NO VETERINÁRIO

NO VETERINÁRIO

João Cupertino tinha finalmente cedido à vontade da mulher. O filho mais novo tinha acabado de sair de casa, rumo aos Estados Unidos e a casa estava demasiado vazia. Luisa, a esposa, aproveitou o ensejo para introduzir novamente a ideia tantas vezes rejeitada: vamos comprar um Beagle. Para sua surpresa o marido concordou. Depois de dois meses de procura e um de espera receberam o cachorro na véspera do Natal. O animal era lindíssimo e parecia tão perdido e indefeso que suscitava a dedicação, o carinho e o amor de ambos.

O Natal foi uma festa ainda com mais entusiasmo, porque os três netos deliraram com o cachorro. Passaram-no todos em conjunto, na moradia que os Cupertino tinham na Quintinha, em Sesimbra.  As crianças, nesse ano, nem queriam sair de casa, pois o cachorro, apesar de dispor de dois mil metros de terreno, ainda não podia sair à rua, porque tinha apenas dois meses.

A notícia de que ama do neto mais novo tinha adoecido ensombrou as festas, para além de ter levantado um problema logístico complicado: onde deixar a criança durante o dia? Acabaram por encontrar uma solução simples: durante o mês de janeiro a criança ficaria com os avós. Apesar do receio inicial sobre a forma como a criança e o cachorro se iriam relacionar, rapidamente se tornou claro que o cachorro, apesar de irrequieto e destruidor, tratava a criança com um cuidado extremo. Ela podia fazer-lhe tudo que ele, em resposta, se limitava a lambê-la. O amor e a devoção daquele animal ao jovem Miguel era incondicional!

«Ainda bem que compramos um cão com pedigree, pois outro qualquer provavelmente não teria este comportamento.» Disse Luisa.

«Não sei se o pedigree tem alguma coisa a ver com isso. De forma geral os animais gostam de crianças e este em especial.» Respondeu o marido.

No dia vinte de janeiro o cachorro foi fazer a sua visita mensal ao veterinário. Iria levar umas vacinas e colocar o chip de identificação. Quando o veterinário devolveu o animal este apresentava um comportamento estranho. Ignorou os donos e gania com mais intensidade do que era costume. O veterinário disse que isso poderia dever-se à vacina e à colocação do chip, mas que um dia ou dois depois tudo voltaria ao normal. Era um sábado e o neto não estava em casa o que deixou o cachorro num grande estado de ansiedade. Parecia não reconhecer a casa, nem a cama e deitava-se à porta a ganir. A situação era de tal forma estranha que começou a preocupar os Cupertino. Falaram com o veterinário e ele não soube dar qualquer explicação para o efeito. No domingo os filhos foram almoçar lá casa e o cachorro ameaçou mordiscar o Miguel, quando este entrou a correr, porta a dento e lhe puxou o rabo. Definitivamente o cachorro estava diferente.

«Têm a certeza que este é o vosso cão?» Pergunto o pai do Miguel.

«Por amor de Deus filho! Não vez que é o mesmo cão?» Disse a mãe.

«Sei lá podiam tê-lo trocado!»

O irmão mais novo gozou com ele e disse:

«Já estou a ver o título de uma história dramática: Cachorro trocado no veterinário!»

«Eu não disse que tinha sido no veterinário!» Defendeu-se o irmão.

«Mas ele só saiu de casa para ir ao veterinário.» Disse a mãe

Apesar da hipótese parecer ridícula, eles entreolharam-se e consideraram-na, em silêncio, como se tivessem medo de verbalizar aquilo que lhes ia no pensamento. Foi João Cupertino que disparou o primeiro tiro.

«Se vamos aceitar essa hipótese com seriedade, então o que temos de fazer é falar com o veterinário.»

Isso aconteceu na segunda feira logo de manhã. Depois de alguma insistência conseguiram falar com o veterinário que considerou a possibilidade absurda. Nessa altura João Cupertino estava de tal forma convencido da troca, que achou a justificação do veterinário pouco convincente. Apesar disso, não existia muito que pudesse fazer, pois não tinha acesso às instalações e à equipa do veterinário, para poder investigar o que realmente se tinha passado. Foi nessa altura que surgiu a ideia de contratar um detetive privado. A forma como escolheram o detetive foi puramente casual.

