PÂNICO NO ESCRITÓRIO

PÂNICO NO ESCRITÓRIO

O mês de julho aproximava-se a passos largos do fim. Embora a empresa não encerrasse para férias, a maioria das pessoas preparava-se para se ausentar. Depois de terem regressado, quase em pleno ao escritório, após o período de confinamento, imposto pela Pandemia. Estava a ser um ano estranho. A etiqueta do comportamento tinha mudado radicalmente com a imposição do uso das máscaras e do respeito pelo distanciamento. Felizmente, a empresa tinha condições para as cumprir, mas o seu reflexo nos comportamentos era inevitável. O gel marcava a presença, ora fornecido por pequenos monstros metálicos, que vomitavam o líquido pastoso e que marcavam a sua presença nas duas entradas do edifício, ora projetado, em esguicho por dispensadores solitários, nos WC e nos corredores. Os colaboradores cruzavam-se nos corredores, sorrindo com os olhos, qual odalisca de fato inteiro, privados de exibir os dentes e os músculos da face. Era a nova normalidade!

O dia estava quente e abafado, tal como tinha acontecido durante essa semana e na anterior. A sexta feira anunciava-se, assim, como um dia normal, com a exceção de ser o último da semana. Os primeiros colaboradores, raros, chegaram por volta das oito e vinte, mas às nove e trinta os postos de trabalho estavam praticamente todos preenchidos. A manhã decorreu com normalidade, pois eram muitos os assuntos a resolver, apesar da quase total paralisia dos negócios, ditada pela pandemia. Passava pouco das quinze quando soou o alarme. Anabela Patrício, uma das assistentes, lançou um grito ao ver Gustavo Lopo Ferreira, um dos diretores, cair redondo no chão, mal transpôs a ombreira da Porta. Era um homem alto e bem constituído, que parecia ter metade da altura, dada a forma rocambolesca como ficara enrolado no chão.

«Gustavo!» Gritou num tom aflitivo.

Anabela correu para ele de termómetro em riste, ao mesmo tempo que o hall se enchia de pessoas que se dobraram, prontos para o levantar do chão.

«Não! Afastem-se todos!»

O alerta foi sido lançado por Marta Rodrigues, que entrou esbaforida, de máscara no rosto. Juntamente com a Anabela Patrício, elas eram as responsáveis do sexto piso, nomeadas na sequência da elaboração do Manual de Emergência COVID-19, para lidar com situações relacionadas com a pandemia. Entrou de rompante no hall e viu a Anabela, paralisada, a olhar para o termómetro, que marcava trinta e nove graus: Gustavo estava a arder em febre!

«Isto é um caso COVID!» Exclamou Marta.

A afirmação teve um efeito demolidor. O grupo que estava quase em cima do Gustavo afastou-se de imediato, como que impulsionados por uma mola.  Os rostos espelhavam pânico! Impelidos pelo tom de urgência do grito de Anabela tinham acorrido ao local, sem as respetivas máscaras, tendo estado a respirar o mesmo ar que Gustavo. Isso deixou-os apreensivos.

«Coloca a máscara! E veste o equipamento de emergência.» Disse Marta para Anabela, enquanto se equipava também.

Elas tinham de conduzir Gustavo para a sala de confinamento que ficava no piso zero, mas ele era demasiado pesado para ser transportado e elas não conseguiam levá-lo até ao elevador. Parecia que tinha passado uma eternidade, mas, na verdade, não tinham passado mais do que uns minutos. Elas olharam uma para a outra sem saber muito bem o que fazer, enquanto os restantes se refugiavam na ilusória segurança dos postos de trabalho.

«O que se passa?» Disse Gustavo acordando.

«Estás com uma febre elevadíssima e ainda por cima desmaiaste.» Disse Anabela.

«Estás com sintomas de Covid, por isso tens de ir para a sala de confinamento. É isso que dizem as regras.» Disse Marta.

«Isto é apenas a minha sinusite que se agravou e bloqueou o canal do meu ouvido provocando o desmaio. Eu já tive isto mais do que uma vez. Isto não é Covid!» Exclamou Gustavo, em protesto.

