SÍNCOPE – UMA HISTÓRIA NA PRIMEIRA PESSOA

1 – ANTECEDENTES

Era um dia como outro qualquer. O escritório estava praticamente vazio e os últimos resistentes preparavam-se para entrar de férias. Caberia aos regressados assegurar os serviços mínimos, nas semanas seguintes. Pedro estava desejoso do merecido repouso e congratulou-se com o facto de faltar apenas uma semana e meia. Aquela impressão horrorosa nasceu-lhe na boca do estômago e subiu por ele acima, turvando-lhe a vista e toldando-lhe a mente. Era como se estivesse em vias de perder os sentidos. Levantou-se de imediato e deu uns passos no escritório, para afastar a má disposição. Sentia-se cansado, o que era normal depois de um ano de trabalho e um fecho de contas atípico: Foi tudo feito à distância, tendo sido uma experiência enriquecedora, mas muito cansativa. «Estou mesmo a precisar de férias e ainda por cima devo estar meio constipado!» Pensou. Era normal, quando ficava um pouco engripado, sentir umas tonturas, sendo que quando fechava os olhos o mundo rodopiava até ao ponto de o deixar enjoado.

Sentou-se e respirou fundo. Tinha de controlar aquele mal-estar pois estava a meio da manhã e o dia prometia ser longo. Mal se sentou a indisposição voltou outra vez. O corpo saltou como uma mola e voltou a dar uns passos pelo escritório. Foi até à copa e pegou num copo de água. Era uma sensação horrível. Muito pior que as tonturas que costumava ter. Apesar disso, associou tudo à mesma coisa e sentou-se novamente. O resto do dia decorreu de forma normal, o que acabou por tranquiliza-lo.

Depois do jantar teve que trabalhar um pouco, mas não conseguiu fazer muita coisa. O cansaço acabou por levar a melhor e quase ia adormecendo em cima do computador. Depois e várias tentativas falhadas, para produzir alguma coisa, deitou a toalha ao chão e foi dormir. Levantou-se cedo e passou setenta e cinco minutos a fazer exercício. O corpo correspondeu sem problemas, apesar do cansaço da noite anterior. Bastou um  banho, seguido de um bom pequeno almoço e estava pronto para mais um dia de trabalho. Os cinco pisos de escada que separavam o estacionamento da rua custaram-lhe um pouco mais a subir. Estava mesmo a precisar de férias! Eram apenas oito e vinte e cinco e o escritório estava vazio. Era normal ser o primeiro a chegar, por isso nem pensou no assunto. Ligou o computador e preparou-se para mais um dia de trabalho.

A manhã passou a correr e quando deu por si eram horas de almoçar. Foi uma refeição curta e pouco satisfatória. A sopa parecia argamassa de tão espessa e o Bacalhau à Brás estava seco e em pequenos blocos. Paciência: tinha de comer! Ao fim de vinte e cinco minutos estava a sair do restaurante. Pegou no telemóvel, marcou o início da caminhada e saiu em passo rápido. Passou pela farmácia e comprou uns escovilhões, pois o seu stock tinha-se esgotado. Aproveitou a sombra do lado direito da rua, pois o calor apertava e fez o percurso habitual. O quarteirão do Instituto Superior Técnico estava quase vencido quando sentiu outra vez aquela indisposição. Encostou-se à parede para não cair desamparado, mas quando deu por si estava às cabeçadas ao chão. Lembrava-se perfeitamente de ter perdido as forças e da sua cabeça o puxar para baixo de forma inexorável. Isso significava que não tinha perdido os sentidos! O que não percebia era a razão por ter dado várias cabeçadas no passeio. Quando recuperou o controlo estava de joelhos no chão e com o sobrolho aberto. Antes de ter conseguido realizar completamente aquilo que lhe tinha acontecido, ouviu chamar do outro lado da rua. O condutor do único automóvel que ali passava parou e perguntou se ele precisava de ajuda. Pedro não sabia bem o que responder. Estava baralhado e ainda não tinha encontrado respostas para as suas próprias interrogações.

«Não obrigado.» Acabou por balbuciar.

O seu ar baralhado dizia o contrário. O homem aproximou-se de si e quando o viu todo sujo de sangue, foi buscar uma garrafa de água e despejou-a sobre as mãos de Pedro. Sentia-se fraco, mas capaz de andar, pelo menos até à próxima farmácia. Disse isso mesmo ao brasileiro que o tinha ajudado e ao outro homem, que entretanto tinha parado e perguntado se estava bem. Um jovem estudante que ia para o Técnico acompanhou-o durante uma parte do percurso e foi falando com ele. Seguiu sozinho e quando chegou ao fim do quarteirão apercebeu-se que não tinha os escovilhões consigo. Hesitou sobre a decisão a tomar, mas acabou por voltar para trás e recuperou-os. Sentia-se cansado, embora não percebesse bem porquê. A razão para aquilo tudo escapava-lhe, deixando-o intrigado. Caminhou apressado e apreensivo até à farmácia. Um dos farmacêuticos mediu-lhe a tensão: estava com treze – dez. Limparam-lhe o sangue e desinfetaram-lhe a ferida. Pedro agradeceu e foi para o escritório. Continuava baralhado sobre aquilo que lhe tinha acontecido, mas apesar de se sentir fraco estava tranquilo. Ligou para a esposa informando-a do que tinha acontecido e, tal como o farmacêutico, foram todos unânimes em considerar que a queda se devia ao calor.

Depois de ir à casa de banho lavar o rosto, sentou-se, recostou-se para trás e fechou os olhos. Quando fez isso sentiu um ligeiro mal-estar. Abriu os olhos e respirou fundo. «Esta maldita constipação!» Pensou. Foi buscar água e sentou-se novamente. Não estava muito bem disposto e sentia-se cansado. O único membro da sua equipa, que estava a trabalhar na altura, chegou pouco depois.

«Já estás de volta? Hoje o passeio foi curto.» Perguntou ela.

Ele acenou afirmativamente a cabeça sem abrir a boca.

«Estás um pouco pálido! O que se passa?»

«É tudo o que consegues ver?» Perguntou Pedro.

À medida que fazia a pergunta virou-se de perfil e ela viu o rosto dele ainda manchado de sangue, bem como o sobrolho que lacrimejava em tom vermelho.

«O que é que te aconteceu?»  Perguntou ela, com ar preocupado.

