A JORNALISTA | PARTE III | CAPÍTULO 3


A JORNALISTA | PARTE III | CAPÍTULO 3 – A Favela
A reunião com João Ribeiro tinha sido infrutífera. Para além de já não ter qualquer capacidade de influenciar o processo ele nem sequer conseguia garantir a condenação do Chef Walker. Jair de Lins queria encerrar o processo da morte da jornalista o mais rápido possível. O Inspetor nunca tinha percebido qual o interesse do gestor no assunto. «Será culpado ou apenas pretende dissociar a empresa da má publicidade que envolve o assassinato?» Interrogou-se. Isso deixou de ser relevante quando atravessou a porta da rua. A quantia choruda que recebeu tinha uma mensagem associada: Foi a última!
Jair de Lins depois de ver reforçada, recentemente, a sua liderança, percebeu o quão precária esta era. Para a sedimentar estava a “atar as pontas soltas”. Sabendo o que esperar das autoridades relativamente ao assassinato da jornalista era importante conhecer aquilo que a equipa de defesa do Chef Walker se preparava para apresentar em tribunal. Precisava de estar prevenido ou de agir e para isso o seu conhecimento prévio era uma condição necessária. O seu percurso em Portugal era limpo pelo que o jogo que se propunha fazer tinha de ser planeado com os contactos Brasileiros.
A mulher tinha mudado de peruca e penteado, trocado de óculos e de indumentária, até a maquiagem era diferente. Mas ele tinha uma fixação por mulheres bonitas e isso tinha-o tornado num fisionomista. O sorriso e o trejeito dos lábios da morena que acabava de se sentar duas filas à frente, era o mesmo da ruiva que se tinha cruzado com ele no restaurante, durante a semana anterior e da loira que tomava o pequeno-almoço, fazia algum tempo, na mesa ao lado. Estava a ser seguido. Decidiu fingir que desconhecia esse facto. Aproveitou as primeiras horas da viagem para ler e trabalhar e depois relaxou vendo filmes.
Enquanto as malas não chegavam foi à casa de banho e fez um telefonema rápido. A equipa de segurança ficou a saber que podiam estar a ser seguidos. O carro blindado levou-o direto para a Rocinha, onde um confronto lhe seria favorável. Ele era o dono da favela. A ordem foi transmitida com eficiência: A mulher e o grupo que a acompanhasse deviam ser deixados em paz até se encontrarem bem dentro da favela. Ele queria apanhá-los vivos. A mulher chegou à favela acompanhada de cinco homens que se recusaram a entrar na favela. Não eram conhecidos na Rocinha, mas deviam saber como as favelas funcionam. Depois de alguma discussão um dos homens recebeu um telefonema e deu ordem de entrada. Olhou em volta benzeu-se e tomou a retaguarda. A forma como se movimentavam era típica de militares. Eram mercenários!
Quando Jair de Lins percebeu que eles seguiam diretamente para a casa onde se encontrava percebeu tudo. Verificaram as roupas e a mochila. O GPS estava num bolso lateral. A mochila foi levada para uma casa junto ao largo central. Quando os mercenários aí chegaram tudo parecia normal. A mulher apontou para a casa e um tiro para o ar fez desaparecer as pessoas todas. A troca de tiros iniciou-se de imediato. Os mercenários correram para um dos extremos do largo eliminando os homens que aí estavam. Ao fim de trinta minutos de luta intensa os tiros cessaram. Quatro dos mercenários estavam mortos, o quinto e a mulher tinham desaparecido. O tiroteio tinha custado a vida a doze traficantes. Os mercenários mortos eram Romenos e Alemães. A mulher foi, mais tarde, identificada como uma americana que trabalhava para uma agência especializada em recolha de informações.
Jair passou a noite na favela e no dia seguinte, logo de manhã, os arredores foram inspecionados para verificar a favela estava sob vigilância. Aparentemente estava tudo calmo. Jair reuniu os seus homens.
«Preciso de saber se existe algum mandato em relação a mim.»
«Jair, se eles te quisessem matar já estavas morto. Eles devem querer outra coisa.»
«Se for o meu sócio que está por detrás disso, sabemos o que procura. Ele quer destruir a minha reputação, ou seja, quer informações sobre mim e sobre o negócio. Prestem muita atenção. Se aparecerem novos clientes ou contactos. Investiguem-nos antes de fazer negócio.»
Depois de dadas as ordens ele ficou apenas com os dois homens que comandavam as operações no Rio.
«Preciso que coloquem uma equipa em Portugal para descobrir o que estes dois sabem sobre o assassinato da jornalista.» Disse, ao mesmo tempo que estendia as fotografias sobre a mesa.
«Nós temos duas pessoas muito boas que estão a montar uma operação na Europa, a partir de Portugal.»
«Estas pessoas têm que ter um perfil diferente…» Disse Jair.
«De acordo, mas têm que ser controladas por alguém. Estes são as pessoas ideais para isso.»
Contra isso não existiam argumentos.
«Até onde pode ir a equipa para obter a informação?»
«Isso para mim é irrelevante. O que é importante é que obtenham a informação.»
Jair abandonou a favela já ao fim do dia e foi jantar ao Jokey Club. Tinha uma mulher esplendorosa à sua espera. Nessa noite não conseguiu relaxar. Parecia-lhe que em cada mesa existia um par de olhos que o espiavam. Foram para o Copacabana Palace em carros separados. Embora possuísse um apartamento enorme na barra da Tijuca, não queria ser visto com uma mulher perto de casa ou de um hotel. Não queria dar mais razões à esposa do que aquelas que ela já tinha. Quando satisfez o apetite mandou a mulher embora. Precisava de ficar sozinho. Fazia uns anos que ele estava desligado, em termos operacionais, daquele mundo. No entanto, o passado prendia-o e as ligações do presente também. Estava preso entre dois mundos. Era uma posição desconfortável e de defesa muito difícil. Dentro de pouco tempo saberia como agir em relação à jornalista. Agora precisava também de saber quem o caçava e porquê.
Depois de fazer o telefonema ficou mais descansado. Estava seguro de que eles descobririam tudo o que houvesse para descobrir. Entretanto ele tinha de relaxar e cuidar dos negócios. Tinha que arranjar forma de fazer uma operação impactante e com uma boa rentabilidade. Ligou para o escritório e colocou a máquina em marcha. Iam às compras!

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