«O problema é que estás com febre elevadíssima. Tem de ir para a sala de confinamento!» Disse Anabela, imperativamente.

«Não vou. Eu tenho uma conferência telefónica dentro de dez minutos e não posso estar na sala de confinamento, pois, se for, serei obrigado a um conjunto de procedimentos que me impedem de participar na mesma.»

«Não tens alternativa. Quanto mais depressa fores mais depressa se resolve o assunto. Se não tens Covid melhor, mas já vamos despistar isso.» Disse Marta, impondo a sua vontade de forma autoritária.

Entre muitos protestos Gustavo encaminhou-se para o elevador e deixou que o conduzissem até ao piso zero e o fechassem na sala de confinamento. Foi-lhe retirado o telemóvel e colocada a máscara. Entretanto as responsáveis do sexto piso notificaram toda a empresa do sucedido e ligaram para a linha de apoio Covid. Os sintomas de Gustavo eram todos positivos: Tinha febre, dificuldade em respirar e estava cansado, tendo inclusive desmaiado. O piquete da DGS demorou uma hora a chegar. Quando a notícia se espalhou o medo instalou-se nas hostes.  O piquete da DGS levou Gustavo para casa, depois de o testar, e ordenou-lhe que ficasse lá até se saber o resultado do teste. Entretanto, os locais onde ele tinha estado foram desinfetados e as duas responsáveis também procederam a uma autolimpeza.

Um pouco depois de Gustavo ter ido para casa chegou a ordem: todos os colaboradores que tinham tido contacto com o Gustavo Lopo Ferreira, nesse dia e nos quatro anteriores, deviam ir para casa e ficar em confinamento até novas ordens. Isso abrangia praticamente toda a empresa, que ocupava a totalidade dos oito pisos do edifício. As regras impunham a realização de um teste, mas isso implicava a existência de vagas o que fez alongar, no tempo, todo o processo, dado que tiveram de ser testadas cento e vinte e três pessoas. Só ao fim de uma semana é que todos eles tinham sido testados e nenhum tinha qualquer indicação sobre o resultado. A espectativa manteve-se e apenas ao fim de onze dias se ficou a saber que Gustavo estava infetado. Nessa altura o pânico tomou conta da empresa. Os que tinham tido contacto direto ou indireto, corriam o risco de estar todos infetados. Isso acabava por incluir praticamente toda a empresa, para além de várias pessoas do universo pessoal. Foi preciso esperar mais três semanas para se ficar a saber que existiam mais doze pessoas infetadas, entre a quais se incluíam Anabela Patrício. Só nessa altura é que a situação ficou regularizada e a gestão descansou. Naturalmente que todos o infetados ficaram de quarentena, apenas tendo voltado à empresa depois de realizar dois testes positivos, o que felizmente aconteceu com todos à exceção de Gustavo. Vera de Sousa, uma assistente do piso da administração, foi quem deu a notícia. Enquanto a empresa regressava, gradualmente, à normalidade Gustavo piorava e era internado, tendo rapidamente passado para os cuidados intensivos e sido ligado a um ventilador.

As semanas que se seguiram foram de grande expetativa e alguma consternação. Gustavo piorava a olhos vistos e o prognóstico era reservado. O facto de ter sinusite crónica era campo fértil para o vírus e vaticinava-se o pior.  A empresa tinha estabelecido uma linha direta com a família e recebia notícias sempre que o hospital ligava para a esposa. O que acontecia uma vez por dia. Ao fim de cinco semanas Gustavo começou a melhorar gradualmente, perspetivando-se uma recuperação rápida. Isso fez com a notícia caísse como uma bomba! Gustavo tinha tido uma regressão brutal e a família foi preparada para o pior. A semana seguinte representou uma luta entre a vida e a morte, mas Gustavo era um vencedor! A recuperação foi lenta e no fim de outubro Gustavo foi recebido na empresa em apoteose. Festejavam, não apenas porque Gustavo era querido por todos, mas, sobretudo, festejavam a vitória da vida sobre a morte. Uma luta onde todos tinham estado ao lado dele, sendo todos vitoriosos.

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