O CORREDOR DA MORTE

O CORREDOR DA MORTE

Os técnicos do INEM, provavelmente enfermeiros, foram muito simpáticos e enquanto faziam o registo de Pedro, foram colocando algumas perguntas, relacionadas com a sua saúde. Sim era uma pessoa saudável. Fazia exercício, não fumava, não bebia, etc. Depois de lhe medirem a tensão e fazerem uma análise sanguínea rápida, concluíram que os valores apresentados eram normais, mas, quando viram, com os seus próprios olhos, as convulsões e depois Pedro ter explicado os sintomas dos ataques que o afligiam, eles apressaram-se e levá-lo para o hospital.

«Em Albufeira apenas existe um centro de saúde onde não têm técnicos nem equipamentos, para lhe fazer os exames de que necessita. Vamos levá-lo para o hospital de Faro. Está de acordo?» Disse um dos técnicos.

Pedro concordou e eles apressaram-se a tirá-lo dali. Levaram-no numa cadeira de rodas até à ambulância e depois colocaram-no numa maca, ligando-o a uma máquina, que ia monitorizando os batimentos cardíacos. Nessa altura Pedro tomou consciência, pela primeira vez, da gravidade do seu estado. O técnico que ia a seu lado, na ambulância, explicou-lhe que estava a ter síncopes que tanto podiam resultar de um traumatismo craniano, provocado pela queda do dia anterior, como de um problema coronário. Pedro não soube quanto tempo demoraram a chegar ao hospital, mas pareceu-lhe uma eternidade. Durante o percurso foram muito poucos os momentos em que teve alguma tranquilidade. As síncopes sucediam-se umas às outras, tendo perdido várias vezes os sentidos. Para tentar desdramatizar a situação foi falando com o técnico que ia a seu lado.

«As síncopes estão a aumentar de frequência e intensidade!»

«Sempre que experimentar uma, levante a mão esquerda.» Disse o técnico.

Pedro acenou com a cabeça, pois estava demasiado perturbado e numa aflição que o deixava com pouca vontade de falar. Estava enjoado e sentia tudo a andar à roda. Quando a coisa piorou ele manifestou-se.

«Isto está mesmo a piorar!» Disse Pedro.

O técnico acenou com a cabeça, confirmado que tinha noção do que se estava a passar e, entretanto, falou com o condutor, mas Pedro teve outra síncope e não percebeu o que ele disse.

«Os seus batimentos cardíacos estão com uma amplitude muito grande. Já atingiu um mínimo de vinte e quatro e um máximo de centro e trinta e oito.» Disse o técnico.

Pedro estava tão prostrado, indisposto, agoniado e ausente que não interiorizou a verdadeira consequência daquilo que o técnico lhe dizia. Entretanto, chegaram ao hospital e a maca foi retirada da ambulância sendo levado para a zona de espera da triagem. Pedro acompanhou o balançar da maca, ao sair da ambulância, com convulsões. Esperou alguns minutos, que lhe pareceram uma eternidade e durante os quais experimentou mais algumas síncopes. Apesar disso, não demorou muito a ser atendido. Os técnicos do INEM explicaram que ele estava a ter síncopes muito frequentes e relataram a queda do dia anterior. Depois do breve diálogo entre os técnicos e a médica da triagem, foi-lhe colocada uma pulseira amarela. Pedro estava consciente, tirando os momentos em que perdia os sentidos por breves instantes, mas experimentou uma sensação estranha. Havia momentos em que o que se passava à sua volta parecia um sonho ou um filme. Era como se as pessoas que o rodeavam estivessem numa outra dimensão.

Os técnicos do INEM despediram-se dele, de forma tranquilizadora.

«Não precisa de se preocupar com nada. Agora o senhor está bem entregue. Eles vão cuidar de si. As melhoras.»

«Obrigado.» Balbuciou Pedro.

Pedro estava verdadeiramente agradecido por ter chegado até li com vida. Entretanto, alguém empurrou a sua maca ao longo de um corredor, onde já estavam várias outras e ele foi deixado no fim da fila. A posição de deitado era bastante perturbadora e desconfortável. As convulsões começaram a acontecer com maior frequência e a prolongar-se por mais tempo. Foi nessa altura que ele começou a ter consciência de que tinha lapsos de tempo em que ficava completamente ausente: estava a ter percas de sentidos prolongadas! Olhou para a pulseira que lhe tinha sido atribuída e imaginou o tamanho da fila de macas que estava no corredor. Ele era o último! Passaram-lhe pela cabeça as histórias de pessoas que passavam horas à espera, em macas, nos corredores dos hospitais, até serem atendidas. O problema é que ele não tinha essas horas todas para usar num processo de espera. Era bem possível que morresse antes de ser atendido, se isso não acontecesse rapidamente. O pensamento foi interrompido por uma síncope violenta em que ele sentiu o corpo a saltar em cima da maca, tal foi a violência das convulsões: perdeu os sentidos. Por breves instantes esteve noutro lado qualquer.

