir algo, ignora-me, mas esta minha veia de pai (tenho um filho com vinte e um e outro com vinte e quatro) e educador (professor), compelem-me, quase inevitavelmente, a imiscuir-me nestes assuntos. Mil perdões se for esse o caso!

Ler o teu perfil foi, para mim, uma lição de humildade. Eu que aos cinquenta e nove anos pensava que fazia muitas coisas, apercebi-me do ridículo desse convencimento ao ver uma jovem de vinte e dois que aprecia a leitura e a música, mas, sobretudo, tem a capacidade de escrever, pintar, tocar instrumentos (no plural!) e cantar. Não sei a perfeição com que fazes cada uma dessas coisas, mas percebo a paixão com que o realizas e só o facto de o conseguires fazer faz de ti uma pessoa extraordinária, uma pessoa que definitivamente quero conhecer. Sabes, eu tenho um princípio: quando escolho os meus amigos (nem sempre sou eu a escolher), escolho pessoas que são melhores do que eu, para apender com eles e melhorar ainda mais. Esse é um dos objetivos ao escrever esta carta e foi o motivo que determinou a minha decisão de o fazer.

Presar a honestidade e garantir que a verdade comanda os nossos atos e as nossas palavras é algo que comungamos. Pratico isso sistematicamente e exijo dos que comigo se relacionam o mesmo comportamento. Devo dizer-te que isso me trás uma grande satisfação, mas me trouxe alguns dissabores. No entanto, mesmo que tivesse a possibilidade de conhecer, à priori, os dissabores que tal comportamento me iria trazer, não voltaria atrás e continuaria a ser aquilo que sempre fui. O prazer e a satisfação de caminhar de cabeça erguida e de não ter receio de que alguém me aponte o dedo, é algo insubstituível. Isso não que dizer que não tenha cometido erros. Na verdade, cometi bem mais do que gostaria de ter cometido, mas sempre que de tal me apercebi, procurei corrigir o erro, começando por o reconhecer. Errar ou cair faz parte da vida e o importante, aquilo que define quem tu és, no erro ou na queda, é a forma como o enfrentas ou como te levantas.

Termino estas breves linhas, onde te deixei um pouco de mim, em conexão com aquilo que percebi de ti. Entendi que era a forma mais correta de iniciar qualquer comunicação entre os dois. Espero que a leitura desta carta te entusiasme o suficiente para lhe responderes.

Despeço-me com um abraço amigo.

Manuel Mota

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