O MILHAS

O MILHAS

Elisa precisava de apanhar ar. A gritaria dos alunos entrava-lhe pelos ouvidos e retumbava na sua cabeça como se fosse um trovão. Tudo a incomodava, o silêncio, o ruído, a tentativa vã dos amigos em ajudá-la a ultrapassar a situação e até mesmo os telefonemas da mãe, com a pergunta insistente «Estás com uma voz tão triste. Estás bem filha?» Abandonou o edifício da escola e dirigiu-se, apressada, para o Parque das Conchas. O banco de pedra estava vazio, como todos os bancos do parque, pois não eram muito utilizados naquela altura do ano. Estávamos em novembro e os dias, para além de curtos, tinham-se tornado frios e húmidos. Aconchegou o cachecol ao pescoço e apertou o sobretudo. O ar era cortante, mas ela parecia arder em febre por dento, tal era a dor que a consumia, por isso, ao princípio, sentiu uma sensação agradável. Sentou-se no banco do jardim, olhou em volta e deixou as lágrimas escorrerem-lhe pela face. À medida que o tempo foi passando ela encolheu-se cada vez mais. Os sentidos estavam de tal forma entorpecidos, que já não sabia se era a dor ou o frio que a faziam contrair. Dobrada sobre si própria, com a cabeça entre os joelhos, chorava copiosamente. No entanto, por mais que chorasse a dor não desaparecia, nem diminuía. De olhos fechados, não percebeu a aproximação do animal. Apenas quando a língua do cachorro lhe secou as lágrimas ela tomou consciência da sua presença. Levantou ligeiramente a cabeça e abriu os olhos. O animal continuava a lembre-lhe as faces, com um olhar meigo e triste. Era como se percebesse a sua dor e comungasse dela. Elisa olhou o animal com mais atenção e foi quando percebeu a sua magreza. O cachorro estava bem tratado, mas muito magro. Demasiado magro!

«Pobre animal. Foste abandonado?»

Elisa pronunciou as palavras com a voz embargada, ao mesmo tempo que lhe fazia uma festa. O animal soltou um pequeno ganido de concordância. Ela sorriu. Era um sorriso triste, mas era um sorriso. A partilha da dor com um cachorro, totalmente desconhecido, representou um alívio inesperado. A sua mente recuou até ao momento em que tudo tinha começado.

Fazia um ano que Francisco tinha vindo viver com ela. Os pais tinham-lhe oferecido aquele apartamento na Alta de Lisboa. Tinha sido uma bênção pois para além de ter um teto sobre a cabeça, ficava perto da ES do Lumiar, onde dava aulas de matemática. Ela sempre soube que amava com mais intensidade do que era amada, mas isso não era um problema. Ele amava-a e era tudo o que ela queria. As pequenas distrações ou ausências não a incomodavam e ela relevava-as sem dificuldade. A forma como ele a possuía dizia tudo: ele estava louco por ela! Foi isso mesmo que lhe disse, na noite anterior, depois de duas horas loucas de sexo.

Ela tinha encomendado um jantar especial para comemorarem, mas depois da cena que presenciou, na hora do almoço, mandou acrescentar uma garrafa de champanhe. Ela tivera que ir ao Colombo comprar uma pulseira para uma das colegas que fazia aniversário. Era a vez de ela comprar a prenda. Ao espreitar a montra, percebeu que o Francisco se encontrava lá dentro. Escondeu-se e ficou a observá-lo. O anel de noivado era lindo e deveria ser muito caro, mas ela merecia. Para além disso ele ganhava muito bem. Deixou que ele saísse da loja sem a ver, pois não queria estragar a surpresa. O regresso à escola pareceu-lhe surreal. Sentia uma leveza que a fazia flutuar e o seu rosto resplandecia de felicidade.

Arranjou os cabelos e colocou um batom, antes de meter a chave na fechadura. Tentou colocar um rosto indiferente para ele não perceber que ela sabia. Ouviu vozes na sala e ficou apreensiva. Não estava à espera de ninguém para o jantar. As três malas à entrada da sala aumentaram a apreensão. «Quem está a pensar mudar-se para cá?» Interrogou-se. Olhou mais atentamente e reconheceu as malas: eram as do Francisco. A leitura dos factos não foi imediata. O contraste entre a felicidade que lhe enchia o coração e aquilo que aquelas malas representavam, era demasiado grande para ser absorvido de uma só vez. Percorreu o corredor como uma autómata, tentando encontrar uma justificação que fizesse desaparecer a aflição que crescia dentro dela. Eles apenas se aperceberam da presença dela quando entrou na sala.

