A JORNALISTA | PARTE VIII | CAPÍTULO 7

Júlia Mitchell

A mulher que lhe tinha roubado a Pen-drive ficou apenas dois dias em Portugal. No primeiro, percorreu os locais turísticos da cidade: aparentemente levava a sério o papel de turista. O segundo dia começou de forma auspiciosa. Ela passou a manhã a vigiar as imediações da residência de Perestrelo, mas ao início da tarde surpreendeu tudo e todos com uma visita inesperada à LTCBK, onde foi recebida por Maria Eduarda. Mónica ressuscitou velhas desconfianças.

«Não te parece estranho que a mulher que te roubou no avião tenha ido falar com a Maria Eduarda? Isto não é uma coincidência. Aquela mulher tem algo a ver com este assunto e tem andado a esconder-nos informação.»

Mónica falou com convicção, mas estava à espera que Perestrelo a contestasse. Ele manteve-se em silêncio, pois começava a achar que as desconfianças dela tinham algum fundamento. A mulher partiu na madrugada desse dia e Perestrelo ficou livre para iniciar a viagem à Austrália. Depois da mala feita recebeu a visita do informático.

«O equipamento está em perfeitas condições, mas tens um presente nesta Pen-drive.»

Perestrelo olhou para o suporte informático e constatou de imediato que era Pen-drive que a desconhecida lhe tinha retirado do bolso e copiado.

«Qual é o problema e o risco associado?»

«Nada de especial. Apenas instalaram um localizador, que permite saber onde a Pen-drive se encontra.»

Tomou-a das mãos do informático e fechou-a dentro da gaveta. Se alguém queria saber por onde ele andava iria ter de encontrar outro meio de o fazer. Entretanto, a judiciária tinha confirmado que tudo o que trouxera da India estava “limpo”.

Apesar de ir em primeira classe a viagem era longa e tornou-se cansativa. Perestrelo aproveitou para ver o vídeo várias vezes. Ele estava a caminho da Austrália, mas aquilo que o levava lá era muito pouco concreto. Iria ter de fazer muito trabalho de detetive para conseguir alguma informação útil e nada garantia que não regressasse de mãos a abanar. Depois de vinte e três horas e uma escala aterrou em Sydney. Estava exausto e como tinha saído de manhã de Lisboa, chegou a Sydney ao princípio da noite, do dia seguinte. O táxi deixou-o em Brisbane um par de horas depois. Tentou descansar, apesar do jet lag, para poder começar a investigação no dia seguinte. Levantou-se tarde, pois não tinha conseguido adormecer. Quando se despachou já a manhã ia a meio. Pegou no carro alugado, que estava no parque do hotel e foi de imediato para Byron Bay. Tinha uma imagem da casa, retirada do vídeo e estava na expetativa de a conseguir identificar, caminhando pela praia. Durante o que restava do dia percorreu as praias de Byron Bay, parando apenas para um almoço rápido. Foi uma busca infrutífera. Quando regressou ao hotel estava exausto. Deixou-se cair sobre a cama e adormeceu. Acordou às vinte horas e apressou-se a arranjar-se para o jantar. Em seguida deambulou pelos bares do hotel em busca de algo indefinido. Quando se cansou de andar de um lado para o outro foi até ao quarto. Deu uma última vista de olhos ao vídeo e quando o telefone tocou parou a imagem. Mónica queria saber os progressos da investigação e ficou tão desiludida quanto ele. Foi até à janela e ficou a olhar a cidade. O hotel ficava numa zona industrial que tinha sido recuperada e proporcionava uma vista impressionante sobre o rio que a dividia. Sentou-se novamente e ficou a olhar a imagem parada, no ecrã do computador. Nessa altura viu algo em que não tinha reparado antes. Por detrás da imagem de Júlia Mitchell, no seu lado esquerdo, estava uma pequena mesa, que ostentava uma fotografia, dela própria, no alpendre da casa. Ampliou a imagem e conseguiu ler as palavras por baixo da fotografia: 152 Ligthouse Rd. Perestrelo ficou num tal estado de excitação que teve dificuldade em adormecer. Tinha descoberto a morada de Júlia Mitchell!

