A JORNALISTA | PARTE VIII | CAPÍTULO 3

O Dojo

As três horas de viagem passaram com rapidez. Tinha aprendido a relaxar a mente e o corpo e isso ajudou a tornar a viagem mais agradável. Fez uso do seu sotaque britânico e rapidamente foi considerado como tal. Era a nacionalidade mais comum por aquelas bandas, no que dizia respeito aos turistas. O mensageiro deu-lhe as boas-vindas, pegou nas malas e conduziu-o ao elevador. Perestrelo sentiu o telefone vibrar no bolso. Tinha de atender aquela chamada, pois já era a terceira vez que o amigo lhe ligava. Quando começou a falar o mensageiro levantou a cabeça e arregalou os olhos.

«O senhor fala muito bem português.» Disse o mensageiro, quando ele terminou a chamada, num português algo macarrónico.

«Eu sou Português!»

«A sua pronúncia britânica é impecável. Todos o tomámos por um súbdito de sua majestade.»

Perestrelo sorriu. Era sempre assim. Ele não fazia de propósito. O inglês era a sua segunda língua e como não estava à espera de encontrar alguém que falasse português, não lhe restava outra opção. O mensageiro era mais um Goês com ascendência Portuguesa e que tinha tido a curiosidade de aprender um pouco da língua. O facto de falarem a mesma língua aproximou-os e falaram animadamente até chegar ao quarto. O jovem recomendou-lhe um Dojo, que era o maior de Goa e que, para além das artes marciais, tinha massagens e tratamento corporal. O programa mais adequado era o de sete semanas. Os treinos começavam às sete da manhã e prolongavam-se até às onze da noite. Os que se inscreviam neste programa ficavam a residir num quarto por cima do Dojo.

«Tenho uma amiga que costumava ficar neste hotel longos períodos. Chama-se Anne Kearey Badour. Alguma vez a viu por aqui?»

Quando ouviu aquele nome o jovem ficou sério e desapareceu dali alegando que tinha outras coisas para fazer. Perestrelo percebeu o seu constrangimento e o sexto sentido disse-lhe que tinha de ter cuidado. O nome de Anne tinha desencadeado uma reação um pouco estranha: medo. Talvez ele também devesse recear que algo lhe pudesse acontecer.

Depois do jantar decidiu dar uma volta pelos arredores. A determinada altura teve a clara sensação de que estava a ser seguido. Acelerou o passo e a sombra manteve a distância: não queria perdê-lo de vista. De súbito Perestrelo virou-se e começou a correr em direção à pessoa que o seguia. Ela desapareceu dentro de uma loja e ele não mais lhe pôs a vista em cima. Pela silhueta, pôde ver que era uma mulher de estatura elevada. Isso eliminava a possibilidade de ser a Anne. Associou a pessoa à Maria Eduarda, talvez porque a Mónica lhe tinha dito que ela se tinha ausentado fazia dois dias. Quando regressou ao hotel tinha uma surpresa. Alguém lhe tinha deixado um envelope na receção. Os funcionários não souberam dizer quem tinha deixado o envelope, por isso decidiu abri-lo apenas no quarto. Lá dentro estava um desdobrável com publicidade de um Dojo. Quem lhe teria enviado aquela “sugestão”. O dojo era diferente do sugerido pelo mensageiro do hotel, mas, ele não era o único a saber que procurava um dojo. Tinha dito isso alto e bom som na receção onde estavam vários funcionários e clientes. Decidiu ler o desdobrável para ficar a conhecer o Dojo. Ao olhar para uma das fotografias centrais o coração bateu-lhe acelerado. Foi buscar uma lupa para ampliar a imagem. Não havia dúvida. Era a Anne. Ele apenas tinha falado de Anne a duas pessoas: o mensageiro e a massagista do SwaSwara. Pensando bem a conversa com ela tinha sido em público. Será que já estava a ser seguido há mais tempo? Ele não estava em Portugal, onde podia jogar ao rato e ao gato, de forma descontraída. Ali o jogo podia tornar-se perigoso! No dia seguinte inscreveu-se naquele Dojo. Eles também ofereciam um programa de sete semanas. Iam busca-lo ao hotel, todos os dias às seis da manhã e traziam-no de volta às vinte horas. Apenas jantava no hotel e depois caía na cama e dormia como um anjo. As primeiras duas semanas serviram para se integrar e aproveitou todos os momentos para recuperar, pois o exercício era muito exigente, sobretudo na hora de mais calor.

O grupo de vinte pessoas, era constituído sobretudo de turistas jovens e dois locais. Ele era o mais velho de todos. No início estranharam a sua presença, mas depois de saberem qual era a sua profissão todos entenderam a necessidade do curso.

«Para além das artes marciais que outras atividades existem?» Perguntou Perestrelo.

O supervisor dos empregados que lhes serviam as refeições olhou para ele de forma estranha.

«Existe um spa completo, onde se podem fazer tratamentos de pele e massagens de vários tipos.»

O ênfase que o homem deu à expressão “vários tipos” fê-lo sorrir. O homem fez a sua própria interpretação desse sorriso. Nos intervalos e durante as refeições ele andava sempre por ali, interagindo com todos e ouvindo as conversas de uns e de outros.

«O senhor é o amigo da Anne Kodiat, não é?

«Sim.» Respondeu Perestrelo com cautela.

«Ela gostava de um tratamento especial…»

O homem deixou a afirmação no ar, mas Perestrelo não percebeu muito bem o que ele pretendia.

«Vou apresentar-lhe a massagista preferida dela e você logo decide o tipo de massagem que quer.»

Perestrelo assentiu com a cabeça. Não sabia muito bem o que esperar, mas apenas falando com todas as pessoas que contactaram com Anne ele podia encontrar o fio à meada.

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