Beatriz estava exausta, depois de ter lidado com vários casos, em simultâneo, durante dois meses seguidos, que lhe tinham reduzido, drasticamente, as horas de sono, por isso, tinha pensado tirar uns dias de férias, mas algo a impedia de o fazer. Era como se, partindo, parte dela ficasse para trás, correndo o risco de a perder. A indecisão durava há dois dias e ela estava a protelar a resposta à meia dúzia de solicitações que tinha sobre a secretária.  Sua indecisão não se prendia exclusivamente com os casos que devia ou não aceitar, estava também relacionada com uma conversa que deveria ter com um certo jovem.  Talvez não devesse ter… Bom a questão era mesmo essa, ela não sabia se devia ou não ter a dita conversa. Indecisões! Por vezes era difícil saber quem devia comandar a sua vida: a cabeça ou o coração.

O caso do Beagle despertou de imediato a sua atenção. Adorava cães e, embora nunca tivesse assumido o compromisso de cuidar de um, estava bastante familiarizada com os registos de pedigree, LOP ou RI, conhecendo, em termos teóricos, o comportamento de várias raças, nomeadamente dos Beagle.

O contacto com os Cupertino foi muito interessante de tal forma que se mostrou de imediato disponível para fazer o trabalho, mesmo que este solicitassem uma redução do preço. Tal não foi necessário, pois estes concordaram com a proposta sem pestanejar. Aceite o caso ela recebeu cópias do chip, do LOP e do certificado de vacinas. 

«Posso ver as fotografias que têm do animal?» Perguntou Beatriz.

No espaço de cinco minutos recebeu várias dezenas de fotografias do King. Depois de as observar, com algum cuidado, tirou ela própria algumas fotografias do suposto “substituto do King”, para mais tarde analisar com algum cuidado. Como detetive, ela não gostava de tirar conclusões antes de investigar, mas, acreditando na versão dos Cupertino, o cão só podia ter sido trocado no veterinário. Por sua vez, a comparação das fotografias evidenciava diferenças que poderiam ser justificadas pela evolução do próprio cão, uma vez que as primeiras tinham sido tiradas na comemoração do segundo mês de vida, mas também poderiam querer dizer que estava perante um animal diferente. Um mês, naquela idade, podia fazer muita diferença! Apesar de ser cedo para tirar conclusões, ela começava a suspeitar que estava perante fotografias de dois animais diferentes.

Aproveitando um inquérito que Liga Portuguesa dos Direitos do Animal estava a lançar, Beatriz inscreveu-se como voluntária, solicitando que lhe fosse atribuída a zona onde ficava o veterinário do King. O inquérito tinha como objetivo fazer o levantamento do tipo de animal que recebia tratamento nos veterinários, nomeadamente os que tinham pedigree. Os serviços do veterinário foram inexcedíveis na resposta a todas as perguntas e Beatriz aproveitou a simpatia destes para explorar alguns aspetos adicionais.

«Posso visitar as instalações e ver as vossas condições para o atendimento dos animais?»

«Claro!»

A assistente tinha-se prontificado a ficar até um pouco mais tarde para responder ao inquérito e proporcionou-lhe uma visita guiada.

«Vejo que têm condições para atender dois animais em simultâneo. Isso acontece muitas vezes?»

«Sim acontece algumas, sobretudo aos sábados.»

«Porque aos sábados?»

«Porque é quando as pessoas têm mais disponibilidade para vir com os animais à consulta e, por essa razão é quando estão presentes dois veterinários.»

A conversa estava num campo informal e as duas mulheres riram-se com as histórias que a assistente ia contado, sobre as peripécias do dia a dia de um veterinário. Beatriz aproveitou a deixa.

«Imagino que por vezes não seja fácil manter os animais nas zonas onde estão a ser examinados, sobretudo quando se trata de cachorros mais jovens.»

A jovem assistente soltou uma gargalhada sonora.

«Ainda na semana passada tivemos uma situação com dois beagles, exatamente iguais e com a mesma idade. Tinham apenas a diferença de um dia.»

«Como assim?» Perguntou Beatriz.

«Mesmo antes de lhe ser colocado o chip, eles saltaram ambos para o chão deram duas ou três voltas e regressaram às respetivas mesas.»