«Boa noite.» Disse Elisa

Silêncio.

Elisa não precisou de perguntar nada porque o seu rosto era todo ele uma interrogação. O olhar saltava entre Francisco e Helena, sem perceber a razão da presença do dois na sua casa. De repente fixou-se no dedo dela. O coração parecia querer sair-lhe do peito. Ela estava a usar o anel de noivado que vira o Francisco comprar. Como era possível? Ela era uma das suas melhores amigas.

«Já há algum tempo que descobri que estou apaixonado pela Helena. Vou trabalhar para Madrid e ela vai comigo.»

«Apaixonado pela… Vais para Madrid…»

Elisa interrompeu-se incapaz de completar as frases. Pensar no assunto era demasiado doloroso. Expressá-lo era humanamente insuportável. Virou-se para Helena, com a dor estampada no rosto e o espanto no olhar e disse.

«Helena!?»

Helena pendurou um sorriso irónico nos lábios e encolheu os ombros. Fingia uma descontração que não sentia e não foi capaz de pronunciar uma palavra. Elisa sentiu que lhe faltavam as forças. As pernas tremiam de uma forma incontrolável. Num ato de orgulho e amor próprio, endireitou as costas e encostou a perna direita ao sofá, para a ajudar a aguentar-se, enquanto eles se dirigiam para a porta da rua.

«Fica aqui a minha cópia das chaves. Adeus»

Estas foram as últimas palavras de Francisco, ao mesmo tempo que poisava as chaves sobre a mesa, junto à porta. Elisa não se mexeu até ouvir o som da porta a bater. Depois caiu literalmente no sofá e quedou-se num pranto inconsolável. Era como se toda ela se esvaísse em lágrimas. O peito doía-lhe tanto que parecia que ia morrer e o corpo tremia de forma incontrolável. Esteve naquele estado durante horas, até que adormeceu de exaustão. Acordou com o som insistente da campainha. Levantou-se, estremunhada e olhou para o relógio. Eram quase vinte e uma horas. Ela tinha chegado a casa às dezasseis, mas não se lembrava a que horas tinha adormecido. Foi até à porta a cambalear de cansaço e sono. A mente tentava raciocinar e estabelecer um nexo entre as coisas, sem qualquer sucesso. A partida de Francisco parecia irreal. Talvez tudo não tivesse passado de um sonho, ou melhor dizendo de um pesadelo. Abriu a porta e Teresa, a sua melhor amiga, entrou por ali a dento como um furacão. Abraçou-a, sem dizer uma palavra e caminharam ambas para o sofá. Nesse momento Elisa teve a certeza que não estava num sonho e de que o pesadelo era bem real.

Entretanto, chegou o jantar que tinha sido encomendado para as vinte e uma horas e a amiga obrigou-a a comer alguma coisa. Helena tinha-se encarregado de contar a todos os conhecidos a sua conquista e não fora o telefone de Elisa ter ficado sem bateria, este não teria parado de tocar. Elisa voltou a chorar, mas agora de forma mais contida. A amiga, que era nutricionista, obrigou-a ingerir muitos líquidos e ficou com ela essa noite.

Os dias tornaram-se penosos e o entusiasmo pela vida, que era uma das suas características, foi substituído pela apatia. Estavam a meio da semana e ela arranjou forma de não dar aulas o resto dos dias. Isso proporcionou-lhe cinco dias para pôr as ideias em ordem. Na segunda feira levantou-se, com muito custo. Apenas o facto de ter os alunos à sua espera a fez sair da cama. Apesar de não estar segura de conseguir enfrentar as turmas, assim que entrou na sala transfigurou-se e as aulas decorreram de forma exemplar. Isso não fazia o sofrimento desaparecer, mas enquanto estava na sala de aula conseguia esquecer tudo.

Os amigos tentavam consolá-la e estavam constantemente à sua volta. Isso, ao invés de a ajudar, começava a incomodá-la. Ela precisava de tempo para curar a sua ferida, mas eles tinham todos demasiada pressa em vê-la bem. Isso fez com que começasse a esconder a dor e a afastar-se, para evitar os comentários.

