O PRENUNCIO DO FIM

O PRENÚNCIO DO FIM

Eles não sabiam ao certo como tudo havia começado. Foram pequenas coisas. Frases soltas. Pequenos comentários. Enfim uma miríade de coisas que os foi aproximando. Ele foi o primeiro a perceber que se tinha apaixonado. Tinha caído numa armadilha. Eram ambos comprometidos! A construção de uma relação, suportada por aquele amor, significava a destruição de duas outras e isso para ele era algo impensável. Eram colegas de trabalho e sentavam-se em gabinetes contíguos. O banco tinha uma política própria sobre relações entre colegas, restringindo as mesmas, mas dando abertura a que estas existissem. Apesar de trabalharem na mesma empresa estavam em áreas diferentes, pelo que havia esperança, mas eles ainda não tinham chegado a esse ponto. A pandemia apareceu como um furacão e alterou tudo.

Os encontros diários para o café ou chá, logo pela manhã, foram substituídos por videoconferências que aconteciam à hora que era possível. A relação profissional não os obrigava a isso, mas acabaram por falar todos os dias e por vezes mais do que uma vez. Isso acabou por os aproximar mais do que quando estavam sentados em escritórios contíguos. Miguel acabou por confessar o seu amor. Regressados ao escritório ele teve uma das maiores desilusões da sua vida. Estava disposto a trocar tudo por ela, embora não lho tivesse dito com todas as palavras, mas ela tinha outros planos.

«Tenho que te dizer uma coisa que me está a incomodar.» Disse ela no fim do almoço.

Ele limitou-se a olhá-la nos olhos e a menear a cabeça.

«Espero que não fiques zangado comigo…»

«Porque haveria de zangar-me contigo?» Disse ele baralhado.

Não tardou muito a perceber tudo!

«O meu companheiro percebeu o meu afastamento e quis partir para me deixar livre de seguir o meu caminho. Nessa altura eu percebi que o amava muito mais do que tinha imaginado e que aquilo que sinto por ti é apenas amizade.»

Ela fez uma pausa e Miguel não disse nada. Precisava de tempo para digerir o choque daquela informação. Afinal os sinais que ela havia dado eram falsos. Ela tinha estado a brincar com ele? Tudo não tinha passado de uma diversão!

«Eu pedi, implorei até, ao José, para ele ficar, porque estou convencida de que o amo profundamente.»

Miguel sentiu-se colocado entre a espada e a parede. Tinha legitimidade para se afastar dela e lhe dizer umas quantas verdades, daquelas que magoam a sério. Pensou alguns segundos. Ele não era pessoa para guardar rancor. Olhou Marta nos olhos e percebeu que havia sinceridade nestes. A verdade é que, apesar de aceitar os avanços dele, incentivando-os até, com a postura e com comentários de insatisfação em relação ao companheiro, nunca lhe tinha dito que o amava.

«Por mais que me custe eu percebo o que me dizes e se queres que sejamos amigos,  assim será.»

Apesar de, oficialmente, serem apenas amigos Miguel nunca escondeu que a amava e isso não era um problema para Marta. Nos meses que se seguiram eles falaram muito um com o outro. Aproveitavam todas as oportunidades que tinham, inclusive ao almoço para partilharem quase tudo. A verdade é que a partilha diária era muito mais compatível com um namoro do que com a relação de amizade, oficialmente assumida. Isso acabou por influenciar o rumo dos acontecimentos. Marta foi de férias e eles continuaram a falar um com o outro, utilizando todos os meios à sua disposição: o telefone o Whatsapp, as mensagens, o email ou a videoconferência. Durante esse período tornou-se óbvio o afastamento entre Marta e o seu companheiro e a aproximação entre os dois. A coisa foi tão longe que eles chegaram a fazer amor à distância. Apesar das centenas de quilómetros que os separavam foi um momento mágico, que os ligou profundamente. Para Miguel era claro que Marta era a mulher da vida dele e depois dela se entregar a ele daquela forma, convenceu-se de que ela também o amava. Acordaram que tinham de falar com os respetivos companheiros para lhes dizer que se tinham apaixonado por outra pessoa. Depois do que tinham vivido, também era óbvio que precisavam de falar. Era preciso que dissessem, olhos nos olhos, que se amavam e estavam dispostos a tentar construir algo juntos. Entretanto, Miguel tinha tomado uma decisão, embora a tivesse mantido apenas para si: iria divorciar-se. O destino tinha outros planos!

