O PIQUENIQUE

O marco do solstício de Junho já tinha sido ultrapassado. As aulas aproximavam-se do fim e os alunos estavam em alvoroço. Aquilo que os trazia nesse estado não era nem o fim das aulas, nem as classificações finais. O motivo era o piquenique anual. O verão tinha-se instalado definitivamente e aquele final de Junho estava tão quente, que o mergulho nas águas frias do rio Corgo, se tornava agradável. Vitor, como delegado de turma e o professor Pedro, eram os organizadores. Helena, uma das moças mais bonitas da turma, tinha exercido a sua influência, para conseguir que não fossem, para a barragem ao fundo da Vila Velha, nem para o Codessais, que eram os locais habituais dos piqueniques. Foram para um açude, na zona de Vila Seca. Vitor e Helena viviam na mesma aldeia, embora não fossem muito chegados, mas ela usou o seu charme e ele, envaidecido, cedeu. O piquenique prometia ser bem interessante!

O dia esperado chegou, jovial e tempestivo. O lugar que ele tinha reservado para Helena estava ocupado. Ela tinha-se sentado duas filas atrás e, de cabeça recostada no assento e olhos fechados, descansava com uma expressão angelical. Essa foi a primeira desilusão do dia.

«Espero que não te importes que me tenha sentado aqui.» Disse uma das colegas, que tinha uma paixoneta assumida por ele.

Vitor sorriu e encolheu os ombros. Pelo menos havia uma razão válida para Helena não ir ao lado dele. A parte da manhã foi ocupada com uma série de jogos e quando a hora do almoço chegou estavam todos esfomeados. Vitor não tinha tido a oportunidade de estar a sós com Helena. A seguir ao almoço seria outra história, pois entre mergulhos e passeios, eles estariam mais libertos para encontros a dois. O almoço tinha chegado ao fim e Helena chegou-se a Vitor. O coração dele bateu acelerado e imaginou de imediato uma tarde a dois.

«Quero pedir-te um favor. Pode ser?»

«Claro!» Disse prazenteiro.

«Trata-se de um segredo que tem de ser só nosso. Prometes?»

Ele estava, simultaneamente intrigado e entusiasmado. Ela ia contar-lhe um segredo?

«O Sérgio vem cá ter comigo e ninguém pode saber disso.»

Ela olhava-o com um sorriso sedutor e a mão dela segurava-lhe o pulso com delicadeza. Vitor olhou-a com uma expressão aparvalhada. Não estava a perceber absolutamente nada. Ela não teve pressa em explicar-se. Apertou ligeiramente o pulso dele, levando Vitor a olhá-la nos olhos. «Meu Deus! Estes olhos matam-me.» Ela disse qualquer coisa, mas ele nem a ouviu.

«O que disseste?»

«Prometes?»

«Prometo.» Disse sem pensar.

«Mesmo?»

«Mas afinal…»

As palavras morreram-lhes na boca. Ele conhecia demasiado bem o carro que parou no largo. O Sérgio Raposo era um jovem alto e bem-parecido, para além de ser cinco anos mais velho. Como se tivesse atingido por um raio, percebeu tudo. Era uma competição desigual. Fitaram-se. Não havia animosidade no olhar. A tristeza de um fixava-se na segurança do outro. O pensamento de Vitor levou-o para o passado…

A animosidade entre as duas famílias era bem conhecida. Os pais eram os donos das duas únicas Vendas da aldeia. Eram diferentes em tudo, até na clientela. Um abusava dos preços, adulterando os produtos e vendendo praticamente tudo a fiado. O outro gostava de se apelidar de pessoa séria. Apenas vendia a fiado em algumas circunstâncias, sem deixar acumular muito a divida de cada cliente. No primeiro caso, os que pagavam cobriam os calotes dos outros, no segundo estes eram suportados pelo Vendeiro. A tasca do primeiro estava sempre cheia de batoteiros e jogava-se a dinheiro, enquanto na do segundo apenas estava autorizado o jogo da Bisca ou da Sueca, sem envolver apostas. Eram os bons contra os maus. Mas quando se cruzam descendentes casadoiros a coisa tende a descontrolar-se. Os pais não se falavam e os filhos estavam proibidos de o fazer. No adro ou mesmo dentro da igreja estavam sempre separados e faziam a sua vida em círculos diferentes. Não havia registo de confrontos diretos, mas, na voz povo, corriam boatos de ameaças proferidas nas costas uns dos outros. Era o resultado de duas famílias desavindas!

Sérgio aproximou-se deles devagar. Helena largou-lhe o pulso e afastou-se em direção ao Sérgio. O beijo que trocaram era confirmação suficiente. Vitor sentiu que a desilusão lhe apertava o peito. Não era dor de amor, era apenas o Ego que tinha ficado ferido. No entanto, parecia que doía ainda mais. Vitor virou as costas sem dizer uma palavra. Sérgio correu no seu encalço.

«Ninguém pode saber que eu namoro com a Helena.»

«Quem quer guardar segredos não os expõe à luz do dia!» Disse Vitor, de forma abrupta.

Helena chegou a tempo de o ouvir.

«Tu prometeste.»

«Tu também prometeste muita coisa que não cumpriste. O suficiente para estarmos nesta situação…»

«Tens razão. Desculpa.» Disse ela, baixando a cabeça.

Vitor condoeu-se. Não sabia muito bem se ela estava a ser sincera ou a fazer charme, como só ela sabia fazer.

«O pai da Helena vai fechá-la em casa, se souber…» Disse Sérgio.

Vitor encolheu os ombros. Eles deviam ter pensado nisso antes. Levantou a cabeça pronto a negar o pacto de silêncio. O rosto de Helena era a expressão viva da ansiedade. A sede das palavras dele era patente. Gostou da sensação de poder que isso lhe deu e respirou fundo saboreando-a. O compasso de espera foi o suficiente para reconsiderar. Na verdade, ele não ganhava nada em divulgar o segredo deles, seria apenas uma vingança mesquinha. A Helena bem merecia o castigo, mas quanto ao Sérgio… Bom, ele era-lhe completamente indiferente. Não fazia parte das suas relações.

«Podem ficar descansados que não vou dizer nada.»

Helena jogou-se ao pescoço dele e beijou-o na face.

«Obrigado!»

A curiosidade era geral e, quando eles se afastaram, Vitor foi rodeado pelos rapazes. Deu uma explicação simples que matou as esperanças de uns quantos e a tarde prosseguiu com normalidade.

O regresso foi uma surpresa. A companheira de lugar adormeceu no ombro do Vitor. Pelo menos foi o que ele pensou até sentir o primeiro beijo no pescoço. Correspondeu-lhe com entusiasmo. Não tinha interesse nela, mas isso naquele momento era irrelevante. Amanhã seria outro dia!

A missa de domingo foi especial. Mal entrou no adro sentiu o olhar de Sérgio sobre ele. A expetativa era enorme. Vitor sorriu e acenou-lhe com a cabeça, num cumprimento correspondido e que não passou despercebido. Vitor não satisfez a curiosidade da roda onde se juntou. No fim da missa Helena agradeceu-lhe com um daqueles sorrisos capazes de derreter um iceberg. Mulheres! Fechou os olhos e tentou ignorá-la. Era o sorriso de serpente. Tentava-o com o paraíso, mas o caminho era por um precipício!

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