A SABÁTICA

A ideia tinha nascido nos tempos da faculdade, mas foi sendo adiada, embora alimentada por doses monumentais de esperança. Tirar um ano para percorrer o mundo, a dois, foi um dos aspetos que os uniu e os ajudou a atravessar a ponte entre a amizade e o amor. Queriam fazê-lo com recursos próprios e antes que o seu amor desse rebentos, daqueles que obrigam a fixar as raízes num local, como são os filhos. O casamento surgiu primeiro e eles abraçaram-no com ardor, encarando-o como mais um passo em direção ao seu sonho: o passo da independência. Depois de quatro anos de trabalho, o gestor e a médica, consideraram que tinham juntado um pecúlio suficiente para lhes permitir realizar o seu sonho e decidiram partir.

O plano era simples. Tinham definido algumas âncoras, em termos de locais e países, mas tinham deixado muito espaço para o improviso e a aventura. Sempre que possível, ficariam hospedados em pousadas de juventude e carregavam, tudo o que levavam consigo, em mochilas. Naturalmente que o facto de ele ter 1,93m e ela 1,8m e serem ambos fisicamente muito bem constituídos, tinha contribuído para a opção pela fórmula de “andar de casa às costas”.

Começaram pela América do Norte, descendo até ao extremo sul do continente, após o que passaram para a África, começando pelo sul. Depois, atravessaram o estreito de Gibraltar e percorreram a Europa de sul a norte, tendo entrado na Ásia de comboio. Na europa, apreciaram de forma especial a visita às ilhas Britânicas, Irlanda e Islândia, bem como aos fiordes. A entrada na Rússia, marcou um ponto de viragem na viagem e as limitações e dificuldades mantiveram-se na passagem pelos países árabes, do antigo bloco de leste e pela China, India, Afeganistão e Irão. Em alguns destes limitaram-se a passar pela capital e a abandonar o país rapidamente, noutros não conseguiram ir além da mera tentativa de entrar. Quando chegaram a Israel, tinham decorrido oito meses desde a sua partida e eles estavam cansados e sem dinheiro. Não querendo escutar, mais uma vez, as recriminações dos pais, decidiram trabalhar, em Israel, durante três meses, de forma a terem dinheiro para regressarem a Portugal e passarem o último mês na Austrália. Ao contrário do que imaginavam, encontraram facilmente trabalho num Kibutz, sendo este relativamente bem pago e garantindo alojamento e alimentação. Patricia, era médica de clínica geral e a sua aparição foi uma bênção, pois fazia dois meses que estavam sem médico. Eduardo foi trabalhar na apanha de morangos. Era um trabalho duro, ao qual não estava acostumado, o que fazia com que ao fim do dia estivesse tão cansado, que apenas desejava ir dormir, enquanto os jovens do Kibutz se divertiam. Patricia ainda resistiu aos primeiros convites, para não deixar Eduardo sozinho, mas a partir de determinada altura entregou-se à diversão. Eduardo, acompanhava-a uma ou outra vez, sobretudo ao fim de semana, mas ela todos os dias ia até ao centro de jovens, ouvir um pouco de música. Patricia dava nas vistas por ser estrangeira, mas também por ser médica e bonita. Isso fez dela o centro das atenções, desde o primeiro dia.

Depois de muitas horas de conversa e de várias músicas cantadas, em sua honra, o jovem que atuava a solo, embalando uma guitarra, conseguiu quebrar a barreira que ela tinha interposto entre eles. Isso deu lugar à primeira carícia, quando tinham entrado no terceiro mês de permanência no Kibutz. Foi algo tímido e a medo, mas perfeitamente consentido. O primeiro beijo, surgiu duas noites depois e daí até à intimidade foi um passo muito pequeno. Patricia, depois de satisfeito o desejo, tomou consciência do que tinha feito e chorou amargamente. Ela amava, verdadeiramente, o marido, mas aquele jovem moreno, de ar estouvado e com um estilo desleixado, fascinava-a e enchia-lhe o corpo de desejo. Quando ele lhe tocava ela perdia a razão e entregava-se a ele sem pensar. Depois, lavava o suor, que ele lhe tinha deixado no corpo, com lágrimas, mas a alma, essa estava cada vez mais suja. O romance acabou por ser do conhecimento de muitos dos jovens e como de costume apenas o traído ignorava a situação. Eduardo tinha notado que, havia algum tempo, olhavam para ele de uma forma diferente, mas nem nos seus mais pérfidos pensamentos, conseguiria imaginar a causa, pois amava Patrícia cegamente. Ele tinha trabalhado muitas vezes em turno duplo e aos fins de semana, para poderem ter um último mês em cheio. Quando partiram levavam os bolsos recheados de dinheiro e a cabeça cheia de sonhos. Patricia encarou a partida como o fim do seu suplício, pois deixou de ter a seu lado a tentação. No entanto, rapidamente se apercebeu de que, embora amando Eduardo, lhe faltava algo. Na verdade, faltavam-lhe as horas loucas de sexo, que o jovem da guitarra lhe proporcionava. Eduardo era apaixonado, mas calmo e respeitador, enquanto o seu amante tinha usado o corpo dela, como se fosse a sua guitarra, tirando dela notas que nem ela imaginava ser capaz de emitir. O problema era que depois de ter vibrado daquela forma, ela sentia que não era capaz de viver com alguém, que não soubesse tocar na corda certa. A sua insatisfação começou a manifestar-se através do seu estado de espírito e Eduardo sentiu na pele o seu resultado. Patricia fechava-se cada vez mais, porque sentia que era a culpada de tudo, pois, para além de ter traído o marido, que amava, agora tratava-o de uma forma que ele não merecia. Ela sentia a dor do remorso, mas isso, em vez de a fazer entregar-se ao marido, afastava-a cada vez mais.

