O EQUÍVOCO

O EQUÍVOCO

Isabel interpretou de forma errada aquele movimento e disparou. O tiro ecoou, no espaço, de forma lobregue! Madalena não sentiu qualquer dor. Apenas um ligeiro ardume e depois o húmido do sague escorrer-lhe pelo corpo. Sentiu que as forças lhe faltavam e ajoelhou-se. O pensamento apagou-se e ficou tudo negro. O corpo, inerte, estendido no chão, era a única testemunha do crime.

Na verdade, tudo tinha começado fazia algum tempo. Madalena não tinha tido uma vida fácil. Entregou-se cedo demais a um homem e este tornou-se no homem da vida dela. Tinha quinze anos e aos vinte e cinco era mãe de uma filha: a Filipa. Hugo era um homem do mundo. A sua profissão levava-o a viajar com frequência, mas mesmo quando estava em casa a mulher e a filha estavam sempre em segundo plano. Adorava-as a ambas, mas manifestava-o de forma muito peculiar. Atuava apenas em caso de urgência, de outra forma era como se não estivesse lá a não ser para comer e dormir. O amor tinha-se gasto durante o longo período de namoro e o casamento estava condenado à partida. Olhava a esposa como uma empregada e alguém que satisfazia as suas necessidades carnais. E como eles se satisfaziam! Madalena tinha verdadeiro prazer no sexo e como adorava o marido entregava-se às suas vontades e caprichos, sem reservas, nem pudor. Primeiro ele limitou-se a usá-la, depois evoluiu para um estádio diferente e passou a humilhá-la.

Cega pelo amor e pela paixão ela não via o risco que aquele tipo de relação comportava. Quando começou a abrir os olhos percebeu que não podia continuar casada com aquele homem. Apesar disso, deu-lhe várias oportunidades, ao mesmo tempo que tentava mudá-lo. Viveram algum tempo afastados, voltaram a viver juntos, tiveram aconselhamento matrimonial, enfim… tentaram tudo para fazer a relação funcionar. Foi uma perca de tempo! O divórcio tornou-se a única saída possível. Continuava a amar o Hugo, mas simplesmente não suportava viver com ele. Terminar com o casamento foi a decisão mais difícil, dos seus vinte e nove anos de existência. Ficou tão presa a ele que depois de divorciada tentou, por várias vezes, a reconciliação e, ocasionalmente, entregou-se a ele com a mesma paixão de sempre. Ele estava nos seus poros e o seu cheiro impregnava-lhes as narinas e o coração.

Finalmente, conseguiu cortar o elo que a ligava a Hugo e tornou-se uma mulher, definitivamente, livre. A sua preocupação passou a ser exclusivamente com Filipa, a sua filha. Era uma mulher jovem e muito interessante. Apesar de ter apenas um metro e sessenta e cinco de altura, tinha um corpo bem feito, mas o seu principal encanto estava na sua personalidade. Era uma mulher que inspirava confiança e facilmente os homens se apaixonavam por ela. Tinha um cabelo escuro que lhe cobria os ombros, como um manto de seda e um rosto longo, com maças salientes, onde pontuavam uns olhos castanhos escuros e um sorriso capaz de derreter um icebergue. O rosto, emoldurado pelos cabelos, formava um quadro alegre e sedutor, que retinha o olhar dos homens.  Tinha uma beleza exótica! No entanto, a sua arma era a sensualidade do conjunto: rosto e corpo.

Depois de alguns anos de vida solitária, apesar das aventuras pontuais, começou a sentir falta de um companheiro mais permanente. Tinha mudado bastante e era uma mulher mais madura, consciente de que tinha um feitio especial, aquilo que muitos homens chamam de mau feitio. Ainda tinha muito que melhorar, mas, apesar de consciente disso, não estava disposta a aceitar desaforos. Era muito dona do seu nariz! Madalena e Isabel viviam no mesmo complexo habitacional e já se conheciam fazia algum tempo. Tinham defendido uma posição comum, numa reunião de condomínio e isso tinha-as aproximado. Isabel era dez anos mais nova e casada com um homem quatro anos mais velho. Não tardou muito estavam a frequentar a casa uma da outra e Filipe, o marido de Isabel, começou a falar em arranjar-lhe um companheiro. Madalena brincava com o assunto, mas resistiu sempre à ideia. Isabel ficava sempre incomodada com esse tipo de conversa e era frontalmente contra o papel de casamenteiro do marido. Adorava a Madalena e estava sempre pronta para a receber nos seus braços, consolando-a e cobrindo-a de beijos e carícias, sempre que esta precisava. Era como uma mãe a acarinhar uma filha. Madalena sentia-se confortável nos braços de Isabel, embora sentisse que por vezes esta exagerava.