«O que vale é que tinham nomes distintos.»

«Sim um chama-se King e o outro Neo, mas nessa idade eles não respondem pelo nome.»

«Então como os distinguiram?»

«Bem houve muita confusão e alguma incerteza, mas depois a doutora lembrou-se que a mancha branca do rabo do beagle que estava a tratar tinha um contorno de uma estrela e isso resolveu a questão.»

«Interessante. Pela sua expressão vejo que não está muito convencida. Existe a possibilidade de os animais poderem ter sido trocados?»

«Essa é uma possibilidade bem real»

«Como se resolve o problema nesses casos?»

«Como ambos os cães têm LOP, pode ser obtido o DNA dos pais e saber quem é quem.»

Nessa altura Beatriz informou a assistente de que para além de voluntária era detetive privada e que estava a investigar o caso do King. Isso gerou alguma confusão e não tardou muito a clínica ganhou vida mesmo fora de horas. Os dois veterinários apareceram com cara de poucos amigos e questionaram a autoridade de Beatriz. Esta explicou que não queria prejudicar a clínica e entendia que tinham agido de boa fé, mas perante a existência da possibilidade de troca e do comportamento de pelo menos um dos cachorros, deveriam esclarecer a questão, para bem de todos. Os donos dos cachorros foram contactados e disponibilizaram-se a comparecer na clínica no dia seguinte.

Ao início as posições estavam um pouco extremadas e os donos dos cachorros exigiam responsabilidades. Beatriz foi uma mediadora hábil e sanou esse conflito com mestria. No final estavam todos de acordo sobre o seguinte: apesar de existir a possibilidade da troca esta não era certa e, a verificar-se, esta tinha resultado de um erro justificável. Aceite este entendimento comum os donos dos cachorros contactaram os produtores a quem os tinham adquirido, para obter o DNA de cada animal. A outra família não teve qualquer problema e obteve de imediato a respetiva autorização e o contacto do dono do macho reprodutor. O mesmo não aconteceu à família Cupertino, que esbarrou numa barreira de má vontade, que acabou por descambar num chorrilho de insultos. O criador colocou-se no papel de vítima e não aceitava que pusessem em causa a descendência da cria. O seu argumento era: “O LOP fala por mim!” A verdade é que não era a seriedade dele que estava em causa. Os donos dos cachorros apenas precisavam de esclarecer se os animas tinham ou não sido trocados.

Perante esta dificuldade Beatriz solicitou à outra família uma cópia do LOP e ao analisar o documento percebeu que o macho reprodutor do dois animais era o mesmo, isso simplificava as coisas pois já tinham obtido autorização do dono do macho para ter o respetivo DNA. Quando obtiveram os resultados os especialistas foram unânimes: o King não era filho do macho que constava no seu LOP como pai. Na posse desta informação Beatriz entrou em contacto com o Clube Português de Canicultura para reportar a situação. Estes, perante a gravidade da acusação, suportada por provas sólidas, instauraram um processo ao criador, que refutou a acusação juntando a documentação dos pais registados no LOP e o testemunho do dono do macho reprodutor em como a cadela, registada como mãe do King, tinha sido cruzada com o seu macho.  O CPC ficou de mãos atadas e encerrou o processo, embora tenha registado o incidente. Quem não se deu por satisfeita foi Beatriz e os donos dos cachorros. A outra família juntou-se à investigação e acordaram pagar o prolongamento da mesma.

Beatriz, disfarçada de comparadora de um Beagle, fez-se acompanhar de um amigo e partiu para Torres Novas, localidade de onde era originário o criador que vendeu o cachorro aos Cupertino. De forma calculada foi batendo à porta dos vizinhos do criador, fingindo-se perdida e perguntado pelo senhor Ferreira, o criador de Beagles. Apesar de receber as indicações corretas foi batendo às portas erradas. O seu objetivo era encontrar alguém que lhe pudesse dar informações que ajudassem no caso. O criador vivia numa moradia isolada e ela já tinha batido à porta de todos os vizinhos. Aquele era o último e a casa era mesmo ao lado da do criador. Quando a porta se abriu apareceu uma jovem que não devia ter mais de oito anos, exibindo um grande sorriso.

