O RECREIO

O RECREIO

O som da pancada, quando o mestre Paulo bateu com a cana da índia na mesa, fez levantar as quarenta cabeças. Os alunos, das quatro classes, fixaram o mestre com expectativa. Os da primeira classe tinham-se assustado com o barulho, mas os restantes já estavam acostumados.

«Intervalo!» Disse com voz autoritária e seca.

Os jovens saíram ordeiramente, mas assim que passaram a porta da sala, desataram numa correria ruidosa. Nas redondezas não era necessário consultar o relógio. O intervalo do almoço era ao meio dia. Voltariam à sala às treze, para mais duas horas de aulas. Já tinha entrado o mês de outubro, mas os dias ainda estavam quentes, apesar do sol partilhar o céu com algumas nuvens e das noites orvalhadas e frescas. Os alunos eram oriundos de duas aldeias: Vila Marim, que dava o nome à freguesia e Quintela, ambas nos arredores de Vila Real. Os que viviam mais perto iam a casa almoçar, mas os de Quintela não tinham tempo para isso. Traziam um lanche e almoçariam mais tarde, por volta das quinze e trinta.

Fernando abriu a sacola de pano e retirou lá de dentro meio rolão, enrolado em papel pardo. Verificou o recheio: nesse dia era um pedaço de omelete. Os que não iam almoçar a casa estavam sentados em grupo. A maioria trazia uma fatia de broa, sem qualquer acompanhamento, às vezes já com bolor, mas havia os que não traziam nada. Eram filhos de gente pobre, que vivia da agricultura. Quase todos tinham uma ou duas courelas, cujo rendimento era parco, por isso tinham que complementá-lo com o trabalho à jorna, para os poucos proprietários mais abastados. As mães, depois de tratar dos filhos e da lida da casa, cuidavam das courelas, onde o pai se juntava o fim do dia ou ao fim de semana. Eram vidas duras que nem as crianças poupavam, pois quando chegavam a casa também ajudavam na labuta do campo ou a cuidar dos animais, quando estes existiam. 

Apesar da situação quase de miséria em que viviam e de que os andrajos, que traziam vestidos, eram um espelho, as crianças deveriam todas ter acesso a uma fatia de pão, mas não era o caso. A coexistência de muitos filhos com o desgoverno da casa, conduzia a muitas situações dramáticas. Fernando olhou para ao lado, ainda a tempo de ver o olhar fugidio dos dois colegas: o João Ranholas e o Zé do Alto. Tinham ambos um ar magro e macilento, fruto de privações em excesso. O pai de Fernando não se cansava de repetir que se os pais deles não gastassem uma boa parte do que recebiam, em vinho, na tasca da aldeia, os filhos teriam sempre pão na sacola que, na maioria das vezes, estava vazia. No entanto, Fernando era incapaz de comer o rolão todo sozinho, não por falta de apetite, mas porque as duas presenças famintas o atormentavam. Retirou a navalha do bolso e dividiu uma das maças e o rolão ao meio.  Entregou metade da maça a cada um e dividiu a metade do rolão ente os dois. O seu quinhão soube-lhe deliciosamente. Os dois amigos comeram sem dizer uma palavra, mas o olhar húmido dizia tudo. 

Ao fim de quinze minutos já todos estavam a brincar.  Os jogos mais populares eram o Mocho, a Barra Forte e o do Peão.  Por vezes existia um pequeno grupo que jogava o Espeto, mas era menos comum.  Fernando tinha trazido o seu peão velho.  Tinha sido o pai a fazê-lo e, a elegância da forma e o longo bico, faziam dele uma arma fugidia. Quando bicava os peões que, por desgraça, ficavam dentro da gazola; um círculo enorme para onde eram jogados os peões e cuja fronteira tinha de ser ultrapassada por estes, depois de terminarem de rodar, tirava-lhes sempre um naco, conseguindo sempre rolar para fora da gazola. Nessas alturas chorava-se baba e ranho e a situação podia complicar-se, chegando-se mesmo a vias de facto.