Ao contrário dos amigos, aquele cachorro, não esperava que ela risse, saltasse ou mostrasse qualquer sinal de contentamento. Limitava-se a secar-lhe as lágrimas e a olhar para ela, sentado, com uma expressão bondosa. Elisa retirou a sande de panado da mala, desembrulhou-a e colocou-a em cima do banco. O cachorro olhou para ela e para a comida, lambendo os beiços. Apesar disso, não esboçou qualquer movimento. Elisa encostou a comida ao nariz do cachorro e ele devorou-a em dois tempos. Depois lambeu os beiços e as mãos de Elisa. O cachorro não tinha coleira e aparentemente também não tinha dono. Ela tinha de regressar à escola. Despediu-se do animal, levantou-se e começou a caminhar. O cachorro caminhou ao lado dela, como se sempre o tivesse feito. Seguramente que era um cachorro treinado. Elisa sentia-se bem a caminhar com o cachorro a seu lado. Tinha passado um mês desde que Francisco se tinha ido embora e pela primeira vez ela sentiu-se bem. Era como se tivesse uma energia suplementar que a ajudava a caminhar de costas direitas e cabeça levantada.

Quando chegou à porta da escola virou-se para o cachorro e disse:

«Senta.»

O animal sentou-se e ficou a olhar para ela. Elisa não sabia muito bem o que dizer, mas como não podia levar o animal lá para dentro disse.

«Fica.»

O cachorro colocou-se ao lado do portão de entrada e deitou-se, enrolado sobre si próprio, mas com a cabeça soerguida. Manteve-se assim até ver Elisa desaparecer de vista, depois baixou a cabeça e semicerrou os olhos. Elisa apenas pode vir ao portão na hora do almoço e trouxe consigo alguma comida, embora tivesse pouca esperança de encontrar o cachorro. Este mal a viu aparecer, no pátio da escola, levantou-se e começou a abanar a cauda. Elisa afagou-lhe a cabeça e o lombo, enquanto lhe dava a comida. O animal comeu e lambeu-lhe as mãos em agradecimento. Elisa agachou-se a seu lado para o afagar melhor e ele lambeu-lhe o rosto com delicadeza. Foram beijos de amor e gratidão que a deixaram emocionada.

Ao fim do dia lá estava o animal outra vez. Elisa não sabia bem o que fazer e parou o carro junto ao portão para o afagar, depois partiu em direção a casa. O animal correu atrás do carro e quando ela estacionou, à porta do prédio, ele estava sentado no passeio, à sua espera. Elisa ficou a olhar para ele. Tinha vontade de o levar para casa, mas para além do cachorro poder ter um dono, podia também ter doenças. Ordenou-lhe que ficasse ali e subiu ao quinto andar. Depois de jantar desceu com comida e foi dar uma volta ao bairro com ele. O animal seguia a seu lado, sem necessidade de receber qualquer ordem. Teve dificuldade em adormecer só de pensar no animal, sozinho, lá fora, sentindo-se abandonado. Quando acordou foi a correr lá abaixo. A perspetiva de ele não se encontrar lá deixou-lhe o coração em sobressalto. O cachorro apareceu logo a correr, abanando a cauda e saltando para ela. Deixou que ele a lambesse, afagou-o, deu-lhe comida e depois foi passear com ele.

O cachorro ficou sentado à porta do prédio e quando ela desceu para ir trabalhar, segui-a até à escola. Uma das colegas apercebeu-se da presença do cachorro e contou a história na sala de professores. Por outro lado, os alunos dela também notaram a presença do animal e a forma como ele se relacionava com Elisa. Foi assim que, ao fim da manhã, a escola inteira sabia da história do cachorro. Elisa passou a hora do almoço com o animal e antes da primeira aula da tarde já tinha tomado uma decisão.

Saiu da escola e foi direta a um canil, sempre com o animal a correr atrás do carro. Depois de narrar a história do animal este foi visto pelo veterinário que se encontrava de visita ao canil.

«Ele tem feito milhas atrás do carro, só para estar a meu lado.» Disse ela.