Abriu os olhos e ainda estava no corredor do hospital. O pensamento ocorreu-lhe sem que tivesse feito qualquer esforço para o convocar. «Vou morrer aqui neste corredor.» Uma lágrima escorreu-lhe pelo canto externo do olho direito. «Porquê apenas o olho direito?» Interrogou-se. Fez o balanço da vida. Pensou na mulher, nos filhos, nos amigos, nos pais e nos irmãos. Pensou em tantas coisas que nem sabia como mencioná-las ou ordená-las. Tinha sido uma pessoa afortunada. Tinha tido uma vida preenchida e, apesar dos momentos de infelicidade e dos reveses, o balanço era positivo. Fazia aquilo que gostava em termos profissionais. Tinha-se dedicado ao ensino e a escrever, o que sempre tinha sido um sonho. Podia dizer que tinha sido um homem feliz. «O que é a felicidade?» Interrogou-se. «Isso agora pouco importa. Eu vou morrer aqui!» Entregou-se a esse pensamento, sem tristeza, sem amargura e sem drama: apenas com resignação. Surpreendentemente morrer não era assim tão mau. «Como será depois da morte?» Pensou.

As enfermeiras, médicas e técnicas passavam a seu lado atarefadas, mas indiferentes ao seu estado. Tinham outras prioridades! Fixou o olhar na mulher vestida de verde que se aproximava com passos largos e ocorreu-lhe um pensamento com uma intensidade que não conseguiu controlar. «Eu não posso morrer: ainda tenho tantas coisas para fazer!» Quando ela ia a passar por ele, estendeu o braço e tocou-lhe.

«Diga por favor!»

«As síncopes, desde que me colocaram aqui, estão a aumentar de intensidade e frequência. Se não fizerem nada eu vou morrer nesta maca.» Disse de forma tranquila.

Não sabia se estava a falar com uma médica ou com uma enfermeira. Mas gostou da forma bondosa como ela olhou para ele. Uma nova síncope fez com que não percebesse nada do que ela disse. Quando abriu os olhos ela tinha-se afastado e voltou um pouco depois com uma pulseira cor de laranja. Entretanto, uma técnica veio ter com ele e fez-lhe um ECG. Pedro ainda sentiu colocarem-lhe os conectores para os elétrodos, mas desmaiou novamente e quando acordou apenas ouviu o diálogo entre a médica, que lhe tinha mudado a pulseira (a técnica do ECG tratou-a por Dra.) e a técnica do ECG.

«Tem um bloqueio bem visível. Veja Dra. Está aqui.»

A médica empurrou a maca, sem hesitação e passados alguns segundos estava dentro UCI das urgências. Foi rodeado por enfermeiras e médicos, embora não tivesse bem a certeza da natureza das profissões destes, pois estava um pouco baralhado. O seu peito ficou cheio de conectores e ligaram-no a vários equipamentos. Começou a sentir choques elétricos que, pelo que percebeu, eram destinados a estimular o coração a funcionar, sempre que este se recusava a fazê-lo sozinho. Nessa altura apareceu alguém a perguntar por ele, pois tinha que ir fazer um TAC à cabeça. O médico responsável pela urgência perguntou quem tinha pedido TAC, mas o homem não soube responder.

«Não sei quem pediu esse exame, mas este doente só sai daqui para ir para o bloco operatório de cardiologia. Depois disso, podem fazer-lhe os exames que entenderem!» Disse o médico de forma perentória.

Entretanto, explicaram-lhe que tinha um bloqueio no campo elétrico do coração, pelo que teria de levar um pacemaker. No imediato, iriam instalar-lhe um provisório e, depois de ficar em observação e de lhe fazerem outros exames complementares, decidiriam se levaria ou não um pacemaker definitivo.

«Fique tranquilo que o problema foi detetado a tempo e vai ser resolvido, sem consequências.»

A médica que lhe tinha mudado a pulseira também veio ter com ele.

«Afinal ainda não é desta que vai morrer. Fique tranquilo que vamos resolver o problema.» Disse ela com um sorriso.

«Obrigado.» Disse Pedro com o melhor sorriso que conseguia fazer.

Afinal havia esperança!

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