Quando o Valdemar se aproximou da Gazola, alguns dos jovens afastaram-se, recusando-se a participar no jogo. Quando todos os peões pararam de rodar ele enrolou o baraço no seu e lançou-o. O peão quase adormeceu, num rodopiar lento e gracioso. Valdemar sorria inchado com a performance do Borboleta. Tinha-o batizado assim porque ele, depois de rodopiar, voava para fora da gazola, com a mesma agilidade do inseto. Subitamente o sorriso morreu-lhe nos lábios. Existiam três peões dentro da gazola e sete jogadores prontos para lançar o seu. Valdemar olhou para os jogadores de forma ameaçadora. Aquele que se atrevesse a bicar o seu sofreria as consequências! Durante alguns instantes nenhum jogador se atreveu a lançar o peão.   Ninguém queria assumir que tinha receio de atingir o Borboleta, mas todos tinham medo de o fazer. Fernando alçou o braço e preparou-se para o lançamento.

«Experimenta!» Disse Valdemar provocador.

Fernando olhou-o nos olhos e não conseguiu resistir ao desafio. Por instantes esqueceu-se de diferença física e de idades entre eles e apenas mediu o tamanho do seu ego. O movimento foi perfeito. Deve ter sido o melhor lançamento de sempre. O borboleta abriu-se ao meio como se tivesse sido atingido por um raio, enquanto o peão do Fernando fazia ricochete e saltava para longe. O silêncio foi sepulcral. Durante breves instantes ninguém se mexeu. Valdemar avançou, lentamente, para dentro da gazola, agachou-se e apanhou as duas metades do peão. A expressão de espanto foi substituída pela fúria e correu no encalço do Fernando, que tinha ido recolher o seu peão. Valdemar avançou para ele pronto para o fazer pagar pela afronta e Fernando encolheu-se, preparando-se para aparar os golpes. Valdemar estacou a um metro de distância, hesitante. Fernando apenas percebeu o que se passava quando olhou para os lados. Os companheiros da merenda estavam a seu lado, prontos para a luta.

«Isto não é convosco. Afastem-se.»

«Tu sabias o risco que corrias quando foste jogar ao peão. Vais deixar o Fernando em paz, hoje e no futuro, senão nós os dois ajustamos contas contigo.»

Valdemar era um jovem possante, mas os outros dois também o eram. Para além disso ele já os tinha visto em ação e não estava com vontade de experimentar os punhos deles. Deu meia volta e foi-se embora. Quando as aulas recomeçaram o mestre tinha escrito no quadro um problema para a quarta classe. Fernando resolveu-o em dois tempos e o mestre pediu-lhe para ver os resultados dos colegas, acompanhando-o no processo. Dois deles tinham a resolução errada e Fernando foi obrigado a dar seis reguadas a cada um.  A situação deixou-o acabrunhado de tal forma que ficou calado quando terminou o problema seguinte. O mestre chegou junto dele e olhou para a lousa com um sorriso.

«Vais ver os exercícios dos outros. Cada resolução errada são seis reguadas.»

Fernando pensou rapidamente e avançou para os colegas de ponteiro e esponja na mão. Ao invés de denunciar as situações erradas, apagava rapidamente as lousas e dizia aos colegas qual era a solução. Quando chegou junto de Valdemar este estava nevosíssimo. O problema estava a meio e ele não sabia como sair dali. Fernando olhou-o nos olhos e disse-lhe, em surdina como resolver o problema. Valdemar não queria acreditar e dirigiu-lhe um olhar esbugalhado.

Quando as aulas terminaram Fernando apressou-se a ir para casa. Era tarde de sementeira e precisavam dele para ajudar a destorroar o campo arado, tarefa feita manualmente e prévia à utilização da grade arrastada pelos bois, que alisava definitivamente o terreno e submergia a sementes. Quando sentiu a mão a apertar-lhe o cachaço assustou-se.  Valdemar estava ao lado dele, ainda a arfar da corrida. Olharam-se: o Fernando com receio e Valdemar com admiração.

«Tinha pensado em dar-te uma lição, agora que os teus guarda costas não estão aqui. Mas o teu comportamento na sala de aulas alterou tudo. Obrigado.»

Depois destas palavras Valdemar desapareceu tão rápido como tinha aparecido. Fernando ficou especado a vê-lo afastar-se e demasiado estupefacto para dizer alguma coisa. «Quem diria que o Valdemar amansava deste jeito!» Pensou. Depois alargou o passo e apressou-se a caminho de casa.

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