Depois de lhe limpar o rosto dos últimos vestígios de sangue, tentou estancar o sobrolho, o melhor que sabia. Por mais que tentasse o sobrolho não parava de sangrar. Para complicar as coisas Pedro não ficava quieto. A verdade é que não conseguia ficar de cabeça inclinada para trás sem sentir aquela aflição. Ele estava em fase de negação. Não estava bem mas não o queria reconhecer. Ela quando viu que não conseguia estancar o sangue, foi até à farmácia, comprou um spray e aplicou-lho no sobrolho. Isso selou a ferida.

«Devias ir ao hospital!»

«Isto não é nada.» Ripostou ele.

«Eu levo-te lá e depois um dos teus filhos vem buscar o carro.»

«Não. Vamos primeiro ver se o spray faz estancar o sangue. Se assim for não vou a lado nenhum.»

Ela acabou por concordar com ele. A ferida parecia superficial, mas sendo no sobrolho sangrava sempre mais do que noutra parte do corpo. Às dezassete horas ele foi para casa, pois tinha programa para o fim de semana. Estava debilitado, mas quando se sentou atrás do volante sentiu-se com forças e tranquilo. Nessa altura a ferida estava selada e parecia ser apenas isso mesmo: uma ferida.

2 – O FIM DE SEMANA

Sentado atrás do volante pensou novamente no assunto. Doíam-lhe a testa e o rosto, onde as marcas das pancadas eram testemunhas silenciosas do evento da tarde. «Será que tive convulsões?» Interrogou-se. A imagem dele próprio às cabeçadas à calçada, sem se conseguir controlar, não lhe saía da cabeça. Se tinha tido convulsões isso podia se sintoma de uma coisa mais grave do que uma insolação. Naquele momento, estava calmo e sentia-se capaz de enfrentar a viagem, mas a dúvida sobre o que efetivamente tinha acontecido atormentava-o. Estacionou o carro na garagem de casa e subiu. Os filhos estavam à sua espera e a mulher não tardaria a chegar também. Começaram a levar as malas para o carro e a primeira dúvida assaltou-o. Estava ligeiramente enjoado e custava-lhe mais do que o normal a carregar as malas. «Se for necessário um deles pode conduzir.» Disse para consigo próprio.

A esposa olhou-o com preocupação, mas não deu muita relevância ao corte do sobrolho. A coisa estava controlada e Pedro era uma força da natureza. Sentou-se novamente atrás do volante e esqueceu tudo. Tinha água e comeu alguma coisa e isso, normalmente, era suficiente. Por volta das dez horas deveriam estar no Algarve e poderiam jantar tranquilamente. A viagem decorreu sem novidade e, apesar do cansaço, chegaram ao destino sem nenhum percalço. O GPS levou-os até ao apartamento sem dificuldade, mas, quando estacionaram, Pedro começou a sentir os efeitos do cansaço. Estava meio enjoado e começou a ter algumas tonturas. Quando entraram no apartamento a coisa piorou. Parecia que o calor aumentava o mal-estar. Nessa altura insistiu para irem jantar. O cansaço e a falta de alimento estavam a deixá-lo irritadiço e o calor abafado que se fazia sentir no apartamento apenas piorava as coisas. Abriram as janelas, mas a aragem da noite, apesar de fresca, não teve um impacto imediato na temperatura do espaço.

Decidiram ir procurar um local para jantar, deixando o carro no parque de estacionamento. Nessa altura, Pedro começou a experimentar fortes enjoos, mas atribuiu tudo ao cansaço e à constipação: decidiu tomar um ben-u-ron. Os enjoos continuaram, mas ele sabia, por experiência própria, que se anulasse a constipação os enjoos também passariam. De qualquer forma tudo seria ultrapassado com uma boa noite de sono. O caminho era a subir e a ladeira parecia nunca mais acabar. Sentia-se cansado, por isso, forçou a entrada no primeiro restaurante que encontraram. Infelizmente este apenas tinha mesas livres no interior o que os privou de usufruírem do ar fresco da noite, que parecia ter sobre ele um efeito calmante. O restaurante estava muito quente o que tornava o seu interior ainda mais desconfortável. Depois de se sentarem, Pedro começou a sentir calor e isso aumentou a sensação de enjoo e desconforto. «Espero que sejam rápidos a servir o jantar!» Pensou.

Assim que trouxeram as entradas procurou comer logo qualquer coisa, abusando do pão e das azeitonas. Precisava urgentemente de colocar algo no estômago, para que o organismo reagisse. A cozinha era lenta e demoraram quase duas horas a trazer o jantar. Para cúmulo a refeição não era nada de especial: a qualidade dos ingredientes deixava algo a desejar, mas a confeção era definitivamente muito pobre. Apesar disso, engoliram a comida e ele, no fim, pediu um gelado. Precisava de se refrescar e de recarregar as energias. Pedro estava cada vez mais indisposto e fez um esforço enorme para não vomitar. Não queria estragar o fim-de-semana à família, por isso guardou para si a indisposição e o mal-estar. Tentou ingerir a maior quantidade de comida possível, pois sabia que ia precisar dessas energias e contava com uma noite de sono reparador, para o deixar como novo. Animava-se assim, a si próprio, embora aquele mal-estar lhe desse poucas tréguas. Nunca anteriormente uma constipação o tinha deixado tão indisposto. A aflição que subia por ele acima era semelhante à que tinha sentido, após o almoço, quando caiu. Estava verdadeiramente indisposto! Veio-lhe à memória aquela vez em que desmaiou no avião, numa viagem entre Havana e Madrid. Dessa vez fora o cansaço que o derrubara, por isso era tão vital que se alimentasse. Finalmente, chegou a conta e eles apressaram-se a ir para o exterior.

Apesar do cansaço, Pedro não quis ir diretamente para o apartamento. O fresco da noite acalmava-o e a perspetiva de enfrentar o calor do apartamento não lhe agradava. Depois de uma pequena inspeção, para localizar o restaurante que lhes tinham recomendado e onde não tinham jantado, desceram para o apartamento.

«Vamos dar uma volta até à praia.» Disse Pedro, quando chegaram à porta do aldeamento.

Os filhos não quiseram acompanhá-los e eles foram sozinhos. As pernas de Pedro pareciam não ter a capacidade de segurá-lo de pé e ele fez um esfoço para se manter direito. Racionalizou a coisa e disse para consigo próprio. «Não vais deixar que umas tonturas sem importância e o cansaço se intrometam no teu caminho.» Respirou fundo e avançou. Sempre que podia procurava o apoio de um pilarete, da vedação da praia ou do muro do caminho. Depois de quinze minutos de passeio pensou: «Talvez seja melhor ir dormir.» Deu mais alguns passos pelo miradouro da praia e tomou uma decisão.

