A JORNALISTA | PARTE VII | CAPÍTULO 6

7.6 – O Banco

Marcus estava bastante familiarizado com o procedimento da rede de Lins, por isso ficou admirado com a inexistência de nenhuma informação sobre a mesma.

«Existem muitos bancos e muito outros locais onde ela pode estar.» Retorquiu Marcus.

«Comandante, não encontramos nada. Começo a ter dúvidas que a informação que procuramos exista. Se não está aqui nem nos bancos, é porque não existe.»

«Bem sei, mas é pouco razoável. Eu aposto na hipótese de que a informação não existe.»

«Se aceitarmos essa hipótese como verdadeira, então temos de assumir que ele fez uma limpeza antes de ser preso.» Voltou o comandante.

«Ele só faria isso se adivinhasse que ia ser preso…»

Silencio.

Infelizmente isso era um assunto que já não podia ser esclarecido, pois Jair estava morto. O avião deles partia de madrugada e eles fizeram questão de não o perder.

Mónica tinha um compromisso e não podiam estar juntos essa noite, pelo que combinaram almoçar no dia seguinte. Depois de telefonar para o banco teve a confirmação de que, para além de apresentar a chave, era necessário uma palavra-chave para aceder ao cofre. Apesar dos esforços não conseguiu transformar os oito carateres numa chave válida.

Perestrelo já estava sentado quando ela chegou. Vinha com cara de poucos amigos e a novidade que tinha para lhe dar não ia ajudar em nada. Depois de se cumprimentarem aguardou que ela falasse em primeiro lugar.

«Sabes que o comandante Macus esteve em Portugal.» Disse Mónica.

«Estiveste com ele?»

«Não. Ele veio numa visita privada, mas trouxe uma equipa com ele. Estiveram todos ontem à tarde na casa da Maria Eduarda.»

«A visita era privada, mas o assunto era oficial.»

«Exatamente. A Maria Eduarda autorizou-os a fazer buscas lá em casa. Aparentemente andam à procura de documentos sobre a rede de Jair de Lins.»

«Não creio que seja isso que eles procuram. Como não consegui descobrir a palavra-chave de acesso ao cofre, decidi dar uma vista de olhos à mala que a Maria Eduarda foi buscar a Genebra.»

Perestrelo fez uma pausa dramática.

«E…»

«Por detrás do forro da base estavam estes documentos.»

«Meu Deus!» Exclamou Mónica depois de os ler.

«Tudo indica que Marcus e o rei do crime no Rio, são a mesma pessoa.» Concluiu Perestrelo.

«No teu relatório de hoje, como assistente do processo da jornalista, vais incluir esta informação e os respetivos documentos.» Disse Mónica.

Perestrelo decidiu que iria dedicar a tarde a tentar descobrir a palavra-chave de acesso ao cofre e apenas ao fim do dia enviaria o seu relatório para o procurador. Era um amante de enigmas, mas o problema é que neste caso não tinha nenhum enigma. Aquele que tinha foi utilizado para descobrir a chave, mas tinha esgotado aí o seu propósito. Recostou a cabeça na cadeira e fez mais uma tentativa. Nada. Jogou os papéis sobre a mesa e traçou os dedos atrás da nuca, olhando para o teto. Quando voltou à posição normal o texto estava parcialmente tapado por uma folha de papel, sendo apensa visível a última frase. Quando a leu teve uma revelação.

“Por vezes é preciso ver para além do que está escrito”

A frase, quando lida isoladamente, teve o condão de assumir um significado completamente novo. Agora não era uma mera repetição da mensagem da frase anterior. Ela indicava-lhe que o papel tinha escrito algo que ele não conseguia ler a olho nu. Analisou o papel com uma lupa, mas sem qualquer resultado. Foi buscar uma vela e colocou-a por trás do papel, mas o resultado foi nulo. A mensagem escondida não tinha sido escrita com limão. Pensou em técnicas de escritas invisíveis. O melhor era aplicar as técnicas de leitura de cada uma delas de forma sucessiva, eliminando-as. Experimentou o sumo de uva e nada. Foi buscar o ferro de engomar e colocou-o em cima do papel, aquecendo-o. La estava a mensagem.

 “Jinv$24&”

Tinha descoberto. Antes que a mensagem desaparecesse tomou nota da mesma. No dia seguinte iria ao banco. Só esperava que a Mónica pudesse ir com ele.

Tinha tomado de assalto as maiores redes do crime do Rio e até de outros estados, de tal forma que O Boss já era designado como o rei do crime do Brasil. No entanto, sozinho no seu covil, escondido por detrás de uma identidade falsa, sabia que pairava sobre ele uma ameaça. Os documentos que permitiam identificá-lo tinham desaparecido pouco depois da morte da família de Maria Eduarda, por isso ele estava tão convencido que era Jair de Lins que estava por detrás disso. Jair tinha morrido e o facto de não conseguir identificar quem estava na posse dos documentos deixava-o nervoso. Decidiu passar em revista a casa de Jair. Era um local perigoso pois situava-se numa zona que se tinha mantido fiel até ao fim e que cujo líder ainda não tinha optado por pertencer à rede de nenhuma das famílias maiores. Usaria a sua identidade uma vez que ninguém sabia quem era O Boss. O resultado não foi o esperado.

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