CARTAS NA PANDEMIA 42

Lisboa 15/02/2021

Olá minha amiga, como vais? Espero que continues bem de saúde na companhia dos que te são queridos. Por aqui tudo bem, pelo menos de saúde.

Na verdade, está tudo bem, mas acontece que, num ano normal, eu estaria numa estância de esqui nesta semana. Mesmo no ano passado que foi o primeiro ano deste malfadado Covid-19, o meu grupo conseguiu gozar uma semana de neve. Felizmente eu gozei duas: uma no fim do ano outra no carnaval. Em contrapartida, este ano fico, literalmente, por casa. Ficar sem a minha semana de neve é algo que me custa bastante. Se adicionarmos isso ao facto de já estar em teletrabalho desde meados de outubro, do ano passado, podes imaginar que o estado de espírito seja um pouco mais turbulento que o normal, nesta segunda feira.

Lá for o sol ri-se da tristeza dos meus pensamentos. O dia amanheceu lindíssimo e às sete da manhã, quando iniciei os exercícios matinais, o sol já despontava, por entre os prédios, em frente da minha janela. Acordar é uma sensação fantástica, pois significa que estamos vivos. No entanto, acordar com um dia destes melhora de imediato o nosso estado e espírito, o que foi muito útil para eliminar a neura de estar a trabalhar em vez de deslizar montanha abaixo em cima de um par de esquis.

Os dias aqueceram um pouco e no fim de semana já se ouviram alguns dos ruídos característicos de um dia de sol, embora perigosos, pois significam que as pessoas começaram a sair à rua, o que, do ponto de vista de controlo da pandemia, pode complicar as coisas. Risco à parte, é bom ouvir os gritos dos jogadores de futebol, do campo em frente, incentivando-se uns aos outros, ou uma ou outra criança correndo no pátio, ao mesmo tempo que soltam gritos de alegria. É a vida por oposição ao silêncio que normalmente se associa à morte e ao qual este confinamento nos tem obrigado. O sol está quase a pôr-se, incidindo agora nas costas do meu prédio. Vejo-o bater nas costas dos prédios da frente, pintando-os com um mesclado de luz e cores. Pena que não possa ver também o pôr do sol, mas já tive o privilégio de ver o seu nascimento.

Vejo que reclamas do calor, seguramente com razão. Para mim torna-se mais difícil suportar o calor do que o frio, mas a verdade é que aqui vinham mesmo a calhar mais uns dez graus de temperatura. Seguramente que tu também agradecias ter menos uns dez graus, mas como não podemos fazer a troca, ficamos assim. Cada um goza aquilo que tem, agradecendo o facto de o poder gozar, sem as preocupações que atingem tantos, como bem dizes, que perderam o emprego e enfrentam muitas outras dificuldades para além de terem um pouco de calor ou de frio a mais.

Eu sei o que é ter de dispensar pessoas, mas tal como nos casos que indicas, muitas vezes tem de ser. Custa e magoa-nos muito, mais dos que os outros conseguem imaginar, mas a verdade é que são os próprios a criar as condições que acabam por levar ao seu despedimento, muitas vezes com atos pueris e dos quais tiram muito pouco ou nenhum proveito, pelo menos no longo prazo.

(Abro este parenteses para te dizer que comecei a escrever a carta ontem e estou a retomá-la, neste ponto, hoje, dia dezasseis.)

Não resisto a fazer um comentário sobre o tipo de pessoa que faz a tal afirmação “eu sou assim e vão ter de me aceitar como eu sou”. Não tenho nada contra as pessoas terem a uma personalidade própria e a defenderem. No entanto, isso não lhes concede o direito de se tornarem autistas e acharem que todo o mundo tem de se adaptar a elas. Quando esse é o caso, penso então essas pessoas necessitam de ajuda do foro psicológico e, naturalmente, essa postura torna impossível o relacionamento profissional.

Mudemos de assunto sim. Sobre a sociedade em que vivemos, penso que já falamos o bastante. É uma sociedade que criou um determinado estereotipo de mulher, para o qual ela própria tem vindo a contribuir em muito. A questão da forma de nos devemos vestir ou arranjar é apenas um dos aspetos. Em relação a este, aquilo que penso é bastante claro. Não tenho nada contra o facto de uma mulher se produzir. O que eu acho é que ela se deve produzir porque se sente melhor se o fizer e não porque a sociedade o impõe. Eu adoro ir a uma festa ao lado de uma mulher bela e produzida, no entanto, não gostaria muito de ter uma mulher produzida, todos os dias, ao meu lado. Sou bastante fã de viver o lado natural de cada um de nós. Mas, mesmo aquilo que eu gosto não deve determinar a forma como a minha mulher se produz (graças a Deus que não determina!). Cada um deve vestir-se ou produzir-se (arranjar-se) da forma que gosta. Por isso mesmo é que se uma mulher não gosta de se ver com rugas e faz um tratamento para as eliminar, eu não vejo isso como escravidão de nada. Para mim é o mesmo que uma pessoa não vestir roupa castanha se não gosta dessa cor (é o meu caso!).

Mudamos outra vez de assunto. Tu és uma pessoa perspicaz. A história de “Cartas com consequências” tem um fundamento real, embora eu o tenha embrulhado numa história, com recurso a alguns factos não relacionados com os acontecimentos que estiveram na sua base. Não quero, de todo, que seja possível identificar os personagens que inspiraram a história, nem deixar ninguém constrangido. A vida é assim mesmo. Tudo o que dizemos ou fazemos pode sempre ser utilizado, por outrem, para um fim completamente diferente daquele que foi a intenção original. Quando temos alguns anos de vida sabemos isso e contornamos a situação com tranquilidade. Na verdade, nem sequer fazemos a exclamação: «Ah! Como é possível?» Sim, é possível. Relevamos e seguimos em frente.

Termino, nesta terça feira de carnaval, sem carnaval, embora com uma grande vontade de sambar, ou não tivesse em passado a infância e adolescência em África, que me faz bater o pé  do “samba no Cozinha”.

Um abraço amigo e até à volta do correio.

Manuel

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