Miguel apenas iria de férias duas semanas depois do regresso de Marta, isso dava-lhes tempo suficiente para falarem. Não chegaram a cruzar-se. No fim de semana anterior ao regresso de Marta, Miguel teve um acidente de moto que o colocou em coma. Esteve entre a vida e a morte! Ao fim de três dias acordou e teve uma recuperação miraculosamente rápida. A coisa evoluiu de tal forma que ele ainda foi trabalhar uns dias antes de ir de férias. O reencontro com Marta foi diferente do que ele tinha esperado. Nada o tinha preparado para aquela desilusão!

Desde o primeiro dia que ele sentiu que ela estava diferente. Não sabia explicar porquê, mas bastava olhar para ela para perceber isso. Na véspera de ele partir de férias foram almoçar juntos e ficou tudo esclarecido. Marta, na última semana de férias, tinha-se cruzado com um homem, com quem tinha trocado meia dúzia de palavras, mas tinha bastado um olhar para ela ter ficado rendida.

«Acredita que é verdade! Nunca tivemos um encontro a sós. Eu apenas falei com ele meia dúzia de vezes, socialmente, troquei algumas mensagens e dei-lhe um abraço.»

Miguel não sabia o que dizer nem o que pensar, mas teve a clarividência de lhe pedir que, pelo menos, clarificasse o que sentia por ele.

«O que sentes em relação a mim?» Perguntou.

«Neste momento, nada.»

Foi uma resposta demolidora! Miguel não conseguia perceber nada. Então e eles? Conheciam-se há mais de oito anos, sabiam tudo um do outro, tinham-se entregue um ao outro, fazia pouco mais de três semanas… Ela tinha varrido isso tudo da sua memória? Miguel sentiu-se humilhado de uma forma indescritível. Ela tinha brincado com ele. Marta não merecia o seu amor! Na verdade, ela não merecia nada. Apeteceu-lhe sair a correr daquele restaurante e nunca mais voltar a falar com ela. Desviou o olhar para o espelho e viu, talvez tenha apenas sentido, ou pensado em algo que o assustou. A intensidade com que amava Marta tinha aberto todos os canais de comunicação: os físicos e os espirituais. Ele não percebia bem o que se estava a passar, mas era como se, pelos canais abertos, estivesse a entrar nele uma mecha de fumo negro que saía de Marta. Era algo que lhe fazia mal, mas que não tinha origem nela, mas no homem de quem se tornara dependente. Miguel ficou confuso. Nunca tinha experimentado uma sensação daquelas, era como se tivesse tido acesso a algo que se passava numa outra dimensão. A impressão de que era algo ruim marcou-o tanto que esteve quase para lhe dizer. Calou-se. Afinal o que podia dizer? Baseado em que? Depois, ela estava demasiado dependente e envolvida com aquele homem, tudo o que ele pudesse dizer seria interpretado de forma errada. Ele precisava de tempo para perceber o que se estava a passar. Ele precisava de decidir que relação queria ter com ela e como deveria interpretar aquilo que tinha “visto”. Isso teve o condão de fazer desaparecer a raiva que sentia: adiou a decisão.

Miguel iniciou as férias, que aproveitou para refletir sobre muitas coisas, nomeadamente sobre aquele sentimento que lhe queimava o peito, sobre a família e mais concretamente sobre a relação com a esposa. Decorridas um mês regressou ao trabalho e voltou a encontrar Marta, com quem tinha mantido contacto durante a sua ausência. Foi bom reencontrá-la, mas sentiu que ela não partilhava do mesmo entusiasmo. Ela tinha-se afastado dele! Faltou aquele abraço, um carinho, enfim… pequenas coisas. A seu tempo tentaria perceber porquê, embora suspeitasse que estava relacionado com a dependência do desconhecido.