Quando pronunciou a palavra milhas ele levantou a cabeça, com as orelhas espetadas, como quem está à escuta. O cachorro tinha um chip. Nessa altura, ela ficou a saber que o dono do animal tinha morrido e tinha deixado escrito que o cachorro deveria ser entregue num canil, após a sua morte, pois o único filho vivia no estrangeiro e não tinha qualquer relação com o animal. O chip do animal indicava ainda que o seu nome era Milhas. Era um nome estranho para um cachorro, mas ela própria tinha testemunhado a sua capacidade de percorrer longas distâncias atrás do carro. Foi assim que ela se tornou proprietária do animal. Adquiriu algumas coisas para o animal, no próprio canil e quando foi para casa este já ia na sua jaula, dentro do carro.

O Milhas estava eufórico e percorreu a casa toda, vezes sem conta, cheirando cada canto. Enquanto isso, ela sentou-se no sofá e olhou em redor. A angústia tinha regressado. Apesar disso, o seu peso era bem menor. Sorriu ao pensar nos últimos dois dias. Tinha estado tão ocupada a pensar na situação do Milhas que se tinha esquecido da sua. Ambos tinham sido abandonados, talvez por isso a companhia, um do outro, fosse tão agradável. A dor voltou outra vez. A casa ainda tinha o odor de Francisco ou então era ela que ainda não o tinha esquecido. Encostou a cabeça para trás e abandonou-se ao desespero. A dor ainda era grande e quando pensava nele parecia que lhe doía o corpo todo. Tinha dificuldade em respirar tal era a pressão que sentia no peito. Ela sabia que era tudo psicológico, mas não o conseguia evitar.

O cachorro surgiu do nada, como se adivinhasse a sua dor, saltou para o sofá e sentou-se ao lado dela, lambendo-lhe a face. Depois encostou o focinho ao rosto dela e deixou-se ficar ali. A presença do Milhas tinha um efeito estranho sobre ela. Abraçou o animal e ficou ali, perdida no tempo, tendo acabado por adormecer. Acordou com o Milhas a lamber-lhe o rosto. Foram jantar e depois foram dar um passeio. Por precaução ela colocou-lhe uma trela, mas ele era tão obediente que não precisava dela. O cachorro estava muito bem-ensinado. A carta do dono anterior, a que ela teve acesso, tinha a indicação de todos os comandos que ele conhecia o que lhe facilitou a vida.  

Ao fim de uma semana já tinha estabelecido as rotinas necessárias para levar o Milhas a passear e fazer a sua vida normal. Isso implicou vir almoçar a casa todos os dias. Entretanto, chegou o Natal e ela, apesar do governo ter permitido as deslocações entre concelhos, não foi a casa dos pais. Tinha medo de os contaminar com o Covid-19, pois eram idosos e doentes, embora não existissem evidencias de ela própria estar contaminada. Jantaram em conjunto, através de vídeo conferência, mas a quilómetros de distância. Foi um jantar de Natal diferente. Com o novo ano veio o confinamento e ela passou a ficar em casa, tendo por companhia o Milhas. Estar fechada em casa tornou-se algo suportável devido à presença do Milhas. O animal era de uma dedicação extrema e sempre que ela ficava um pouco mais triste, lá estava ele a acarinhá-la. Só lhe faltava falar! Nessa altura os passeios com o animal tornaram-se os momentos altos do dia.

O confinamento trouxe as férias forçadas e depois as aulas à distância e ela, como todos os professores, teve de se adaptar à realidade criada pelos políticos. Para o Milhas estava sempre tudo bem, desde que ela estivesse em casa e para ela a presença do animal representava um conforto e uma companhia insubstituíveis. Ele dedicava-se a ela de forma incondicional, sem subterfúgio ou traições e isso, ainda que não se tivesse apercebido do facto, na altura, foi um bálsamo para a sua dor. Ajudou-a a ultrapassar e a esquecer o mal que Francisco lhe tinha feito.

O dia sete de fevereiro era o do seu aniversário e ela comemorou-o com o Milhas. Foram inúmeros os telefonemas, mas o do Francisco surpreendeu-a de tal forma, que, no início, ficou sem palavras. Ele dizia-se arrependido de a ter deixado e queria-a de volta. Dentro dela lutavam duas forças. O amor que ainda sentia por ele e a dor que ele lhe tinha feito sentir. A dor falou mais alto. Ela não podia aceitar de volta o homem que a tinha tratado da forma que ele o fizera. Depois de lhe ter dito que não sentiu-se aliviada. Era estranho, mas aquela decisão pôs definitivamente uma pedra sobre o assunto “Francisco”. Ele tinha ficado, definitivamente, no passado. Levantou a cabeça e olhou em frente. Pela primeira vez, nos últimos meses, sentia que existia futuro. O coração estava novamente livre para amar. Francisco tinha chorado e implorado para voltar, mas ela resistiu. Vê-lo naquela posição frágil relativizou tudo e ajudou-a a ultrapassar a sua própria fragilidade.