«Vamos dormir que eu estou mesmo muito cansado.» Disse para a esposa.

Nessa altura ele sentia-se cansado e indisposto, mas acreditava que uma boa noite de sono o curaria. O calor do apartamento trouxe novamente tudo! Tomou mais um ben-u-ron e foi dormir. Deixou a janela aberta e a veneziana corrida, mas com as palhetas direitas, para que o ar entrasse livremente. Deitou-se, mas teve alguma dificuldade em adormecer. O cansaço e o facto de se ter deitado no lado errado da cama, não facilitaram o processo. O quarto andava à roda e ele teve de se controlar para não vomitar. Voltou a praguejar: «Maldita constipação!» Finalmente, conseguiu adormecer. Ainda estava a tempo de ter o fim de semana que tinha planeado. No dia a seguir iria encontrar-se com uma parte substancial do grupo da neve e, a uma tarde de praia, seguir-se-ia uma bela churrascada. 

As coisas não correram exatamente como tinha planeado. Dormiu muito mal. Primeiro foi o calor depois foram as gaivotas. Mal começou a amanhecer elas começaram o frenesim. Pedro não fazia ideia do que as trouxe para terra, mas elas pareciam estar ali mesmo, em cima dele, fazendo um barulho infernal. Estavam em Albufeira, mesmo frente à praia da Oura. A localização era privilegiada, mas nessa madrugada tornou-se uma desvantagem: as gaivotas encarregaram-se disso.

De nada adiantou fecharem a janela. Quando concluíram que não conseguiam dormir decidiram levantar-se. Pedro percebeu logo que a noite não tinha dado o contributo que esperava dela, para a sua recuperação. Dirigiu-se para a casa de banho com algum esforço. Precisava de aliviar o intestino e libertar alguns gases. Isso, normalmente, ajudava a aliviar a indisposição. A parede amparou-o, com a ajuda das mãos, sempre que as pernas vacilaram. O mundo andava à roda e ele sentia-se fraco e maldisposto. A mente associou o estado do corpo ao cansaço e à falta de alimento: Tinha de tomar o pequeno almoço.

3 – UM PEQUENO ALMOÇO AMARGO

Aproximou o rosto do espelho, suportando o corpo com os braços, ancorados no lavatório. Estava com ar cansado e sem cor no rosto. «Porcaria de noite. Estou completamente de rastos!» Pensou. Voltou a sentir aquela indisposição subir por ele acima como uma trepadeira, estrangulando-o, num abraço mortífero. A mente ficou nublada e teve de se agarrar com força no lavatório para não cair. Sentou-se. Respirou fundo e libertou alguns gazes. A aflição passou e ele levantou-se.

«Precisamos de ir comer que eu estou a sentir-me fraco.» Disse para a esposa.

Os filhos ainda não estavam prontos e eles foram à frente. Pedro sentia-se fraco, mas acreditava piamente que ficaria melhor depois do pequeno almoço. Subiram a ladeira do dia anterior. No cimo da mesma existia um café e ele sugeriu que tomassem aí o pequeno almoço. Ainda não tinham percorrido mais de trinta metros quando sentiu que as pernas lhe falharam. A esposa tentou ampará-lo, mas foi completamente ineficaz. Quando deu por si estava sentado numa pedra que existia no passeio.

«Pedro! Estás bem Pedro. Por amor de Deus!» Gritava a esposa.

A única memória que tinha da queda era a dor intensa na nádega direita. Tinha sido um encontro violento! Não se recordava de ter caído. Isso significava que tinha perdido os sentidos, ainda que por um ou dois segundos. Amparado por ela levantou-se. Estava fraco e sentia-se enjoado. Sem saber como, arranjou forças para subir o resto da ladeira, apesar da inclinação desta. Foram várias a vezes que teve de buscar o apoio do muro que ficava à sua direita.  Manteve a mente focada no objetivo de chegar ao café, convicto de que depois de um bom pequeno almoço tudo ficaria melhor. Sentia-se de tal forma fraco que era como se tivesse um buraco no estômago que lhe dividia o corpo em dois.

A ladeira parecia não ter fim. Desta feita parecia muito mais inclinada que na véspera. Uma vez ou outra sentiu aquele maldito mal-estar começar a formar-se na boca do estômago, como se fosse uma tempestade. Nessas alturas endireitava-se e enchia o peito de ar. A técnica nem sempre funcionava na perfeição, mas com esforço e concentração conseguiu chegar ao cimo da ladeira. O café ficava mesmo ali. Faltavam-lhe apenas uns dez metros. Fez um esforço adicional e conseguiu chegar. Felizmente tinham uma mesa disponível e o serviço foi rápido. A garrafa de água foi a primeira coisa a chegar, logo seguida do sumo de laranja. A torrada e o galão vieram logo de seguida. Apesar de alimentado não sentiu as forças voltarem como esperava. Aquela aflição persistia em não o abandonar.

 «Não devíamos ter vindo para o Algarve. Tu estás muito cansado. Devíamos ter ficado em Lisboa.» Disse a esposa.

Os filhos já estavam com ele e abstiveram-se de se pronunciar. Pedro ponderou tudo o que tinha sentido e embora estivesse um pouco confuso sobre a razão de tudo aquilo, tinha uma opinião diferente.

«Eu não acho que isto seja cansaço, embora reconheça que esteja muito cansado.»

«Então o que é?» Perguntou o filho mais novo.

«Penso que se trata de qualquer problema ligado com o coração. A forma como sinto o mal-estar que me abraça o peito e sobe até à cabeça, deve estar relacionado com o sopro na aorta, que me foi diagnosticado, pelo médico do trabalho, no ano passado.»

