O EXAME

O EXAME

O exame seria na segunda feira e o professor fez a revisão da matéria na sexta. Na hora da despedida recordou a todos os alunos que estaria em casa no fim de semana.

«Não se esqueçam de avisar os pais de que estarei o fim de semana em casa, disponível para os receber a eles e a vocês e dar todos os esclarecimentos necessários.»

Na segunda feira, quando o professor chegou, os alunos já o aguardavam junto à porta da sala. Depois do reboliço que foi a entrada, os jovens sentaram-se e ficaram quietos. As folhas de exame foram distribuídas pelas carteiras. Desta feita o uso destas era individual, estando todos sentados ao centro e perfeitamente alinhados. O professor distribuiu as folhas de exame e esperou que os alunos terminassem. A aba esquerda foi cuidadosamente dobrada, criando uma margem para as anotações do professor e o cabeçalho da dupla folha, devidamente preenchido, com os dados de cada aluno. Nessa altura o tempo começou a contar e eles puderam ler o enunciado. O rigor e o formalismo do exame da terceira classe impressionavam e intimidava os jovens alunos. O silêncio era tal que se ouviam os zumbidos das moscas, anunciando a chegada do verão. Ao longe, ouviam-se as campainhas de uma junta de bois, arando um qualquer pedaço de terra e a voz de um solista de coro de igreja, que brindava o publico anónimo com o seu canto meio afinado.

O professor deu uma volta pela sala e parou junto à sua mesa. O fato castanho caia-lhe ombros fora, de forma desengonçada, evidenciando a sua magreza. Era um homem alto e seco, com um rosto duro e um olhar de águia. A estranha coincidência entre o castanho do fato e a cor macilenta do rosto, conferia-lhe um aspeto neutro, indefinido, desmentido pelo olhar agudo. Sentou-se na secretária e pegou num livro. Deixou que os óculos escorregassem para a ponta do nariz, recostou-se e entregou-se à leitura. De tempos a tempos, levantava os olhos, sem mexer a cabeça, varrendo a sala com olhar, por cima dos óculos. A mera possibilidade desse olhar mantinha a sala em silêncio e as cábulas nos bolsos.

Nos dois dias anteriores ao exame a casa onde vivia, relativamente afastada do centro da aldeia, tinha-se tornado centro de uma peregrinação. As capoeiras e a dispensa tinham ficado cheias. Era uma tradição que resultava da fusão de duas motivações: a necessidade de alguns pais colmatarem as deficiências de conhecimento dos filhos e a gratidão natural ao mestre. A verdade é que os alunos acabavam por passar quase todos e aqueles cujas famílias não ofereciam nada eram bafejados por uma correção deveras exigente. Sebastião foi o primeiro a acabar o exame e levantou-se para o ir deixar sobre a mesa do professor.

«A tua mãe não sabe o caminho para minha casa?»

A pergunta foi feita num tom seco e agressivo. Sebastião levantou os olhos para o professor e foi confrontado com um rosto pétreo, onde brilhava um olhar vivo.  Engoliu em seco sem saber o que responder.

«Perdeste a língua rapaz?»

Sebastião era filho de um pequeno agricultor. O casal era originário de duas famílias muito abastadas, mas sendo ambos os mais novos, da respetiva família, não foram beneficiados pelo jogo de heranças, que concentrou o poderio agrícola no mais velho, mas tinham um sentido de honra singular. Os professores nunca foram brindados com nenhuma lembrança, apesar de terem cinco filhos e quatro deles frequentarem a escola, em simultâneo. Eram todos bons alunos, mas Sebastião era a estrela. Andava na terceira, mas sabia mais do que alguns alunos da quarta. Sem saber como reagir apelou para a memória, tentando imaginar como reagiria o pai, que era homem para ter sempre uma resposta na ponta da íngua. Levantou a cabeça e enfrentou o olhar do mestre.

