CARTAS NA PANDEMIA 37

Lisboa 20/01/2021 (Portugal)

Olá Carol,

Acabei a rir-me juntamente contigo (quer dizer, ao ler a tua carta), quando percebi o motivo da risota, mas ria-me de mim próprio. Na verdade, por vezes acontecem destas coisas: começamos a falar de um comportamento, quer seja para o elogiar ou para o criticar e apercebemo-nos que já o adotamos várias vezes. É como se estivéssemos às escuras e depois, subitamente, se fizesse luz.

Por aqui já caiu a noite. Caiu sobre um dia cinzento, pois o sol meteu férias. Não sei bem porquê, mas hoje associei o manto negro da noite ao espectro sombrio que começa a estender-se sobre Portugal. O sistema de saúde está a atingir o limite, lançando sobre o país uma sombra de preocupação, pois, aparentemente, os problemas éticos, levantados pela necessidade de ter de tomar a decisão sobre quem deve morrer e quem deve viver, começam a ser uma realidade… Uma triste realidade!

Gostei de saber da forma como estás a encarar a transição para o modo de vida Lagom, que me parece bastante racional e ponderado. Digamos que nesse modo de vida existem muitas coisas que podem ser feitas e existe muita gente que já faz uma parte dessas coisas. O passo que tu estás a dar a aplicar isso a todos os aspetos da vida. E uma decisão de coragem que eu aplaudo.

Ainda falando do modo de vida Lagom, no que diz respeito às comidas, em minha casa, somos muito mais caseiros e apenas vamos comer fora ao fim de semana e mesmo isso não acontece todos os fins e semana. Quando não estávamos com as restrições atuais, o que fazíamos era ir jantar fora com um casal amigo, mas sem os filhos, na sexta feira á noite. Já faz algum tempo que deixei de ter aqueles jantares com muitas pessoas quando na verdade só quero estar com duas ou três.

Ao fim de semana vamos para a casa de campo, onde tenho o meu pomar, trato da minha horta, lavro a terra com um pequeno trator, enfim, uma vida relativamente saudável. Por regra quando estamos na casa de fim de semana comemos sempre em casa e temos sempre alguns amigos: mais uma vez apenas aqueles com quem queremos estar. Isso não significa que uma vez ou outra não tenha grande churrascadas. Por exemplo: tenho um grupo da neve que tem entre trinta e cinco e quarenta e cinco pessoas e todos os anos eles vão passar um sábado a minha casa. Embora, dentro do grupo, existam pessoas com quem tenho mais intimidade e outras com quem tenho menos. Como te disse na última carta, para mim o segredo está no equilíbrio.

Outro dos aspetos interessantes e que implementei no início de 2020, foi o passar a levantar-me uma hora mais cedo para fazer uma hora de exercício. Ainda neste campo, desde 2018 que, durante o dia da semana e quando estou a trabalhar, passei a almoçar sozinho, em meia hora e a seguir vou andar cinco quilómetros. Sou uma pessoa muito disciplinada. Aliás é a única forma de conseguir fazer tantas coisas, nas vinte e quatro horas que cabem dento do dia. Confesso que nunca pensei muito sobre seguir este ou aquele modo de vida, apenas fui tomando decisões sobre comportamentos que me pareciam os mais adequados para o meu bem-estar. Por exemplo, comecei a andar, porque eu almoçava rapidamente e voltava para o escritório. Os olhos começaram a ficar cansados e eu decidi alongar o intervalo do almoço, para descansar a vista. Como não tinha nada para fazer fui andar. Simples!

Achei engraçada a referência ao princípio da Marie Kondo, porque sobretudo eu e os meus filhos somos do género de só ter um par de calças de ganga e comprar outro quando o primeiro está completamente roto. Tal como nos sapatos onde tenho dois pares para trabalhar (um preto e outro castanho) e dois para fim de semana (uns fechados e outros abertos. Tal como tu, não é uma questão de dinheiro. Apenas fui educado assim. Os meus pais não compravam nada que não fosse necessário. Eram extremamente poupados, talvez até demais! Lembro-me quando era adolescente vestir roupa usada que vinha de uns primos “ricos” que viviam na cidade. Ainda hoje quando as solas dos sapatos estão gastas eu coloco novas e continuo a usá-los. São hábitos que nem toda a gente entende, por vezes nem os que estão próximos de nós!

Em elação à história sobre o meu batismo é preciso entender que foi em 1961, numa aldeia dos confins do norte de Portugal. Os meus pais são pessoas extraordinárias (felizmente ainda vivos apesar de terem mais de noventa anos), mas foi essa a educação que receberam. Hoje teriam uma reação completamente diferente, mas a vida é assim mesmo. Todos nós evoluímos e aprendemos ao longo dela e os nossos comportamentos refletem essa aprendizagem.

Como já deves ter percebido as coisas em Portugal estão muito complicadas e a vacina ao invés de vir resolver o problema, ainda o veio agravar. Parece irónico, mas a verdade é que a existência da vacina deu às pessoas uma sensação de confiança, que as tem levado a não se auto preservar, nem a preservar os outros. Por aquilo que passa nas notícias, que, diga-se de passagem, nem sempre é totalmente verdade, tem existido muita falta de civismo. As pessoas que deveriam estar em quarentena, quer como resultado de contaminação ou por convívio com pessoas contaminadas, não o estão a fazer e, apesar das multas serem elevadas e de algumas centenas terem sido presas, existem muitas pessoas que simplesmente não querem saber. Acham-se no direito de sair à rua, mesmo tendo contraído a doença, num comportamento egoísta e até criminoso.

Estive a ver os vídeos, cujos links enviaste e, efetivamente, são histórias interessantes, embora semelhantes a umas quantas que eu conheço aqui mesmo em Portugal, quer referentes a portugueses, quer a estrangeiros, que se mudaram para Portugal (existem muitas e a imprensa faz gala em divulgá-las). Eu não sou tão radical e prefiro ser algo minimalista, mas manter uma vida que me ocupe intelectualmente pois é isso que me estimula. Confesso que adoro o campo, mas passar lá o fim de semana e uma parte significativa das férias é o suficiente. Não conseguiria deixar de estar no mercado a discutir, realizar e gerir grandes investimentos, como não conseguiria deixar de dar aulas e de escrever. É tudo isso que faz de mim aquilo que sou.

Acabei por me alongar outra vez, mas gostaria de dizer algo antes de terminar. Não vou partilhar esta carta com o Projeto Cartas e Depoimentos. Esse projeto abriu a porta para a correspondência entre nós, mas considero que terminou, como projeto coletivo. Se estiveres de acordo e enquanto ambos estivermos de acordo, mantemos esta correspondência entre nós.

Abraço

Manuel

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