Mais tarde, o telefonema da Teresa foi muito esclarecedor. Helena, tinha-lhe dado um verdadeiro golpe. Ele e Helena tinham comprado um apartamento em Madrid. Francisco usou todas as suas poupanças para o efeito, tendo inclusive pedido ajuda aos pais. Ela encarregou-se de mobilar e decorar o apartamento. No dia aprazado para a mudança ela disse-lhe simplesmente que o apartamento estava em nome dela e ele estava proibido de lá entrar. Francisco tinha sido alvo do golpe perfeito. Tinha deixado que ela tratasse de todos os pormenores e a procuração que assinara dava plenos poderes a Helena. O resto eram detalhes. Ele encontrava-se sem dinheiro e sem mulher. Felizmente tinha o emprego, mas a humilhação estava a ser difícil de ultrapassar, sobretudo estando sozinho em Espanha. Elisa sentiu pena dele.

«Livra-te de o ires ajudar! Ele fez a cama em que se está a deitar!» Disse Teresa.

Elisa teve que fazer um esforço para não lhe telefonar e o confortar. A amiga tinha razão ela não lhe devia nada, nem a solidariedade. Eles não eram nada um ao outro, nem sequer amigos. Precisava de refrescar as ideias! Embora fosse um pouco cedo para o passeio do Milhas, decidiu levá-lo à rua e ele não se fez rogado.

O ar fresco da noite obrigou-a a correr o fecho do blusão até cima. A rua estava deserta e os candeeiros espalhavam a uma luz ténue por entre uma neblina fina que ameaçava adensar-se a qualquer momento. Assemelhavam-se a guardiões da calçada, com o seu porte fino e uma cabeça luminosa, que indicava o caminho aos raros passeantes. Ela caminhava absorta pelos seus pensamentos e quase ia chocando com o homem, que surgiu na entrada de um dos edifícios.

«Boa noite.»

«Boa noite.»

Ele poisou o Beagle no chão e este saltou de imediato para o Milhas. Era um cachorro muito jovem e apenas queria brincar.

«Peço desculpa.» Disse o jovem.

A sua voz era suave e profunda. Elisa sentiu um estremecimento ao ouvi-la.

«Não se preocupe o Milhas é muito pacífico.»

Fizeram a apresentação dos cães e eles pareceram entender-se na perfeição.

«Hoje veio passear o cachorro um pouco mais cedo do que é costume.» Disse ele.

Ela levantou a cabeça e fixou nele um olhar de espanto e receio.

«Que falta de educação a minha. O meu nome é Pedro.»

«Muito gosto… eu sou a Elisa»

Ela tinha pronunciado as palavras com alguma lentidão, ditada pela estranheza do comentário dele.

«Não se preocupe que não ando a segui-la. Apenas acontece que a vejo passar todas as noites, quando eu estou a regressar do passeio com o Nero.»

Ela sorriu e não disse nada.

«Posso fazer-lhe companhia?»

«Claro!» Respondeu Elisa.

Tinha colocado na resposta mais entusiasmo do que queria, por isso remeteu-se ao silêncio. O passeio durou mais de uma hora e ela não pensou no Francisco, nem uma única vez. Pedro tinha prendido totalmente a sua atenção. Era um advogado, três anos mais velho que ela, solteiro e sem namorada. Tal como ela também vivia sozinho. Eram demasiadas coincidências! Foi um passeio de tal forma agradável, que combinaram passear os cães, em conjunto, a partir daí. Elisa entrou em casa com um sorriso de que apenas se apercebeu quando o Milhas latiu na sua direção, numa espécie de interrogação.

«O que foi?»

Ele latiu outra vez e ela olhou-se no espelho do hall. Os seus olhos brilhavam e o rosto resplandecia. «Será que isto é tudo obra do Pedro?» Interrogou-se. Isso não era relevante. O importante é que estava bem com ela e isso devia-o ao Milhas. Sentou-se no sofá abraçou o animal, que se aninhou nos braços dela e deixou o pensamento fixar-se no Pedro.

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