CARTA DE AMOR -AMOR SIMPLESMENTE

Amor simplesmente

O encontro não foi casual, foi acidental. O teu corpo voou, literalmente, em direção ao meu e a tua cabeça encaixou-se no meu estâmago, com violência. A parede aproximou-se das minhas costas, vertiginosamente, servindo-lhe de amparo, sem cuidado nem meiguice. A pancada com a cabeça deixou-me tonto e mal tive tempo de colocar as mãos por debaixo do teu corpo para te amparar. Senti que te agarrava pelos seios com força e isso deixou-me confuso. Sentia que estava a violar a tua intimidade, mas não podia deixar-te cair. «Tenho que a amparar!» Foi com este pensamento que me apaguei, depois de ver o teto do centro comercial rodopiar.

Quando acordei os paramédicos rodeavam-me, mas eu apenas via o teu rosto debruçado sobre mim. Tinhas no olhar a ansiedade do desejo e nos lábios a crispação de quem pede fervorosamente algo com o pensamento. De súbito o teu rosto transformou-se. Era a primavera em flor que desabrochava depois de um inverno frio e chuvoso. A luz emanada pelo teu rosto será algo que nunca esquecerei, por mais anos que viva! O azul dos teus olhos envolveu-me como se fosse um mar banhando-me e o teu sorriso aqueceu-me, como se de um sol se tratasse e fez-me sentir que estava no paraíso. Tudo não passou de um susto e feitos os exames necessários e o curativo adequado, concluiu-se que eu estava bem. Mas tu nunca me abandonaste!

Foste tu que avançaste para mim na sala de visitas e me abraçaste pronunciando ao meu ouvido uma palavra mágica.

«Desculpa.»

O teu abraço fez o meu corpo estremecer e as minhas pernas tremeram de tal forma que tive de me amparar para não cair. Tu ajudaste-me com delicadeza, pensado que eu estava fraco, mas o que me fazia tremer, por dento e por fora, era o teu toque. Soube mais tarde que tinhas tropeçado e que eu tinha sido o teu amparo, evitando um impacto com o solo, que podia ter sido desastroso para ti. Depois de ti vieram outras pessoas ao meu encontro, amigos e amigas, pessoas que me trataram com carinho, mas a minha mente tinha retido a tua imagem e era ela que, simultaneamente me alimentava e perseguia. Os teus dados foram-me transmitidos pelas autoridades e tive de assinar uma declaração em como não apresentaria queixa contra ti. Como poderia fazê-lo quando apenas desejava ter-te nos braços? Pensei em ligar-te milhares de vezes, mas não consegui ultrapassar o receio de ser rejeitado.

O teu telefonema caiu como uma bomba. Não como uma bomba destruidora, mas uma bomba de oxigénio que me veio dar novo alento. Tinha decorrido uma semana e tu perguntavas se eu estava em condições de ir dançar. Logo eu que adorava dançar! Era sexta feira e o convite era para o dia seguinte. Sem saber como, arranjei coragem para te convidar para jantar e tu disseste que sim, com uma voz tão meiga e carinhosa que me provocou um arrepio.

O medo de ser rejeitado foi substituído pelo medo de interpretar mal o teu convite. Eu queria tanto estar contigo que me faltavam as palavras para expressar essa vontade. Fui buscar-te a casa e os teus pais vieram ao meu encontro para agradecer o facto de ter salvo a filha. Eu, sem saber o que dizer, balbuciei algumas palavras de protesto e lá fomos os dois. Foi tão fácil estar contigo e falar de nós que perdemos a noção do tempo. Eu tinha imaginado palavras doces e um discurso elaborado, mas a realidade foi muito mais simples. O restaurante, no topo do Hotel Mundial, proporcionava uma vista, excecional, sobre duas das colinas de Lisboa: Alfama e Bairro alto, mas, sobretudo, proporcionava uma vista fabulosa sobre o rio. O sol, aproximava-se rapidamente do ocaso e fomos admirá-lo. Assistimos ao pôr do sol em silêncio e, sem que fossem necessárias palavas, os nossos dedos entrelaçaram-se e as nossas bocas uniram-se num beijo mágico. Tão mágico como o pôr do sol. O jantar foi divinal, para isso bastaria a tua divina companhia, mas o repasto também fez jus ao momento.

O Salsa Latina estava a abarrotar, mas eu era cliente habitual por isso entramos sem dificuldade e a noite começou animada. Tu movias-te na pista com uma sensualidade que me deixou completamente louco. Eu exibi alguns passos ensaiados e mostrei que, apesar de ser europeu, tinha ginga e ritmo africano dentro de mim. Tu apreciaste o gesto e dançamos juntos, rodopiando pela pista com erotismo.

Ele apareceu do nada e segurou-te pela cintura, arrastando-te para longe de mim. O teu grupo de amigos envolveu-vos e eu fiquei colocado à margem, embora, no início, algumas das tuas amigas, que me conheciam, me tivessem envolvido na roda. Após meia dúzia de músicas em que me vi afastado de ti, decidi ir buscar uma bebida. Quando regressei tu tinhas desaparecido da pista, juntamente com o teu amigo. Fiquei por ali algum tempo, mas quando percebi que não irias regressar, na suportei a ideia de te imaginar nos braços de outro homem, por isso parti.

Enfrentei a noite mais longa da minha vida. O ciúme corroía-me por dentro e doía-me o peito, impotente perante o sofrimento do coração que albergava. Chorei. Sim, chorei de dor, de raiva e de medo. Por algumas horas tinha criado a ilusão de que poderias ser minha e de que sentias por mim o mesmo sentimento que eu nutria por ti, mas tinha sido tudo uma ilusão. Apesar dos poucos momentos que tínhamos passado juntos eu tinha a certeza do meu amor por ti. A prova viva e dolorosa disso, era o sofrimento que drenava a minha energia e derrubava a minha vontade.

Acordar no domingo foi um pesadelo, porque foi um acordar para a dura realidade. Uma realidade da qual tu não fazias parte e na qual eu não desejava continuar a viver sem ti. Sem ti o mundo tinha perdido a cor e a alegria: tudo era cinzento. A intensidade deste sentimento era de tal forma grande que foi preciso uma força de vontade sobre humana para me arrastar da cama para fora. Ao fim do dia, incapaz de suportar o sofrimento decidi escrever-te esta carta, para exorcizar a dor e te deixar saber o que sinto. Consciente de que preciso de ti a meu lado receio o pior, mas anseio por uma resposta. Entretanto sonho. Sonho que tudo é possível e que os meus braços têm o privilégio de envolver o teu corpo num amplexo eterno.

Teu para sempre!

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