Terminaram o pequeno almoço e ele ligou aos amigos para combinar o local de encontro. Partiriam da casa onde os amigos estavam hospedados. Era hora de irem buscar as coisas para irem para a praia. Pedro continuava a sentir-se inseguro, mas confiava que as coisas iriam melhorar. Abandonaram o café e ele preparou-se para enfrentar a descida. Caminhou pelo passeio, sentindo os passos um pouco inseguros, mas “a descer todos os santos ajudam” como diz o ditado. A ajuda foi bem precisa. Tinha percorrido aproximadamente dois terços do caminho quando sentiu um estremecimento e caiu de encontro ao muro. A esposa e os filhos amparam-no e, apesar dos seus protestos, obrigaram-no a sentar-se no muro. A esposa disse que ia ligar para o 115 e ele achou que era a decisão correta. Aquilo já tinha ultrapassado todos os limites e não ia passar nem com comida, nem com descanso. Sentia-se enjoado, fraco e baralhado. Pedro não estava acostumado a ser o ele mais fraco. Ele era o rochedo da família! Não adoecia e tinha uma forma física acima da média. Estar aquela situação, sobretudo sem saber a razão, deixava-o muito desconfortável.

A esposa já estava ao telefone há mais de cinco minutos e não havia forma de conseguir uma ambulância. Os serviços de urgência não conseguiam decidir-se sobre se o caso devia ou não ser entregue ao INEM e ela andava de Herodes para Pilatos, sem lhe darem uma solução. Entretanto, um dos enfermeiros que a atendeu recomendou que Pedro se sentasse no chão e se mantivesse ali até à chegada da ambulância. Sentado no passeio ele era o alvo da curiosidade de todos os passantes. Preferia muito mais esperar sentado no apartamento, mas naquele momento não era ele que tomava as decisões. A dor de barriga apareceu sem aviso. Tinha uma vontade de defecar incontrolável.

«Tenho de ir a casa de banho!»

«Fica aí sentado!» Disse a esposa de forma autoritária.

Pedro não gostou da ideia, mas deixou-se estar. Quando a dor de barriga aumentou ele voltou a dizer:

«Vamos para o apartamento que eu preciso de defecar!»

O filho mais novo informou que sentia a mesma necessidade. Pedro levantou-se e pediu aos filhos que se colocassem um de cada lado.

«Vamos para o apertamento. Se eu cair vocês amparam-me.» Disse Pedro.

A esposa bem protestou, mas de nada adiantou. Pedro, embora sentisse que as pernas tinham dificuldade em segurá-lo, avançou o mais rápido que podia. Entretanto, a esposa continuava ao telefone e o enfermeiro ordenou à esposa que vigiasse Pedro todo o tempo, inclusive enquanto ele estava na casa de banho. Satisfeita a necessidade foi sentar-se numa cadeira, no jardim, onde aguardou pelo INEM. Foi uma espera longa e atormentada. Foram várias as vezes que perdeu os sentidos, sentindo o corpo ser percorrido por convulsões. Nessa altura ele já tinha percebido que havia algo de muito errado com ele. Estava a ter um ataque de uma natureza qualquer e a frequência do mesmo estava a aumentar de forma assustadora. Embora não soubesse, de forma exata, a natureza do que lhe estava a acontecer, estava convencido de que o problema estava relacionado com o coração.

A ambulância anunciou a sua chegada com a sinalização de emergência. Pedro sentiu-se temporariamente mais seguro: agora estava entregue a profissionais. Infelizmente estava prestes a perceber o quão longe da verdade estava.

4 – O CORREDOR DA MORTE

Os técnicos do INEM, provavelmente enfermeiros, foram muito simpáticos e enquanto faziam o registo de Pedro, foram colocando algumas perguntas, relacionadas com a sua saúde. Sim era uma pessoa saudável. Fazia exercício, não fumava, não bebia, etc. Depois de lhe medirem a tensão e fazerem uma análise sanguínea rápida, concluíram que os valores apresentados eram normais, mas, quando viram, com os seus próprios olhos, as convulsões e depois Pedro ter explicado os sintomas dos ataques que o afligiam, eles apressaram-se e levá-lo para o hospital.

«Em Albufeira apenas existe um centro de saúde onde não têm técnicos nem equipamentos, para lhe fazer os exames de que necessita. Vamos levá-lo para o hospital de Faro. Está de acordo?» Disse um dos técnicos.

Pedro concordou e eles apressaram-se a tirá-lo dali. Levaram-no numa cadeira de rodas até à ambulância e depois colocaram-no numa maca, ligando-o a uma máquina, que ia monitorizando os batimentos cardíacos. Nessa altura Pedro tomou consciência, pela primeira vez, da gravidade do seu estado. O técnico que ia a seu lado, na ambulância, explicou-lhe que estava a ter síncopes que tanto podiam resultar de um traumatismo craniano, provocado pela queda do dia anterior, como de um problema coronário. Pedro não soube quanto tempo demoraram a chegar ao hospital, mas pareceu-lhe uma eternidade. Durante o percurso foram muito poucos os momentos em que teve alguma tranquilidade. As síncopes sucediam-se umas às outras, tendo perdido várias vezes os sentidos. Para tentar desdramatizar a situação foi falando com o técnico que ia a seu lado.

«As síncopes estão a aumentar de frequência e intensidade!»

«Sempre que experimentar uma, levante a mão esquerda.» Disse o técnico.

Pedro acenou com a cabeça, pois estava demasiado perturbado e numa aflição que o deixava com pouca vontade de falar. Estava enjoado e sentia tudo a andar à roda. Quando a coisa piorou ele manifestou-se.

«Isto está mesmo a piorar!» Disse Pedro.

O técnico acenou com a cabeça, confirmado que tinha noção do que se estava a passar e, entretanto, falou com o condutor, mas Pedro teve outra síncope e não percebeu o que ele disse.

«Os seus batimentos cardíacos estão com uma amplitude muito grande. Já atingiu um mínimo de vinte e quatro e um máximo de centro e trinta e oito.» Disse o técnico.

Pedro estava tão prostrado, indisposto, agoniado e ausente que não interiorizou a verdadeira consequência daquilo que o técnico lhe dizia. Entretanto, chegaram ao hospital e a maca foi retirada da ambulância sendo levado para a zona de espera da triagem. Pedro acompanhou o balançar da maca, ao sair da ambulância, com convulsões. Esperou alguns minutos, que lhe pareceram uma eternidade e durante os quais experimentou mais algumas síncopes. Apesar disso, não demorou muito a ser atendido. Os técnicos do INEM explicaram que ele estava a ter síncopes muito frequentes e relataram a queda do dia anterior. Depois do breve diálogo entre os técnicos e a médica da triagem, foi-lhe colocada uma pulseira amarela. Pedro estava consciente, tirando os momentos em que perdia os sentidos por breves instantes, mas experimentou uma sensação estranha. Havia momentos em que o que se passava à sua volta parecia um sonho ou um filme. Era como se as pessoas que o rodeavam estivessem numa outra dimensão.

