A VAMPIRA DE SERVIÇO

A VAMPIRA DE SERVIÇO

A alcunha de vampira tinha surgido de forma subitânea. Era o resultado de uma conjugação improvável: os factos e os tempos. A ideia que fazia dela era resultado de pequenas notas e comentários, ouvidos em surdina e à socapa. Ninguém queria assumir que a sensualidade que semeava se transformava em puro desejo. As mãos de seda tinham-lhe granjeado fama e a forma suave e delicada como as usava, deixava uma esteira de satisfação e entusiasmo. Por tudo isso, ele tinha criado uma espectativa elevada para o encontro.

Levantou a cabeça do telemóvel o os seus olhos fixaram-se de imediato na mulher. Ficou preso, hipnotizado! A morena, de corpo elegante e bem torneado, devia ter um metro e setenta de altura, mas os vistosos sapatos, de salto alto, colocavam-na perto do metro e oitenta. A mala, preta, a tiracolo, combinava com os sapatos e realçava a beleza e elegância do vestido floral. A tez morena, acentuada pela melanina, cultivada pelo sol de verão, combinava, na perfeição, com a cor do vestido. O rosto longo, com maças ligeiramente salientes, era enfeitado por um sorriso deslumbrante, um nariz perfeito e uns olhos verdes, que brilhavam como duas esmeraldas. Tiago abriu e fechou a boca várias vezes. Maria movia-se com uma sensualidade e elegância que o pensamento o assaltou sem qualquer aviso «Meus Deus, isto sim é uma vampira… E que vampira!» O conjunto era verdadeiramente devastador.

Ela sorriu. Tiago percebeu que se ria da sua expressão e tentou alguma compostura, mas era tarde demais… A máscara ofuscou-lhe o brilho e Tiago voltou ao telemóvel, esperando pacientemente que o chamassem. Mentalmente tentou imaginar como seria a Vampira e o seu pensamento voou para a mulher que tinha acabado de entrar no edifício. Se a Vampira fosse metade dela teria valido a pena a espera. Tinham-lhe prometido um atendimento rápido e exclusivo, mas a realidade era um pouco diferente. Ele ansiava por sentir o toque da Vampira e, à medida que o tempo passava, a ansiedade ia aumentando. Focou-se de tal forma no assunto que estava excitado. «Tenho de ter cuidado, para não dar muito nas vistas!» Pensou.

«Tiago Monteiro!»

Era a sua vez.  Parou à entrada da porta incapaz de entrar. Foi invadido por um tumulto de sentimentos e emoções que o esmagaram.  A Vampira e a mulher que tinha visto entrar no edifício, eram a mesma pessoa. Sentiu vergonha da figura que fez na rua e a que estava a fazer agora não era melhor.

«Pode entrar que eu não mordo!» Disse a mulher.

A máscara sobre o rosto realçava a intensidade do olhar dela. Era bem visível que se estava a divertir com o embaraço dele. Tiago ficou completamente perdido sem saber o que fazer. Só de imaginar que era aquela mulher que o ia tocar ficou a tremer. A pergunta saiu-lhe sem filtro e sem sequer pensar bem sobre o assunto.

«Devo tirar a camisa ou despir-me?»

A mulher não se conteve e soltou uma gargalhada. Ele ficou com cara de parvo a olhar para ela. Ainda bem que estavam de máscara, pois o rubor tornou-lhe as faces escarlate. Finalmente ela conseguiu parar de rir e o seu olhar tornou-se sério, mas zombeteiro.

«Apenas preciso de um dos seus dedos, de preferência o anelar.»

«Como?»

Tiago estava completamente baralhado. Que teste era aquele?

«Mas que raio de exame é este?»

«E um teste rápido para o COVID-19.»

Quando ela lhe segurou o dedo e o picou, extraindo, em seguida, umas gotas de sangue e colocando-as no dispositivo, ele percebeu tudo.  O toque dela era efetivamente delicado e suave. Ela sugou o sangue, com o tubinho, depositando-o, com precisão, no dispositivo e essa era a razão de ser conhecida como Vampira.

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