A JORNALISTA | PARTE VII | CAPÍTULO 10

O computador

Quando Mónica respondeu às suas chamadas já ele estava a tomar o café.

«Ainda bem que não precisei da tua ajuda.» Disse ele em tom brincalhão.

«Desculpa. Fui convocada à última da hora para uma reunião, onde os telemóveis são proibidos, que só terminou agora. Correu tudo bem?»

«Passei a manhã naquele maldito túnel. A humidade era tanta que fiquei com os ossos gelados, mas valeu a pena.»

«Conta-me.»

«Encontrei um computador…»

Mónica não o deixou continuar.

«Tens que entregar-nos o computador, já.»

«Não. Isso não vai acontecer até eu descobrir de quem é o computador e qual o seu conteúdo.

Ela ficou em silêncio a avaliar as consequências da informação recebida. A sua missão era garantir que exigia a Perestrelo o que lhe era exigido a ela. Apesar disso, não era obrigada a fazê-lo cumprir a exigência.

«Eu já te disse o que penso sobre o assunto. A responsabilidade pelo cumprimento das nossas exigências é exclusivamente tua.»

Ficaram alguns instantes em silêncio. Perestrelo percebeu exatamente onde ela queria chegar. Cada um tinha de representar o seu papel. Isso significava que para defesa de ambos eles não se veriam até que o computador fosse entregue à judiciária. Dirigiu-se para casa com naturalidade. Retirou o computador da mochila e poisou-o sobre a mesa do escritório. Era um computador novo. «Estranho este computador não foi usado, o que significa que não deve ser o da jornalista.» Pensou. Ligou o computador, mas esbarrou num ecrã negro. Precisava de uma palavra chave para entrar. Apesar de saber que era um esforço inglório, tentou meia dúzia de alternativas, enquanto esperava que Gleber atendesse o telefone.

«Oi chefe o que manda?»

«Olá Gleber. Preciso que venhas ao meu escritório. Tenho um trabalho para ti.»

«Quando?»

«Já!»

Enquanto esperava foi testando a sua paciência e a resistência da negritude do ecrã. Fê-lo apenas para passar o tempo e consciente da inocuidade da tarefa, mas deixou-se absorver de tal forma que parecia estar numa realidade paralela. O toque da campainha trouxe-o de volta à realidade. Gleber apresentou-se no escritório com o sorriso bem-humorado. Tinha a boa disposição que carateriza a maioria dos brasileiros. Sob essa camada de superficialidade era um técnico de informático exímio. Aliás era muito mais do que isso: existiam poucos sistemas que resistiam à sua capacidade de os penetrar. Perestrelo tinha-lhe salvo a vida, mal ele tinha chegado do Brasil, fazia mais de vinte anos e isso tinha feito deles verdadeiros amigos.

«Isto não vai ser fácil.» Disse Gleber ao fim de meia hora.

«Tenho de entregar isso à judiciária amanhã de manhã e preciso de saber o que está lá dentro antes disso.»

«Roger!» Respondeu Gleber.

Às seis da tarde ligou-lhe o chefe da Mónica, intimando-o a entregar o computador. Nessa altura ele soube que tinha de desaparecer. Pegou em algumas coisas, encheu a mochila e saiu com o amigo.

Mónica e o chefe chegaram meia hora depois dele ter partido. Tocaram à porta de forma insistente, mas foi em vão. Mónica não quis usar a sua cópia da chave porque o chefe não tinha que saber que ela a possuía. Um vizinho abriu-lhes a porta e eles entraram no prédio. Quando tocaram à porta ninguém atendeu. Dirigiram-se à casa do vizinho que abriu a porta do prédio e ficaram a saber que Perestrelo tinha recebido uma visita e que pouco depois saíram os dois. O chefe da Mónica estava fora de si.

«Ele não me está a atender. Liga para ele do teu telefone.»

Mónica fez o que o chefe mandou, mas sem qualquer resultado. Quando chegou ao escritório reuniu-se com a sua equipa para perceber de que forma poderia punir Perestrelo. Ele tinha de perceber quais eram as suas obrigações. Infelizmente foi abrigado a concluir que podia fazer muito pouco. Perestrelo apenas era obrigado a entregar o computador no momento em que o mesmo passasse a constituir uma prova, para isso precisava primeiro de conhecer o seu conteúdo. Era exatamente isso que ele queria evitar.

Entretanto, já passava das onze da noite quando Gleber conseguiu desbloquear o computador.

«Já consegui entrar. Agora temos de ver se existem ficheiros que estejam também protegidos com senha.»

Por volta da uma da manhã, já eles tinham regressado ao escritório, Gleber tinha conseguido garantir o acesso a todos os ficheiros. Perestrelo ficou sozinho. Não tinha muito tempo para ver os ficheiros por isso teve uma ideia: copiou tudo para o disco e guardou-o. Na manhã seguinte dirigiu-se às instalações da polícia judiciária levando na mochila o computador e um relatório que tinha sido revisto pelo seu advogado. O chefe da Mónica recebeu, pessoalmente, o computador e o respetivo relatório.

«Importa-se de aguardar enquanto leio o seu relatório?»

Perestrelo sentou-se na poltrona e aguardou, pacientemente, que o outro lesse o documento.

«O senhor deveria ter vindo entregar o computador logo que o encontrou. Sabe que eu posso complicar-lhe muito a vida.»

«Tal como eu posso complicar a sua pelo facto de estar a ameaçar-me usando o seu poder de forma ilegal.»

O homem arregalou os olhos e engoliu em seco. Não estava à espera daquela reação, mas o pior de tudo é que era verdade. Tinha de ter cuidado com o que dizia àquele homem, senão ainda se podia voltar contra si.

«Bom. O senhor tinha obrigação de ter entregue logo o computador.»

«Eu não tinha nem tenho qualquer obrigação desse tipo. Para além disso neste caso concreto seria ridículo entregar-lhe um computador sem saber se existia alguma ligação com algum crime. Que eu saiba a judiciária não é um departamento de perdidos e achados.»

O homem ficou furioso. O detetive particular tinha sempre resposta para tudo. Era melhor mandá-lo embora e deixar Mónica lidar com ele.

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