«Estão à procura do senhor, Ferreira?»

«Como adivinhas-te minha princesa?» Disse Beatriz, encantada com a jovem.

«Acontece quase todos os fins de semana.»

O beagle apareceu acompanhado de uma senhora que repreendeu a filha.

«Cristina, já te disse para não abrires a porta a pessoas que não conheces…»

Ela disse isso de forma carinhosa ao mesmo tempo que lhe sacudia os cabelos com a mão.

«… desculpem mas nunca sabemos quem nos pode bater à porta!»

«Tem toda a razão!» Disse Beatriz, com um sorriso tranquilizador.

«Posso ajudá-los? O criador dos beagles é na casa ao lado.»

«Talvez nos possa ajudar, antes de falar com o senhor Ferreira.»

Beatriz expôs a situação com toda a franqueza e a mulher ficou a olhar para ela sem saber o que dizer, durante alguns instantes.

«Cristina vai chamar o pai!»

Nessa altura, Beatriz receou o pior. O amigo que a acompanhava percebeu a sua preocupação e deu um passo atrás, precavendo-se, ao mesmo tempo que lhe dirigia um olhar tranquilizador. Os passos do senhor Pedro tornaram-se audíveis muito antes da sua silhueta se tornar visível. Eram passos firmes e pesados, que ecoaram de forma retumbante, o que enegreceu ainda mais o cenário. O senhor Pedro era um homem simpático e exibia um grande sorriso quando mostrou o rosto por detrás da esposa.

«Boa tarde. Já sei que procuram o João Ferreira.»

«Boa tarde.» Disse Beatriz num suspiro de alívio.

A Mulher colocou-o a par da situação em poucas palavras. O senhor Pedro, coçou o queixo por breves instantes, depois convidou-os a entrar. Quando se instalaram na sala ele começou a narrativa. As relações com o vizinho não eram as melhores desde que o João Ferreira lhe tinha proposto que o macho dele cruzasse com uma das cadelas do criador que não tinha LOP. Em troca o criador dar-lhe-ia o valor do último cachorro da ninhada a ser vendido. Isso nunca aconteceu.

«Quando foi que o senhor Ferreira vendeu os cachorros?» Perguntou Beatriz.

«Foi durante o último mês. O primeiro não deveria ter completado os dois meses quando foi vendido e o último já tinha três, quando a venda da ninhada foi finalizada.»

«Ele tinha outras ninhadas de cachorros à venda?»

«Não. Ele tem outras cadelas, mas um delas esta prenha agora e a outra teve um problema qualquer e perdeu as crias. Era uma ninhada que deveria nascer ao mesmo tempo que os filhos do meu Tejo. Mas, atenção, essas são as cadelas com pedigree.»

«Então quer dizer que ele pode ter vendido os filhos do seu Tejo como cachorros com pedigree?»

O senhor Pedro ficou espantado com a afirmação. Nunca tinha pensado nisso, mas agora que a detetive levantava a questão…

«Não sei.»

«O senhor importa-se que façamos a recolha do DNA do seu cão para comparar com o de um dos cachorros vendidos pelo senhor Ferreira?»

O senhor Pedro ficou feliz por ajudar e Beatriz partiu para Lisboa, tendo a amostra sido recolhida na segunda feira seguinte, cumprindo todos os formalismos para que esta pudesse ser usada como prova. Os resultados confirmaram as suspeitas de Beatriz. O King era filho do Tejo e, portanto, era um cachorro sem pedigree.

Isso deixava claro que os cachorros tinham sido trocados pelo que os donos regressaram ao veterinário para este alterar os dados dos chips. Depois o senhor Cupertino, acompanhado de Beatriz e das autoridades, bateu à porta do senhor Ferreira. Este ainda tentou negar tudo, mas as provas e o testemunho do vizinho colocaram um ponto final à situação. O caso do senhor Cupertino ficou resolvido com a devolução do valor do cachorro. Este tinha ganho afeição ao animal e não o quis devolver. No entanto, o processo prosseguiu com a queixa de falsificação apresentada pelo CPC. Como tantos outros processos, em Portugal, o seu destino seria decidido, pelos tribunais, num prazo incerto, mas seguramente bem distante no tempo.

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