UM PEQUENO ALMOÇO AMARGO

Aproximou o rosto do espelho, suportando o corpo com os braços, ancorados no lavatório. Estava com ar cansado e sem cor no rosto. «Porcaria de noite. Estou completamente de rastos!» Pensou. Voltou a sentir aquela indisposição subir por ele acima como uma trepadeira, estrangulando-o, num abraço mortífero. A mente ficou nublada e teve de se agarrar com força no lavatório para não cair. Sentou-se. Respirou fundo e libertou alguns gazes. A aflição passou e ele levantou-se.

«Precisamos de ir comer que eu estou a sentir-me fraco.» Disse para a esposa.

Os filhos ainda não estavam prontos e eles foram à frente. Pedro sentia-se fraco, mas acreditava piamente que ficaria melhor depois do pequeno almoço. Subiram a ladeira do dia anterior. No cimo da mesma existia um café e ele sugeriu que tomassem aí o pequeno almoço. Ainda não tinham percorrido mais de trinta metros quando sentiu que as pernas lhe falharam. A esposa tentou ampará-lo, mas foi completamente ineficaz. Quando deu por si estava sentado numa pedra que existia no passeio.

«Pedro! Estás bem Pedro. Por amor de Deus!» Gritava a esposa.

A única memória que tinha da queda era a dor intensa na nádega direita. Tinha sido um encontro violente! Não se recordava de ter caído. Isso significava que tinha perdido os sentidos, ainda que por um ou dois segundos. Amparado por ela levantou-se. Estava fraco e sentia-se enjoado. Sem saber como, arranjou forças para subir o resto da ladeira, apesar da inclinação desta. Foram várias a vezes que teve de buscar o apoio do muro que ficava à sua direita.  Manteve a mente focada no objetivo de chegar ao café, convicto de que depois de um bom pequeno almoço tudo ficaria melhor. Sentia-se de tal forma fraco que era como se tivesse um buraco no estômago.

A ladeira parecia não ter fim. Desta feita parecia muito mais inclinada que na véspera. Uma vez ou outra sentiu aquele maldito mal-estar começar a formar-se na boca do estômago, como se fosse uma tempestade. Nessas alturas endireitava-se e enchia o peito de ar. A técnica nem sempre funcionava na perfeição, mas com esforço e concentração conseguiu chegar ao cimo da ladeira. O café ficava mesmo ali. Faltavam-lhe apenas uns dez metros. Fez um esforço adicional e conseguiu chegar. Felizmente tinham uma mesa disponível e o serviço foi rápido. A garrafa de água foi a primeira coisa a chegar, logo seguida do sumo de laranja. A torrada e o galão vieram logo de seguida. Apesar de alimentado não sentiu as forças voltarem como esperava. Aquela aflição persistia em não o abandonar.

 «Não devíamos ter vindo para o Algarve. Tu estás muito cansado. Devíamos ter ficado em Lisboa.» Disse a esposa.

Os filhos já estavam com ele e abstiveram-se de se pronunciar. Pedro ponderou tudo o que tinha sentido e embora estivesse um pouco confuso sobre a razão de tudo aquilo, tinha uma opinião diferente.

«Eu não acho que isto seja cansaço, embora reconheça que esteja muito cansado.»

«Então o que é?» Perguntou o filho mais novo.

«Penso que se trata de qualquer problema ligado com o coração. A forma como sinto o mal-estar que me abraça o peito e sobe até à cabeça, deve estar relacionado com o sopro na aorta, que me foi diagnosticado, pelo médico do trabalho, no ano passado.»

Terminaram o pequeno almoço e ele ligou aos amigos para combinar o local de encontro. Partiriam da casa onde os amigos estavam hospedados. Era hora de irem buscar as coisas para irem para a praia. Pedro continuava a sentir-se inseguro, mas confiava que as coisas iriam melhorar. Abandonaram o café e ele preparou-se para enfrentar a descida. Caminhou pelo passeio, sentindo os passos um pouco inseguros, mas “a descer todos os santos ajudam” como diz o ditado. A ajuda foi bem precisa. Tinha percorrido aproximadamente dois terços do caminho quando ele sentiu um estremecimento e caiu de encontro ao muro. A esposa e os filhos amparam-no e, apesar dos seus protestos, obrigaram-no a sentar no muro. A esposa disse que ia ligar para o 115 e ele achou que era a decisão correta. Aquilo já tinha ultrapassado todos os limites e não ia passar nem com comida, nem com descanso. Sentia-se enjoado, fraco e baralhado. Pedro não estava acostumado a ser o ele mais fraco. Ele era o rochedo da família. Não adoecia e tinha uma forma física acima da média. Estar aquela situação, sobretudo sem saber a razão deixava-o muito desconfortável.

A esposa já estava ao telefone há mais de cinco minutos e não havia forma de conseguir uma ambulância. Os serviços de urgência não conseguiam decidir-se sobre se o caso devia ou não ser entregue ao INEM. Entretanto, um dos enfermeiros que a atendeu recomendou que Pedro se sentasse no chão e se mantivesse ali até à chegada da ambulância. Sentado no passeio ele era o alvo da curiosidade de todos os passantes. Preferia muito mais esperar sentado no apartamento, mas naquele momento não era ele que tomava as decisões. A dor de barriga apareceu sem aviso. Tinha uma vontade de defecar incontrolável.

«Tenho de ir a casa de banho!»

«Fica aí sentado!» Disse a esposa de forma autoritária.

Pedro não gostou da ideia, mas deixou-se estar. Quando a dor de barriga aumentou ele voltou a dizer:

«Vamos para o apartamento que eu preciso de defecar!»

O filho mais novo informou que sentia a mesma necessidade. Pedro levantou-se e pediu aos filhos que se colocassem um de cada lado.

«Vamos para o apertamento. Se eu cair vocês amparam-me.» Disse Pedro.

A esposa bem protestou, mas de nada adiantou. Pedro, embora sentisse que as pernas tinham dificuldade em segurá-lo, avançou o mais rápido que podia. Entretanto, a esposa continuava ao telefone e o enfermeiro ordenou à esposa que vigiasse Pedro todo o tempo, inclusive enquanto ele estava na casa de banho. Satisfeita a necessidade foi sentar-se numa cadeira, no jardim, onde aguardou pelo INEM. Foi uma espera longa e atormentada. Foram várias as vezes que perdeu os sentidos sentido o corpo ser percorrido por convulsões. Nessa altura ele já tinha percebido que havia algo de muito errado com ele. Estava a ter um ataque de uma natureza qualquer e a frequência do mesmo estava a aumentar de forma assustadora. Embora não soubesse, de forma exata, a natureza do que lhe estava a acontecer, estava convencido de que o problema estava relacionado com o coração.

A ambulância anunciou a sua chegada com a sinalização de emergência. Pedro sentiu-se temporariamente mais seguro: agora estava entregue a profissionais. Infelizmente estava prestes a perceber o quão longe da verdade estava.

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