Os técnicos do INEM despediram-se dele, de forma tranquilizadora.

«Não precisa de se preocupar com nada. Agora o senhor está bem entregue. Eles vão cuidar de si. As melhoras.»

«Obrigado.» Balbuciou Pedro.

Pedro estava verdadeiramente agradecido por ter chegado até li com vida. Entretanto, alguém empurrou a sua maca ao longo de um corredor, onde já estavam várias outras e ele foi deixado no fim da fila. A posição de deitado era bastante perturbadora e desconfortável. As convulsões começaram a acontecer com maior frequência e a prolongar-se por mais tempo. Foi nessa altura que ele começou a ter consciência de que tinha lapsos de tempo em que ficava completamente ausente: estava a ter percas de sentidos prolongadas! Olhou para a pulseira que lhe tinha sido atribuída e imaginou o tamanho da fila de macas que estava no corredor. Ele era o último! Passaram-lhe pela cabeça as histórias de pessoas que passavam horas à espera, em macas, nos corredores dos hospitais, até serem atendidas. O problema é que ele não tinha essas horas todas para usar num processo de espera. Era bem possível que morresse antes de ser atendido, se isso não acontecesse rapidamente. O pensamento foi interrompido por uma síncope violenta em que ele sentiu o corpo a saltar em cima da maca, tal foi a violência das convulsões: perdeu os sentidos. Por breves instantes esteve noutro lado qualquer.

Abriu os olhos e ainda estava no corredor do hospital. O pensamento ocorreu-lhe sem que tivesse feito qualquer esforço para o convocar. «Vou morrer aqui neste corredor.» Uma lágrima escorreu-lhe pelo canto externo do olho direito. «Porquê apenas o olho direito?» Interrogou-se. Fez o balanço da vida. Pensou na mulher, nos filhos, nos amigos, nos pais e nos irmãos. Pensou em tantas coisas que nem sabia como mencioná-las ou ordená-las. Tinha sido uma pessoa afortunada. Tinha tido uma vida preenchida e, apesar dos momentos de infelicidade e dos reveses, o balanço era positivo. Fazia aquilo que gostava em termos profissionais. Tinha-se dedicado ao ensino e a escrever, o que sempre tinha sido um sonho. Podia dizer que tinha sido um homem feliz. «O que é a felicidade?» Interrogou-se. «Isso agora pouco importa. Eu vou morrer aqui!» Entregou-se a esse pensamento, sem tristeza, sem amargura e sem drama: apenas com resignação. Surpreendentemente morrer não era assim tão mau. «Como será depois da morte?» Pensou.

As enfermeiras, médicas e técnicas passavam a seu lado atarefadas, mas indiferentes ao seu estado. Tinham outras prioridades! Fixou o olhar na mulher vestida de verde que se aproximava com passos largos e ocorreu-lhe um pensamento com uma intensidade que não conseguiu controlar. «Eu não posso morrer: ainda tenho tantas coisas para fazer!» Quando ela ia a passar por ele, estendeu o braço e tocou-lhe.

«Diga por favor!»

«As síncopes, desde que me colocaram aqui, estão a aumentar de intensidade e frequência. Se não fizerem nada eu vou morrer nesta maca.» Disse de forma tranquila.

Não sabia se estava a falar com uma médica ou com uma enfermeira. Mas gostou da forma bondosa como ela olhou para ele. Uma nova síncope fez com que não percebesse nada do que ela disse. Quando abriu os olhos ela tinha-se afastado e voltou um pouco depois com uma pulseira cor de laranja. Entretanto, uma técnica veio ter com ele e fez-lhe um ECG. Pedro ainda sentiu colocarem-lhe os conectores para os elétrodos, mas desmaiou novamente e quando acordou apenas ouviu o diálogo entre a médica, que lhe tinha mudado a pulseira (a técnica do ECG tratou-a por Dra.) e a técnica do ECG.

«Tem um bloqueio bem visível. Veja Dra. Está aqui.»

A médica empurrou a maca, sem hesitação e passados alguns segundos estava dentro UCI das urgências. Foi rodeado por enfermeiras e médicos, embora não tivesse bem a certeza da natureza das profissões destes, pois estava um pouco baralhado. O seu peito ficou cheio de conectores e ligaram-no a vários equipamentos. Começou a sentir choques elétricos que, pelo que percebeu, eram destinados a estimular o coração a funcionar, sempre que este se recusava a fazê-lo sozinho. Nessa altura apareceu alguém a perguntar por ele, pois tinha que ir fazer um TAC à cabeça. O médico responsável pela urgência perguntou quem tinha pedido TAC, mas o homem não soube responder.

«Não sei quem pediu esse exame, mas este doente só sai daqui para ir para o bloco operatório de cardiologia. Depois disso, podem fazer-lhe os exames que entenderem!» Disse o médico de forma perentória.

Entretanto, explicaram-lhe que tinha um bloqueio no campo elétrico do coração, pelo que teria de levar um pacemaker. No imediato, iriam instalar-lhe um provisório e, depois de ficar em observação e de lhe fazerem outros exames complementares, decidiriam se levaria ou não um pacemaker definitivo.

«Fique tranquilo que o problema foi detetado a tempo e vai ser resolvido, sem consequências.»

A médica que lhe tinha mudado a pulseira também veio ter com ele.

«Afinal ainda não é desta que vai morrer. Fique tranquilo que vamos resolver o problema.» Disse ela com um sorriso.

«Obrigado.» Disse Pedro com o melhor sorriso que conseguia fazer.

Afinal havia esperança!

5 – UCI CORONÁRIOS

Pedro estava completamente exausto. Não era apenas o cansaço acumulado de um ano intenso de trabalho, era sobretudo o stress a que o seu corpo estava sujeito desde as oito e trinta da manhã, hora a que se tinha levantado. Fazia quatro horas que o corpo lidava com um défice de fluxo de sangue devido à insuficiência de batimentos cardíacos. Já tinha perdido a conta à quantidade de vezes que tinha perdido os sentidos e ao número de convulsões que tinha tido. Já não tinha energia para lutar mais. Era urgente que os médicos providenciassem a tão desejada ajuda.