O primeiro encontro foi marcado às escondidas. Filipe levou Madalena para conhecer um primo que também era divorciado. Filipe acompanhou-a nos primeiros dois encontros, mas depois de uns quantos, a sós, a coisa não funcionou. Isto repetiu-se umas quantas vezes, com outros homens, até que Madalena conheceu o chefe do Filipe, que era viúvo e o amor encheu-lhe outra vez o coração. Fazia seis meses que Filipe os tinha apresentado e era como se sempre se tivessem conhecido. Filipe saía ocasionalmente com eles e como eram vizinhos saíam e regressavam juntos, levando apenas um carro. Isso era terreno fértil para as alcoviteiras!

Isabel estava fora de si! Carregou violentamente no botão da campainha e aguardou. A voz de Madalena soou apressada do outro lado do intercomunicador. Quando a visitante se identificou ela abriu a porta. Estava ocupada na cozinha e deixou a porta de casa entreaberta para a vizinha e amiga entrar. Isabel entrou de rompante na cozinha. Tinha a expressão do rosto alterados e o corpo tenso. Parecia um tigre prestes a atacar a sua presa. Sacou da pistola e apontou-a à amiga.

«Diz-me quantas vezes dormiste com o Filipe.»

O olhar vidado era o de uma louca. A mão que segurava a arma tremia-lha, mas estava demasiado perto para falhar. A aproximação da filha de Madalena despoletou uma reação em cadeia. A mãe tentou evitar que a filha entrasse na cozinha e deu um passo em direção a ela. A arma disparou-se, sem que Isabel se apercebesse. A amiga revirou os olhos e caiu no chão. Isabel levou as mãos a cabeça e começou a gritar. Nesse momento Filipe e João, o chefe dele, estavam a chegar a casa da Madalena e ouviram o som de um tiro. Olharam-se com espanto e interrogação, mas prosseguiram o caminho. Estranharam o facto da porta estar aberta, ao mesmo tempo que percebiam que os gritos vinham dali. O corpo inerte de Madalena e os gritos da amiga e da filha deixavam adivinhar o pior.

«Matei-a! Eu não queria, mas matei-a. Eu só queria assustá-la!»

«Porque fizeste uma coisa dessas?» Perguntou o marido perplexo.

«Tens razão era a ti que eu devia ter morto seu traidor!»

Enquanto dizia estas palavras ela agredia o marido que tentava a todo o custo segurá-la. João estava trastornado. Quando se ajoelhou junto do corpo de Madalena chorava convulsivamente. Doía-lhe demais sabê-la morta. Logo agora que tinha encontrado novamente o amor… Quando se debruçou sobre o corpo de Madalena e o olhou com atenção, apercebeu-se da real situação desta.

«Ela está viva. O tiro foi de raspão.» Gritou para os restantes.

Entretanto, Madalena acordava do desmaio e toda a gente respirou de alívio. Ao ver João tratar a Madalena com tanto carinho, cuidando da ferida dela e esta retribuir-lhe com beijos, ela dirigiu um olhar interrogador ao marido. Ele explicou-lhe o que tinha acontecido e ela percebeu que se tinha deixado enganar pelas alcoviteiras. Afinal não tinha passado de um equívoco! Entre o marido e a amiga não existia qualquer relação, para além de uma amizade. Apesar disso, não conseguia aceitar que Madalena tivesse encontrado um homem. Ela tinha sonhado com um fim distinto. Ter a amiga nos braços tinha despertado nela sentimentos que nunca tinha esperado sentir e, secretamente, tinha sonhado que entre ela e a Madalena pudesse existir outro tipo de relação. A verdade é que a amava, não como amiga, mas como mulher. Engoliu em seco e decidiu não deixar que adivinhassem aquilo que lhe ia na alma. Madalena estava feliz e não foi difícil perdoar à amiga. Estava bem com a vida e só queria que a amiga também estivesse.

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