«A minha mãe não sabe, mas o meu pai sim. Aliás costuma passar por lá várias vezes, com a espingarda, quando vai à caça e olhe que é um atirador exímio.»

O professor pestanejou procurando identificar o significado das palavras e por momentos os seus olhos refletiram o receio que lhe percorreu o espírito. O pai do Sebastião tinha fama de evitar as contendas, mas nunca deixava nenhuma sem resposta.

«Vai-te lá embora!» Disse o professor, de forma brusca.

Sebastião relatou os acontecimentos em casa e a mãe entrou em Pânico.

«Sebastião, tu não podes dar uma resposta dessas ao professor! Meu Deus ele agora vai-te reprovar.»

«Não te preocupes mãe. Se eu não tivesse dito nada ele era bem capaz de me prejudicar, assim ficou foi com medo.»

A mãe parou o que estava a fazer e olhou para o filho, no exato momento em que o marido entrava em casa.

«Quem é que ficou com medo?» Perguntou o pai.

O filho repetiu a história ao pai e este rebolou-se a rir, sobretudo porque ele não era caçador, nem possuía nenhuma espingarda. «Como é que o raio do rapaz se foi lembrar de inventar esta história?» Pensou. Agarrou o filho pela cintura, levantou-o acima do seu metro e noventa de altura e exclamou.

«Grande Sebastião, tu és mesmo meu filho!»

A mulher olhava para ele embasbacada.

«Tu não podes incentivar os nossos filhos a faltar ao respeito ao professor!»

«Tens razão.» Disse ele, ficando com o rosto sério.

Alberto chamou os filhos todos e fez o Sebastião repetir a história, depois, com ar solene, disse.

«Lembrem-se que se algum de vocês faltar ao respeito a um professor ou a uma pessoa mais velha, tem de ajustar contas comigo…»

Nesse ponto ele fez uma pausa e apreciou o sorriso de satisfação da mulher e a expressão apreensiva de Sebastião, que já estava a antecipar um castigo. Depois continuou.

«… mas podem e devem dar uma resposta ao nível da provocação que receberem. O professor do Sebastião teve o desplante de querer receber uma prenda e ainda por cima envolveu a vossa mãe no assunto, por isso a resposta do Sebastião foi legítima e adequada!»

Olhou para os filhos que tinham feito uma roda à sua volta e sorriu à esposa. Ela, meia contrariada, sorriu de volta. Adorava o marido e não podida deixar de lhe reconhecer uma certa razão, mas o seu espírito conciliador e a educação conservadora, faziam com que tivesse alguma dificuldade em aceitar o comportamento do filho.

Os dias seguintes foram vividos com expectativa, pois ninguém conseguia antecipar a reação do professor e existia o risco real de ele reprovar o filho. Alberto não disse nada a propósito do assunto, mas tinha tomado uma decisão: se o professor não desse ao filho um “Bom”, que era a nota que este sempre tinha tirado, iria pedir-lhe satisfações.

Quando as notas saíram Sebastião não queria acreditar. O professor tinha-lhe dado “Muito Bom”. Era uma nota que ele sabia que não merecia, porque tinha errado um exercício. Ele tinha feito um bom trabalho na prova e o medo fez o resto por ele. A mãe ficou incomodada com o facto, mas ninguém podia fazer nada. A decisão era do professor e só ele a podia alterar, mas Faustino recusou-se a ir falar com ele e proibiu a mulher de fazer tal coisa.

«O professor reagiu com medo. A nossa obrigação é dizer-lhe que não queremos interferir na avaliação.» Disse ela.

«Esse professor passa a vida a beneficiar os que lhe dão prendas. Portanto, o problema está na desonestidade dele e não naquilo que o Sebastião disse.»

A mulher assentiu, apesar do seu desconforto. O marido abraçou-a e disse-lhe ao ouvido.

«Penso que podemos adaptar o ditado popular e dizer: Quem com palavras mata, com palavras morre!»

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