As enfermeiras do UCI Coronários entraram na sala no UCI das urgências e começaram a prepará-lo para o transporte. Pedro tinha sincopes com tanta frequência que era mais o tempo que passava ausente do que aquele que estava efetivamente presente e percebia aquilo que se passava à sua volta. Era como se estivesse meio adormecido e ouvisse tudo através de uma neblina que toldava a imagem que os olhos viam ao mesmo tempo que funcionava como uma barreira contra o som. Apesar disso, percebeu que o desligaram de alguns equipamentos e que houve uma discussão sobre qual dos equipamentos o acompanharia e onde seria colocado. Acabaram por colocar o monitor que controlava os batimentos cardíacos entre as pernas, junto aos pés. Era um equipamento que emitia sinais sonoros regulares, mas que registava várias paragens. A coincidência entre as paragens e a aflição que tomava conta dele, num abraço letal, era notável. Quando isso acontecia, os seus cuidadores olhavam os equipamentos com ansiedade e ele recebia choques elétricos no abdómen.

As suas novas cuidadoras tinham uma abordagem ligeiramente diferente. Sempre que a máquina deixava de emitir o sinal sonoro pediam-lhe para tossir. Embora isso implicasse um esfoço que, nesse momento, requeria energias que já escasseavam, ele obedecia. Estava entregue a profissionais, portanto o melhor que tinha a fazer era seguir as suas instruções. O percurso pelos corredores e a escolha do elevador certo, pareceu-lhe uma viagem por um labirinto. As enfermeiras que o levaram estavam no fim do seu turno e quando o deixaram no bloco foram substituídas. Juntamente com as novas enfermeiras chegou o médico que estava de serviço. Era um médico que apenas vinha a Faro fazer os bancos ao fim de semana, dado não existirem médicos regulares suficientes. Foi ele que lhe explicou que deveria tossir sempre que a máquina deixava de apitar, pois isso significava que o coração deixava de bater.

«Eu costumo respirar fundo sempre que sinto que os ataques se aproximam.»

«Isso é exatamente aquilo que não deve fazer.»

A máquina parou outra vez.

«Tussa! Tussa!» Invetivou a enfermeira.

Entretanto, a nova enfermeira e o médico trocavam impressões sobre o tipo de pacemaker que deviam usar e sobre o local a escolher para a sua inserção.

«Eu costumo colocá-lo na subclávia direita.» Dizia o médico.

«O Dr. É que sabe, mas aqui os médicos costumam colocá-los na virilha.»

«Então vamos inseri-lo na virilha.» Disse o médico.

Pedro percebeu que tossindo evitava que o mal-estar subisse por ele acima, isso tornou esse ato automático: A máquina parava e ele tossia. A operação demorou uns bons minutos. Enquanto a fazia, o médico foi falando com Pedro, fazendo-lhe as mais variadas perguntas. Pedro foi respondendo o melhor que podia, mas a verdade é que falar o distraia do problema e isso ajudava. Pedro falou-lhe do fim de semana e dos amigos e ele ficou entusiasmado pelo facto de a maioria destes serem médicos. Falou também da sua profissão e do facto de ser professor universitário. Na verdade, falou de quase tudo na sua vida. O monitor deixou de emitir sinais sonoros e Pedro começou de imediato a tossir.

«Não precisa de tossir mais. O pacemaker já está instalado. A partir de agora não vai ter mais problemas.»

Pedro experimentou a felicidade de estar mais de cinco minutos seguidos sem ter uma síncope. Era uma sensação indescritivelmente boa.

«Eu sou a Rita. E vou cuidar de si nas próximas horas.» Disse a enfermeira, enquanto o transportava do bloco para a UCI.

Nessa altura Pedro estava muito bem disposto e o seu sentido de humor manifestou-se.

«Então estava de férias no Algarve?» Perguntou a enfermeira.

«Não, vim apenas passar o fim de semana, mas como não gostei do hotel onde estava, decidi mudar-me para um de cinco estrelas.» Disse, provocando uma gargalhada na enfermeira.

«Neste momento estamos a usar este andar de empréstimo. Quando as obras terminarem e voltarmos ao oitavo andar, vamos ter instalações de primeira.»

Pedro perdeu a hora do almoço por isso teve de esperar pelo lanche para comer alguma coisa. Tinham colocado a sua cama mesmo em frente à secretária do médico e das enfermeiras de serviço ao UCI. Deitado na cama, de costas, e obrigado a manter-se nessa posição, podia ouvir tudo o que eles diziam. Tinha-lhe sido permitido ficar com o telefone e ele aproveitou para ligar para a esposa. Nessa altura já o médico tinha falado com ela. Pedro estava numa posição muito desconfortável e ligado a dois monitores. Um, controlava exclusivamente o pacemaker e estava ligado a vários fios cujo conector se encontrava na virilha direita. O outro, controlava uma série de coisas todas relacionadas com o sistema circulatório. Era um écran cheio de gráficos, em movimento e de números. O peito e parte do abdómen estavam repletos de conetores, onde tinham sido ligados dezenas de fios. O braço esquerdo tinha uma braçadeira, que se enfunava de hora a hora, qual vela de barco em plena regata e media a sua tensão arterial. Não podia mexer-se, para a esquerda ou para a direita sem esbarrar num conjunto de fios que lhe marcavam as costas, quando acontecia de ficarem debaixo de si. Apesar disso, sentia-se no paraíso! O desconforto proporcionado pelos equipamentos era incomparavelmente inferior ao mal-estar que sentia quando o coração deixava de bater. Recebeu alguns telefonemas e trocou algumas mensagens, e o seu discurso era sempre o mesmo: «Depois de uma manhã no inferno, agora estou no paraíso».

Quando lhe disseram que tinha de dormir de abdómen para cima, ficou preocupado. As costas já lhe doíam um pouco e a perspetiva de passar uma noite naquela posição, fez com que descesse do paraíso ao purgatório. Foi uma noite horrível e de manhã as dores de costas eram tão intensas que as lágrimas lhe vinham aos olhos. O enfermeiro que o acordou de manhã adicionou ao antibiótico um panasorbe. Foi uma ajuda, mas não resolveu o problema. Quando falou com o médico sobre o assunto este autorizou-o a ficar um pouco sobre o lado direito, desde que a perna direita ficasse sempre estendida. Isso aumentou ligeiramente o seu conforto, mas não lhe retirou as dores de costas.