Amava Marta. Amava-a mesmo muito, mas tinha decido que aquele era um amor impossível. Existiam duas grandes razões para isso: Ela era demasiado volúvel e ele não queria destruir a sua família. Estava a tentar reacender a chama do amor pela esposa e já tinham sido dados passos positivos. Se isso não fosse possível e se visse divorciado, no futuro, logo veria como lidava com o que sentia pela Marta. A verdade é que ela o assustava. A facilidade com que ela tinha mudado, quer o que sentia em relação a ele, quer em relação ao companheiro dela, em troca de um olhar, deixava-o intranquilo e muito inseguro. Ele olhava para os sentimentos de uma forma muito mais consistente isso fazia com que lhe custasse a aceitar uma mudança tão repentina como a dela.  Naturalmente que a forma como tudo se passou ainda tornava a “coisa” mais estranha.

Não conseguia negar o amor que sentia por ela, mas tinha fechado esse canal. Sentia que esse canal permitia que emanasse dela algo que lhe fazia mal, relacionado com o desconhecido de quem ela continuava a depender. O resultado foi um pouco estranho. Ele receou que isso o levasse a desejar afastar-se dela, mas o carinho e a amizade que sentia por ela manteve-se. A vontade de cuidar dela, de a ajudar, continuava lá. Nesse aspeto nada tinha mudado. Na primeira conversa séria que tiveram ele disse-lhe o que se tinha passado no restaurante quando ela falou do desconhecido. Disse-lhe que estava a reconstruir o seu casamento e que era impossível manter o canal do amor, que sentia por ela, aberto, enquanto ela estivesse dependente do desconhecido. Talvez ficasse fechado para sempre! Não era uma decisão fácil, mas ele estava tranquilo com ela. Aliás desde o acidente que ele sentia uma paz dentro dele e uma capacidade de tomar decisões no campo efetivo, muito superior. Parecia que tinha absorvido uma sabedoria e uma força, de forma instantânea, como quem ingere uma refeição. 

Apesar de o negar, isso mudou o comportamento dela. Marta era uma mulher com elevadas carências afetivas, embora não tivesse plena consciência disso. Para além disso, gostava de receber o tipo de atenção que só quem ama de forma apaixonada é capaz de dar, embora não estivesse disponível para corresponder a tal paixão e, ouvi-lo dizer que não estava disponível para lha continuar a dar, deixou-a fria. Afastou-se, afastando-o a ele também.

 Eles continuavam a cruzar-se e a falar um com o outro, mas as diferenças eram óbvias. Elas não estavam no facto de ela ter dito que preferia não almoçar com ele com muita frequência, mas antes na razão apresentada para tal: «Preciso de espaço. Não quero repetir coisas que fiz no passado…»  Estava também em pequenas coisas, como a impaciência que ela demonstrava quando falavam, ou na ausência das paragens na porta do gabinete para lhe dizer “bom dia” ou “até amanhã”. Eram pequenas coisas, mas perfeitamente sintomáticas. Ele deu-lhe todo o espaço do mundo. Não queria pressioná-la ou sufocá-la, por isso deixou a iniciativa do contacto do lado dela e isso também fez esfriar a relação. Afastamento gera mais afastamento e isso era, normalmente, o prenúncio do fim.

Miguel estava preocupado com isso. Ele temia pela relação de amizade entre eles, pelo menos daquela amizade intensa que tinham vivido nos últimos tempos. O que poderia fazer para eliminar aquela barreira que parecia ter-se erguido entre eles, sem que ela se sentisse pressionada? Esse era o seu novo desafio! Ele estava seguro apenas de uma coisa: não desistiria dela, fosse qual fosse o tipo de relação entre eles! Não desistira de cuidar dela, de cultivar a amizade que sentia por ela, mesmo que esta fosse retribuída em menor grau. Estava cada vez mais claro, no seu espirito, que amava a mulher e Marta estava destinada a ser apenas sua amiga, mas não queira perder a sua amizade.

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