No dia seguinte dirigiu-se diretamente para a morada descoberta. Para sua surpresa esta ficava mais afastada da praia do que tinha imaginado, embora o areal fosse visível por entre as árvores. A velhota recebeu-o como se sempre tivesse estado à sua espera. Júlia era uma velha amiga da jornalista e conhecia muito bem Anne.

«Anne Kodiat, é uma excelente moça. A Karen também era, mas a profissão de jornalista tronava-a ousada e até mesmo bisbilhoteira. Isso nunca é muito saudável.»

«Acha que a Anne poderá ser a responsável pela morte de Karen?»

«Parece-me muito pouco provável, para não dizer impossível. Elas eram grandes amigas. Anne estava a ajudar Karen a investigar qualquer coisa relacionada com a sua família.»

«Qual era o papel do Chef?»

«Ela também as estava a ajudar. Os três davam-se bastante bem, mas havia entre eles um segredo não partilhado pelos três que não ajudava no relacionamento.»

«Que segredo era esse?»

«Nunca cheguei a descobrir. Pressinto que estava relacionado aquilo que o Chef queria de cada uma delas.»

«O que era isso?»

«Não sei, mas o importante para ele foi sempre a investigação sobre as moças.»

«Quais moças?»

«As moças nas quais se incluíam aquela em cujo assassinato o Chef acabou por se ver envolvido.» Disse a anciã.

«A Karen também estava a investigar essas mortes?»

«Sim as moças eram amigas de Anne e Karen também as conhecia.»

«É possível que a investigação de Karen estivesse relacionada com essas mortes?»

«Ela estava a investigar as mortes, sobre isso não tenho dúvidas, mas havia algo mais na investigação. Como lhe disse envolvia a família de Anne.»

Ficaram ambos calados durante alguns instantes. A velha senhora aproveitou para lhe oferecer um chá frio e levantou-se para o servir. Beberam em silêncio, cada um cogitando com os seus pensamentos.

«O senhor Perestrelo já descobriu quem matou Karen?»

«Não. Descobri muitos factos perturbadores mas a resposta a essa questão ainda não.»

«Agora me lembro. A Karen deixou aqui uma fotografia das três amigas…»

Perestrelo ia dizer algo mas aguardou pelo regresso da anciã. Ela estendeu-lhe uma fotografia onde estava três jovens em fato de banho.

«Estas duas foram as jovens assassinadas. Quem é a terceira?»

Júlia Mitchell fez uma expressão de espanto e olhou-o diretamente durante alguns instantes.

«Então o senhor não sabe que eram três jovens. Duas foram assassinadas e a terceira desapareceu. Esse era o mistério que intrigava a jornalista.»

Ele estava boquiaberto. Nunca tinha ouvido falar na terceira jovem. Falaram durante mais alguns minutos sobre assuntos triviais até que chegou a hora de partir. Ao despedir-se, Perestrelo, deixou o seu cartão, para o caso da anciã se recordar de algo relevante. A conversa tinha sido útil. Karen estava a investigar três factos, que podiam estar relacionados entre si: as mortes de Byron Bay, o desaparecimento da terceira jovem e algo sobre a família Kodiat. Era urgente investigar a família, mas também a relação entre esta e as três moças.

Perestrelo tinha o regresso marcado para daí a dois dias pelo que aproveitou o resto do tempo para tentar obter mais informações sobre os homicídios de Byron Bay o que se revelou totalmente infrutífero. Entretanto, pediu ajuda a Mónica para investigar a família Kodiat e começou a esgravatar, utilizando a internet e todos os contactos que tinha espalhados pelo mundo.

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