A JORNALISTA | PARTE VIII | CAPITULO 6

O regresso

Quando visualizou os vídeos, foi mentalmente transportado para Byron Bay e a ideia de ir até lá atravessou-lhe a mente. No entanto, Mónica convenceu-o do contrário. Primeiro porque estava com muitas saudades dele, depois de um ausência tão prolongada, segundo porque as pessoas que o seguiam perceberiam que ele tinha obtido alguma informação, se ele fosse diretamente para a Austrália. A passagem por Portugal permitia-lhe matar dois coelhos com a mesma cajadada. Tinha uma viagem de muitas horas pela sua frente e queria aproveitá-la para ver os vídeos outra vez, sobretudo o último. Tinha pedido um upgrade para a classe executiva e preparou-se para disfrutar das vantagens que isso lhe proporcionava. Estava completamente relaxado até ao momento em que a passageira, oriunda da classe económica, foi trazida. A primeira classe estava quase cheia, mas conseguiram arranjar um lugar, na sua fila, mas nas cadeiras do meio, para a instalar. Por coincidência ela ficou mesmo ao seu lado, tendo de permeio apenas o corredor. Ao sentar-se os seus olhares cruzaram-se e ela sorriu de uma forma estranha. O rosto era-lhe familiar, mas não conseguia identificar de onde a conhecia. Talvez não conhecesse e fosse apenas a sua imaginação a fazer filmes. Mas, a verdade é na sua cabeça, aquele corpo não estava associado ao rosto. Esta sensação intrigou-o ao mesmo tempo que o deixou em estado de alerta. De onde conhecia aquela pessoa? Levantou-se e foi até à casa de banho, apesar do avião estar no solo: privilégio de quem viajava naquela classe. Sem que a mulher o percebesse tirou-lhe várias fotografias, que enviou para o telemóvel de Mónica, pedindo-lhe que identificasse a pessoa em causa. Regressou ao seu lugar e a sensação de que algo estava errado, aumentou. Subitamente fez-se luz. A gravidez era falsa, tinha sido uma forma de conseguir vir para a primeira classe. Ainda pensou em denunciar a situação, mas decidiu convertê-la em seu favor. Conhecer as falhas do adversário era sempre uma vantagem. O conforto dessa ideia fê-lo sorrir. Fechou os olhos e concentrou-se. Eureka! A falsa grávida era a empregada de bar do hotel. Tornou-se óbvio que o vigiavam e que ela era uma das pessoas que o fazia. «Qual será então o papel do homem que estava ao balcão, nesse mesmo bar?» Interrogou-se. Perestrelo estava tranquilo. O único contratempo era que não poderia visualizar os vídeos durante a viagem, para não dar a conhecer a informação de que dispunha. O computador estava no compartimento por cima de si, numa mala com código secreto e protegido com palavra secreta e a pen-drive estava guardada num bolso secreto, que ficava na parte interna das calças, junto às suas partes íntimas.

Durante as primeiras duas horas fechou os olhos e dormiu. Foi acordado pelas assistentes de bordo para jantar. Quando terminou decidiu fazer um teste. Foi buscar o computador abriu uma série de folhas de cálculo e relatórios. A determinada altura olhou para os dois lados e retirou do bolso das calças uma pen-drive. Ligou-a e começou a ver uma série de vídeos, tendo o cuidado de puxar o computador para si, para que mais ninguém tivesse visibilidade sobre os mesmos. A falsa grávida mexia-se na cadeira sem parar. Parecia que não tinha posição de estar, mas na prática estava a criar as condições para sair do lugar sem levantar suspeitas.

«Tenho mesmo que dar uma volta.» Disse, à laia de desculpa, sorrido para Perestrelo.

A mulher levantou-se e caminhou para a retaguarda do avião e, regressando rapidamente, foi colocar-se mesmo atrás de Perestrelo. Logo na primeira passagem lançou um olhar de soslaio e aquilo que viu desiludiu-a: ele estava a ver um documentário sobre a vida selvagem. Perestrelo, quando o documentário terminou, arrumou o computador e a pen-drive na mala e decidiu dormir. Nessa altura já tinham apagado as luzes e toda a gente dormia, menos a falsa grávida que apenas fingia fazê-lo. Olhou para os dois lados, para ver se ninguém o observava e colocou no bolso esquerdo das calças, uma outra pen-drive que tinha tirado da mala. Dormiu de forma intermitente e em determinado momento virou-se de lado expondo o lado esquerdo. A falsa grávida, com mil cuidados, mas uma rapidez e agilidades invejáveis, retirou-lhe a pen-drive do bolso, copiou-a e devolveu-a à procedência. Perestrelo manteve os olhos fechados apesar de estar acordado. Ela não era a única que conseguia fingir que dormia. Apesar de ficar satisfeito por ver as suas suspeitas confirmadas não evitou alguma apreensão. A mulher era uma profissional. Esse tipo de pessoa não olha a meios para atingir os fins, ou seja, ele precisava de agir com cuidado. Depois de duas escalas e vinte e seis horas de viagem, finalmente estava em Lisboa.

Quando saiu para a zona das chegadas ainda estava à procura de Mónica quando esta se pendurou no seu pescoço. Foi um beijo longo e apaixonado: estavam ambos com muitas saudades. A boa forma física de Perestrelo era notória e ela passou a mão pelo corpo dele, de forma apreciativa.

«Estava morta de saudades!» Disse Mónica.

«Eu também, meu amor!»

«Não acredito. Se tivesses saudades minhas não tinhas ficado fora tanto tempo.» Disse ela em tom brincalhão.

Quando chegaram a casa dele não resistiram e a roupa voou dos corpos deles mais rápido que o pensamento. Entregaram-se às caricias e à paixão, amando-se perdidamente. No final ele adormeceu e Mónica ficou a vê-lo dormir. Por volta das dezanove horas foi-se arranjar e acordou-o às vinte. Mónica tinha feito uma reserva no Panorama, para as vinte e uma horas. Perestrelo tinha pensado ficar em casa, mas adorou a surpresa. Era altura de falarem das descobertas das últimas duas semanas. Entretanto Mónica pediu aos serviço da judiciária para fazerem uma verificação de rotina em tudo o que Perestrelo tinha trazido da índia, a começar pela roupa. Por sua vez, este pediu ao se amigo informático que desses uma vista de olhos ao computador e às Pen-drive

«A mulher que veio contigo no avião não tem qualquer registo na Interpol, nem na Índia. Cobrei um favor a um amigo de Goa e o resultado foi nulo. No entanto, ela declarou a situação de turista ao SEF. Vamos mantê-la sob vigilância discreta.»

«Já imaginava algo parecido.»

«Sempre vais à Austrália?»

«Sim. No entanto, vou esperar que essa mulher se vá embora. Consegues obter essa informação?»

«Claro que sim. Acho prudente essa decisão. Eu se pudesse ia contigo.»

«É melhor eu ir sozinho. Na verdade não sei se vou encontrar alguma coisa, porque os vídeos não têm muita informação, mas espero que sim.»

Regressaram a casa, depois de um passeio por Lisboa e não detetaram sinais de nenhuma “sombra”. O dia seguinte seria decisivo quanto a isso.

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