Depois do mau bocado que tinha passado ele não sabia como interpretar os pequenos sinais que o corpo lhe ia dando. Qualquer ligeira pressão no peito ou pequena tontura era logo interpretada como a possibilidade de o mal-estar voltar. O médico tranquilizou-o. As enfermeiras simpatizaram com ele e Pedro tentou facilitar-lhes a vida. Apesar da posição difícil em que estava, sempre deitado, propôs alimentar-se a si próprio. Era essa a sua postura na vida, facilitar a vida dos outros e ajudar sempre que podia. Apesar de deitado numa cama na UCI coronários, ofereceu ajuda a uma das enfermeiras para analisar as propostas de crédito à habitação e aconselhou-a sobre as propostas a obter. Pedro era assim mesmo. A Patrícia prometeu que na segunda iria aos bancos e traria a documentação para ele analisar. Um dos melhores momentos era o banho. Primeiro pela sensação de leveza que deixava, segundo porque as enfermeiras lhes esfregavam as costas, numa espécie de massagem, o que era muito reconfortante, considerando as dores que sentia. A alimentação foi uma experiência muito desagradável. O pão com manteiga, servido ao pequeno almoço e lanche, era difícil de engolir, sobretudo para quem não gostava de manteiga. Mas o almoço e o jantar eram intragáveis. A verdade é que a falta de apetite não ajudava!

O domingo foi pejado de momentos dramáticos. Uma das senhoras que estava internada, atingiu o ponto terminal. A equipa médica decidiu informar a família e autorizá-los a virem despedir-se. Pedro apercebeu-se de tudo. Ver os filhos, ambos adultos, a desejar as melhoras à mãe e desabar em lágrimas mal viraram as costas, foi muito emotivo. Durante a noite foi acordado por um grande reboliço. Um dos internados teve um problema qualquer tendo a UCI sido invadida por médicos e enfermeiros que apenas ao fim de uma hora declararam a situação controlada. Assim era difícil descansar, ainda que autorizado a virar-se de lado.

Finalmente, chegou a segunda feira. Um pouco depois das nove foi levado para o bloco e por volta das dez e trinta tinha um pacemaker definitivo implantado. O procedimento foi feito com uma anestesia local e muito ligeira. Pedro sentia tudo. O final da incisão foi particularmente estranho porque o efeito da anestesia estava a passar e o cirurgião não queria anestesiar a zona da veia onde os cateteres iam ser inseridos, por isso o corte foi quase a sangue frio. No entanto, a surpresa estava guardada para o fim. Os pontos foram dados depois do efeito da anestesia ter passado por completo. Ele sentiu a agulha entrar-lhe na carne, três vezes, para dar passagem ao fio e fechar a ferida. Foi um final épico! Apesar disso, ele estava feliz. Infelizmente não voltou para o UCI, onde tinha toda a atenção das enfermeiras. Foi para uma enfermaria onde elas só apreciam se chamadas, mas com um timing muito próprio. Foi mais um dia de fome e de sede! Para agravar a situação tinha de ficar outra vez de costas pois agora não podia pressionar a virilha direita, donde tinha sido retirado o cateter do pacemaker provisório, nem o ombro esquerdo, pois era aí que tinha sido implantado o pacemaker definitivo. A prazo tinha o problema resolvido, mas em termos imediatos tinha a vida muito mais complicada. Para agravar a situação, fazia 48 horas que respirava através de uma máscara, que usava vinte e quatro horas por dia. Ultrapassado o risco de vida, esse tipo de inconveniente, até então considerado menor, assumiu uma importância crítica.

Na segunda feira, ao fim do dia, deu entrada na enfermaria onde estava, uma senhora, de nacionalidade francesa, que só falava francês. Ela ficou mesmo a seu lado e Pedro apercebeu-se da confusão. No hospital ninguém falava francês e a senhora estava sozinha quando foi internada, sendo que o marido não fazia ideia do local onde ela estava. Ele percebeu rapidamente que ninguém entendia o que ela dizia e ela não entendia, nem os médicos, nem as enfermeiras. Pedro fez de tradutor. Na verdade, fez muito mais do que isso. Para além de traduzir o que a francesa dizia e vice-versa, conseguiu obter um número de telefone para ela ligar ao marido. Como ninguém sabia o que fazer, Pedro pediu que a francesa dissesse a sua morada e ligou para o 118, obtendo o número desta. Foi uma boa ação. A verdade é que a francesa, que se chamava Louise, não sem lembrava de nada e no dia seguinte, quando falou com ela, antes de ter alta, ela não fazia ideia do que se passava, mas agradeceu o conforto que ele lhe deu, pois, nessa altura, Pedro explicou-lhe o que ela ia fazer, informando-a que tinha sido alvo do mesmo procedimento cirúrgico. Finalmente, saiu do hospital. A auxiliar que o levou até à saída insistiu que este fosse numa cadeira de rodas o que facilitou o percurso, pois sentia-se ligeiramente tonto, devido ao facto de ter estado três dias seguidos deitado. Sentia-se vivo, mas cansado. Desejava ardentemente duas coisas, para além de ver a família: um banho e uma refeição decente.

6 – O APÓS

Tinha estado tanto tempo à beira do abismo que ainda não tinha interiorizado que estava a salvo. Estava exausto! Fazia três dias que estava deitado, praticamente na mesma posição, por isso ficar de pé tinha-se tornado estranho. Tinha dificuldade em equilibrar-se. Doía-lhe a cabeça e o corpo, não em resultado da intervenção a que fora sujeito, mas devido à posição em que tinha estado setenta e duas horas. Era estranho, mas doía-lhe mais a virilha, onde tinha estado ligado o pacemaker provisório, do que o corte necessário para a implantação do definitivo. As costas, essas não tinham parado de doer desde a primeira noite.

Era tudo novo para ele! Tinha que digerir as mil recomendações feitas pelos médicos e pelas enfermeiras, as informações do manual sobre o pacemaker e a pressão dos cuidados e recomendações das pessoas que o rodeavam.  Todos tinham uma opinião e uma sugestão e ele era o último a poder tê-la. O pior de tudo era gerir as mensagens que o corpo lhe enviava. Pedro tinha bem presente o custo de ter desvalorizado as mensagens do mal-estar, sentido na semana anterior e as primeiras quedas, mas não podia deixar que isso o transformasse em refém do próprio corpo. Muito daquilo que sentia era resultado do cansaço acumulado durante várias noites sem dormir, alimentando-se mal e sem poder mover o corpo. Mas, o desconhecimento de como se comportaria o organismo, agora que tinha, dentro de si, uma componente eletrónica, introduzia um parâmetro novo: o receio de não saber interpretar os sintomas. Tinha que aprender a viver com um pacemaker. Resolveu falar com a enfermeira que lhe deu alta.