Um mês para conhecer a Austrália é curto, mas o plano deles era ambicioso. Quis o destino, que no avião, para Camberra, tivessem conhecido um rancheiro, que os convidou a passar uma semana com ele. Foi o que aconteceu na terceira semana. Foi uma semana fisicamente exigente e dura, mas muito enriquecedora. Passearam de jipe, helicóptero e a cavalo, durante cinco dias e na sexta foram para uma pequena cidade, perto do rancho, onde ficaram até domingo. No sábado, havia festa durante a tarde e à noite foram a uma sessão de cinema privada, em casa de uns amigos do rancheiro. O filme era erótico e no fim havia lugar a uma explicação, dada por um sexólogo. O filme foi abundantemente regado com cerveja, de forma que as línguas estavam soltas. O sexólogo falou do uso do corpo como instrumento de prazer e de amor, dentro de um casamento. Depois, lançou o desafio ao público, para falarem do que, verdadeiramente, lhes dava prazer. Eles, como eram convidados, foram os primeiros a ser desafiados. Patricia esteve tentada a falar, mas o remorso da traição fazia-lhe sentir que, se falasse, se estava a denunciar. Isso, calou-lhe a voz. Eduardo, já um pouco toldado pelo álcool, falou. Quando ela percebeu que ele comungava alguns dos desejos, que ela tão ciosamente tinha escondido, soltou-se e falou abertamente do que lhe dava prazer. Nessa noite, mesmo sem saber tocar guitarra, Eduardo tocou-lhe nas cordas certas. Na semana que se seguiu, Patricia orientou Eduardo e este foi um aluno aplicado e eficaz. Ele aperfeiçoou-se de tal forma, que na noite que passaram no hotel, em Camberra, na véspera da partida para Lisboa, ela vibrou nas mãos dele como nunca tinha vibrado na sua vida e o jovem da guitarra tornou-se apenas uma memória longínqua e ténue.

Durante a viagem de regresso, Patricia debateu-se com um conflito interno, que acabou por resolver seguindo um sábio conselho de sua mãe: existem verdades que magoam tanto e acrescentam tão pouco, que mais vale não serem ditas. Patricia decidiu não contar a Eduardo a sua traição. O mais provável era que ele nunca descobrisse e ela tinha a certeza de que nunca mais se entregaria nas mãos do jovem israelita ou de outro guitarrista qualquer. Ela tinha o seu próprio guitarrista! Um homem que lhe dava tudo o que ela necessitava e com o qual queria constituir uma família.

No ano em que completavam cinquenta anos de casados. Eles combinaram, que cada um deles faria, ao outro, uma pergunta e este seria obrigado a responder com honestidade.

«Quero que me digas quem te rachou o lábio superior, no Kibutz, em Israel, na véspera da nossa partida.»

Eduardo sorriu e acariciou-lhe o rosto.

«Foi o teu amante. Veio exibir a sua conquista, na véspera da nossa partida e eu esmurrei-o. Ele conseguiu atingir-me, uma única vez, deixando a sua marca. Mas, não te preocupes que ficou bem pior do que eu.»

Patricia ficou a olhar para ele, boquiaberta. Ela sabia que ele a amava muito, mas naquele momento percebeu o quão profundo e incondicional era o seu amor. Abraçou-o e beijou-o, depois disse-lhe, ao ouvido.

«Queres tocar a tua guitarra?»

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