«Sinto algumas tonturas e dificuldade em equilibrar-me. Acha que está tudo bem?»

«Mas é algo parecido com os sintomas que tinha antes de ter o pacemaker?» Perguntou ela.

«Não. São apenas tonturas.»

«Isso deve resultar do facto de ter estado muitos dias deitado, mas fique atento! Se sentir que algo não está bem, já sabe…»

O conforto da resposta da enfermeira foi nulo. Afinal tinha de ser ele o juiz. Enquanto esperava que a família o viesse buscar, já depois de ter tido alta, ensaiou uns passos pela enfermaria, alternados com a posição de sentado na cama. Sentia-se enjoado e isso preocupou-o. Decidiu explicar à D. Louise, a francesa que estava na cama ao lado, que ela ia fazer o mesmo que ele, tranquilizando-a. Enquanto falava com ela, estava tão concentrado na conversa que, os sintomas quase desapareceram. «Que estranho!» Pensou. «Isto está tudo na minha cabeça…» Disse a si mesmo. Sentou-se novamente. Estava muito cansado, mas a vontade de sair dali era tão grande que a ansiedade o tornava irrequieto. Perguntou a uma das enfermeiras se a enfermeira Patrícia estava de serviço ou não. Explicou que tinha ficado de analisar uns documentos que ela deveria ter ido buscar aos bancos, no dia anterior. A enfermeira não lhe soube dizer, mas também não procurou saber.

Finalmente eles chegaram. A auxiliar que o levou até à saída, sugeriu que fosse numa cadeira de rodas e ele aceitou de bom grado. Estar de pé obrigava-o a um esforço que ele dispensava. Quando estava a sair a Rita veio, à porta da enfermaria, despedir-se dele e isso deixou-o sensibilizado. A mulher e os filhos estavam à sua espera, mas todos guardaram a emoção do encontro dento de si para não se contagiarem. Era estranho estar a ser conduzido pelo filho, mas era recomendável que esperasse trinta dias até voltar a conduzir. Tomou o primeiro banho, verdadeiro, dos últimos três dias e isso deu-lhe grande satisfação. Apesar de continuar a ter alguma dificuldade em manter-se de pé, não o deu a conhecer a ninguém. Fizeram uma refeição frugal e partiram para Lisboa.

A primeira noite na sua cama foi algo indescritível: dormiu! Apesar de apenas se poder deitar sobre o lado direito e de costas, conseguiu repousar, embora ainda não estivesse totalmente recuperado. Tinha perdido um quilo e meio e precisava de recuperar forças. Na quinta feira, depois de duas noites bem dormidas, fez o primeiro teste à sua capacidade. Foi andar na passadeira durante cinquenta minutos. Fez uma média de quatro quilómetros e meio por hora e isso deixou-o satisfeito. Era o verdadeiro início do processo de recuperação!

Os dias que se seguiram foram de uma grande aprendizagem. A primeira realidade que teve de enfrentar foi o trauma interiorizado pelo seu próprio corpo (ou talvez pela mente!). Ao menor sintoma, ainda que perfeitamente irrelevante, por exemplo um pouco mais de calor, o coração parecia querer disparar. Foi dessa forma que o corpo garantiu a sobrevivência quando tinha as síncopes, daí o automatismo da reação. Pedro tinha de se mentalizar a si próprio que estava tudo bem e que não ia ter nenhuma síncope. Este processo foi repetido vezes e vezes sem conta. Ao primeiro alerta o corpo reagia e ele tinha de o tranquilizar. O problema é que este procedimento exigia que ele tivesse a certeza de que estava a interpretar corretamente os sinais, o que fazia com que houvesse momentos de dúvida e hesitação. Durante mais de cinquenta anos ele tinha aprendido a interpretar os sinais do corpo e a adotar o comportamento mais adequado. Essa experiência acumulada, apesar de preciosa, não tinha evitado o erro cometido na interpretação das primeiras quedas. Como poderia estar seguro de que, em meia dúzia de dias, tinha aprendido a interpretar os sinais, agora que o pacemaker fazia parte de si?

A recomendação era de que apenas ao fim de um mês podia voltar a fazer exercício, normalmente, nomeadamente com os braços. Isso significava uma quase imobilização nos primeiros dias e uma evolução gradual nos restantes até atingir o ponto desejado. Apesar disso, não estava impedido de exercitar as pernas ou o abdómen. Foi por aí que começou, aumentando gradualmente o ritmo, de forma a testar a sua resistência. Assim, na passadeira, em circuitos predefinidos ou na praia, procurou andar, todos os dias, cinco quilómetros. À medida que foi ganhando confiança a capacidade de ignorar o stress traumático foi aumentando, mas ao fim de um mês este ainda se manifestava. Por vezes bastava pensar na manhã fatídica, do dia oito de agosto, para o corpo reagir. Outra das coisas que lhe provocava o reviver do trauma, era passar pelos os sítios onde tinha vivido experiências negativas ou simplesmente pensar nestas. Foi isso que o levou a visitar a farmácia que o tinha atendido depois da queda, em Lisboa. A seu tempo, quando o calor fosse um pouco menor, faria o percurso à volta do Instituto Superior Técnico, local onde se tinha registado a primeira queda, mas só de pensar nisso, o coração sobressaltava-se.

Tinha percorrido um caminho bastante longo, mas tinha a noção de que havia muito mais para percorrer. Em paralelo com a recuperação física e o trabalho para fazer desaparecer o stress traumático, existia o “outro” lado. Um lado que Pedro ainda se recusava a reconhecer e de que não tinha falado a ninguém, mas que se inquietava dentro de si, num movimento crescente. Ele tinha experimentado, ou pelo menos imaginou que isso aconteceu, coisas que não sabia explicar e cujo resultado prático se materializava através de uma nova curiosidade. Um tema que ele sempre tinha desvalorizado: a espiritualidade. A prioridade era a recuperação física e psicológica o resto viria com calma, até porque era algo que despertava sentimentos contraditórios: ao mesmo tempo que lhe despertava a curiosidade, intimidava-o. Na verdade, era mais do que uma curiosidade. Eram perceções. Algo para descobrir e aprender a perceber!

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